Milénicos. A última geração do século XX

(Reportagem de Fernanda Câncio, in Diário de Notícias, 18/02/2017)

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Podiam ser apocalípticos, mas deixaram isso para a geração anterior, a individualista, sombria e hedonista X. Cresceram com a internet, levaram com a crise financeira de 2008 em cheio nas expectativas e logo a seguir com a do euro. Tanto os dizem hipernarcisistas como mais gregários, conformados ou empreendedores, apolíticos ou ativistas, alheados ou otimistas, os mais “bem preparados de sempre” ou os mais pretensiosos. Quem são afinal os milénicos?

“A minha geração”. É o nome de uma célebre canção que começa assim: “As pessoas tentam fazer-nos sentir mal / Falando da minha geração / Só porque andamos por aí / Falando da minha geração / Espero morrer antes de ficar velho/ Falando da minha geração.”

A canção tem 46 anos. O homem que a escreveu, Pete Townshend, da banda britânica The Who, tem mais de 70; não morreu antes de ficar velho. É talvez uma forma estranha de começar um texto sobre uma geração com idade para ser neta dele. Ou não: talvez seja preciso lembrar que todas as pessoas a dada altura foram a “nova geração”. Todas sentiram que aquilo que sentiam era iniciático, que vinham para mudar alguma coisa. Ou tudo. E que quem já cá estava não percebia, não podia perceber. Precisamos disso – de sentir que somos parte de uma mudança. Que somos a novidade, a estrear.

“Sentimos que tudo nos é devido”

Como Inês Herédia, de 27 anos, que fez um vídeo a falar disso – da sua geração. “Tinha ido para Londres estudar teatro entre 2012 e 2014 e quando voltei, depois de uma breve experiência com La Féria e de, por ser um pouco mais gordinha, apesar de vir de um dos melhores cursos de atores do mundo não ter sorte nenhuma nas audições, decidi procurar trabalho na área da consultoria, na qual se usa muito a criatividade. E pensei fazer um vídeo de apresentação para responder à pergunta que nos fazem nas entrevistas de emprego: porquê tu, porque te havemos de contratar a ti?”

Contra um fundo cinza, uma Inês deolhos no alvo e num inglês de impecável sotaque british traça um breve retrato das pessoas da sua idade que frisa a importância da tecnologia digital: “Sabem porque dizem que somos a geração mais criativa de sempre? Porque os nossos cérebros veem o que a internet vê. Não veem limites. Estamos neste mundo de abundância e com acesso a tudo, sedentos de conhecimento. Aceitamos as diferenças e somos especialistas em marketing. E fazemos tudo isto muito mais depressa que qualquer geração antes de nós. Temos uma perceção holística do mundo, somos esponjas a beber de tudo . (…) Isto é a minha geração. Não nos contentamos com o fácil. Estamos cá para fazer a diferença.”

Não por acaso, houve quem quisesse crismá-la de igeração – não pegou, porém. Começaram por denominá-la de Y (a letra do alfabeto que se segue ao X, de Geração X, d”après o célebre livro-retrato de Douglas Coupland) mas foi “millennials”, de milénio, que pegou. A respetiva definição temporal, variando bastante (ver texto nestas páginas), inclui seguramente os nascidos entre 1980 e 2000, como é o caso de Inês, e a ligação com a tecnologia digital e este mundo sem fronteiras, fluído e simultaneamente infinito e mais finito (porque mais abarcável, mais alcançável) que a internet criou é sem dúvida a característica mais distintiva. Com tudo o que isso traz de bem mas também de menos bom.

“Porque há o reverso”, diz Inês, que mandou tatuar nas costas “the book of disquiet” (O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa/Bernardo Soares). “A minha geração tem imensos defeitos. Não se consegue concentrar, hoje quer uma coisa amanhã outra. Acho que vem precisamente de termos acesso a tantas opções. E com o facto de termos crescido com a ideia de que vais conseguir fazer tudo aquilo que quiseres. Há um sentimento de entitlement: de que temos direito, merecemos, tudo nos é devido. Muitos amigos meus têm as mesmas oportunidades que eu e esperam que lhes caiam as coisas no colo. Ou trabalham duas horas e ficam cansados.”

Mais uma vez, Inês menciona algo que surge muito frequentemente nas caracterizações desta geração – vamos chamar-lhes milénicos – como um dos seus traços mais negativos: a ideia de merecimento automático, a expectativa de sucesso instantâneo, o não lidar bem com a frustração e com tarefas maçadoras, horários e obrigações. Assevera-se por exemplo a dificuldade de manter funcionários desta geração – estão sempre à procura de um sítio melhor, da coisa que vai mesmo interessar-lhes, fazê-los felizes. Aspetos que podem ser associados a mimalhos – há muito a ideia de que a “culpa” é dos pais, que os apaparicaram demasiado e lhes deram demasiada auto-confiança.

“Vivemos vidas editadas”

Filipa Neto, 26 anos, vê outras explicações. “Acho que precisamos de mais propósito do que a geração dos nossos pais. Pensamos numa missão.” Esse aspeto está, crê, relacionado com o facto de se ter consciência da “grande volatilidade da vida”: “Há pais que estiveram na mesma empresa 20 anos e foram despedidos. Não há nada garantido. As coisas que eram tidas como verdades económicas já não são. E as pessoas pensam: “Já que o meu salário não é muito bom, e se calhar nunca vai ser, tem de haver felicidade no trabalho: fazer uma coisa de que goste ou que me diga algo.”

Por exemplo inventando de raiz: Filipa fundou, com a amiga Lara Vidreiro, da mesma idade, a empresa Chic by Choice, que aluga vestuário “para ocasiões especiais”. A ideia surgiu às duas estudantes de Gestão a partir da sua própria experiência. “Havia uma festa e queríamos uma roupa nova mas não tínhamos coragem de pedir dinheiro aos nossos pais. E ao mesmo tempo estávamos a aprender a teoria da utilidade marginal: que à primeira vez que usávamos o vestido era fantástico mas à terceira já não tinha tanto impacto. Percebemos que o ideal era poder usar e devolver.” Perceberam que esse tipo de negócio já existia no Reino Unido e resolveram lançar-se. No ano passado, certifica, cresceram 100 por cento, sobretudo a partir do mercado britânico. “O cliente escolhe entre milhares de peças, indica data do evento e tamanho, dois dias antes recebe o que escolheu em dois tamanhos – o indicado e o acima – e no dia seguinte um estafeta vai buscá-las.” Chama-se “fast fashion” e tem a ver com a ideia base da moda, a da novidade, aliada a algo que se considera uma característica (mais uma) dos milénicos: estarem mais interessados na experiência que na posse. Há até estudos que garantem que se trata de uma geração “menos consumista”.

Filipa acha que pode não ser bem assim. “As necessidades mudaram. Somos uma geração Instagram e Facebook, vemos vidas editadas, somos completamente influenciados por isso. A aspiração é: “Se o meu amigo vai a estes sítios todos eu também quero ir.” É mais importante o que outro vê de mim na rede social que o que efetivamente faço. Há uma noção muito diferente do que é o mínimo de rendimento necessário para ser autónomo, por exemplo. Vejo os meus amigos a fazer contas a quantas vezes podem sair, jantar fora, beber copos, viajar, se saírem de casa dos pais.”

Fronteiras abolidas, o mundo ao dispor

Consumistas sim, mas mais de experiências, menos de “coisas”. A não ser, claro, que sejam gadgets: o último smartphone, o último tablet – é o que acha Carlos Silva, 37 anos. “As pessoas podem ter deixado de ter carro ou de pensar em comprar casa mas querem ter o último iphone.” Situado sobre a linha temporal que separa os milénicos e a Geração X, Carlos hesita na generalização: “Tenho sempre alergia a falar de gerações, porque são compostas por indivíduos. Mas existem tendências que têm a ver com o contexto em que as pessoas crescem.” E Carlos cresceu nos computadores. Aos seis/sete anos o pai ofereceu-lhe um Spectrum. Mais tarde, perguntou-lhe se queria um leitor de CD ou um modem como presente. “Comecei a funcionar com a internet muito cedo. E acho que isso é mesmo fundamental para caracterizar esta geração. A ideia de uma sociedade não necessariamente física, amigos no mundo inteiro, acesso à informação muito imediato. Isso muda a forma como as pessoas pensam – acabou o “tirei este curso e vou fazer disto a minha vida”.”

Licenciado em engenharia informática, Carlos estava a fazer um MBA [mestrado em gestão] quando o banco americano Lehman Brothers ruiu, em setembro de 2008, desencadeando a pior crise financeira mundial desde 1929. Mas viu na catástrofe uma oportunidade. “As pessoas perceberam que as ações em que investiam e que achavam muito seguras não eram. Desenvolveu-se desconfiança em relação às instituições tradicionais.” Começou a trabalhar na ideia de uma plataforma de investimento através da net, tendo como inspiração projetos de crowdfunding para o terceiro mundo. “Somos o que se chama uma plataforma de investimento colaborativo, a primeira a nível mundial com autorização para operar.” Funciona assim: “Um empreendedor apresenta um projeto e diz de quanto precisa e qualquer pessoa pode investir. Se no final não atingir o valor o dinheiro é devolvido aos investidores.” Chama-se Seedrs e arrancou em 2012, a partir do Reino Unido. Desde então já investiu mais de 200 milhões em mais de 400 “campanhas” e abriu escritórios em Berlim e Amesterdão. O retorno financeiro, diz o presidente e co-fundador, é “interessante” mas atribui o sucesso da iniciativa também ao facto de os investidores gostarem de “alocar dinheiro a projetos que possam ter impacto .” Uma espécie de fábula: se as pessoas ganharam aversão ao que é grande e opaco e impessoal, regressar ao básico, ao essencial da ideia de investimento – e de comunidade. Um cruzamento entre ativismo e especulação, ou como derrubar fronteiras, baralhar e dar de novo.

Autoconfiança demais ou resiliência?

Não, caramba, não é tudo mau. Os milénicos também são descritos como menos preconceituosos, com uma maior preocupação com a igualdade, nomeadamente de género, muito alerta em relação aos problemas ambientais e, sobretudo, empenhados em que o que fazem, profissionalmente e não só, se relacione com causas que apoiam, com um propósito “maior”. João Wengorovius, ex CEO da BBDO Portugal e agora na consultora Wengorovius & Bidarra, vê uma geração que “apanhou com muitas dificuldades mas é muito empoderada. Com a noção do eu como marca, de que estão muito expostos, muito conscientes dos seus talentos e muito empenhados em usá-los. E muito educados, claro: não basta ter o curso superior, é preciso ter um mestrado e talvez um doutoramento.” Importante também, crê, é a ideia paradoxal de que “a experiência só se vive se for partilhada.”

Jack Mackenzie, presidente de uma companhia de marketing que analisa tendências geracionais citado pelo New York Times, completa o perfil: “Desconfiam da autoridade, são genericamente tolerantes, próximos dos pais, têm vontade de estabelecer compromissos, encontrar terreno comum. E um nível de otimismo que a maioria das pessoas acha quase idiota.”

Otimismo. Como pode a geração que levou com o 11 de Setembro nas ventas mais a crise financeira mundial de 2008 (e, na Europa, com a crise do euro, materializada em Portugal na entrada da troika) ser otimista? Isto para não falar dos últimos desenvolvimentos – hecatombe das revoluções no Médio Oriente, refugiados, ascensão da extrema direita, vitória de Trump. Pode ser mesmo por isso, adverte a escritora Judith Warner, num artigo do NYT com sete anos. Intitulado “The why-worry generation” (a geração do porquê ralarmo-nos), o texto menciona um consenso arrasador de “avaliação psicológica”: “São uma geração de chalados, profundamente narcisistas e destituídos de autocontrolo pelos seus pais hiper-ansiosos e demasiado protetores.” Cita dados sobre a percentagem de empregos recusados pelos licenciados americanos numa altura de desemprego muito elevado – “Apesar de não estarem em condições de impor condições, muitos afirmam não estarem para trabalhar mais de 40 horas por semana. (…) 41% dos licenciados que procuram trabalho recusaram propostas, a mesma percentagem que o fez em 2007, antes da crise”. E dá a palavra a Jean Twenge, a professora de psicologia que escreveu Generation Me (livro de 2007, revisto em 2012, sobre, precisamente, os milénicos): “Não é confiança, é super confiança. E quando chega a este nível, é problemática.”

Uma espécie de incapacidade coletiva de lidar com a realidade? Uma patologia geracional? Warner reflete: “Entrevistei nove estudantes universitários que me foram indicados por professores. E fiquei com o retrato de jovens adultos capazes de não sucumbir à dúvida sobre si próprios e ao desencorajamento. Muitos estavam desempregados, outros estavam insatisfeitos com o seu trabalho ou com as escolhas escolares que tinham feito. Mas não se culpavam. Não punham em causa as suas opções e competências. (…) É difícil para alguém com 40 e tal anos compreender isto, esta ideia de merecimento, esta falta de humildade. Mas não estão necessariamente mal adaptados aos tempos. (…) Pode ser que esta resiliência – esta irritante e no entanto admirável capacidade de manter um espírito positivo em tempos deprimentes e assustadores – não tenha nada a ver com os pais deles e a educação que lhes deram. Talvez seja o resultado, como alguns observadores desta geração têm sugerido, de crescer numa era de ansiedade (…). Talvez a insegurança crónica tenha simplesmente aumentado a capacidade desta geração de resistir ao stress, deixando-a particularmente bem preparada para lidar com a incerteza. Talvez ter um ego super musculado sirva mesmo para enfrentar a adversidade. Exatamente como os gurus da autoestima sempre disseram.”

Geração nondescript?

Ego em esteróides ou ganas de fazer o que dá gozo e a coragem de não transigir? Perguntemos a Joana Barrios. Aos 31 anos, grávida do segundo filho e sem aquilo a que se pode chamar “um emprego”, é tida como paradigma da geração milénica: estão sempre a convidá-la para, nessa capacidade, participar em palestras e workshops. “Chamam-me porque sou “uma mulher de sucesso com profissão indefinida e mãe, porque pertenço a uma companhia de teatro disruptiva [os Praga] e tenho um blogue [de moda, o Trashédia]”.” Ri. “A primeira coisa que faço quando lá chego é insultar quem me chama por esses motivos ridículos. E também acho sempre estranho ser a única rapariga. Os outros são sempre rapazes empreendedores, geralmente de fatinho.” Joana nasceu e viveu a adolescência no Alentejo, onde os pais estão radicados, entrou em Direito mas saiu para o Conservatório, fez um mestrado em crítica de cinema e música pop em Barcelona enquanto trabalhava em lojas vintage, foi a Paris trabalhar com um encenador num espetáculo de vaudeville, no qual se ocupou do guarda-roupa, voltou para Portugal porque “queria trabalhar em português”, entregou o currículo aos Praga e de repente “aconteceu a crise e deixou de haver dinheiro para a cultura.” Resultado? Foi trabalhar como porteira na discoteca Lux-Frágil. “Estive lá de 2010 a 2013. Foi difícil porque era quinta, sexta e sábado da meia noite às sete da manhã. Mas pelo menos assegurei que não morria de fome.” Suspira. “Uma das coisas mais cruéis como porteira foi descobrir que de mês a mês havia mais alguém que vinha fazer a festa de despedida porque ia para Paris ou Berlim. Os arquitectos, os designers, as maquilhadoras, toda a gente foi embora.”

Ela ficou, e mais que isso. Engravidou e decidiu ter a criança, uma menina hoje com dois anos: “Não fui capaz de abortar, apesar de não ser religiosa. De repente não tinha trabalho, não tinha nada, e pensei: “A parte difícil é estar feito e já está feito.” Sou uma pessoa de muita coragem, segundo dizem. Percebo que teoricamente seja muito assustador ter filhos. Mas consigo, entre tudo o que faço – o blogue também é uma fonte de rendimento – ter, em conjunto com o meu marido, que é fotógrafo, que chegue para pagar as contas, a escola, a renda.”

Joana não sabe se é exemplo, mas tem uma ideia ou duas sobre o que define a sua geração: “Em contraste com as anteriores temos pais com capacidade de perceber que houve mudanças muito drásticas na forma como funciona o trabalho – e encorajam-te a procurar aquilo de que gostas.” Um encorajamento que passa muito por apoio financeiro e por não cortar o cordão umbilical. “Regra geral as pessoas da minha idade estão a viver em casa dos pais ou precisam de ajuda porque o que ganham não lhes chega.” E outra coisa, na qual de algum modo os milénicos contrastam também com gerações anteriores: “Do ponto de vista do look uma super característica é quererem integrar-se. Passar despercebidos. Mas podes ter um exterior super normalizante e ao mesmo tempo teres um interior totalmente disruptivo.”

Quando se olha à volta num bar ou num concerto, no meio de uma mole de milénicos, o que é que se vê? A expressão certa existe em inglês: nondescript. Querendo dizer que não há nada de distintivo ou facilmente descritível, aquilo que se reconhece como “um estilo próprio”. A não ser que o estilo seja isso , o de não ser facilmente rotulado, identificado, fichado, fixado. Vera Marmelo, 32 anos, engenheira hidráulica e fotógrafa de concertos, vai por aí. “Acho hoje em dia muito mais piada a causar essa confusão. Não poderem identificar-me logo pela forma como estou vestida. Não preciso de ser classificada, encontro algum gozo em não ser encaixada.” Enquanto a liberdade em gerações anteriores passou por afirmar pela roupa, pose, cabelo, a pertença a um grupo o mais “diferente” possível da norma ou em exprimir um individualismo radical, ofensivo até, estabelecendo uma demarcação clara entre o nós e o eles, a liberdade agora pode ser isto, ser parte da multidão, não chamar a atenção – como quem guarda um segredo. Um certo ar baldas, de quem agarra a primeira coisa que aparece e que lhe é confortável.

A mesma atitude, diz Vera, em relação à música: “Quando éramos mais novos éramos mais dedicados a uma cena específica. Agora, as pessoas que me rodeiam ouvem coisas muito diferentes.” Muito entrosada no meio musical português, Vera reconhece, nos últimos dez anos, um boom de projetos interessantes. “Comecei a fotografar mais a sério em 2006. Foi o ano em que conheci o B Fachada, que acho que tem feito um trabalho incrível na revelação de temas que têm a ver connosco como geração. E houve a viragem do cantar em inglês para o cantar em português e isso ser fixe.” Cita também os Linda Martini e a Capicua: “Sinto que fala por mim e revejo-me nas suas palavras.” Tem uma explicação para esta explosão: “Em 2005 toda a gente que faz música consegue libertar-se de uma editora porque tem computadores em que consegue gravar e plataformas, como o Myspace [que, criada em 2003, em 2008 ultrapassou os 100 milhões de utilizadores], para partilhar o que grava. Tornou-se muito mais fácil encontrar pessoas que são os teus pares, de quem gostas.”

“A política vai ter de regressar”

Luís Nunes, 30 anos, músico, tempera o entusiasmo: “Somos a última geração a lembrar-se de um mundo sem internet e sem telemóveis. E obviamente que a internet é fantástica mas mudou completamente a noção do tempo. Imprime ao mundo um ritmo alucinante. Toda a gente está sempre a fazer montes de coisas ao mesmo tempo, e também te é exigido que o faças. É uma coisa que muda o chip – para a minha avó,por exemplo, é uma coisa mística – e que criou várias assimetrias. Destruiu a indústria discográfica, a indústria do jornalismo e está a destruir a dos táxis.”

Mais conhecido como Benjamim (o nome da sua banda desde 2014, quando começou a cantar em português -antes cantava em inglês e era Walter Benjamin), Luís, que em várias entrevistas afirmou querer “fazer uma banda sonora para a minha geração”, beneficiou muito dessa mudança de planeta. “Um tipo como eu pode competir no mesmo trabalho com um inglês. É muito bom para um país periférico. Mas tem outros lados: além de escrever canções e de tocar instrumentos, tens de saber gravar a tua música. E fazer o teu próprio marketing, o que não é nada evidente.”

O acesso a tudo, sem guias nem intermediários, é um bem inestimável mas pode também significar uma espécie de equalização sem espessura nem noção histórica: “A grande coisa foi quando surgiu o Napster [serviço de streaming de música lançado em 1999]; com a ajuda de um amigo, sacava os discos todos. Mas isso permite coisas como o Kanye West [rapper americano] ter feito em 2015 uma música com o Paul McCartney [dos Beatles] e haver comentários a dizer que não sabiam quem era o McCartney mas que ele tinha futuro.” Ri. “Antigamente as pessoas podiam ser ignorantes, tinham desculpa. Agora não sabem porque não querem. Teres a biblioteca não quer dizer que leias os livros. O acesso à informação não impede a ignorância.” Pelo contrário, acha; há um efeito paradoxal. “A minha geração tem muitas distrações, muitas comodidades. É mole. Já nascemos no planeta democracia e é assustador ver pessoas que nasceram nele a pôr a hipótese de voltar para um sistema não democrático. E a quantidade de malta da minha idade que acha normal haver gente a morrer a dar à costa no Mediterrâneo, sem sequer refletir sobre os motivos? Tinham obrigação de ter estudado melhor história. Toda a gente que nasceu depois da segunda guerra mundial tem essa obrigação.”

Ah, a história. Houve até quem tivesse anunciado o seu fim. “Surgimos quando parecia que se tinham resolvido todos os problemas”, conclui Luís. “Daí sermos uma geração tão desinteressada em termos políticos. Havia a ideia de que a política tinha morrido. Mas vai ter de regressar.” E à bruta, parece.

O ADMIRÁVEL MUNDO SEM EMPREGO

(Por Daniel Oliveira, in Expresso,  ilustração Gonçalo Viana)

O medo de um mundo sem trabalho é tão antigo como a tecnologia. Só que estamos perante uma alteração sem paralelo na História. Pela rapidez e pela capacidade de as máquinas garantirem o seu próprio desenvolvimento, dispensando-nos de quase tudo.

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O entusiasmo correu as plateias das sessões do Web Summit de cada vez que alguém, no palco, prometeu que determinada função, criativa ou não, dispensaria a intervenção humana. A excitação dos humanos presentes faria qualquer pessoa lúcida perguntar: “Então e nós, o que vamos fazer?” Não consta que alguém se tivesse lembrado de fazer tal pergunta. E, no entanto, as funções de que se estava a falar não eram, como no passado, repetitivas e monótonas, das quais queiramos realmente ser libertos. São as coisas que gostamos de fazer, pelas quais nos podem pagar e das quais nos querem dispensar.

A convicção geral é que, tal como aconteceu no passado, depois de algumas atividades humanas passarem a ser cumpridas por máquinas encontraremos outros trabalhos. Como já não estamos a ser dispensados de funções básicas, mas de tarefas elaboradas e até criativas, isto implica que não sobrará nada para quem não saiba fazer coisas extraordinárias. E mesmo esses acabarão por ser substituídos. É por isso que a acusação de ludismo para calar quem olhe com desconfiança para este movimento civilizacional é inadequada. A dúvida sistemática perante os avanços tecnológicos é um dever de todos os seres inteligentes. Porque a História não é, ao contrário do que pensam os incautos, uma caminhada triunfante para a felicidade.

Apesar de já ser possível ter conversas inesperadas com computadores, ouvir música e ler textos totalmente criados por inteligência artificial, ainda estamos noutra fase: a generalização de robotização de funções humanas que, não sendo repetitivas, ainda não são as mais criativas. Em Pittsburgh, uma cidade simpática, cheia de colinas e serpenteada por um rio, a Uber já tem carros autónomos em funcionamento, em fase de teste. A Google estava a testar os seus em Mountain View (Califórnia), Austin (Texas), Kirkland (Washington) e Phoenix (Arizona), mas recentemente parece ter desistido de desenvolver um carro próprio e deverá dar prioridade a parcerias com empresas como a Fiat Chrysler. Ainda assim, tem planos ambiciosos para entrar no mercado dos táxis autoguiados, competindo com a Uber e a nuTonomy. Os primeiros táxis autónomos da nuTonomy já começaram a ser usados em Singapura, em agosto. Empresas como a General Motors e todos os gigantes da indústria automóvel apostam no crescimento de dois novos segmentos de mercado: os carros elétricos e os carros autónomos.

A tecnologia não é boa nem má. É uma forma de poder e depende sempre de quem o tem

Ainda não chegámos à fase tão desejada: continua a haver uma pessoa atrás do volante, para qualquer eventualidade. Mas na maior parte do tempo o carro funciona sozinho e o condutor é redundante. Diz-se que entre 2018 e 2022 estes carros terão total autonomia e que em 2026 estarão capazes de entrar no mercado sem restrições. Um estudo da empresa IHS Automotive, citado num artigo recente da “New York Review of Books” (“Our Driverless Future”), previa que em 2050 quase todos os veículos fossem autoguiados (a Universidade de Michigan fala de 2030). Na China, a Baidu diz que terá os seus primeiros carros autónomos prontos para venda daqui a dois anos. Um anúncio considerado arrojado. No artigo recorda-se que para um sistema deste género poder ser realmente usado precisa de três garantias: rapidez de reação em tempo real, 99,999% de fiabilidade e um nível de perceção melhor do que o dos humanos. Nenhuma delas está assegurada e muitos acham que a fase final do desenvolvimento tecnológico será a mais difícil. E há o que está para lá da tecnologia. Mesmo sem total autonomia, o condutor eventual perde a concentração e dificilmente consegue reagir com a atenção e perícia normal quando a máquina falha. Uma insegurança que criará muitas resistências à utilização destes veículos. E há questões jurídicas — o sistema de seguros, por exemplo — e até éticas — as escolhas humanas, até na condução, carregam dilemas morais. Mas a verdade é que através do GPS, radar, LIDAR, sonar, IMU, mapas e comunicação entre carros autónomos, a inteligência artificial destes veículos vai permitindo, à medida que vão sendo testados, cada vez mais capacidades.

O caminho parecer ser inexorável: nos próximos 30 anos a mobilidade sofrerá uma revolução comparável às que fizeram nascer os caminhos de ferro, popularizaram o automóvel ou criaram as companhias aéreas comerciais. O carro autoguiado pode levar a uma revolução no transporte urbano. É provável que cada vez mais pessoas comecem a dispensar o carro próprio e o sistema de carsharing, que continua a ter um peso marginal (prevê-se que em 2020 seja usado por 1% dos norte-americanos), vá ganhando terreno. Mas deixará o carro de ser um elemento de distinção social? Não é absurdo que, na geração do Uber, isto possa acontecer. Sobretudo se políticas fiscais e de planeamento urbano tornarem cada vez mais cara a propriedade e a utilização de carro próprio. Mas, para refrear otimismos excessivos, a cidade de Singapura fez tudo isto e o resultado foi praticamente nulo.

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Os efeitos da introdução maciça de carros elétricos autoguiados e partilhados seriam extraordinários para o ambiente e para a qualidade de vida urbana. Mas neste tipo de assuntos o pessimismo é sempre um bom conselheiro. Nunca devemos esquecer o que os interesses económicos relacionados com um determinado desenvolvimento tecnológico farão para transformar o que parece garantir a nossa liberdade em novas formas de dependência. Não era a internet um espaço de liberdade individual, onde finalmente nenhum Estado nos calaria? E não andamos nós a debater o poder censor do algoritmo? Não era a internet um novo e inviolável espaço de privacidade? E não passou a ser uma forma de entrar em todos os recantos da nossa vida e controlar cada um dos nossos movimentos, como nunca o mais totalitário dos Estados alguma vez conseguiu? Não eram as redes sociais um novo e imparável instrumento de participação cívica? E não se transformou num dos mais eficazes instrumentos contra a democracia? A tecnologia não é boa nem má. É uma forma de poder e depende sempre de quem o tem.

No caso dos carros autoguiados e partilhados, se estes conseguirem entrar no mercado em força, é provável que os monstros económicos em que se transformarão as empresas que dominarem este mercado (sejam os atuais gigantes da indústria automóvel, seja a Google, a Uber e as suas concorrentes) comecem a pressionar para reduzir o investimento em transportes públicos. Não seria de espantar que oferecessem viagens muito baratas ou gratuitas em troca de informação sobre nós, sobre os nossos movimentos e sobre os nossos consumos. Começarem a fazer na rua o que já fazem no mundo digital. Mas a revolução na mobilidade é apenas o sinal mais evidente, mesmo a despontar, da mudança radical que a robotização provocará nos nossos modos de vida e as possibilidades abertas pelo extraordinário desenvolvimento da inteligência artificial. E é no mundo do trabalho que tudo mudará de forma mais radical.

Menos cinco milhões de empregos

Por enquanto, as perdas de emprego acontecem nas atividades mais óbvias. Em maio, a multinacional de Taiwan, Foxconn, conhecida por fornecer a Apple ou a Samsung, substituiu 60 mil dos seus 110 mil trabalhadores por robôs. Nos Estados Unidos abriu a primeira cadeia de fast food quase totalmente automatizada. Na Eatsa, que tem quatro lojas na Califórnia e uma em Washington DC, os pedidos são feitos num iPad da loja, recebidos nuns cubículos de vidro, sem nunca se ver um ser humano. Até ver, só há cozinheiros. Mas nada disto é uma revolução. Essa virá depois.

O maior estudo sobre as mudanças no emprego foi feito pelo Fórum Económico Mundial (FEM) e divulgado já em 2016. “The Future of Jobs” concentrou-se em 15 economias desenvolvidas ou emergentes que correspondem a 65% da força de trabalho global. A conclusão do que se espera entre 2015 e 2020 dá-nos razão para todos os temores. Só nestas economias serão perdidos 7,1 milhões de empregos, compensados pela criação de apenas 2,1 milhões. E as previsões são, avisa o FEM, conservadoras. Grande parte das tecnologias de que ouvimos hoje falar chegará ao ponto extremo de mudança em 2025 (apenas daqui a oito anos) e em 2030 as atividades económicas estarão irreconhecíveis por via da automação. Em resumo, nos próximos anos assistiremos a uma mudança ainda mais radical do que aquela que sentimos desde que surgiu a internet. Nas últimas décadas a rede contribuiu para efeitos em cadeia: globalização de mercados, financeirização da economia, ciclos de crises cada vez mais curtos, crise dos media tradicionais, atomização da sociedade, redução do poder dos Estados, crescimento de movimentos políticos xenófobos. Imaginem o que nos espera nas próximas décadas.

À quarta revolução industrial — inteligência artificial e machine-learning, robótica, impressão 3D, nanotecnologia, genética e biotecnologia — juntam-se novos fatores económico-sociais, como a crescente volatilidade geopolítica, os jovens e a classe média nos mercados emergentes e as alterações climáticas. Apesar de rápida, não é uma evolução nem linear nem simultânea. A internet móvel e a tecnologia de cloud já tiveram o seu maior salto; a economia de partilha e o crowdsourcing tenderão a estabilizar nos próximos três anos; as novas energias ainda terão uma evolução significativa; e o desenvolvimento da robótica, dos transportes autónomos e da inteligência artificial só se sentirá a sério no final desta década, lançando, até 2025, o mundo para um novo e arriscado patamar civilizacional. E mudando radicalmente o mercado de trabalho.

A mudança será sentida com especial violência entre os trabalhadores administrativos, com perdas colossais de emprego. E entre os operários, mas isso não é novo. Em algumas profissões mais especializadas, nas áreas informáticas, da matemática e da engenharia, surgirão os novos empregos, mas em muito menor número. Analistas de dados e representantes de vendas especializados são áreas prometedoras. Outras, como a finança, as infraestruturas e os transportes sentirão fortíssimas alterações. Das 15 economias estudadas prevê-se um cenário de emprego positivo para o Sudeste asiático, com a criação de 3,72 empregos por cada um perdido, México (3,06), Reino Unido antes do ‘Brexit’ (2,91), EUA (1,37) e Turquia (1,14). Todas as restantes dez economias perdem emprego, algumas delas em larga escala, com destaque para França e Brasil. Como a participação das mulheres em várias áreas em crescimento é menor, estima-se que por cada emprego feminino criado se perderão cinco enquanto nos homens a relação será de um para três.

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Mudança: A Google estava a testar o seu carro autónomo, mas recentemente parece ter desistido. Agora deverá dar prioridade a parcerias com empresas

Os gestores e empresários parecem estar mais interessados em investir nas capacidades dos seus trabalhadores do que em contratar mais precários ou colaboradores virtuais. Uma boa notícia que no entanto reforça a ideia de que o trabalho se concentrará nas mãos de alguns, a quem será exigido cada vez mais, enquanto ao lado engrossa o exército de desocupados. Ao contrário das revoluções tecnológicas anteriores, esta não demorará uma geração. Mesmo que a educação chegasse, teria de ser para quem já está na vida profissional ativa. Mas a educação não chega, porque os empregos criados serão, depois desta primeira fase, cada vez menos. Incluindo nas áreas especializadas.

Um estudo de 2013, de Carl Benedikt Frey e Michael A. Osborne, da Universidade de Oxford (“The Future of Employment: How Susceptible are Jobs to Computerisation”), previa que cerca de 47% dos empregos dos Estados Unidos estariam em risco de automação numa ou em duas décadas. Para demasiada gente a questão já não é saber se vai perder o emprego para um computador, é saber quanto tempo levará até que isso aconteça. É verdade que o medo de um mundo sem trabalho é tão antigo como a tecnologia. E, no entanto, a economia cresceu e houve mais emprego depois de cada uma das revoluções industriais. Só que se este estudo está certo, não vale a pena procurar um padrão no passado. Estamos perante uma alteração sem paralelo na história. É uma revolução industrial toda concentrada apenas numa parte da vida de uma só geração, sem as possibilidades de adaptação do passado.

Este estudo é citado no livro de referência sobre o tema, que já está traduzido para português: “Robôs – A ameaça de um futuro sem emprego”. O autor, Martin Ford, empresário de Silicon Valley, garante que “mesmo o trabalho dos engenheiros de software poderá brevemente ser largamente computorizado”. Numa entrevista ao “Dinheiro Vivo”, em julho deste ano, Ford explicava que se numa primeira fase a tecnologia criará novo emprego, a tendência será para que as máquinas venham a substituir os empregos altamente qualificados. O que quer dizer que, a prazo, nem os países que invistam muito em educação se salvarão da perda de emprego. O avanço na inteligência artificial cria um novo mundo, em que as máquinas aceleram o seu próprio desenvolvimento. Ao contrário do que aconteceu com o anterior processo de industrialização, não ficaremos apenas livres do trabalho físico. O trabalho intelectual, de que o desenvolvimento tecnológico costuma precisar, também empregará, a médio e longo prazo, cada vez menos pessoas.

Jerry Kaplan, um cientista e empreendedor que dá aulas em Stanford, diz, em “Humans Need Not Apply: A Guide to Wealth and Work in the Age of Artificial Intelligence”, citado num número recente da “The New Yorker”, que “quando a maioria das pessoas pensa em automação tem em mente a simples substituição de trabalho ou a melhoria da velocidade de produção, não a mais extensiva disrupção causada pela reengenharia”. Dessa reengenharia, que permite às máquinas garantirem a sua própria evolução e reinvenção, resulta a certeza de que por mais que um negócio se expanda não vai contratar mais humanos.

No mesmo artigo propõe-se uma análise há muito imaginada por académicos. Pensando em dois eixos — trabalho manual ou intelectual, trabalho rotineiro ou não rotineiro —, temos quatro tipos de funções. Nos extremos, o trabalho manual não rotineiro — servir às mesas, limpar quartos de hotel —, que é geralmente o mais mal pago; e o trabalho intelectual não rotineiro — gestão de fundos de risco, advocacia, produzir um programa de televisão, trabalho criativo —, que é regra geral o mais bem pago. No meio, está o trabalho manual rotineiro, que a comutação tornará redundante (a robotização das linhas de montagem já nem sequer é uma novidade); e o trabalho intelectual repetitivo — administrativo, por exemplo —, que será, nos próximos anos e em larga escala, substituído por computadores. Ou seja, antes de atingir os assalariados mais pobres e desqualificados e os mais abonados e qualificados, atingirá em cheio o grosso da classe média. Depois, serão os restantes. E isto bate certo com as previsões do FME. O que quer dizer que impedir a partida de fábricas para a China não resolve grandemente o problema: a própria China está a tratar da automação das suas fábricas e são outros os empregos que se começarão agora a perder no Ocidente. E muitos deles não vão para lado algum.

Receber para não trabalhar

Martin Ford prevê, com alguma satisfação, um futuro sem postos de trabalho: “Se um dia a maioria de nós não precisar de trabalhar, isso poderá ser uma coisa boa. Nós conseguimos adaptar-nos.” E com essa alegria jovial que domina quase todos os deslumbrados pela tecnologia, porque ela “sempre nos deixou melhor”, vê um mundo perfeito onde as pessoas passam mais tempo com a família e a trabalhar: “Não temos de encontrar sentido na vida na mesma fonte de onde vem o nosso rendimento.” Reconhecendo que é difícil viver numa sociedade onde não há emprego, Ford afirma: “Se quisermos que o capitalismo continue, vamos ter de encontrar uma forma de pôr dinheiro nas mãos das pessoas. Se não houver empregos, precisaremos de outro mecanismo como o rendimento básico.”

Perante o provável crescimento do desemprego e do subemprego, o Rendimento Básico Incondicional (RBI) tem ganho cada vez mais adeptos. Trata-se de uma prestação do Estado que seria dada a todos os adultos, empregados ou desempregados, no mesmo valor. Na União Europeia milhares de cidadãos têm pressionado as autoridades para que a adoção deste instrumento comece a ser debatido e na Suíça a proposta foi a referendo em junho, tendo sido recusada por 77% dos eleitores. Daniel Häni, um dos principais impulsionadores da consulta popular, explicou ao “Financial Times” o desencontro em que vivemos: “O nosso sistema social tem 150 anos e é baseado na resposta de Bismarck à Industrialização 1.0.” E defendeu que é necessário um sistema adaptado a esta nova industrialização. Mas vale a pena recordar como o Estado social, que respondeu tardiamente à industrialização do século XIX, se deparou com o mesmo problema e nem por isso pretendeu substituir o emprego por apoios sociais. Pelo contrário, promoveu como objetivo central o pleno emprego.

Para demasiada gente a questão já não é saber se vai perder o emprego para um computador, é saber quanto tempo levará até que isso aconteça

Há bons argumentos a favor do RBI: o facto de as pessoas terem um rendimento garantido permite que recusem condições inumanas de trabalho e é um bom instrumento de combate à pobreza que evita critérios discricionários do Estado, tão visíveis no cada vez mais difícil acesso a apoios que resultam de descontos feitos pelos trabalhadores. Tem, sobre o RSI, a vantagem de dar a todos por igual, não permitindo que desenvolvam discursos populistas. Mas não é por acaso que cada vez mais liberais aderem à ideia, apesar de, à partida, um subsídio do Estado para todos ser um pouco estranho às suas convicções. O inevitável aumento do desemprego e do subemprego para níveis impensáveis até hoje levanta um problema ao capitalismo: falta de consumidores. Alguém tem de consumir as coisas extraordinárias que as máquinas que nos vão tirar o emprego irão produzir. E como o processo que aqui vivemos acabará por chegar às economias emergentes, o problema também será vivido nesses mercados. O RBI poderia transformar-se numa espécie de subsídio ao consumo para quem foi excluído do papel de produtor.

O problema não é o RBI desincentivar a procura de trabalho. Nisto, Roberto Merrill, um dos principais defensores da ideia em Portugal, investigador e autor do livro “Rendimento básico incondicional: uma utopia realista para o século XXI”, tem razão no que escreveu em 2014: “A ideia de que o RBI é um incentivo à preguiça corresponde sobretudo a um preconceito cultural e social, e não a uma verdade empiricamente comprovada. Os estudos empíricos realizados com o objetivo de averiguar a objetividade desta conceção, no Brasil, na Namíbia e em vários países da União Europeia, demonstraram que entre as pessoas que recebem uma renda incondicional apenas um número reduzido opta por mudar de trabalho e as que o fazem é com o objetivo de encontrar um trabalho que corresponda mais às suas capacidades e gostos.” A questão é se este rendimento desincentiva a sociedade a ter como meta o pleno emprego e se transfere da economia para o Estado o provir de uma parte muito significativa da população. De uma sociedade de trabalhadores passaríamos a uma sociedade de subsidiados. E isso terá um preço.

O trabalho continua a ser a forma mais eficaz de inserção social. Viver numa sociedade onde a maioria das pessoas não tem emprego minimamente estável é viver numa sociedade deslaçada, mesmo que essas pessoas tenham rendimento. A democracia precisa de comunidade e não há sentimento de comunidade se não houver a convicção geral de que todos contribuímos e recebemos de acordo com as nossas possibilidades e necessidades. Uma sociedade onde uma minoria contribui com o seu trabalho e uma maioria está condenada a não trabalhar e só receber será, mesmo sem pobreza, uma sociedade disfuncional. Mesmo que pagássemos muito (coisa impossível) a quem não trabalhasse. Não é difícil perceber que uma sociedade assim teria de viver com a insatisfação da minoria que trabalha e sente sustentar o resto dos cidadãos e com a frustração de quem não trabalha e não tem, além do rendimento que o Estado lhe dá, qualquer perspetiva de progressão. Alguém sinceramente acredita que a democracia resistiria a este sentimento de injustiça, de um lado, e de menoridade, de outro? Alguém acredita que uma sociedade onde metade das pessoas não seja remunerada pelo seu trabalho pode funcionar? Se fosse para garantir rendimento por via de dinheiro do Estado, seria bem mais eficaz e interessante a criação de emprego público útil para novas funções sociais.

Recusando o ludismo, qualquer alternativa tem de passar por novas partilhas de trabalho num mundo que será, inevitavelmente, robotizado. Se aceitarmos, por exemplo, que em vez de sermos menos a trabalhar temos todos de trabalhar menos, talvez trilhemos o caminho certo. Até porque a concentração do trabalho em poucos tenderá a sobrecarregar esses poucos, que tudo aceitarão perante o gigantesco exército de reserva de desempregados, pronto para lhes tirar o lugar. Claro que para reduzir horários de trabalho sem perda salarial é preciso voltar a equilibrar a distribuição do rendimento entre trabalho e capital (que regressou aos desequilíbrios do início do século XX) e impedir que a competitividade se faça através da desregulação laboral. Num mercado de trabalho totalmente liberalizado não se reduzem horários porque nada realmente se negoceia.

Rohan Silva, o ex-conselheiro de David Cameron para o empreendedorismo e cofundador da Second Home, fez elogios rasgados a Lisboa. Mas, numa entrevista ao “Público”, identificou um problema: as nossas leis laborais. É um clássico e poucas são as economias que não são vítimas desta critica. Só que leis mais flexíveis, desequilibrando ainda mais a balança do poder negocial, acabarão por aprofundar o que já existe: alguns trabalham imenso, muitos trabalham quando é preciso, imensos não têm trabalho. Infelizmente, seria para financiar esta tendência, e não para permitir um tempo de conforto onde todos têm o mínimo e trabalham o que querem, que o RBI seria aproveitado. Parafraseando a banda Timbuks 3, o futuro é tão brilhante que temos de usar óculos escuros.