A necessidade de pensar o impensável

(Boaventura Sousa Santos, in Meer.com, 09/06/2025)

Judeus ortodoxos em frente à Downing Street protestando em solidariedade com a Palestina

Já publicámos aqui muito bons textos, mas permitam-me que sublinhe a qualidade e a atualidade deste trabalho. Se mais pensadores existissem com a capacidade de reflectir aqui evidenciada, e admitindo poderem ser as suas ideias divulgados com profusão, e o mundo seria um lugar mais amistoso e habitável. Parabéns ao Boaventura Sousa Santos de quem tive o prazer de ter sido aluno, na já longínqua década de 70 do século passado.

Estátua de Sal, 12/06/2025)


Torna-se impensável pensar que enquanto o Nazismo foi a grande incarnação do mal no século XX, o Sionismo é a grande incarnação do mal no século XXI. Torna-se impensável que as grandes vítimas se tenham transformado, no tempo exacto de um século, nos grandes agressores.


Este título não é uma proposta contraditória. É um apelo a que des-pensemos muito do que nos habituámos a pensar para poder enfrentar o maior desafio de sempre: o perigo de deixar de pensar. Novalis estava certo quando escreveu Die Philosophie ist eigentlich Heimweh, ein Trieb überall zu Hause zu sein (Na verdade, a filosofia é saudade, uma pulsão para se estar em casa em qualquer parte).

Por filosofia entendo todo o pensamento estruturado pela busca da verdade sem recurso a tecnologias que, em vez de se manter nos limites de instrumentos para ajudar o pensamento a pensar, pelo contrário, procuram substituir-se ao pensamento. Se deixarmos de pensar, equivale a sermos expulsos de casa e a vaguear sem abrigo nem sentido num mundo caótico e distópico de monstros engravatados que nos governarão em palácios de luxo e converterão em lixo tudo o que se interpuser no trânsito das suas viaturas híper-blindadas contra a busca da verdade.

O perigo iminente é que deixemos de ser seres pensantes (res cogitans de Descartes) para passarmos a ser seres pensados (res cogitata). Ser pensado é ter deixado de pensar, quer por não ser necessário pensar para viver tranquilamente nesta sociedade, quer por ser tão perigoso pensar que equivale ao risco iminente de ser morto ou, em alternativa, de se suicidar. Eis os perigos mais imediatos.

O perigo de pensar que os certificados da mediocridade não são válidos

Se os sistemas de educação e as universidades continuarem na senda da ignorância programada para os estudantes esquecerem tudo o que não interessa aos donos dos algoritmos e do poder, serão, em breve, lares para idosos de tenra idade onde aprendem o que já sabem há muito graças à magnanimidade das redes sociais, e onde o conforto e o isolamento do mundo real são fundamentais para os preparar para uma morte serena, isto é, para viverem nas bolhas onde toda a gente vive morta sem saber.

E viverão certamente com o mesmo conforto que aprenderam e, por isso, tudo o que fizerem ou ordenarem tem a marca da objectividade. Estou certo de que, quando tal acontece, os deuses e as deusas devem levar mãos à cabeça, tapar os olhos para não ver e os ouvidos para não ouvir. Mas como tal desastre não os afecta, continuarão imperturbados nos seus afazeres divinos. O problema para a humanidade e para a natureza é que, quando os medíocres conseguem provar o que são, a sua objectividade é, afinal, abjectividade. É próprio da mediocridade não poder confrontar-se consigo mesmo, precisamente por ser medíocre.

O perigo de pensar que as liberdades autorizadas são uma fracção das liberdades possíveis

Esta sociedade permite-nos ser intransigentes com a mediocridade desde que sigamos no caminho traçado pelos medíocres; sermos intransigentes contra a corrupção, desde que aceitemos ser governados por corruptos; sermos radicais, desde que cegos para sermos facilmente atropelados pelo trânsito dos tanques civis e militares; sermos ousados, desde que inexactos ou descuidados num detalhe para sermos duramente criticados e cancelados pelos guardadores da normalidade; sermos lúcidos na denúncia da hipocrisia, desde que convivamos amigavelmente com os hipócritas; sermos jovens desde que drogados para nos esgotarmos em criatividades e rebeldias inócuas e autodestrutivas; sermos velhos, desde que murmurando uma sabedoria que ninguém tem paciência para ouvir ou entender. Esta sociedade é um monstro de Goya porque a razão dorme um sono profundo.

O perigo de pensar que o que se vê é, de facto, horroroso

O horror vivido pela maior parte da humanidade, diariamente, sempre diferente e sempre igual, desmente tudo o que pensámos sobre o progresso da humanidade. O horror, quando pensado a fundo, corre o risco de ser horror vivido por solidariedade com quem o sofre. Isso obrigaria a ir para a luta concreta no socorro, no estancamento da morte inocente, na destituição dos governantes cúmplices com a morte inocente. Mas como isso dá trabalho e obriga a riscos tão graves quanto desnecessários, o melhor é não pensar, não saber, fingir não saber, admitir que talvez seja um mal-entendido.

O genocídio do povo palestiniano, transmitido em directo todos os dias, é a primeira guerra conduzida conscientemente contra mulheres e crianças, os dois inimigos principais de uma limpeza étnica perfeita. Tem toda a lógica. Lógica e o apoio activo dos nossos governantes democratas.

Tal como Himmler, arquitecto do holocausto, entrava em casa à noite pela porta traseira para não acordar o seu canário de estimação, os arquitectos do genocídio de hoje fazem uma pausa no morticínio para fazer as suas orações e ajudar os filhos nos trabalhos de casa. Isto degrada a tal ponto o que resta de humanidade na nossa raiva impotente que o horror de pensar tem de se reduzir a pensar o horror sem correr o risco de o viver por solidariedade.

Torna-se impensável pensar que enquanto o Nazismo foi a grande incarnação do mal no século XX, o Sionismo é a grande incarnação do mal no século XXI. Torna-se impensável que as grandes vítimas se tenham transformado, no tempo exacto de um século, nos grandes agressores. Torna-se impensável pensar que, tal como não teve êxito a solução final contra eles por parte dos Nazis, também eles não terão êxito na solução final que pretendem infligir ao povo palestiniano. E como tudo isto é impensável, é melhor mudar de canal e voltar às redes sociais ou comentar o trágico-cómico entretenimento das zangas entre dois gorilas, Donald Trump e Elon Musk (sem ofensa aos gorilas).

O perigo de pensar que a comida mental está na mesa e que quem não comer morre de fome

A Inteligência artificial (IA) nada cria nem transforma. Apenas acumula e sintetiza segundo critérios opacos apenas acessíveis aos donos dos programas dos algoritmos, isto é, aos donos do mundo. A inteligência artificial refere-se a máquinas que executam tarefas cognitivas como pensar, perceber, aprender, resolver problemas e tomar decisões. Não é a primeira vez que se atribui inteligência a máquinas. Na década de 1950 era comum designar os computadores emergentes como “cérebros electrónicos”. Actualmente, a maioria das aplicações populares de IA – o reconhecimento de voz e imagem, o processamento de linguagem natural, a publicidade direccionada, a manutenção preditiva de máquinas, carros sem condutor e drones – envolve a capacidade das máquinas para aprenderem com os dados sem serem explicitamente programadas.

Trata-se de uma mudança de paradigma na tecnologia informática. O que vai realmente fazer a diferença na corrida às aplicações de IA é a disponibilidade de dados; o elemento crítico é a abundância de dados. Mais dados conduzem a melhores produtos, o que, por sua vez, atrai mais utilizadores, que geram mais dados para melhorar ainda mais o produto. A escala de dados necessária para desenvolver aplicações avançadas de IA é a base do impacto da centralização e monopolização da IA. As grandes empresas americanas de tecnologia lideram o mundo em aplicações de IA, mas a China é um gigante em ascensão. Isto conduz a um duopólio da inovação da IA: EUA e China.

A IA é o caso paradigmático de uma tecnologia que visa ultrapassar os limites do instrumento que ajuda a pensar para se transformar no pensador que dispensa e substitui o pensador humano. A vertigem da sua ilimitada expansão está a entrar em todos os domínios da actividade humana, da medicina ao direito, da comunicação à guerra, da educação aos mercados financeiros. O que significa ser humano na época da IA?

No fundo, a IA funciona como um dispositivo estatístico, mas, devido ao número infinito de dados que gere e aos algoritmos que regem o seu funcionamento, a IA projecta a ideia de criar conhecimento a partir do nada, de inventar. Ou seja, a IA dá a impressão de funcionar como um ser humano, ainda que de forma infinitamente mais eficiente. Daí as designações utilizadas para a caracterizar – inteligência artificial, aprendizagem profunda – características até agora reservadas aos seres humanos ou, no máximo, aos seres vivos. Estas designações são utilizadas de forma metafórica, mas mostram até que ponto a IA parece estar a atingir níveis de compreensão e de transformação ainda reservados aos seres humanos.

O efeito de realidade é impressionante, porque enquanto cópia parece criativa, enquanto extractiva parece inventiva, enquanto reprodutiva parece produtiva, enquanto baseada em correlações parece oferecer novas relações. À luz da credibilidade desta “aparência”, as questões sobre o que conta como ser humano ou se a IA significa uma mudança civilizacional têm sido levantadas por pessoas em lados opostos do espectro político e ideológico.

Não gosto de citar criminosos de guerra, mas neste caso faço uma excepção para citar Henry Kissinger. Escrevia ele em 2018:

O Iluminismo procurou submeter as verdades tradicionais a uma razão humana liberta e analítica. O objetivo da Internet é ratificar o conhecimento através da acumulação e manipulação de dados em constante expansão. A cognição humana perde o seu carácter pessoal. Os indivíduos transformam-se em dados, e os dados tornam-se reinantes.

No início do texto Kissinger interrogava-se:

(…) “Qual seria o impacto na história das máquinas de auto-aprendizagem – máquinas que adquiriram conhecimento através de processos particulares a elas próprias, e aplicariam esse conhecimento a fins para os quais pode não haver nenhuma categoria de compreensão humana? Estas máquinas aprenderiam a comunicar umas com as outras? Como seriam feitas as escolhas entre as opções emergentes? Seria possível que a história da humanidade seguisse o caminho dos Incas, confrontados com uma cultura espanhola incompreensível e até inspiradora para eles? Estaríamos nós no limiar de uma nova fase da história humana?

Com Chomsky a meu lado, considero que:

a mente humana é um sistema surpreendentemente eficiente e até elegante que funciona com pequenas quantidades de informação; não procura inferir correlações brutas entre pontos de dados, mas sim criar explicações… Por muito úteis que os programas de IA possam ser nalguns domínios restritos (podem ser úteis na programação de computadores, por exemplo, ou na sugestão de rimas para versos ligeiros), sabemos pela ciência da linguística e pela filosofia do conhecimento que diferem profundamente da forma como os humanos raciocinam e utilizam a linguagem. Estas diferenças impõem limitações significativas ao que estes programas podem fazer, codificando-os com defeitos inerradicáveis…

De facto, estes programas estão presos numa fase pré-humana ou não-humana da evolução cognitiva. A sua falha mais profunda é a ausência da capacidade mais crítica de qualquer inteligência: dizer não só o que é o caso, o que foi o caso e o que será o caso – isto é descrição e previsão – mas também o que não é o caso e o que poderia e não poderia ser o caso. Estes são os ingredientes da explicação, a marca da verdadeira inteligência… O pensamento humano baseia-se em explicações possíveis e na correcção de erros, um processo que limita gradualmente as possibilidades que podem ser racionalmente consideradas.

Na sua obra-prima, O Mundo como Vontade e Representação, Schopenhauer ([1819] 2020) faz uma distinção entre talento e génio. Enquanto a pessoa talentosa alcança o que os outros não conseguem alcançar, o génio alcança o que os outros não conseguem imaginar. O génio tem uma capacidade superior de contemplação que o leva a transcender a pequenez do ego e a entrar no mundo infinito das ideias. O génio é a faculdade de permanecer no estado de perceção pura, de se perder na perceção, o poder de deixar os seus próprios interesses, desejos e objectivos inteiramente fora de vista, renunciando assim inteiramente à sua própria personalidade durante algum tempo, de modo a permanecer um puro sujeito conhecedor, com uma visão clara do mundo.

À luz disto, podemos especular com segurança que, se Schopenhauer vivesse hoje, defenderia que a IA, por muito estimulantes que sejam as suas realizações, nunca poderá atingir os patamares da possibilidade humana. No máximo, poderá atingir o nível do talento. A genialidade é inacessível à IA. O génio é o limite superior da IA. O limite inferior é a actividade humana não registada ou, melhor ainda, a actividade humana que é registada e armazenada de formas que desafiam o extractivismo de dados.

Este jogo homem-máquina deixa escapar um ponto crucial: o facto de os seres humanos não existirem em abstracto, mas sim em contextos históricos, sociais e culturais específicos. Os exercícios sobre características universais construídas abstractamente convertem características locais centradas no Ocidente, capitalistas, colonialistas e patriarcais em características universais derivadas do conhecimento “visto a partir do zero”. Os preconceitos ontológicos e políticos são assim transformados em artefactos neutros em termos de IA.

O perigo de pensarmos que o que cai fora do algoritmo não existe é a nova forma do que tenho designado por sociologia das ausências. O perigo de pensar que o algoritmo é a única comida mental ao nosso dispor é o mesmo que pensar que o hamburger da MacDonald’s é a única comida ao nosso dispor.

O perigo de pensar que o pós-humano pressupõe que já fomos plenamente humanos

Desde o início do milénio tem havido um debate sobre o pós-humano. A morte do ser humano vinha de longe: de Nietzsche, de Heidegger, de Foucault, de Barthes, de Deleuze. Mais recentemente, a ideia do pós-humano centrou-se nos seres humanos sujeitos a xenotransplantes (transplantes de células, tecidos ou órgãos de outras espécies animais) ou vivendo com objectos tecnológicos inseridos no seu corpo. A ideia do pós-humanismo implica a crítica do antropocentrismo, a negação de qualquer privilégio ao ser humano no conjunto dos seres viventes do planeta.

Não vou neste texto discutir os méritos desta concepção. O que me interessa questionar é ideia de humano que subjaz à de pós-humano. É uma ideia substantivista e abstracta que pressupõe a existência prévia de uma natureza humana mais ou menos fixa. De resto, a questão de saber se há ou não uma natureza humana não é a questão que me preocupa. É antes a ideia de que os seres humanos foram sempre tratados como seres privilegiados e abstractamente iguais.

O perigo de pensar que, na verdade, isso nunca aconteceu na era moderna é um dos mais aterradores para a boa consciência liberal que formou a nossa consciência desde o século XVII. Ao longo dos anos, tenho mostrado que, com o colonialismo histórico, se traçou uma linha abissal, tão radical quanto radicalmente invisível, entre os seres tratados como seres plenamente humanos (a zona metropolitana) e seres tratados como seres sub-humanos (a zona colonial).

Essa linha abissal dura até hoje e a sub-humanidade que ela desenha abrange mais populações no mundo que durante o período do colonialismo histórico. Que o digam os imigrantes deportados com algemas e enviados para campos de concentração em El Salvador e em outros lugares de que um dia teremos notícia. Ou os camponeses da República Democrática do Congo martirizados pela maldição do lítio e dos minerais raros. O espectro da sub-humanidade paira sobre cada um de nós.

De um momento para o outro, como previa Brecht, pode caber a qualquer de nós ser atirado para a zona colonial onde as declarações universais dos direitos humanos e as garantias constitucionais não são mais que mentiras piedosas. Pensar que isto é um retrocesso é pensar que houve progresso. Claro que houve progressos, mas não houve Progresso com P maiúsculo.

Todos estes perigos obrigam a uma tarefa de des-pensar e de desaprender antes que seja possível dar sentido ao que não tem sentido.

Fonte aqui

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O terrorismo, esse pilar da democracia liberal

(Por José Goulão, in SCF, 06/06/2025, Revisão da Estátua)


Como é da praxe para quem tem sempre razão, os fins justificam os meios, sem dúvida um princípio fundador da democracia liberal.


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Primeiro Emmanuel Macron, agora Donald Trump. As duas vertentes transatlânticas da chamada “civilização ocidental”, ou “nossa civilização”, aparentemente tão desavindas nestes tempos, competem agora em Veneza ao chefe terrorista islâmico Abu-Muhammad al-Jolani, que sequestrou o poder em Damasco em 8 de Dezembro último.

Esqueçam todas as diferenças que se dizem existir entre a União Europeia e a administração Trump na Casa Branca. Nada disso é para levar a sério, muito menos as supostas críticas que as instituições federalistas e os chefes de governo da maioria dos 27 fazem ao desastrado indivíduo que governa os Estados Unidos da América. Quando se trata do chamado terrorismo islâmico e dos seus expoentes, seja a Al-Qaeda, o Isis ou o “Estado Islâmico” e a miríade de heterónimos com que se mimetizam, Washington e Bruxelas falam a uma só voz, a do apoio e da gratidão. Tem sido assim desde os anos 80 do século passado, mas a admiração e o afeto agora publicamente testemunhados pelo mercenário terrorista responsável pela carnificina da guerra contra a Síria fazem cair todas as máscaras, anulam quaisquer exercícios de hipocrisia.

Dr. Jekyll e Mr. Hyde

O culto da figura do carniceiro Abu Mohammad al-Jolani, agora conhecido como Ahmed al-Sharaa e vice-versa, é um tratado, ou poderá ser um estudo de caso sobre a “ordem internacional baseada em regras” pela qual se guia uma “civilização superior” como a ocidental, permanentemente envolvida no combate à “barbárie”.

Há um al-Jolani que foi alto conselheiro dos chefes da Al-Qaeda e do Isis, depois comandou a al-Nusra, uma designação adotada pela Al-Qaeda na Síria e a seguir alterada para Tharir al-Sham. Esta mobilidade semântica articulou-se de modo a tentar fazer crer ao mundo que a organização atuando no cenário sírio se divorciara do gangue fundado pela CIA e Bin-Laden e explica assim o seu lugar no núcleo dos terroristas “moderados” financiados pelo Ocidente. Mudaram os nomes mas a essência assassina manteve-se e a Al Qaeda continuou a ser o chapéu cobrindo toda a comunidade “moderada”. Nada a obstar. O então primeiro-ministro francês, o sionista Laurent Fabius, reuniu-se numa reunião da coligação internacional de apoio aos “moderados” que “a Al Qaeda está a fazer um bom trabalho” na Síria.

Al-Jolani, criminosos e mercenários que comandou alguns dos mais selváticos ataques contra civis praticados durante a guerra imposta à Síria, como que replicava o visual do seu ídolo bin-Laden: vestes tribais, cabelos em desalinho sob o turbante e barba longa e descuidada à “fundamentalista islâmica”. Numa palavra, Sr.

Ahmed al-Sharaa é visivelmente outra pessoa. Começou a apresentar-se ao mundo durante uma entrevista que lhe foi oferecida pela estação oficiosa da CIA, a Rádio Voz da América, e para a qual o equiparam à “ocidental”, um pouco apressadamente, há que dizê-lo. Nessa ocasião, o magarefe atualmente conhecido como “presidente interino” da Síria compôs desajeitadamente a figura de um “estadista” pronto para “a paz”, dispôs-se a defender uma sociedade democrática na qual seriam assegurados os direitos das minorias étnicas e religiosas, comunidades milenares que representam a própria essência nacional multifacetada do país. É no papel de al-Sharaa que al-Jolani caminha agora pelo exterior das fronteiras do seu país para receber as homenagens, os agradecimentos e as promessas de apoios generosos dos principais dirigentes mundiais, sempre obsessivamente empenhados na “guerra contra o terrorismo”. No encontro recente que teve com o presidente francês Emmanuel Macron, no Palácio do Eliseu, al-Sharaa discutiu até com o seu anfitrião uma plataforma de “coordenação na luta antiterrorista”. Nova palavra, Dr.

“Jovem, atraente e viril”

Fardando-se de al-Sharaa, enquanto os mercenários “islâmicos” comandados por al-Jolani prosseguem as operações de chacina contra as comunidades civis alauitas, drusas e cristãs – abandonadas que são pela “civilização cristã e ocidental” – o presidente “interino” lá foi até à Arábia Saudita, o seu berço na arte do terrorismo, ao encontro de Donald Trump. “Um tipo jovem, atraente e viril”, assim o retratou o presidente norte-americano, talvez embeiçado pelo fato Armani que ele envergava, em contraste com a camiseta cara, de marca e assinatura fascista mas de aspecto rasca que outro terrorista, Zelensky, apresentou na Casa Branca.

Tutor e protegido trocaram um caloroso abertura de mão em Riade na presença do verdadeiro chefe do regime sempre democrático saudita, Mohammed bin-Salman, o organizador do encontro. Para trás, como se percebe, ficaram as questões de alguns que Washington fez quando bin-Salman mandou sequestrar a Turquia e esquartejar em pedaços facilmente dispersáveis ​​o cidadão norte-americano e o jornalista Jamal Kashoggi, por sinal também agente da CIA. Tudo ficou esquecido e enterrado no passado, com os restos da pobre criatura.

Trump prometeu a al-Sharaa e ao seu regime golpista levantar todas as sanções económicas que os Estados Unidos impuseram ao governo de Bashar Assad, um executivo que estava legitimamente em funções segundo os mecanismos constitucionais e de acordo com eleições participadas em massa – porém manchadas com o pecado original de terem produzido resultados contrários aos “desejos”. Logo, por definição, as eleições foram uma burla; pelo contrário, o governo “interino” resultante de uma guerra terrorista imposta à Síria de fora para dentro é a garantia da restauração da democracia e da estabilidade no país, de acordo com os mais influentes dirigentes ocidentais. Este governo sim, deverá ficar isento de sanções para que seja possível “um novo começo”, declarou Trump na Arábia Saudita. Um “começo” que, no entanto, não deverá perturbar a continuidade de algumas actividades produtivas, como é o caso do roubo do petróleo do povo sírio pelos Estados Unidos da América.

“Ele é um verdadeiro líder, comandou uma experiência e é incrível”, testemunhou, rendido, o presidente norte-americano. “Tem possibilidade de fazer um bom trabalho e de manter a calma” na Síria. Calma é, certo, o atributo mais silencioso de al-Jolani.

Washington cancelou há algumas semanas a acusação de “terrorista” que pendia oficialmente sobre o presidente golpista sírio, embora a decisão seja omissa quanto à validade ou não da recompensa de 10 milhões de dólares prometidos a quem o capturar. Compreende-se que, apesar disto, Trump tenha selado com um aperto de mão o reconhecimento das funções políticas do seu interlocutor “atraente”. O mandado de captura foi emitido contra al-Jolani e não contra al-Sharaa, que não há mal-entendidos nem quaisquer insinuações mal intencionadas.

Estreia no Eliseu

Soube-se há poucos dias que al-Sharaa enviou uma carta a Trump pedindo-lhe que exercesse os seus bons ofícios para que fosse possível uma “normalização” das relações entre a Síria e Israel.

O assunto é música para os ouvidos do presidente norte-americano: remove mais um grande obstáculo à concretização do extermínio do povo palestino – a começar pela limpeza da “Riviera” de Gaza – abre caminho para transformação da Síria numa plataforma de ameaça constante, ou mesmo de guerra, contra o Irão e amplia o poder sionista, isto é imperial e do “mundo livre”, sobre a Ásia Ocidental. Um passo que facilita assim o entendimento tão desejado e estratégico entre não uma mas as “duas democracias” do Médio Oriente: Israel e Arábia Saudita.

Pelo que fica demonstrado o que são úteis e civilizadoras têm sido as organizações terroristas ditas “islâmicas”, designadamente a Al-Qaida e o Ísis, como instrumentos dos interesses ocidentais e braços armados da NATO.

Al-Sharaa tinha anteriormente levantado a questão da “normalização” das relações com Israel durante o encontro que o presidente francês lhe concedeu no Palácio do Eliseu, um acontecimento que parece ter embaraçado o aparelho de propaganda situacionista, uma vez que não beneficiou da merecida publicidade. Agora, com o aval do chefe do império, mesmo que seja Trump, tudo ficará claro e franco. Al-Sharaa tornou-se um dos “nossos”.

A visita ao Eliseu foi uma estreia , um verdadeiro teste de fogo para a transfiguração ocasional do terrorista al-Jolani no estadista e diplomata al-Sharaa.

Envergado o fato Armani e depois de uma passagem por Jean Louis David para aparar a barba e o cabelo no mais afamado coiffeur masculino de Paris, o presidente “interino” sírio arribou ao coração da V República Francesa onde foi recebido pelo pequeno grumete dos Rotschild’s. Macron apresentou-se com um fato do mesmo tom de azul e não disfarçou uma certa admiração ao mirar o homenzarrão árabe que tinha na frente. Evitou verbalizar o adjetivo “atraente” que Trump foi incapaz de conter; porém, somando o estilo de acolhimento aos frutos da conversa, percebe-se que o presidente francês ficou ali com um amigo para a vida. Dir-se-ia que al-Sharaa e al-Jolani, tirando a diferença de fardas, poderia ser uma e a mesma pessoa.

Emmanuel Macron manifestou ao visitante um certo receio pelo que julgava ser a contenção de Trump face à situação na Síria, uma vez que ainda não tinha reconhecido o novo regime. Preocupações infundadas, como se percebeu pouco depois através dos acontecimentos em Riade. O presidente francês prometeu a al-Sharaa envidar esforços, não só com a União Europeia mas também com os Estados Unidos, para conseguir um “levantamento gradual” das sanções e travar qualquer intenção de Washington de retirar as tropas de ocupação que mantém ilegalmente na Síria. Afinal, verifica-se que há uma harmonia total entre os dois lados do Atlântico, as sanções serão levantadas e as tropas ficarão.

Os formalistas poderão argumentar que Macron não representa a União Europeia porque talvez a desnorteada agremiação dos 27 ainda não tenha interiorizado completamente a muito favorável relação custo-benefício da estratégia golpista, terrorista e segregacionista montada para destruir Estados poderosos, como era o sírio.

As reservas formalistas, porém, não tiveram qualquer razão de existir porque a democracia liberal continua a fortalecer-se e a ampliar estrategicamente as capacidades para exercer um poder cada vez mais firme e discricionário através da integração dos conceitos de terrorismo, racismo e genocídio no seu património de valores. O resultado pode ser cada vez mais autoritário, mas nada que embacie o fulgor da democracia na qual nos debatemos.

Além disso, Bruxelas já deu sinais de ter aceitado sem constrangimentos a nova situação na Síria. Logo em Janeiro de 2025, um mês depois de consumado o assalto dos mercenários terroristas a Damasco, os ministros dos Negócios Estrangeiros de França e da Alemanha, depois Jean-Noel Barrot e Annalena Baerbock, viajaram até à capital síria em nome da União Europeia para se avistarem com o novíssimo presidente “interino”.

No Eliseu, al-Sharaa pediu que a França “garanta apoio à fragilidade da Síria” e “ajude a restaurar a ordem e a reconstruir um país devastado por 14 anos de guerra”, situação de que al-Jolani foi um dos grandes responsáveis ​​mas que também já ficou lá atrás, enterrado nos escombros e no passado, como centenas de milhares de seres humanos inocentes.

O visitante sírio acordou com Macron uma “coordenação antiterrorista” e espera-se que os alvos desta convergência operacional continuem a ser as comunidades civis alauítas, drusas e cristãs indefesas, vítimas de massacres cometidos sob o pretexto de combater os remanescentes do Exército Nacional Sírio.

Al-Sharaa também abordou em Paris o que parece ser o seu objetivo prioritário: a “normalização das relações” com Israel. É verdade que o aparelho militar sionista bombardeia diariamente o território sírio, incluindo Damasco, e ocupa vastas zonas do sul, muito para além dos montes Golã. E nós sabemos o que acontece quando o Estado sionista ocupa territórios vizinhos. Numa primeira fase, segundo declarações oficiais, Telavive exige que esses territórios sejam “desmilitarizados”.

Nada disto, porém, desencoraja o presidente “interino” da Síria: “há negociações indiretas com Israel através de mediadores para diminuir as indiretas e evitar a perda de controle”. Ao continuar a guerra diária de desgaste, Israel está apenas a fazer subir o preço de um próximo acordo, mas bem poderia poupar munições e vidas humanas, apesar de isso não representar qualquer lucro: o “governo” de al-Sharaa/al-Jolani não poderá vir a render-se ao sionismo mais do que já se rendeu.

Seguindo o fio da história recente, compreende-se a atitude até um pouco obsessiva do senhor de Damasco na direcção ao Estado sionista. Lá no fundo, afinal, ele é grato e não esquece quem sempre o ajudou. Nos picos das operações terroristas contra a Síria, Israel disse presente quando se tornou necessário evacuar mercenários “islâmicos” feridos para hospitais de campanha montados nos Montes Golã ocupados ou mesmo para hospitais no interior de Israel. Al-Jolani/al-Sharaa tem certamente na memória, como muitos de nós, as imagens registradas durante as solidárias e carinhosas visitas hospitalares do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu aos terroristas da Al-Qaeda e do Isis feridos. O comportamento suscitou algumas reservas tímidas nos Estados Unidos. O “Wall Street Journal” contactou uma “fonte militar israelita” sobre o assunto, que se explicou assim: “Não perguntamos quem os feridos são, não pesquisamos as suas origens; logo que têm alta mandamo-los para a fronteira para seguirem o seu caminho.” Menos pragmático foi outro “alto dirigente” político israelita denunciado pela imprensa norte-americana e que disse que “uma derrota da Al Qaeda” na Síria seria “um desastre” para Israel. Felizmente para o sionismo e para a “civilização ocidental”, a Al Qaeda não foi derrotada.

Numa perspetiva democrática, ocidental e civilizacional, pode dizer-se, em relação à Síria, que tudo está bem quando acaba bem. O mesmo deve ser lembrado em relação ao Afeganistão, ao Iraque, à Líbia, sem esquecer a Palestina. O recurso a grupos e regimes terroristas revelou-se um ovo de Colombo, uma estratégia vencedora nos objectivos inquestionáveis de consolidação da democracia liberal.

O massacre de milhões de seres humanos, seja na Síria, na Palestina, na Ucrânia e noutros países completamente devastados pela guerra, é um preço que vale a pena pagar, como disse a humaníssima Madeleine Albright a propósito do massacre de inocentes – 500 mil crianças – em resultado das sanções económicas contra o Iraque. Afinal, o que está em causa é a defesa da “nossa civilização” e dos “nossos valores”. Como é habitual para aqueles que têm sempre razão, os fins justificam os meios, sem dúvida um princípio fundador da democracia liberal.

Fonte aqui.

A Europa está a armar-se ou a desarmar-se?

(Boaventura Sousa Santos, in Brasil247, 15/03/2025)


Ó Costa, diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és…

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Toda a normalidade induz e tolera um certo tipo de extremismo. Para além de um certo limite, ou o extremismo é neutralizado ou o extremismo instaura uma nova normalidade. A normalidade nos EUA é o cumprimento da Constituição e, no que se refere às relações internacionais, é pôr esse cumprimento ao serviço dos interesses dos EUA, o único aliado incondicional dos EUA. Digo incondicional no sentido mais forte do termo: quem puser em causa esses interesses será neutralizado, mesmo que seja o Presidente. A neutralização está a cargo do deep State, o Estado profundo que, de facto, governa os EUA que conhecemos. O termo deep State só começou a usar-se com referência aos EUA durante o primeiro mandato de Trump, muitas vezes invocado por ele como bode expiatório dos seus fracassos. Pretende designar a existência de interesses muito poderosos e bem organizados que, sem qualquer escrutínio democrático, decidem os destinos do país em momentos identificados como sendo de grave crise. É nesses momentos que ocorrem acontecimentos dramáticos, ou decisões obscuras cujas causas nunca são plenamente esclarecidas. Por exemplo, o assassinato do Presidente John Kennedy (1963); Watergate (1972); Irão-Contra (1981-1986); o ataque às Torres Gémeas de Nova Iorque conhecido como 9/11 (2001); a invasão do Iraque “justificada” por inexistentes armas de destruição massiva (2003). Concebido de várias formas, o deep State é hoje um tema incontornável e a sua aplicação é tão pertinente nos países considerados autoritários como nos países considerados democráticos. (Para o caso dos EUA ver, por exemplo, Peter Dale Scott, The American Deep State: Big Money, Big Oil and the Struggle for Democracy, 2015; Mike Lofgren, The Deep State: The Fall of the Constitution and the Rise of a Shadow Government, 2016).   Por enquanto, o governo de Donald Trump é uma excepção autorizada e o espectáculo de um extremismo. Se a normalidade vai sucumbir ou prevalecer, se o extremismo de Trump se mantém ou não nos limites do tolerável, são, por enquanto, questões em aberto. Tal como o futuro de Trump. Por agora, legalmente, só o sistema judicial tem algum poder para deter Trump. Quanto ao deep State, nada saberemos antes da sua intervenção estar consumada. 

O espectáculo gera um processo de retro-alimentação permanente: Donald Trump abre em dias consecutivos os noticiários de quase todas as televisões do mundo. O mundo surge como virado do avesso. De um dia para o outro, os EUA são (ou parecem ser) aliados da Rússia contra a Ucrânia e a Europa. Quem podia imaginar que os EUA votassem na ONU ao lado da China, da Coreia do Norte e do Irão na resolução que visava condenar a invasão da Ucrânia pela Rússia? O problema maior para o mundo não é Trump, mas o modo com os líderes do mundo lidam com as suas posições. Por outro lado, ao contrário do que a espuma dos dias nos retrata, o comportamento de Trump é menos errático ou imprevisível do que se imagina. Os eixos principais da sua política à luz dos seus primeiros passos são os seguintes: 

  1. O negócio une e a política divide. Deve recorrer-se à divisão política para melhorar os negócios, e não para os destruir. Neste domínio, a Rússia é mais promissora que a Europa.

2. O armamento é crucial para a economia norte-americana, mas para ser vendido, não para ser usado, e muito menos pelos EUA.

3. Em termos de rivalidade económica só a China conta. 

4. O capitalismo tem de fazer valer o seu DNA colonialista. O colonialismo é pilhagem de recursos naturais. Sem ela não há capitalismo. Os palestianianos são índios. Tal como os congoleses.

5. Uma nova normalidade vai emergir não só nos EUA como no mundo: oligárquica, autoritária, fascista na substância, democrática nas formalidades. É o verdadeiro fim da história que só os ingénuos (como Francis Fukuyama) viram residir no liberalismo capitalista.

A resposta da Europa

O confronto “nunca visto” com Zelensky na Sala Oval da Casa Branca teve pouco a ver com Zelensky. Com perfeita encenação, Trump quis acima de tudo humilhar a Europa, humilhando o herói desta, o grande campeão da democracia. Quis também humilhar Joe Biden por este ter impedido que a guerra terminasse dois meses depois de ter começado; e também por estar convencido de que Biden está morto nos EUA, mas vivo na Europa. E a Europa comportou-se como Trump esperava de dirigentes medíocres que nada sabem de negócios. A Europa entrou na guerra por pressão dos EUA via NATO. A NATO é os EUA, pouco mais. A invasão pela Rússia foi ilegal e condenável, mas está hoje plenamente documentado de que foi provocada pelos EUA, convencidos de que enfraquecer a Rússia era enfraquecer um aliado-chave da China. Trump tem um entendimento oposto. Por um lado, para ele, só uma aliança calibrada com a Rússia pode enfraquecer a China. Por outro lado, a Europa tem características contrárias ao que Trump antevê para os EUA e o mundo: é demasiado secular e liberal; tem sistemas públicos de saúde e de educação robustos (até agora); “excessiva” protecção dos trabalhadores; “excessiva” protecção do meio ambiente e “excessiva” regulação estatal.  Em suma, a Europa é fraca por ter um Estado forte, por não ter recursos naturais e por não poder defender-se de ataques externos sem o apoio dos EUA. 

O que os líderes europeus não entendem é que a verdadeira fraqueza da Europa (não a fraqueza segundo Trump) foi querida e induzida pelos EUA desde o fim da União Soviética. Os EUA desde cedo temeram que a Europa se tornasse num global player e com isso alimentasse o multipolarismo, sempre temido pelos EUA, que não imaginam (e temem) deixar de ser o único global player. Quando o Presidente Chirac da França e o chanceler Gerhard Schröder da Alemanha se opuseram à invasão do Iraque, os EUA tomaram nota de que os aliados europeus eram futuros rivais num mundo multipolar.  Essa suspeita aumentou com o Tratado de Lisboa de 2007, com a inauguração, em 2011, do primeiro gasoduto Nord Stream para fornecer energia barata russa à maior economia europeia (e a outros estados europeus) e com o fortalecimento, no mesmo ano, do pacto fiscal para fortalecer a integração europeia. Aliás, a preferência da Alemanha pelo Nord Stream e a da Itália (de Berlusconi) pelo South Stream aumentava a suspeita contra estes dois países vistos como parceiros estratégicos da Rússia. A mesma suspeita contra um multipolarismo que enfraqueceria os EUA está na base do apoio dos EUA ao Brexit (2016-2020).

Ou seja, os medíocres líderes europeus da última década não entenderam que os EUA procuraram enfraquecer a Europa para agora a poderem desprezar…por ser fraca.

Retirado o apoio dos EUA à continuidade da guerra, os líderes europeus, bem oleados pelo lobby da indústria de armamentos dos EUA, em vez de se sentirem aliviados por se verem livres de uma guerra que lhes foi imposta e os levará à ruina financeira – e à destruição da Ucrânia –, assumiram a continuidade da guerra e a preparação para outras guerras como sua missão histórica, e pretendem vender esta ideia suicida aos europeus, inventando um novo perigo: a ameaça russa. Em suma, a Europa mordeu o isco lançado por Trump: vai rearmar-se para continuar a desarmar-se social e politicamente. As armas mais complexas e caras serão compradas à indústria militar dos EUA. De novo Trump atinge o seu objectivo: o material bélico é crucial para fazer negócios, não para fazer a guerra. Ao rearmar-se, a Europa transfere o investimento nas políticas sociais e na transição energética para o investimento nas armas e, em consequência, aumenta a desigualdade social e a polarização social, e ignora o perigo do colapso ecológico. Abre um campo fértil onde pastam as ideias e as políticas de extrema-direita. Ou seja, transforma-se numa réplica rasca dos EUA. O autoritarismo fascista com fachada democrática está no horizonte, tal como Trump deseja para a Europa e para o mundo. 

Em suma, ao rearmar-se, a Europa desarma-se. Em poucas décadas, a economia europeia no seu conjunto não estará entre as dez maiores economias do mundo. E do desarme social só beneficiará a extrema-direita, que neste momento, pelo menos pela voz de Viktor Orban, parece ser mais a favor da paz e mais resistente contra a orgia da preparação para a guerra que outras forças políticas de direita e de esquerda.   

Há uma ameaça russa?

A Europa só seria um rival-aliado a respeitar se se tivesse mantido unida à Rússia, o país com a maior superfície do mundo e com recursos naturais em grande medida inexplorados. Era a proposta que dominou o eixo Paris-Berlim nas duas primeiras décadas do século XXI. Haverá hoje uma ameaça russa contra a Europa quando Putin pede aos empresários europeus para regressar à Rússia? Trata-se da transferência subliminar do anti-comunismo para a russofobia? A russofobia é algo muito mais antigo e vem desde, pelo menos, o final do século XIX. Fiel ao seu projecto revolucionário, o próprio Karl Marx pode ser considerado russófobo nas cartas que escreveu em 1878 a Wilhem Liebknecht, pai de Karl Liebknecht. Tratava-se então de combater o reacionário império russo na altura em guerra com o não menos reacionário império otomano. Perante a passividade da Inglaterra e da Alemanha, Marx desabafava em francês:  «il n’y a plus d’Europe». Depois da Segunda Guerra Mundial, a russofobia metamorfoseou-se no anti-comunismo. O grande pilar do anti-comunismo na Europa foi o catolicismo conservador e, nos EUA, o Macarthismo. Mas a russofobia também alimentou a ideologia comunista da China de Mao Tse Tung e a ideologia imperial do Japão durante décadas. No Ocidente, os acordos de Yalta mantinham sob controle os impulsos mais extremistas. Convém recordar que em 1955 o exército soviético (pertencente ao regime comunista) retirou-se da Áustria em troca da neutralidade desta. O mesmo tipo de proposta foi feita por Gorbachov em 1990 ao aceitar a reunificação da Alemanha. 

A ideia da ameaça russa era sobretudo compreensível nos países da Europa do Norte e Oriental. Lembremos que, para Lenine, o tempo da Revolução Russa foi condicionado pela necessidade de terminar a guerra a todo o custo. E o custo foi alto porque a Rússia perdeu cerca de 30% do território que antes fazia parte do Império russo. Os Bolcheviques aceitaram a independência da Finlândia, Estónia, Letónia, Lituânia, Ucrânia e Bielorrússia, os últimos cinco países ocupados então pela Alemanha. Foi um tratado de pouca dura, dado o desfecho da guerra, mas as guerras locais que se seguiram (entre a Ucrânia e a Polónia, por exemplo) e a Segunda Guerra Mundial voltaram a mudar o mapa geopolítico desta região, uma região que, até à guerra da Ucrânia, era considerada periférica, tal como os Balcãs, e de pouca importância para grandes projectos europeus (isto é, do eixo Paris-Berlim). A russofobia regressa precisamente porque agora o centro da Europa parece ter-se deslocado para a Ucrânia, a Europa Oriental e os países bálticos.

Em minha opinião, a maior ameaça para a Europa decorre da sua incapacidade de se aproximar da Ucrânia, distanciando-se de Zelensky. Trump tentou mostrar aos europeus que Zelensky era parte do problema, e não da solução. Os líderes europeus, dando provas da sua indigência política, fazem vista grossa dos partidos democráticos proibidos, da censura, dos democratas presos na Ucrânia e da forte presença nazi no exército ucraniano. Ao entronizar um presidente de credenciais democráticas duvidosas, praticam “regime change” ao contrário, fazendo tudo para que não surjam outros líderes na Ucrânia que, em eleições livres e justas e não dominadas pela paranoia russofóbica, reconstruam o país e façam prosperar a democracia. O povo mártir da Ucrânia merece isso e muito mais.

Que futuro para a Europa?

Até à guerra da Ucrânia, a Europa parecia um oásis num mundo em convulsão. Para quem a observava de fora, a Europa juntava três características difíceis de reunir em qualquer outra parte do mundo: liberdade individual (democracia considerada robusta), solidariedade social, e paz. Para quem vivia na Europa, essas características eram em parte verdade e em parte ficção. As desigualdades sociais aumentavam; Bruxelas era mais uma comunidade de lobistas e burocratas escandalosamente bem pagos do que de democratas focados nos interesses dos cidadãos; a xenofobia crescia, como causa e consequência da polarização vinda da extrema-direita em ascensão.

Um mal-estar estava instalado depois de trinta anos de crítica alimentada sobretudo pelo neoliberalismo interno e internacional, para quem o Estado de bem-estar era inviável e a privatização das políticas públicas (sobretudo das mais vinculadas ao bem-estar das populações: saúde, educação, sistema de pensões) era a solução. 

A primeira Guerra Mundial fez desaparecer quatro impérios, três dos quais europeus (russo, alemão, austro-húngaro e otomano); a Segunda Guerra Mundial fez sucumbir o império japonês, emergir o império soviético e consolidar o império norte-americano, enquanto os impérios europeus agonizavam no Sul global (onde incluo as Caraíbas). Só para mencionar os casos mais salientes, o império holandês, na Indonésia, o inglês, na Índia, o francês, na Argélia e nos países do Sahel, e o português, na África sub-sahariana. Subrepticiamente reemergia um velho-novo império, a China.

A Europa está fora do jogo inter-imperial e decidiu tragicamente optar pela política perdedora, quer ante o império norte-americano, quer ante o império chinês. Enquanto as ex-colónias europeias aprenderam a tirar vantagens das rivalidades inter-imperiais, a Europa, de tão viciada pela memória do seu passado imperial, recusa-se a aprender com as suas ex-colónias, e prefere um não lugar, uma espécie de subcontinente sem abrigo. Tal como as populações sem abrigo, estará sujeita a todas as intempéries. 

Fonte aqui.