Como a Síria foi destruída e o que vem por aí

(Raphael Machado in Twitter, 08/12/2024)


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Turquia, Israel e EUA deram um golpe de mestre e infligiram uma derrota estratégica à Síria, à Rússia e ao Irão no Oriente Médio, basicamente transformando a Síria em uma Líbia.

Para entender como isso foi possível, sem se demorar muito no histórico de mais de uma década de conflito, é necessário recordar que a guerra internacional contra a Síria (que nunca foi uma guerra civil) começou a partir da Primavera Árabe, em que ONGs financiadas pelo Ocidente agitaram parte da população contra o governo e, em coordenação, grupos salafistas foram discretamente armados e financiados pelo Catar, pela Arábia Saudita e pela Turquia.

Assad então começou uma guerra sangrenta contra, simultaneamente, mais de três dúzias de diferentes grupos terroristas e separatistas pipocando em diferentes partes do país, com as piores situações do outro lado do rio Eufrates com os curdos, no noroeste da Síria nos arredores de Idlib com forças salafistas apoiadas pela Turquia, eventualmente o ISIS no deserto perto do Iraque, druzos perto de Golã apoiados por Israel, e milícias salafistas apoiadas pelos EUA no sudeste, na fronteira com o Iraque.

Inevitavelmente, em poucos anos essas forças terroristas e separatistas chegaram a se apossar de 70% da Síria, até que Bashar Al-Assad, a contragosto, pediu ajuda à Rússia e ao Irão.

Com o apoio do Hezbollah, das milícias iraquianas, das Forças Quds do Irão, lideradas pelo General Qassem Soleimani, do Grupo Wagner e da Força Aérea da Federação Russa, Assad, que do contrário inevitavelmente seria derrotado, conseguiu recuperar o controle de aproximadamente 70-75% do país.

Para o Irão, a Síria era fundamental no projeto do Eixo da Resistência que levava do Irão ao Líbano e permitia ao Irão se projetar como um dos polos no mundo multipolar, eixo ao redor do qual se organizaria um Grande Espaço Imperial.

Para a Rússia, a Síria era fundamental por seu papel na garantia logística da Marinha Russa bem como parte de um cordão de segurança do Rimland meridional eurasiático.

E na medida em que Assad, graças aos russos, aos iranianos e aos libaneses, recuperou o controle da maior parte do país, iniciou-se a costura diplomática para reconciliar alguns setores rebeldes com o governo central, começando pelos rebeldes dos arredores de Daraa, os curdos e até mesmo os rebeldes de Idlib.

Esses diálogos, que se consolidaram nos Acordos de Astana, apontavam para uma nova federalização da Síria, uma nova Constituição, e uma série de outras modificações consensuais a serem implementadas no país. Os Acordos de Astana tinham como fiadores principalmente a Turquia, a Rússia e o Irão.

Mas enquanto Rússia e Irão levaram esses acordos a sério, a Turquia (e outros atores internacionais) usaram os Acordos de Astana como o Ocidente usou os Acordos de Minsk. Se os Acordos de Minsk foram usados para armar e treinar as Forças Armadas Ucranianas para uma invasão do Donbass – impedida pelo ataque preventivo russo da operação militar especial russa – os Acordos de Astana foram usados para armar e treinar o Tahrir al-Sham e o Exército Nacional Sírio e para coordenar a vitória na Síria.

Nessa operação atuaram instrutores ucranianos especializados em drones, suporte logístico e financeiro turco, as forças de inteligência e de ciberguerra de Israel, além do suporte de inteligência dos EUA. Mas nada disso explica a derrota de Assad.

A realidade é que a chave da vitória sobre a Síria se deu, basicamente, pelo suborno de vários generais sírios. Foi tão simples quanto isso. A Síria foi “derrotada” em 10 dias porque não houve qualquer batalha, apenas algumas escaramuças. Enquanto a Rússia bombardeava diariamente as posições terroristas, matando uns poucos milhares de salafistas, e os instrutores iranianos exigiam que os sírios ficassem e lutassem, o Exército Árabe Sírio simplesmente usava a artilharia enquanto recuava, em uma entrega ordeira e planificada do território do país.

Na prática, para que se veja o ridículo da situação, os russos provavelmente mataram mais salafistas do que os próprios sírios, apesar do país pertencer aos sírios e não aos russos.

A traição dos generais sírios é fácil de entender considerando os efeitos de mais de 10 anos de sanções acachapantes. O Exército Sírio é pago valores irrisórios porque o Estado praticamente não tinha dinheiro para manter os militares. Ademais, esses generais (e talvez outros elementos da elite síria) consideravam que Assad e seu governo quase monopolizado por alauítas representava um obstáculo para seus próprios projetos de poder.

Aqui, é claro, entrarão os agentes da Embaixada da França para dizer que a culpa é da Rússia (alguns dIrãoo que é do Irão também). As acusações são absurdas.

Sem a Rússia, Assad teria caído em 2015. A Rússia, ademais, tem bombardeado os terroristas diariamente, sem parar, há 10 dias e matou bem mais terroristas nos últimos 10 dias do que os sírios se dispuseram a fazer. A Rússia não ganha absolutamente nada com a queda de Assad e, naturalmente, não teria motivo algum para arriscar as suas bases e posições no litoral. Ao contrário, a Rússia sofreu na Síria uma derrota estratégica.

As pessoas que exigem histericamente que a Rússia deveria salvar a Síria de si mesma são, simplesmente, propagandistas russofóbicos. A Rússia não tinha como lutar pela Síria no lugar dos próprios sírios. Foi o mesmo com o Nagorno-Karabakh. O governo armênio se recusou a enviar tropas e lutar pelo território, para depois culpar a Rússia pela invasão do Azerbaijão. O único erro da Rússia foi o de repetir o falido modelo dos Acordos de Minsk com a Síria.

O mesmo vale com o Irão. Autoridades iranianas declararam que jamais abandonariam ou trairiam o Irão e anunciaram ontem que enviariam tropas, drones, munição e veículos para ajudar a defender a Síria. Mas não existe muito que o Irão pudesse fazer se a Síria se recusou a se defender e caiu em 10 dias. Não existe “força expedicionária” que pudesse ser preparada e enviada para a Síria em menos de 1 mês.

Ademais, é necessário analisar o fato de que Assad só pediu ajuda à Rússia e ao Irão a contragosto. Ademais, as elites sírias sempre pressionaram para manter a presença estrangeira em um nível mínimo, praticamente forçaram a maior parte dos russos e iranianos a saírem do país após a “vitória” sobre o ISIS e, especificamente em relação aos iranianos, os proibiram de montar bases em seu território.

No delírio patrioteiro burguês, as elites políticas e militares sírias acreditaram no mito da sua própria autossuficiência, quando todos sabiam que eles só conseguiram sobreviver graças à ajuda estrangeira. Nesse sentido, o pequeno-nacionalismo sírio contribuiu para pavimentar a queda do governo Assad ao recusar a integração da Síria em um projeto geopolítico multipolarista mais amplo, o que exigiria ampla presença russa e iraniana no país.

Nesse sentido, Turquia, Israel e EUA planejaram o golpe contra a Síria no melhor momento possível.

A Rússia está ocupada com a Ucrânia e poupando tropas pelo alto risco de uma guerra em larga escala contra a OTAN eclodir a qualquer momento. Ademais, a Rússia estava com efetivo reduzido no país, por causa tanto do conflito ucraniano quanto por causa da pressão síria por sua saída.

O Irão, por sua vez, está em alerta total para o confronto com Israel, além de possuir um presidente conciliador e ser mais rechaçado pelas elites sírias até do que a Rússia.

O Hezbollah, por sua vez, estava engajado em um duro conflito com Israel, e apesar de ter vencido o conflito sofreu perdas materiais e humanas importantes.

Não haveria momento melhor do que esse para atacar.

Para a Turquia, alimenta-se a ilusão geopolítica de um insustentável neo-otomanismo, único triunfo que Erdogan pode apresentar até agora.

Para Israel, é a desculpa perfeita para implementar o Plano Oded Yinon na Síria, utilizando a desintegração da Síria como desculpa para penetrar o território vizinho e anexar mais um pedaço dele.

Agora, se engana quem acredita que a Questão Síria acabou. Ao contrário, é o começo de uma nova fase de caos.

Manter um Estado unificado com todas essas várias facções terroristas e separatistas é praticamente impossível. Assad era o “inimigo” que permitia unificá-los em uma causa comum, mas agora Assad não é mais o Chefe da República Árabe da Síria.

O mais provável é alguma desintegração – mesmo que apenas de facto – do território sírio. As últimas informações indicam que alauitas e cristãos, que compõem parte considerável das forças militares sírias mais dispostas a resistir, não querem mais lutar por sunitas ingratos aparentemente ansiosos por serem governados pelo ISIS. Quanto aos curdos, será impossível reconciliá-los com as facções terroristas apoiadas pela Turquia.

Vários outros grupos terroristas possuem desavenças sérias e ocasionalmente violentas entre si. Os terroristas vindos da Chechênia e da Ásia Central, por exemplo, estão na Síria para decapitar e traficar mulheres, e não estão muito interessados no discurso à-lá Zelensky de Al-Julani

A libianização da Síria será um evento trágico que impulsionará novas ondas de refugiados para todo o mundo, mas a transformação do eixo Latakia-Tartus em uma fortaleza alauíta-cristã parece a única maneira de reduzir os danos desse colapso e de fazer perdurar uma semente de um Estado sírio funcional. Se essa estrutura estaria sob o governo de Assad é incerto, já que o próprio destino de Assad é, ainda, incerto.

Enfim, a Síria travou uma guerra mundial por 13 anos, resistindo como pilar civilizacional no meio de marés de caos, contra tudo e contra todos, até um momento em que, por traição interna, resistir tornou-se impossível.

Fonte aqui

Contextualizando o conflito da Síria: a realidade no terreno exige a decisões difíceis

(Brian Berletic in Telegram New Atlas Channel, 08/12/2024, Trad. Estátua)


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O que está a acontecer na Síria é uma grande perda para o povo sírio e os seus aliados, incluindo a Rússia e o Irão e, em última análise, para a China e o resto do mundo multipolar.

É um lembrete de que os EUA e os seus representantes continuam a ser a maior ameaça à paz e à prosperidade humanas no planeta Terra de hoje – um enorme perigo que não deve ser subestimado.

Os EUA não só mantiveram um grande exército de terroristas ao longo de todas as fronteiras da Síria, como também mantiveram um controlo significativo sobre o espaço de informação global, envenenando regiões inteiras do planeta contra os seus próprios interesses.

Embora a indústria e o poder militar dos EUA estejam a colapsar, o país ainda mantém a sua capacidade de interferir politicamente e capturar populações inteiras – não através de qualquer força específica, mas devido a uma falta fundamental de ação por parte do resto do mundo no reconhecimento do espaço da informação como a chave para a segurança nacional no século XXI.

Ainda hoje, a maior parte do mundo cedeu o seu espaço de informação ao Silicon Valley e ao Departamento de Estado dos EUA. Por muitos tanques que se tenha, se os Estados Unidos conseguirem convencer a população a não os utilizar ou a apontar as armas na direção oposta, perde-se na mesma.

Uma batalha no meio de uma guerra mais vasta

É também importante lembrar que esta é apenas uma batalha no meio de uma guerra muito maior e mais crítica entre a hegemonia dos EUA e a multipolaridade. Nenhuma batalha é mais importante do que o resultado da guerra. Se a Rússia tiver de escolher entre a Ucrânia e a Síria, terá claramente de escolher a Ucrânia.

Estes acontecimentos demonstram que a Rússia e o Irão não são “todo-poderosos” e que a complacência é mortal. E, apesar da tragédia que está a ocorrer agora na Síria, vencer a guerra proporciona a possibilidade de um dia restaurar a Síria.

“Alargar a Rússia” (e o Irão e a China)

A Rússia foi obrigada a tomar decisões difíceis. Não está apenas a combater os EUA na Ucrânia – está a combater os EUA ao longo de toda a sua periferia, desde a Europa de Leste até à Ásia Central.

A estratégia dos EUA, tal como está exposta em documentos políticos (literalmente intitulados: Alargar a Rússia”), é “ampliar” a Rússia através da criação de múltiplas crises a que a Rússia é forçada a reagir, e as quais, eventualmente, a sobrecarregarão e a levarão a entrar em colapso. A Rússia deve, pois, escolher cuidadosamente onde se deve comprometer e onde estarão os seus limites. Além disso – o objetivo também é isolar o Irão (o que parece agora provável), depois a Rússia, depois a China – derrotando isoladamente cada um dos líderes do mundo multipolar.

Para aqueles que, em Teerão, Moscovo e Pequim e em todas as outras capitais fora do Ocidente, mentem a si próprios sobre a natureza desta guerra para evitar o desconforto de ter que a enfrentar – o vosso futuro final será o mesmo que o da Síria. Não queiram ter lugar à mesa de quaisquer negociações. Não podeis fazer compromissos. Não podeis ganhar tempo infinitamente. Ou vocês defendem com êxito a vossa nação, em colaboração com os vossos aliados, ou perdem-na.

Irei aprofundar este assunto ao longo da semana, à medida que os acontecimentos forem evoluindo.

Fonte aqui.

O choque de Erdogan em Idlib ofusca “Kursk”

(Alastair Crooke, in S.C.F., 06/12/2024, Trad. de António Gil in Facebook)

Buscar um acordo sobre a Ucrânia é tratar o sintoma e ignorar a cura.


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‘Doomsters’ é uma expressão russa ocasional, usada para categorizar comentadores que só veem o ‘lado negro dos eventos’ (um vício bastante prevalecente durante a era soviética).

Marat Khairullin, um analista militar russo altamente respeitado, diz: “Hoje, uma rede de blogueres de guerra mercenários começou outra rodada de lamentações – desta vez sobre a Síria, onde aparentemente tudo está perdido para a Rússia”.

“Muitos veem os eventos na Síria (e alguns adicionam a Geórgia à mistura) como tentativas de abrir frentes adicionais contra o nosso país. Talvez isso seja verdade. Mas, nesse caso, é mais apropriado traçar paralelos diretos com o ataque imprudente a Kursk, que deixou as forças armadas ucranianas numa posição quase desesperada”.

Khairullin vê a ativação dessa insurgência jihadista na Síria como um ato igualmente “desesperado”. O pano de fundo é que a coligação Síria-Rússia-Irão – através das negociações de Astana – “encurralou os terroristas sírios restantes num enclave de 6.000 quilómetros quadrados. Sem entrar em detalhes, foi um processo que lembra os Acordos de Minsk [ucranianos] – ambos os lados estavam totalmente exaustos e, portanto, concordaram com um cessar-fogo. É importante sublinhar que todos os lados entenderam que se tratava apenas de uma trégua temporária; as contradições eram tão profundas que ninguém esperava que o conflito terminasse”.

Alepo caiu rapidamente nos últimos dias, quando “uma divisão do Exército Nacional Sírio desertou para os islâmicos (leia-se: americanos)”. A deserção foi uma armação. O norte de Alepo foi ocupado pelo Exército Nacional Sírio, totalmente controlado, armado e financiado pela Turquia, que domina o norte de Alepo.

A chave, diz Khairullin, é este ponto crucial: a terra é plana atravessada por poucas estradas:

“ … Quem controla o espaço aéreo controla o país. No ano passado, a Rússia formou uma nova unidade aérea chamada Special Air Corps, supostamente adaptada para operações no exterior. É composta por quatro regimentos de aviação, incluindo um regimento de Su-35s. Atualmente, apenas dois Su-35 estão supervisionando todo o território da Síria. Imagine o impacto quando 24 dessas aeronaves forem implantadas. E a Rússia é totalmente capaz de tal implantação”.

O segundo ponto crucial é que “o Irão e a Rússia se aproximaram. No início da guerra síria, as relações entre os dois eram decididamente “neutras-hostis”. No final de 2024, no entanto, agora vemos uma aliança muito forte. Israel e os EUA, ao violarem os acordos de paz por meio dessa insurreição turca, provocaram uma presença iraniana renovada na Síria: o Irão começou a expandir-se além de suas bases, redistribuindo forças adicionais para o país. Isso dá a Assad e aos seus aliados um pretexto direto para expulsar os representantes americanos e turcos de Alepo e Idlib. Isso não é especulação – é aritmética direta”.

A Síria, no entanto, é um componente-chave para o plano israelita-americano de refazer o  Médio Oriente. A Síria é tanto a linha de abastecimento para o Hezbollah, quanto um centro de resistência ao “Projeto Grande Israel”. Agora que o permanente Estado de Segurança “anglo” apoia sem reservas a ambição de Israel de afirmar a sua hegemonia regional, o Ocidente aprovou a insurreição jihadista de Erdogan contra o presidente Assad.

 O objetivo é separar o Irão dos seus aliados, enfraquecer Assad e preparar-se para o suposto derrube do Irão. Alegadamente, a iniciativa turca foi apressadamente apresentada, para se adequar ao plano de cessar-fogo de Israel.

O ponto de Khairullin é que esse “estratagema” da Síria é semelhante ao “ataque imprudente da Ucrânia a Kursk”, que desviou as forças da elite ucraniana da sitiada linha de contacto e, em seguida, abandonou essas forças, deixando-as numa posição quase desesperadora em Kursk. Em vez de enfraquecer Moscovo (como pretendido), ‘Kursk’ inverteu o objetivo original da NATO – tornando-se uma oportunidade para erradicar uma grande parte das forças de elite da Ucrânia.

Em Idlib, os islâmicos (HTS), escreve Khairullin, “ganharam domínio – impondo um regime wahhabista estrito e infiltrando-se no Exército Nacional Sírio apoiado pela Turquia. Ambos os grupos são organizações de retalhos, com várias fações lutando por dinheiro, travessias de fronteira, drogas e contrabando. Essencialmente, é um caldeirão – não muito eficaz em combate, mas altamente ganancioso”.

“As nossas Forças Aeroespaciais já dizimaram todos os centros de comando (bunkers) de Tahrir al-Sham … e há uma forte probabilidade de que toda a liderança do grupo tenha sido decapitada”, observa Khairullin.

As principais forças do Exército Sírio vão avançando em direção a Alepo; enquanto isso, a Força Aérea Russa vem bombardeando implacavelmente; sua Marinha realizou um grande exercício na costa da Síria em 3 de dezembro com lançamentos de teste de mísseis de cruzeiro hipersónicos e Kalibr; e o Grupo Wagner e as forças iraquianas Hash’ad (forças iraquianas da PM que agora fazem parte do exército iraquiano) vão-se agrupando no terreno em apoio ao Exército Sírio.

Ultimamente, os chefes da inteligência israelita começaram a sentir o cheiro de problemas com essa “iniciativa inteligente” que se encaixa tão exatamente com a pausa de Israel na luta no Líbano; Com a rota de abastecimento da Síria cortada, Israel então – em teoria – estaria em posição de iniciar a “Parte Dois” de sua tentativa de ataque ao Hezbollah.

Mas esperem… O Canal 12 israelita relata a possibilidade de que os eventos na Síria estejam a criar ameaças contra Israel, “um cenário onde Israel seria obrigado a agir”.

Tons de ‘Kursk’ – em vez de o Hezbollah ser enfraquecido, Israel aumenta os seus compromissos militares? Erdogan também pode ter-se enganado com essa aposta. Ele enfureceu Moscovo e Teerão e está a ser criticado em casa por se aliar aos EUA contra os palestinos. Além disso, ele não atraiu nenhum apoio árabe (além de uma ambivalência estudada do Catar).

Sim, Erdogan tem cartas a jogar no relacionamento com Putin (controle do acesso naval ao Mar Negro, turismo e energia), mas a Rússia é uma grande potência em ascensão e pode dar-se ao luxo de jogar duro nas negociações com um Erdogan enfraquecido. O Irão também tem cartas para jogar: “Você, Erdogan, equipou os jihadistas com drones ucranianos; podemos entregar o mesmo ao Partido dos Trabalhadores Curdos”.

No fundo esta é a linguagem belicosa que emerge da Equipa de Trump, alguns dos quais assumem posições duramente agressivas e linha-dura. Esses nomeados por Trump provavelmente emitem sua fanfarronice tanto para projetar uma imagem da força trumpista para o público americano, quanto para projetar um projeto substantivo.

Trump é conhecido por acenar com um grande bastão – e quando ele toca essa música por um tempo, ele desliza por trás, para concluir um acordo. Assim tivemos (de Trump): “Se os reféns não forem libertados antes de 20 de janeiro de 2025, data em que orgulhosamente assumirei o cargo de presidente dos Estados Unidos, haverá TODO UM INFERNO A PAGAR no Médio Oriente”.

No ‘Médio Oriente’? A quem exatamente isso é endereçado? E o que é que isso sugere? (Nenhuma menção aos milhares de detidos e prisioneiros palestinos mantidos por Israel)? Parece mais que Trump bebeu o Kool-Aid israelita: ‘Todos os problemas derivam do Irão’; Israel é o inocente à deriva num mar de malignidade regional.

Os discípulos de Trump acreditam que Trump imporá a sua vontade de alcançar a “calma” no  Médio Oriente – e imporá a Putin o fim da Guerra na Ucrânia. Eles estão convencidos de que Trump pode “fechar um acordo” na forma de uma oferta a Putin que ele não pode recusar. (Pois, “os actuais ‘donos do mundo’ nunca vão deixar a China / Rússia simplesmente entrar, formar o BRICS e assumir a posição de Hegemonia Mundial”).

É um retorno à velha fórmula de Zbig Brzezenski: prometer a Putin a normalização com os EUA (e a Europa) e o alívio total das sanções, e puxar a Rússia de volta para a esfera ocidental – separada de uma China e Irão sitiados (com os BRICS espalhados ao vento sob ameaça de sanções).

No entanto, tal não leva em conta o quanto o mundo fez a transição nos anos seguintes desde ‘Trump One’. A fanfarronice simplesmente não tem o efeito que costumava ter: a América não é o que era; nem é obedecida como antes.

Trump entende essa metamorfose global acelerada (como diz Will Schryver), que “o único acordo a ser feito com a Rússia é concordar com os termos ditados pela Rússia”:

“Isso é o que acontece no mundo real quando se vence uma grande guerra. E não se enganem, nesta guerra, os ucranianos foram massacrados, os EUA / OTAN foram humilhados e os russos emergiram dela indiscutivelmente triunfantes e mais poderosos no cenário mundial do que desde o auge da força soviética décadas atrás”.

Por outras palavras, ‘pau grande; negócio rápido’ pode não responder ao novo mundo de hoje.

Putin, em resposta a um questionador em Astana em 29 de novembro, repetiu uma advertência anterior: “Deixe-me enfatizar o ponto-chave: a essência da nossa proposta [sobre a Ucrânia, apresentada no Ministério das Relações Exteriores da Rússia] não é uma trégua temporária ou um cessar-fogo, como o Ocidente pode preferir – para permitir que o regime de Kiev se recupere, se rearme e se prepare para uma nova ofensiva. Repito: não estamos a discutir o congelamento do conflito, mas sua resolução definitiva”.

O que Putin disse – muito educadamente – ao Ocidente foi isto: Vocês ainda “não entenderam”. Buscar um acordo sobre a Ucrânia é tratar o sintoma e ignorar a cura. O Ocidente tem a sua política invertida, por outras palavras. Putin é claro: uma solução definitiva seria delinear a fronteira entre o “interesse” de segurança atlantista e os interesses de segurança da “Ilha do Mundo” (na terminologia de Mackinder): ou seja, estabelecer a arquitetura de segurança entre o “Heartland e a Rim-land”. Feito isso, a Ucrânia cai naturalmente no seu lugar. Está no final da agenda, não em primeiro lugar.

Um sábio da política externa altamente conceituado, o professor Sergei Karaganov, explica (original apenas em russo):

“Nosso objetivo [russo] é facilitar a retirada incipiente dos EUA, da forma mais pacífica possível, da posição de hegemonia global (que não pode mais pagar) para a posição de uma grande potência normal. E para expulsar a Europa de ser qualquer ator internacional. Deixe refogar nos seus próprios sucos… A conclusão é óbvia. Devemos acabar com a atual fase de conflito militar direto com o Ocidente, mas não com o confronto mais amplo com ele. Trump oferecer-se-á para aliviar a pressão sobre a Rússia (o que ele não pode garantir) em troca de a Rússia se abster de uma aliança estreita com a China. O governo Trump proporá um acordo, alternando ameaças com promessas… mas os EUA já entendem que não podem vencer. Os Estados Unidos continuarão sendo um parceiro não confiável no futuro próximo. A normalização fundamental de nossas relações com os EUA não deve ser esperada na próxima década. As mãos de Trump estão atadas pela russofobia alimentada pelos liberais há anos. A inércia da Guerra Fria ainda é bastante forte, assim como os sentimentos anti russos entre a maioria dos trumpistas“.

“O principal objetivo da guerra atual deve ser a derrota decisiva na Ucrânia do crescente revanchismo da Europa. Esta é uma guerra para evitar a Terceira Guerra Mundial e impedir a restauração do jugo ocidental. A posição negocial inicial é óbvia, foi declarada e não deve ser alterada: o regresso da NATO às suas fronteiras de 1997. Além disso, várias opções são possíveis. Naturalmente, Trump tentará aumentar a aposta. Portanto, devemos agir preventivamente”, aconselha o professor Karaganov.

Lembrem-se também de que Trump é, no fundo, um discípulo ajuramentado do culto à primazia americana; Grandeza americana. “Ele agirá de acordo…

Os russos ditarão os termos da rendição nesta guerra [da Ucrânia] porque a sua força lhes dá esse privilégio, e não há nada que os EUA e seus impotentes vassalos europeus possam fazer para alterar essa realidade. Dito isso, uma derrota estratégica decisiva será uma pílula muito amarga de engolir para este segundo governo Trump. Espero que eles não optem por incendiar o mundo recorrendo a um ataque de loucura humilhada.

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Fonte aqui.