Santana e a arte de se fazer desejado 

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 09/10/2017)

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Luís Montenegro deixou que se especulasse durante um ou dois dias. Até perceber o óbvio: que não tem estatuto político para ser um verdadeiro candidato à liderança do PSD. Nem mesmo como candidato previamente derrotado em representação do legado passista. Paulo Rangel deixou passar mais um dia. Até ele mesmo perceber que o apoio tão encarniçado como pouco sincero que deu à liderança de Passos não se limpava em poucos meses. Que quem queira virar a página no PSD não pode ter mácula de passismo. Passos é passado. Para ele, sobram os agradecimentos do exército de colunistas militantes de uma direita que existe quase apenas nos jornais e na academia e que o País descobriu com a troika e quer esquecer rapidamente. A estes órfãos isso irei noutro texto.

Mas com Pedro Santana Lopes nunca poderia ser assim. E mais uma vez, a segunda neste ano, a enésima nos últimos anos, o mundo político e mediático – o restante está-se nas tintas –, espera pela sua reflexão e decisão. Em quase todas as eleições, sejam presidenciais, autárquicas ou internas, é assim. E, no entanto, Santana só ocupou cargos nacionais nomeado como sucessor que ninguém desejava. Também foi por causa de meses de espera por uma nega de Santana que Passos Coelho foi obrigado a uma solução de recurso e a sofrer, em Lisboa, uma humilhante derrota. Não deixaria de ser irónico que Pedro Santana Lopes fosse eleito presidente do PSD como resultado de uma crise interna de que ele é um dos principais responsáveis.

O valor de Santana não é ser invencível apesar de ter, sabe-se lá como, criado a ideia que é uma máquina em campanhas eleitorais. A única eleição relevante que venceu (Figueira da Foz não conta num currículo de primeira linha) foi a de Lisboa, em 2001. Quem acompanhou essa campanha sabe bem que foi mais João Soares que a perdeu do que o PSD que a ganhou.

Soares foi displicente e, quando percebeu o erro de cálculo, optou por uma estúpida campanha de apelo a um combate antifascista que decisivamente não estava em causa naquela eleição. Depois de cumprir parte do mandato, Pedro Santana Lopes não voltou a ir às urnas em Lisboa. Abandonou, como abandonara sempre, o lugar a meio para se tornar primeiro-ministro por procuração.

Quando se candidatou ao cargo de primeiro-ministro, em 2005, ofereceu ao PSD o pior resultado desde 1983, de que nem Passos Coelho, depois de terríveis quatro anos de autoridade, se conseguiu aproximar. A sua incompetência deixa mais mossa eleitoral do que qualquer crise. E também ofereceu ao país a mais vergonhosa das campanhas, onde o “menino guerreiro” até se dedicou a insinuações sobre a orientação sexual do seu opositor.

Nas corridas à liderança do PSD, foi esmagado por Marcelo Rebelo de Sousa em 1996, perdeu para Durão Barroso em 2000 e ficou, nas primárias de 2008, atrás de Manuela Ferreira Leite e de Passos Coelho. Perdeu, perdeu, perdeu. Apesar deste invejoso currículo de derrotas mantém uma fama enganosa de vencedor, graças à vitória contra João Soares e a um fascínio da imprensa por esta colorida personagem política. E por isso esperam. Porque Santana tem uma arte única: a de se fazer desejado mesmo quando ninguém sabe ao certo porque raio o há de desejar.

Não sei se esta espera dará em alguma coisa. António Costa arranjou uma poltrona para Santana Lopes, que lhe permite alguma estabilidade e um certo estatuto de que precisa, para que se arrede da política. De todos os defeitos que lhe posso encontrar – de que o pior é a sua total vacuidade intelectual e política –, a falta de coragem para se atirar um confronto não é uma delas. Como se vê pela sua história, Santana não tem medo da derrota, o que é bom. Mas não sei se largará a poltrona da Santa Casa para esta batalha. A não ser, claro, que Vieira da Silva lhe diga que o lugar fica à espera de mais esta aventura. Será que o governo o deseja tanto a ponto de permitir que o lugar de provedor seja apenas um resguardo para um político intermitente? Duvido.


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PSD d.C.

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 06/10/2017)

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João Quadros

Santana Lopes está a ponderar avançar para líder do PSD. Acho uma candidatura sem sentido. Santana Lopes vai ser, obviamente, chumbado pelo PSD porque foi PM sem ter vencido as eleições. Eles odeiam isso.


O presidente do PSD, Pedro Passos Coelho, anunciou na reunião da Comissão Política Nacional que não irá recandidatar-se ao cargo nas próximas eleições. O jornal online O Observador tem o José Manuel Fernandes a meia haste.

Calma, segurem o fogo-de-artifício porque Passos ainda continua como líder do PSD até às directas do partido. No fundo, pode continuar a ser entrevistado, mas é como se fosse um ex-Casa dos Segredos. A postura de Passos na assembleia, para fazer sentido, vai ser como naquele filme, o “Fim-de-semana com o morto”. O Hugo e o Montenegro é que o acartam. Passos fica, mas em modo Bento XVI.

A verdade é que temos péssimo gosto para PM. Por isso, estou sempre de olho no Costa. Já escolhemos: Cavaco, Durão, Sócrates e Passos, parece a minha tia que arranja sempre namorados que dão chatices.

Será que podemos chamar piegas às carpideiras de Passos? Por exemplo, o Rui Ramos acha que a história vai fazer justiça a Passos. Ele acredita nestas coisas. Anda a tentar fazer o mesmo com Salazar há anos, mas ninguém lhe liga nenhuma.

Passos era o guião da troika e a estratégia do Relvas. Sem isso, acabou. O momento exacto da queda de Passos começa com a saída de Relvas. Isto diz muito sobre o PSD e ainda mais sobre Passos. Só espero que, teimoso como é, continue a usar o pin no banho.

Em termos de futuro, acho que é a grande oportunidade de Passos entrar num musical do La Féria. Dizem que ele vai fazer o Robin Hood , já temos xerife de Nottingham.

Posto o Coelho de lado, começam a aparecer os primeiros candidatos ao lugar. Penso que o ideal em termos de continuação do passismo era a Maria Luís ou o Montenegro, mas para mim o melhor candidato à liderança do PSD é o Francisco Assis.

Assim de repente, acho que Manuela Ferreira Leite era uma hipótese, não fosse ser vestida por alguém que a odeia. Há quem fale de Leonor Beleza para líder do PSD. Esqueçam. Está na Fundação Champalimaud. Era o mesmo que sair da NASA para ir para a Nobre. E o Durão Barroso? Isso é que era. Portugal está cheio de restaurantes com estrelas Michelin, podia ser que ele alinhasse. São todos apenas meras hipóteses. Há candidatos mais prováveis como Rui Rio, que está para avançar há dez anos. Como sportinguista revejo-me em Rio , porque para o ano é que é.

Também temos Santana Lopes que diz que está a ponderar avançar para líder do PSD, mas primeiro vai criar um jogo da Santa Casa para as pessoas apostarem se ele vai ou não vai. Acho uma candidatura sem sentido. Santana Lopes vai ser, obviamente, chumbado pelo PSD porque foi PM sem ter vencido as eleições. Eles odeiam isso.


TOP-5

Buenos Aires

1. Valentim Loureiro diz que foi derrotado pela “máquina” do PS – Era de lavar louça?

2. PS tem legitimidade reforçada, diz José Sócrates – Tinha, já estragaste tudo.

3. Ágata candidata do CDS a Castanheira de Pêra teve 4,5% dos votos – Entrevistas com a Ágata é que nada. Depois dizem que uma pessoa não se interessa por política.

4. Cristas teve sozinha mais 797 votos do que coligação PSD/CDS em 2013 – Por outras palavras, Cristas teve mais 797 votos do que Fernando Seara.

5. Valentim Loureiro é um dos “dinossauros” derrotados nestas eleições autárquicas – Valentim Loureiro sem barba não ganha uma votação numa reunião de condómin

A trapalhada

(In Blog O Jumento, 19/12/2016)

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A candidatura autárquica do PSD a Lisboa está transformada numa trapalhada digna dos tempos de Pedro Santana Lopes que acaba por ser um dos artistas principais deste espectáculo pouco digno daquele que é um grande partido autárquico e que espera que o país tenha um azar para que Passos Coelho o salvar.

Pedro Santana Lopes andou uns meses a brincar às autárquicas, testando a sua popularidade e avaliando os apoios que ainda poderá ter no partido. Começou por dizer que não era candidato a nada quando foi reconduzido na Santa Casa, seguro no tacho deu a entender que poderia ser candidato, só para avaliar as suas possibilidades de vitória. Como é melhor ter um pássaro na mão do que dois a voar Santana desistiu, demitir-se da Santa Casa era um grande prejuízo económico e associar-se  a Passos coelho era um perigo para o que pode restar da sua carreira política.
Passos está acantonado cada vez mais à direita, governou com um programa económico com ideias dignas do Chile de Pinochet e entrou em guerra aberta com Marcelo Rebelo de Sousa. Aos poucos o líder do PSD é um produto tóxico para o centro político e ninguém com bom senso se associa a um líder que começa a parecer doente.
Santana percebeu que uma derrota autárquica ao lado de Passos era o seu fim, ficava sem Santa Casa e sem cargo público, teria de viver dos seus modestos comentários na SIC Notícias, o dinheiro mal daria para suplementos alimentares e de alma.
No meio desta confusão a concelhia de Lisboa do PSD faz vídeos imbecis sobre ciclovias e convida um opositor de Passos para elaborar um programa autárquico do PSD. É óbvio que nenhum candidato autárquico se vai dar ao trabalho de ler este programa eleitoral paralelo.
É cada vez mais óbvio que ninguém no seu pleno juízo e com prestígio político se vai juntar à extrema-direita das docas para salvar Passos Coelho de um desastre político. Passos Coelho não é o político corajoso de que alguns falam e tem medo de enfrentar Medina, pondo à prova o seu direito democrático a governar, de acordo com a sua ladainha da vitória eleitoral. No sábado dizia-se que o PSD ia apoiar Assunção Cristãs, dois dias depois já só estão a negociar umas juntas de freguesia.
Nesta tabuada das contas eleitorais, em que Passos tenta encontrar uma solução para voltar a vencer perdendo as eleições o PSD multiplica os tabus, para cada hesitação de Passos Coelho surge um novo tabu.