Somos Todos "Hackers"

(Por Dieter Dillinger, in Facebook, 07/01/2018)

balsemao

Francisco Pinto Balsemão, o magnata da comunicação social, escreveu no Expresso de ontem um curioso editorial ou testamento.
Para além dos elogios feitos ao seu jornal, que comemora 45 anos de idade, Balsemão define a época actual como “era da pós-verdade” e considera os escribas das redes sociais como “hackers”, o que é calunioso, dizendo o seguinte: “Os “hackers” não existem só para penetrar em sistemas de comunicação teoricamente inatacáveis. Existem também para espalhar, organizadamente, falsidades que convêm aos poderes políticos, económicos, culturais ou desportivos que os contratam”.

Que grande MENTIRA. Eu, por exemplo, e todos os amigos deste facebook não fomos contratados por ninguém. Coloquei a foto de Sócrates na minha página muito antes de ser conhecida a “Operação Marquês” e ficará para sempre qualquer que seja o futuro do ex-PM na justiça ou fora dela.

De resto, a foto era uma alusão humorística à notícia de que Sócrates teria ido estudar filosofia para Paris, pretendendo fazer um paralelo com o Sócrates ateniense do ano V antes de Cristo.

Para Balsemão, as pessoas inteligentes são as que param para ler o Expresso, depois de o comprar como é evidente. O Expresso é para ele o “porto de abrigo, onde as pessoas param, refletem, pensam por si próprias, saem do turtbilhão em que todos nos deixámos envolver, definem em liberdade o rumo que querem seguir”.

Ora, nada mais falso. O Expresso, a Sábado, a Visão, a SIC e toda, mas toda a comunicação social, escrita, falada e vista está CONTRA o Governo de ANTÓNIO COSTA e esses que fazem na Comunicação Social uma CENSURA antisocialista, anticomunista e antibloco de esquerda é que estão pagos pelos interesses capitalistas que não se satisfazem com o mercado livre e a possibilidade de fundarem uma empresa na hora, mas querem fazer do Estado o seu negócio principal, isto é, apropriarem-se dos sistema de saúde como negócio e da segurança social, etc.

A ganância capitalista não tem limites. Se fosse possível, o País seria governado por uma empresa como a quase falida Impresa que terá vendido a um jornalista sem dinheiro por dez milhões de euros quase uma dúzia de revistas, pelo que dizem por aí. Custa-me a acreditar que aquilo tenha esse valor, talvez sejam 10 ou 100 mil euros apenas.

Balsemão diz que pratica o bom e verdadeiro jornalismo e às vezes até acontece, mas no geral, no Expresso, só estão pessoas que condenaram Sócrates antes de qualquer julgamento (Micael Pereira, etc.) e tudo o que possa ser negativo para o Governo actual da PÁTRIA aparece nas páginas do Expresso.

O magnata diz que o Expresso é para as pessoas inteligentes e, por isso mesmo, exigentes. Geralmente não vejo isso, apesar de nada ter a ver com um pasquim como o “Correio da Manhã”, mas o fundamental é que é muito mais inteligente expressar nas redes sociais aquilo que uma pessoa pensa do que estar limitado ao pensamento de outros que servem interesses financeiros.

Balsemão não percebeu que no facebook ou nos blogs pensamos, escrevemos e não pagamos nem recebemos NADA.

Eu não sei se sou inteligente ou não, nunca medi o meu QI, mas sei que 16.450 incêndios no verão passado não foram obra de um qualquer espírito santo, mas sim de muitos INCENDIÁRIOS. Não acredito que algo arda espontaneamente como pretende o especialista Xavier e o DIAP de Leiria mais a PJ e a PGR e, naturalmente, o Expresso.

O “INTELIGENTE” Expresso nunca analisou esse problema e nem o quer fazer. Por isso, não vale a pena parar para ler o Expresso porque sai dele muito pouco, salvo alguns números na secção de economia e, mesmo assim, não o suficiente para termos uma verdadeira ideia do que é o atual OE 2018.

As virtudes da irritação

(António Guerreiro, in Público, 22/12/2017)

Guerreiro

António Guerreiro

Nas ocasiões em que nos media rebentam ondas de irritação e indignação e a opinião pública parece submetida a um fenómeno de hipnotismo (e esses momentos, como temos presenciado, sucedem-se a um ritmo cada vez maior e têm aumentado de grandeza), é bem visível a massa que os mass mediafazem. Para percebermos o que significa fazer massa talvez seja útil recorrer a um distinção, elaborada pelo sociólogo Gabriel Tarde já no final do século XIX, entre público e multidão. A multidão é um tipo de colectivo em que os seus membros estão presentes uns para os outros, num mesmo momento e num mesmo espaço, de tal modo que os processos de condicionamento e afectação se propagam de modo horizontal e bidireccional. O público, esse, só pôde nascer depois da invenção da imprensa, quando se tornou possível transportar o pensamento à distância. A característica principal dos media – aquela que está no princípio – é a constituição de públicos, o poder de os gerar. Os membros do público estão separados uns dos outros e reagem isoladamente. O que os media de massa fazem é sincronizá-los, reunindo-os em torno de certos debates, acontecimentos e questões momentâneas, operando fenómenos de imitação e de sugestão (uma forma de hipnotismo), em que cada um é convidado a exprimir a sua posição, isto é, a situar-se em relação a esses problemas.

Com a Internet e as redes sociais, o público passou a poder partilhar as suas reacções em tempo real, a manifestar as suas afectações e a entrar numa cadeia de condicionamentos emotivos porque se suprimiu a distância entre eu e o mundo, entre eu e os outros. A essa distância pode-se chamar espaço de pensamento. Daí que estejamos hoje confrontados com novas modalidades de propagação horizontal própria das multidões.

Na verdade, a interacção cada vez mais estreita entre os media de massa e as redes virtuais fez com que os fenómenos de público se pareçam cada vez mais com fenómenos de multidão. E é hoje evidente que o público e a opinião devem ser tratados como conceitos psico-sociológicos, como fez Gabriel Tarde, de modo pioneiro. O trabalho de sincronização que os media de massa efectuam assenta em grande parte nas potencialidades da irritação. Foi Niklas Luhmann, um dos mais importantes sociólogos do século XX, conhecido sobretudo pela sua teoria dos sistemas, quem descreveu os media como sistemas de circulação que produzem figuras de irritação que estão sempre a ser renovadas. Colocando a ideia da auto-referencialidade dos media no centro da sua análise, enquanto “sistemas auto-poiéticos” (isto é, voltados para o seu próprio fazer), Luhmann mostrou que eles, mais do que informar, sensibilizam-nos de maneira selectiva, chamam-nos a participar em certas irritações e a tomarmos uma posição relativamente a elas. E isso numa escala muito maior do que aquela que resulta da proximidade física dos corpos da multidão. A sociedade conformada pelos media de massa é uma sociedade irritada pelas mesmas coisas ao mesmo tempo, trabalhada pela simplificação e pelo esquematismo. Cada vez mais permeável à lógica das irritabilidades, sem instrumentos para dela se defender, a política tornou-se um espectáculo estéril e histérico de irritações que se sucedem ininterruptamente, voltada muito mais para a reacção do que para a acção. O jornalista diz, irritado, e achando que a sua irritação é a mais poderosa do mercado, “demita-se o ministro”, a oposição faz eco e repete “demita-se o ministro”, e o ministro responde: “Não me demito”. Esta é a cena-modelo da política do nosso tempo e o seu movimento é o do eterno retorno.

Jornalismo de sarjeta e… calma!

(In Blog Aspirina B, 14/12/2017)

fake_news

(Andam para aí choros e rasgar de vestes dos donos das televisões e dos jornais tradicionais contra as redes sociais, acusando-as de serem um meio de propagação de “fake news”. Na verdade, os orgãos de comunicação social tradicional sempre foram canais de transmissão de “fake news”, aquelas que interessam a quem lhes paga a publicidade, ou que interessam ao poder global dominante, como se viu no caso da guerra do Iraque com as fantasiosas armas químicas do Saddam. Este artigo é mais uma prova de que continuam a fazer o que sempre fizeram.

Quer-me parecer que choram porque estão a perder um monopólio que lhes dava lucros chorudos. E como todos os monopólios, quando aparece a concorrência, perdem poder e rendas de situação.

Estátua de Sal, 14/12/2017) 


Hoje, logo pela manhã, o DN noticiava que o valor do financiamento atribuído à Raríssimas quadruplicara com o actual governo. Escândalo, sugeria a manchete. Falcatrua, sugeria também, isto de o ministro Vieira da Silva ter passado pela associação tivera como resultado um favorecimento imoral. O quádruplo das verbas previstas pela governo anterior é muito múltiplo. Mas é verdade?

Não, é mentira. O insuspeito Observador foi ler melhor os despachos e chegou à conclusão de que as verbas são praticamente as mesmas – na ordem dos 1 200 000 euros, apesar do aumento do número de camas. Com o esclarecimento do Ministério da Saúde (também reproduzido pelo site), mais se confirma a fraude noticiosa do DN.

Até à hora a que escrevo, o DN mantinha a notícia inalterada.

Sobre este assunto da Raríssimas e a tentativa logo pronta de envolver um importante membro do Governo nas eventuais irregularidades (pela jornalista da TVI e pela oposição de direita), importa referir uma entrevista que ouvi ontem, por acaso, na SIC Notícias (já depois das 21h00) ao ex-tesoureiro denunciante das irregularidades e na qual, pelos vistos mais moderado, ele sublinha que gostaria que o problema não fosse levado para o campo dos ministros ou políticos que tenham colaborado com a associação, porque não é aí que ele está. Que convém não perder o foco: a gestão danosa, autoritária e prepotente da presidente agora demissionária. Pareceu-me ser um reparo ao próprio jornalista. Li também que não é a mesa da Assembleia Geral que aprova as contas. Podendo nós questionar-nos por que razão este senhor demorou algum tempo a denunciar as irregularidades observadas, parece, de facto, ter havido abuso de poder e aproveitamento por parte da presidente. Se são pecadilhos ou crimes, a justiça o dirá. Convém, porém, não esquecer que o trabalho realizado no que aos doentes diz respeito é meritório, muito meritório mesmo, atendendo aos casos que as imagens mostram, e que a dirigente de uma associação deste tipo tem todo o direito e, porventura, o dever de tudo fazer, incluindo lobbying, para aumentar a visibilidade da associação, inclusive a nível internacional, e os donativos para a causa. Parece-me ir demasiado entusiasmo na justiceira e assanhada (sempre em direcção aos mesmos) Ana Leal. Um entusiasmo politiqueiro, telenovelesco e de devassa que não se justifica de todo num trabalho sério.


Fonte aqui