A Internet, uma nova religião

(António Guerreiro, in Público, 19/01/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

Evgeny Morozov é o autor de um bestseller publicado em 2013, nos Estados Unidos, intitulado To Save Everything, Click Here. Este especialista das implicações políticas e sociais da tecnologia nasceu na Bielorrússia, viveu em Berlim e instalou-se depois nos Estados Unidos. Morozov é um crítico, com muito humor, da tecno-utopia e denuncia no seu livro aquilo que ele classifica como uma “ideologia” com duas feições complementares: uma é o “Internet-centrismo” e outra é o “solucionismo”. A primeira consiste na visão da Internet como um credo para a vida, uma filosofia da existência em que até se perde de vista que se trata de uma ferramenta criada por seres humanos falíveis; a segunda consiste na ideia de que a Internet fornece soluções para tudo e promete o melhoramento incessante. Nesta visão que faz da Internet um centro absoluto, é como se ela, que nasceu há tão pouco tempo, já estivesse fora da história, elevada à condição de um deus supremo. Partindo de um prudente e racional tecno-cepticismo (que não se confunde com uma atitude passadista e reaccionária), Morozov critica a ideologia da transparência e a busca compulsiva da certeza e da perfeição, ao mesmo tempo que nos adverte de que devemos desconfiar das “soluções” com as quais os “problemas” são identificados, já que a faculdade suprema da Internet é a de inventar  os problemas que ela parece resolver. Os promotores da “ideologia” analisada por Morozov projectam na Internet certos valores que eles imaginam que são como uma “natureza” própria dela – valores intrínsecos, em suma, e imperativos de eficiência. Para a ideologia do “Internet-centrismo” o conhecimento é criado através da recolha de dados e da análise algorítmica; e a quantificação minuciosa da existência é o caminho para a autoconsciência. Os médicos são provavelmente a classe profissional que mais se confronta com os malefícios e perigos desta “ideologia”: os doentes chegam à consulta já com o diagnóstico feito, bastou ir à Internet e fazer uma busca pelos sintomas.

Podemos mesmo deduzir desta nova forma cumulativa de conhecimento uma concepção da história que não anda longe de um certo hegelianismo. Deste modo, Silicon Valley, que é o lugar sagrado para onde se voltam, nas suas orações, os devotos do credo de que fala Morozov, pode ser visto como o lugar de realização do Espírito Absoluto, na época em que ele se realiza sob a forma de sociedades tecnológicas. Silicon Valley integra actualmente as cinco empresas mais rentáveis do mundo. E conseguiu este milagre, do qual também fala Morozov: enquanto Wall Street se tonou um alvo do descontentamento público dos cidadãos, símbolo da corrupção institucional e sinónimo de práticas de exploração desenfreada, Silicon Valey é uma verdadeira indústria “Teflon”, essa matéria plástica que repele tudo: por muito grande que seja a quantidade de porcaria que lhe seja lançada, nada lhe fica colado à pele. Os patrões destas empresas têm uma imagem pública que hesita entre dois pólos: são anarcas e heterodoxos ou os máximos representantes da nova ordem? São filantropos ou máquinas tão poderosas de absorção que estão para além de todos os fins que possamos conceber para a riqueza e tornaram-se a medida do incalculável e exemplos do sublime matemático?

A verdade é que as empresas de tecnologia funcionam cada vez mais segundo o modelo do tecno-populismo (do qual, a chamada “economia da partilha” é um exemplo eloquente): apresentam-se como puras e virgens, cultivam uma imagem de benfeitoras. E até se dão ao luxo de nos convencer que têm um efeito de “disrupção” (como se diz hoje) do capitalismo mundial.

 

François Chesnais e os impasses do capitalismo

(Tradução por Eleutério F. S. Prado, in Blog Outras Palavras, 16/01/2018)

O sistema emparedou a si mesmo ao esgotar o planeta, eliminar trabalho em massa e financeirizar-se. “Solução” tem sido exploração inédita, ataque aos direitos, corrosão da democracia. Reagiremos a tempo?

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É preciso começar pelo fim. François Chesnais escreveu em novembro de 2017 uma série de três pequenos artigos para o portal A l’encontreem que atualiza a sua compressão dos impasses atuais do capitalismo globalizado. Na última sentença do terceiro artigo, cita com aprovação uma frase de um filósofo francês muito conhecido por seus trabalhos seminais em sociologia da ciência: “numa perspectiva diferente, compartilho o julgamento de Bruno Latour segundo o qual as classes dominantes já não pretendem governar, mas apenas se protegerem do mundo”. Pois, diante das perspectivas para manter o modo de vida dominante, chegaram à conclusão paradoxal – e que permanece amplamente tácita – de que “não há mais lugar na terra para eles e para o resto dos habitantes do mundo”.

Nessa visão, pois, a classe dominante está assustada com o presente e sem esperanças em relação ao futuro.

Os três artigos, em última análise, procuram encontrar os fundamentos econômicos dessa percepção. Ainda que more reconditamente na subjetividade social das classes dominantes nos países capitalistas em geral, ela se revela, por exemplo, no comportamento amalucado de um governante como Donald Trump. Mas não só na cabeça atual do imperialismo norte-americano. Revela-se também na atuação política da direita fascista que, com diferenças locais, brota e cresce agora em muitos países do mundo sejam eles do centro ou da periferia. Ainda que ela possa, sim, produzir também enormes desastres humanitários, deve-se observar que essa direita aparece no cenário político contemporâneo como uma nova farsa – não oferece qualquer futuro digno para as mulheres e para os homens, apenas a violência que procura manter ainda o que já está em processo acelerado de decomposição.

Os três artigos são muito técnicos, mas traduções para o português podem ser encontradas no sítio Economia e Complexidadeparte 1parte 2parte 3. Aqui se apresenta um resumo desse material que pretende colher as suas principais teses de um modo acessível para aqueles que não são nem economistas nem críticos da economia política. Antes desses três textos, ele escreveu em fevereiro de 2017, ainda no A l’encontre, um artigo inicial que suscitou muitas controvérsias e mesmo críticas fortes. Pois, a sua tese central afirmava peremptoriamente que o capitalismo encontrara agora dois limites intransponíveis:

No livro III de O Capital, Marx afirma que “a produção capitalista tende constantemente a exceder os limites que lhe são imanentes, mas só o consegue fazer utilizando meios, que, mais uma vez, e agora em escala maior, recolocam depois perante si essas mesmas barreiras”. A questão posta é a de saber se a produção capitalista está agora se confrontando com barreiras que ela não pode mais ultrapassar, nem mesmo temporariamente. Estaríamos em presença de duas formas de limites intransponíveis, com implicações muito fortes para a reprodução do capital e a gestão da ordem burguesa, sobretudo para a vida civilizada. Uma delas, decorrente dos efeitos da automação, remonta ao século XIX e tem um caráter imanente, interno ao movimento do capital, sobre o qual Marx insistiu fortemente. A outra, decorrente da destruição pela produção capitalista dos equilíbrios ecossistêmicos, particularmente da biosfera, não foi prevista por Marx e foi inicialmente definida como um limite externo.

Ora, a tese de que o capitalismo encontrou agora um limite interno insuperável sofreu críticas porque não tem apoio nem nas estatísticas nem nos textos de Marx. Na verdade, parece reeditar um velho argumento determinista, segundo o qual o desenvolvimento do capitalismo termina necessariamente num colapso. Assim posta, entretanto, ela contraria a dialética do desenvolvimento da relação de capital. Entretanto, como se verá em sequência, também é possível encontrar em seus textos uma tese alternativa e esta, sim, tem boa procedência. E, diante dela, a figura de tal “limite intransponível” vai aparecer ao final – mesmo sendo um erro em sentido estrito – apenas como exagero, como ênfase retórica.

Na verdade, quando se lê o conjunto dos artigos, vê-se que Chesnais apresenta duas barreiras internas e um limite externo para o desenvolvimento atual do modo de produção capitalista. Note-se, porém, que barreiras são limites, mas não limites intransponíveis. Assim compreendidas, então de acordo com a lógica de evolução do capital com sujeito automático do capitalismo. Como ele mesmo lembra, Marx escrevera no Livro III de O capital que “a produção capitalista tende constantemente a superar os limites que lhes são imanentes, porém consegue isso apenas em virtude de meios que voltam a elevar diante dela esses mesmos limites, em escala mais formidável”.  E isto se vale apenas para os limites internos, os quais são transformados em barreiras pelo “sujeito” capital que sempre atua, na verdade, por meio da vontade e do tino dos capitalistas e dos agentes do Estado.

Para compreender a questão, é preciso começar dizendo que o capitalismo não pode sobreviver de modo sadio senão elevando a massa de mais-valor (M) que é gerada nos processos de produção de mercadorias reais sob o comando da relação de capital. E essa massa (M) é algebricamente igual à razão do mais-valor por unidade de produção (M/P) multiplicada pelo próprio volume de produção (V) (ver quadro).

quadro

Note-se, então, que a elevação da força produtiva, isto é, o aumento da produtividade do trabalho – uma característica intrínseca e crucial desse modo de produção –, tende constantemente a reduzir a massa de mais-valor por unidade de produção. E isso tende a ocorrer no longo prazo mesmo se aumenta a razão entre o mais-valor e o valor adicionado. Resulta daí que o capitalismo está sempre sabotando a sua própria saúde de explorador bem-sucedido. Portanto, para que essa massa aumente constantemente e para que ele permaneça são e salvo, é preciso que o volume de produção se eleve sem cessar, numa taxa superior à taxa de redução da razão mencionada.

Ora, a elevação do volume de produção depende da taxa de lucro prospectiva e, assim, da capacidade do próprio capitalismo de gerar demanda efetiva por meio do investimento. Porém, essa taxa de lucro também tende a cair no longo prazo com o progresso das forças produtivas, ou seja, com o próprio processo de acumulação. Como se sabe, o aumento da produtividade eleva o capital constante (capital investido em máquinas, instalações, materiais primas) em relação ao capital variável (capital investido na contratação de trabalhadores) e isto tende a reduzir a taxa de lucro. Como também se sabe, há também tendências contrariantes que impedem essa queda no curto prazo, mas não no longo em princípio.

Essas relações têm enorme importância na história real do capitalismo. E elas, por isso, estão subjacentes aos argumentos aqui examinados. Contudo, é preciso ir por partes.

Considere-se agora, em primeiro lugar, o limite externo tal como indicado pelo autor. Ele advém da deterioração progressiva, atualmente acelerada, das condições ambientais ou ecossistêmicas da atividade humana no planeta. Como ficou claro no parágrafo anterior, o capitalismo, para sobreviver, precisa expandir constantemente o volume da produção e, para tanto, ele tem de explorar sem cessar e imensamente a natureza. Ocorre que essa expansão, como indicam os inúmeros estudos ecológicos, está atingindo ou mesmo já atingiu a capacidade de carregamento do planeta Terra.

Como se sabe, essa capacidade tem sido ampliada rapidamente desde o último quartel do século XVIII pelas fantásticas conquistas da ciência e da tecnologia. Porém, há inúmeros indícios, tais como o aquecimento global, a acidificação dos oceanos, a poluição ambiental, a destruição das espécies, etc., indicando que a natureza não está mais disposta a suportar os desatinos da civilização humana. Em consequência, ou certas atividades extrativas de recursos da natureza se tornam impossíveis ou os seus custos fixos tendem a se tornar extraordinários. Eis como o próprio autor aqui discutido explica a emergência dessa limitação:

Marx escreveu que “o capital, enquanto representa a forma universal da riqueza – o dinheiro – é a tendência ilimitada e incomensurável a superar os seus próprios limites. Caso contrário, deixaria de ser capital (…)”. Deve, portanto, extrair sem limites, nas reservas terrestres de matérias-primas, os recursos do solo e do subsolo, até que em algum momento começa a minar de forma cada vez mais séria a biosfera e os ecossistemas. A exploração ilimitada da força de trabalho comprada vai junto com a exploração sem limites, até ao esgotamento, dos recursos naturais. Ora, essa tendência, a partir de meados do século XX, tem se realizado por modos de produzir e de consumir que causam um crescimento exponencial (…) devorador de recursos dificilmente renováveis e altamente emissor de gases com efeito estufa.

Além desse limite externo que hoje não parece assustar apenas os ignorantes e os celerados da produção sem limites, os textos aqui examinados mencionam ainda duas poderosas barreiras à expansão do capitalismo no seu estágio atual de desenvolvimento.

A primeira delas advém da terceira revolução tecnológica (isto é, da informática e da comunicação), assim como da quarta (ou seja, da impressão 3D, da robotização). Segundo Chesnais, com elas, estão sendo introduzidas nos processos de produção tecnologias “drasticamente poupadoras de trabalho”. Ademais, isto está acontecendo num momento em que o capitalismo deixou de ter “o planeta inteiro para conquistar”. Assim, com o advento em sequência dessas duas revoluções tecnológicas, a razão do mais-valor por unidade de produção tende a cair fortemente sem que tal queda possa mais, supostamente, ser compensada pelo aumento do volume de produção.

Em resumo, com adventos das novas tecnológicas, a massa de mais-valor passa a cair e o capitalismo entra supostamente em declínio. A classe dominante enxerga essa possibilidade como mera destruição de empregos, como substituição de trabalhadores por robôs – não como algo que mina a sua própria riqueza.

Se isto ocorrer, apenas acentuará uma tendência que já se manifesta contemporaneamente: a emergência de tal limite não significará, como convém o próprio Chesnais, “o fim da dominação política e social da burguesia, menos ainda a sua morte, mas abrirá a perspectiva de que ela conduza a humanidade para a barbárie”. Assim, fica claro que não existe outro limite decisivo ao capitalismo – ainda não mencionado aqui – do que a ação política de todos aqueles que ele esfola e oprime, principalmente dos trabalhadores que, por impulso próprio, podem se organizar livremente para conseguir a própria libertação.

Uma outra barreira econômica, como já se indicou, é mencionada nos escritos aqui resenhados. Em decorrência da grande crise dos anos 1970, os estados capitalistas mais importantes, em particular os Estados Unidos, por meio de desregulações, desencadearam aquilo que ficou conhecido como o processo de financeirização do capitalismo. A onda de mundialização do capital decorrente foi um processo amplo que trouxe várias transformações importantes seja na esfera da produção de mercadorias seja na esfera do comércio nacional e internacional. Contudo, as transformações financeiras se mostraram como as mais decisivas para a reconfiguração do modo de produção.

Chesnais entende que a financeirização deve ser compreendida como a ascensão do capital portador de juros ao comando da acumulação.  “O capital como propriedade” – segundo ele – “invadiu os poros do capital como função”. Mais do que isso, ele afetou não apenas “a produção e a gestão industrial, mas invadiu toda a vida social”. O crescimento dos ativos financeiros – as ações, títulos privados, títulos públicos e depósitos bancários – cresceu espetacularmente durante as últimas três ou quatro décadas. Se o seu montante, em porcentagem, equivalia ao PIB mundial em 1990, agora, ele corresponde a cerca de 300 por cento dele. É, pois, essa enormidade que se levanta agora como uma barreira ao desenvolvimento do capitalismo.

Pois, em consequência dela, os direitos de extração de renda cresceram e continuam crescendo bem mais rápido do que a produção da renda, isto é, a geração de valor. Estes ativos são capitais fictícios, isto é, dão direito a rendimentos na forma de juros principalmente, mas não têm valor e não comandam eles próprios a produção de qualquer valor – ainda que assim pareça para os seus proprietários. Trata-se, porém, de uma ilusão. Eis que a geração de valor e de mais-valor se dá apenas na esfera do capital industrial. A valorização dos capitais fictícios apenas pode ser mantida porque ela também se dá em parte ficticiamente, por meio da simples rolagem das dívidas – algo que se revela no crescimento vegetativo dos ativos financeiros.

Por isso, concordando agora com os críticos, ele escreve: nas últimas décadas, “se houve um aumento do volume de mais-valor, isto não significa que ocorreu um aumento dele em relação ao capital acumulado. A característica saliente do momento atual do capitalismo é uma inadequação crônica desse volume relativamente à massa de direitos de extração de renda”.

Ora, como o capitalismo pode enfrentar essa barreira que ele mesmo pôs para si mesmo? Das duas, grosso modo, uma: ou ocorre uma destruição de capital real e fictício para exterminar o peso das dívidas e para restaurar a lucratividade do capital industrial ou se eleva cada vez mais a taxa de exploração. A primeira alternativa só acontecerá por erro ou inevitabilidade; se sobrevir, ocorrerá por meio de um grande dominó de quebras sucessivas. Como o capitalismo contemporâneo é de fato capitalismo de Estado, essa possibilidade tem sido evitada de todos os modos possíveis, em particular por meio do salvamento dos grandes bancos e grandes empresas. Eis que geraria uma ruptura imensa, uma depressão profunda, com consequências devastadoras para a sobrevivência do sistema.

Assim, apenas a segunda alternativa tem sido posta em prática por meio do neoliberalismo, por meio da “doutrina do choque” (Naomi Klein), por meio da mentira sistemática. Busca-se por todos as maneiras por nas costas dos trabalhadores em geral o peso de uma restauração improvável da saúde do sistema. Em consequência, todas as conquistas dos trabalhadores ao longo do século XX estão sendo, pouco a pouco, espantosamente, destruídas no centro e na periferia… E, com elas, todas as esperanças na socialdemocracia… mesmo se isto produz, como também observou agudamente Bruno Latour, uma desagregação cada vez maior das sociedades.

De qualquer modo, uma frase que se encontra no começo do primeiro artigo parece adequada para encerrar esta nota. Tudo isso em conjunto, segundo Chesnais, propõe um desafio: é preciso “que aqueles e aquelas que são explorados pela burguesia, ou que não estejam a ela vinculados, encontrem maneiras de se libertarem desse curso mortífero”.


Fonte aqui

DETOX DIGITAL 

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 23/12/2017)

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Clara Ferreira Alves

 

(Nota: Quando a Dona Clara não escreve sobre política nacional costuma acertar. É o caso. Estátua de Sal, 23/12/2017)


Quando nos asseguram que a tecnologia é amiga da humanidade não sabem o que dizem. Nem toda a tecnologia é “amiga da humanidade”. A tecnologia é neutra. E gananciosa e monopolista

O barco aproximava-se de Delos, uma das ilhas Cíclades no Mar Egeu. O sol prateava o mar azul da Grécia e o barco tinha poucos passageiros. O país estava no apogeu da tragédia humanitária durante a austeridade, composta pela instabilidade política. Delos, o lugar do santuário de Apolo, cerca de 3,5 quilómetros quadrados de esplendor da Antiguidade, estava entregue à secura das silvas e aos lagartos, víboras e insetos que planavam sobre o rosto das estátuas desfiguradas pelo tempo. E às aves marinhas que cirandavam livres de humanos. O museu estava meio fechado, não havia guias nem turistas. Era o tempo perfeito para apreciar Delos. Para admirar a harmonia clássica do berço de Apolo e Artemis, da sede da Liga de Delos. É um lugar mitológico e arqueológico sem paralelo. Uma pequena ilha que pela sua importância comercial e política se tornou um depósito de tesouros e edifícios. O barco atracou. Além de mim, um grupo de jovens chineses, mais raparigas do que rapazes. Bem vestidos. Durante a viagem entre Mykonos e a ilha nunca olharam o céu ou o mar. Estavam afocinhados nos telemóveis trocando mensagens com o polegar oponível. Desembarcámos. Olharam em volta com enorme indiferença, maçados por não haver guias, e continuaram afocinhados nos telemóveis. Por curiosidade, andei com eles durante uns minutos, até perceber que não tencionavam conhecer Delos. Foram até ao majestoso Terraço dos Leões, tiraram umas fotografias deles com os telemóveis. Não foram à casa do Tridente, ou à de Dionysos, à dos Golfinhos ou à das Máscaras, à de Cleópatra ou à do Lago. Não viram o Teatro, a Ágora dos Italianos, a Via Sagrada ou o Templo de Ísis. Não contemplaram os mosaicos. Ficaram no embarcadouro, à espera do barco da volta, ensimesmados. Desistiram de saber fosse o que fosse sobre Delos. Consegui a abertura do museu, por um encarregado que não recebia salário do Ministério da Cultura há meses. No embarcadouro, os chineses pastavam à minha espera, irritados. Afocinhados nos telemóveis. Na viagem de volta, repetiram as mensagens com polegares oponíveis e tiraram selfies e mais fotografias uns aos outros.

Sabe-se que existem na China centros de desintoxicação digital. Os jovens viciados em ecrãs de computador e videojogos, sobrecarregados por horas e horas de saturação digital com prejuízo da vida e saúde, são coagidos a frequentar campos de concentração onde são sujeitos a privação. O sofrimento da privação é, consta, pior do que o da toxicodependência e as tentativas de suicídio são normais. Na prática, esta gente desistiu de viver fora do mundo real e apenas se relaciona de modo virtual. O modelo chinês de desintoxicação não se caracteriza pela subtileza ou a compaixão e os internados comportam-se, ou são obrigados a comportarem-se, como prisioneiros de um gulag. O problema consiste em retirá-los para sempre do vício porque, uma vez libertados, a solicitação digital é omnipresente e não proibida e regressam à dependência. Esta gente desistiu de viver, simplesmente. Limitam-se às relações desumanizadas pela tecnologia.

Se pensam que estamos a salvo disto no nosso belo mundo europeu, esqueçam. Basta olhar em volta e ver como as pessoas estão umas com as outras nos cafés e restaurantes. Cada um olha para o seu telemóvel e só interage com o outro para mostrar algo no ecrã. O meio é a mensagem e a perversão que isto introduz nas relações humanas é absoluta. Não se trata apenas da selfie e do post, é um mundo mediatizado através da informação que escorre da maquineta. Quando nos asseguram que a tecnologia é amiga da humanidade não sabem o que dizem. Nem toda a tecnologia é “amiga da humanidade”. A tecnologia é neutra. E gananciosa e monopolista. Do mesmo modo que os cigarros, nos anos 50, eram considerados símbolos de promoção social e excelentes tónicos físicos e psicológicos, um dia ficaremos a conhecer os danos da luz azul e da tecnologia digital para os nossos cérebros. Que o algoritmo da Google está a destruir a memória humana e a tornar-nos mais estúpidos não tenho dúvidas. Stupid people com smartphones. Há dados científicos que o provam. E que os telemóveis estão concebidos para provocar a dependência extrema nos súbditos, também não tenho dúvidas. Tal como a nicotina e as drogas foram dissimuladas nos cigarros para promoveram o vício secretamente, um truque das tabaqueiras que só veio a ser descoberto dezenas de anos mais tarde através de um denunciante, um dia viremos a concluir que a intoxicação tecnológica está a dar cabo da nossa fisiologia e da nossa humanidade. E da filosofia a que chamamos, bem ou mal, humanista, e que é antropocêntrica. E teremos centros de rehab tecnológica.

Aquele grupinho de jovens chineses, herdeiros de uma elite endinheirada que lhes paga viagens à Europa e que lhes compra malinhas Chanel e Gucci, conseguiu olhar para o esplendor de Delos sem nada ver. Ou compreender.

Se é este o admirável mundo do futuro, dirigido por quem não sabe distinguir Apolo da Apple, prefiro ficar no passado. Nos livros de papel, nas estátuas de pedra, nas telas a óleo, nas partituras clássicas.

Os novos bárbaros estão no meio de Roma.