O PR e Marcelo

(Carlos Esperança, 29/06/2018)

DESMAIO

O PR é o cidadão simpático, culto, inteligente e bem preparado para o cargo que exerce. Marcelo é o titular hipercinético, que fez caminho como comentador pago, e se mantém no ramo, de graça.

O PR é um constitucionalista eminente que conhece bem as suas atribuições, mas que se deixa arrastar por Marcelo e invade atribuições alheias, incapaz de se refrear, a caminho de um segundo mandato, se a saúde e o desgaste o permitirem.

DESMAIO1

O desmaio público foi um plágio ou uma infeliz coincidência com o que a aconteceu ao seu antecessor, que acordou ao colo dos militares. A comunicação social não falou mais do assunto, e um país exigente devia pedir explicações. A eventual falta de saúde não é apenas um prejuízo para as televisões, é perigosa para a harmonia institucional que o PR preserva e Marcelo se excita a desafiar. Era tempo de sabermos, através de um boletim médico isento, a causa do aparatoso desfalecimento.

Quem nunca tenha passado os olhos pela Constituição, há de pensar que o PR comanda a política externa, uma reserva exclusiva do Governo, mas o espetáculo público a que Marcelo se presta, sem prejuízo grave para as instituições, serve o narcisismo do PR e agrada aos jornalistas, imprescindível no período em que o País vai a banhos.

O PR está onde deve e Marcelo nos restantes sítios. Marcelo foi à Rússia ver o futebol e comentar jogos e o PR visitou Putin e levou cumprimentos a Trump. Quem se habituou a dez penosos anos de Cavaco, rejubila com Marcelo.

Cavaco deixava que o País fosse enxovalhado, sem inteligência nem cultura para retorquir, Marcelo foi capaz de dizer a Trump, com subtileza, que, tal como Ronaldo, não seria eleito em Portugal. Portugal é diferente e Marcelo não é um empreiteiro.

A devoção pia que devora Marcelo e contamina o PR, não lhe permitiu assistir à criação de 14 cardeais e ir ao beija-mão do papa e de mais um purpurado autóctone. No mesmo dia, o PR falou de igual para igual com o homem mais poderoso e perigoso do mundo e, assim, Marcelo não esfolou os joelhos nem ouviu às 17h 39m (hora portuguesa) de ontem, os sinos do carrilhão da Basílica de Fátima a tocaram para assinalar a elevação do bispo da Diocese de Leiria-Fátima a cardeal.

Certamente que algum assessor lhe guardou uma gravação.

Legionela da Malcata

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 10/11/2017)
quadros

João Quadros

Confesso que estou preocupado com este surto de legionella. Primeiro, porque preocupa-me que uma pessoa vá a um hospital e saia de lá mais doente do que entrou. Segundo, e mais importante, sou um bocado hipocondríaco. Dada a minha idade, fico assustado com o sistema de saúde e dá para imaginar uma conversa, após o jantar, em casais de reformados:

– E se fôssemos ao Santa Maria?
– Está a arder!
– E ao São Francisco Xavier?
– Tem legionela.
– Tu não queres é ir sair!

Há uma espécie de salve-se quem puder. O cunhado da minha porteira, que eu gosto de citar porque vive bem e não sei do que vive, disse: “Ao menos, em Santa Maria, mataram a legionela com fogo”. A verdade é que se o cito muitas vezes é porque ele está aqui ao meu lado com uma catana apontada ao meu pescoço. Felizmente, não sabe ler.

Como sempre, tivemos o nosso Presidente a visitar os doentes. Esteve bem, até porque não havia incêndios nem outro género de catástrofes, mas gostava de esclarecer que Marcelo Rebelo de Sousa, depois do mergulho no Tejo, ficou imune à legionella.

Vamos ao que interessa: vi a primeira conferência da senhora Graça Freitas, que era o rosto número dois da Saúde Pública no país, depois de Francisco George (que foi brilhante no seu cargo, apesar de sofrer de licantropia e não ser possível ir com ele a uma conferência em noites de lua cheia), e achei que ela estava demasiado relaxada. Aquele sorriso e a forma como disse que as pessoas que morreram tinham setenta anos e estavam fraquinhas, como se elas tivessem cento e oitenta e três anos, não me convence. Faltou dizer: “Até matámos uma legionela para fazer uma canja para a senhora”.

Houve um tempo em que os médicos justificavam tudo com uma virose – o meu filho tem uma perna maior que a outra – “isso é uma virose”. Agora, tudo é justificado com o calor. Há legionela nas torres de refrigeração do Hospital São Francisco Xavier, a culpa é deste Verão que durou até Novembro. É melhor prolongar a época balnear dos hospitais até Dezembro. Vai tudo de havaianas para as urgências.
Claro que nestas coisas de eliminar uma bactéria, como a legionella, temos sempre de ter em conta a posição do PAN. Sei lá se não decidem que uma das torres de refrigeração do Hospital São Francisco Xavier serve para alojar uma colónia rara de legionella.

Posso ser eu que não sou bom da cabeça – mas tenho um atestado -, mas irem buscar os corpos a meio das cerimónias fúnebres…, só consigo entender aquilo depois de ver os sorrisos com que a Doutora Graça Freitas está nas conferências sobre a legionella. Só pode ser uma partida, porque, nitidamente, ela gosta de se divertir com isto. É inaceitável que uma família veja alguém próximo morrer por ter apanhado uma bactéria num hospital e que depois seja sujeita a ver virem buscar o falecido a meio das cerimónias fúnebres. Isto só devia ser possível se dissessem: “Vamos levá-lo, mas depois devolvemo-lo vivo”. Em Portugal, tudo falha menos a burocracia.


TOP-5

Graça feita

1. Madonna surpreende ao viajar para Lisboa em classe económica – já é das nossas.

2. Twitter de Trump foi desligado durante onze minutos – alguém tropeçou num fio em Moscovo.

3. Puigdemont exigiu não ser visto ou reconhecido nas instalações da televisão belga – penteou o cabelo
para trás.

4. Tubarão pré-histórico foi capturado na costa algarvia – mas as sardinhas…, não se pode.

5. ASAE encerrou oito padarias – o espírito de equipa tinha bolor.

A liberdade incomoda

(Isabel Moreira, in Expresso, 22/10/2016)

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Vem este título a propósito da proposta de lei do governo sobre o tabaco (vou designá-la assim para simplificar). A proposta desceu à especialidade sem votação, o que é bom. Tal como está, é inaceitável.

Tenho ouvido alguns comentários no sentido de que esta questão do fumo, do vapor, da restrição de direitos de fumadores e de utilizadores de cigarros eletrónicos e de outros cigarros sem combustão não tem “grande importância”.

Penso que essa indiferença resulta de a nossa cultura democrática ser pobre no que toca à interiorização de direitos individuais. Parece que estamos satisfeitos com a democracia formal, com o sufrágio, mas não perdemos grande tempo a refletir sobre diplomas que tocam fundo no modelo de sociedade em que vivemos. Não perdemos grande tempo a discutir se é normal que o Estado condene comportamentos, não porque eles prejudiquem terceiros, mas pelo seu “simbolismo”. Por exemplo, quando no diploma do governo se proíbe que se fume um cigarro numa varanda de determinados edifícios (terá de ser na rua a x metros desses edifícios, como os órgãos de soberania, imagine-se) a mensagem que ali se está a passar não diz respeito apenas aos fumadores. Pelo contrário, diz respeito à cidade como um todo.

Queremos viver num Estado perseguidor de comportamentos lícitos (sim, fumar é lícito) ao ponto de estigmatizar uma categoria de cidadãos na esperança “moral” de que esses “maus exemplos” desistam de fazer “más escolhas para a sua própria saúde”?

Seria o mesmo que estigmatizar por via da fiscalidade todos os que não comem uma alimentação “ideal” até que esses se vergassem ao mito de um pano de vida traçado pelo estado e não pelos próprios.

De resto, já se deram conta de que todos os dias homens e mulheres estão parados em paragens de autocarros a levarem com doses maciças de poluição? O que fazer? Proibir que se fume a cinco metros de determinados edifícios. A sério?

O diploma do governo imprime um modelo de sociedade sob o pretexto de estar a proteger a saúde pública. Esse modelo de sociedade passa por delinear um “modelo de cidadão” com um “padrão comportamental”. Nada que a história desconheça.

A prova deste ímpeto moral do legislador e da fraude na alegada defesa da saúde pública está no tratamento que o diploma dá aos cigarros eletrónicos (CE), aos cigarros sem combustão, sem fumo, sem tabaco, apenas com vapor, com ou sem nicotina, dispositivos que têm salvado milhões de vidas pelo mundo fora. No diploma, os cigarros eletrónicos, que são 95% menos prejudiciais para a saúde do que os cigarros normais e que não prejudicam terceiros, são incentivados (como no RU ou na Suécia) ou perseguidos, como no puritanismo americano?

São diabolizados e perseguidos: é o critério da exemplaridade como critério de restrição da liberdade geral da ação.

Este diploma assume que não são conhecidos os efeitos que podem advir de novos produtos como os cigarros eletrónicos, sem combustão, sem fumo, sem tabaco, ou de outros com tabaco, mas sem combustão e usa “à partida” o princípio da precaução para equiparar fumar ao que não é fumar e aplicar uma lógica de restritiva contraproducente e desproporcionada aos nossos comportamentos livres e lícitos.

Os estudos proliferam. Não estamos em 2006. Estamos em 2016, por mais que determinados lóbis façam fazer por esquecer. Não tenho tempo para descrever a longa história nesta matéria da OMS ainda aquando da elaboração da diretiva europeia sobre o tabaco. Percebe-se uma coisa: aleija muita gente que as farmacêuticas não tenham o monopólio dos produtos que ajudam a deixar de fumar.

O princípio da precaução é um subprincípio do princípio da proporcionalidade e só deve ser utilizado quando há certeza absoluta (sob pena de não haver evolução na análise da utilização do bem y ou y) de que – no caso – há riscos para terceiros e, ainda assim, sob o chapéu do princípio da proporcionalidade. A seguir a lógica deste diploma, a comercialização de micro-ondas e de telemóveis teria sido proibida. Por precaução, certo?

A lógica deste diploma é esta: “a única forma segura de não fumar é não fumar”. Incluindo o que a lei inventou que passou a ser fumar. Na alínea s) do artigo 2º somos informados que cigarros eletrónicos que não têm combustão, não têm fumo, produzem apenas vapor, “afinal” integram o novo conceito de “fumar”. Porquê? Porque o governo do partido que despenalizou o consumo das drogas entre incentivar um produto que tem comprovadamente contribuído mundialmente para salvar milhares de vida diz isto ao povo: “ou abstencionismo ou tabaco!” Eis a proporcionalidade e toda uma política de “saúde pública”

O apelo ao abstencionismo mantém-se no artigo 15. Está demonstrado que é melhor vapear CE do que fumar. Está demonstrado que os CE salvam vidas. Conclusão: proíbe-se a publicidade a produtos que salvam vidas. Excessivo e absurdo, não?

Sabem como é no Reino-Unido? Acabaram com os proibicionismos e têm frases sobre alternativas aos cigarros nos maços de tabaco em vez de imagens tipo bullying de terror que mais não geram do que habituação às mesmas.

Podem sempre dizer que é desagradável o cheiro do vapor que sai de um cigarro eletrónico. Lá está: a liberdade incomoda. E isso é bom. Sermos livres implica algum incómodo recíproco, incómodo esse que só pode ser reprimido se for verdadeiramente relevante. Não gosto do perfume de muita gente. Incomoda-me. E vivo com isso. É da liberdade.