Um mamilo de Rubens desafia o capitalismo?

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 25/07/2018)

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Quadro de Rubens: O Julgamento de Páris

Os dirigentes do Rubenshuis, de Antuérpia, decidiram gozar com o Facebook: filmaram um vídeo onde se veem dois supostos seguranças a percorrerem o museu, que mostra inúmeras pinturas do século XVI assinadas por Peter Paul Rubens.

Os dois capangas abordam visitantes e perguntam: “tem conta numa rede social?”. Quando o espantado turista responde que sim, os seguranças pedem desculpa mas, justificando-se com as regras em vigor das redes sociais, obrigam-no a afastar-se das pinturas de mulheres nuas que deram reputação de génio ao pintor flamengo e, provavelmente, ocuparam lugar de relevo entre os sonhos eróticos de certas realezas barrocas europeias, que mecenaram o artista.

A piada em vídeo viral da “Casa de Rubens” tem um alvo óbvio – o Facebook, a rede social dominante neste lado do mundo – mas, na verdade, a empresa de Mark Zuckerberg não é citada no vídeo, pois o museu prefere alertar para o reacionarismo das regras que impedem a publicação, nos novos media, de obras artisticas clássicas.

Lembro-me de ler noticias do Facebook censurar uma publicidade que usava uma mulher, símbolo da República Francesa (semelhante à portuguesa), que mostrava os seios enquanto liderava, bandeira tricolor na mão, uma revolta popular (a pintura original é de Eugéne Delacroix).

Lembro-me de ler notícias do Facebook censurar a publicação da foto de uma estatueta com 30 mil anos de uma mulher nua, aparentemente grávida, interpretada pelos arqueólogos como um símbolo de fertilidade, mas entendida pelos gestores da rede social como sendo um “conteúdo impróprio”.

Lembro-me de ler notícias do Facebook censurar a reprodução de um quadro chamado a Origem do Mundo: uma vagina e um par de seios cruamente mundanos, pintados por Gustave Coubert no século XIX, em provocação aos nus desenhados em grandes cenas mitológicas ou oníricas que algo hipocritamente prevaleciam nas artes visuais europeias.

O Facebook, portanto, censura mulheres nuas. É um facto. Foi até divulgado um manual interno da empresa com milhares de indicações complexas aos seus trabalhadores sobre os critérios que devem seguir para eliminar publicações com cariz sexual, violentas, racistas, homofóbicas, terroristas e sei lá que mais.

Provavelmente muitos de nós, por razões ideológicas, culturais ou morais, concordarão com algumas das restrições que o Facebook pretende impor nas suas páginas. Provavelmente acharemos outras ridículas e, até, gravemente ofensivas da liberdade de expressão.

Provavelmente muitos identificarão a dualidade de critérios do Facebook: lesto a cortar mamas das suas páginas mas suspeito de ser conivente com invasões empresariais de privacidade ou utilização abusiva de dados dos seus utilizadores. Mas isso, hoje, não me interessa.

O que me interessa agora é perceber as consequências para uma boa parte do mundo, para os indivíduos, dos atos de censura do Facebook .

O que leva as redes sociais a censurar os seus utilizadores?

É a pressão de um número significativo de utilizadores, de gente influente, de organizações, de instituições, de governos?

É a própria adesão a um certo padrão moral de investidores e dirigentes de redes como o Facebook?

É o medo de perder negócio, de criar uma onda de rejeição, de temer que muitas pessoas passem a fugir de um local com reputação de “má fama?”…

Será um pouco disso tudo, mas creio que a razão prevalecente é a última que alvitrei, a relativa à saúde do negócio: os mamilos das mulheres de Rubens são uma ameaça aos capitais investidos no Facebook.

O problema é o tamanho. O Facebook tem uma dimensão quase global e, ao fazer censura aos seus utilizadores, seja por bons ou por maus motivos, tenha ou não razão, está, inevitavelmente e simultaneamente, a influenciar a moral global: pela repetição, anos e anos a fio, destes atos de censura, o código de conduta social que vigorar no Facebook tenderá a ser a moral vigente nas sociedades onde a empresa domina o mercado das redes sociais.

O que o Facebook está a fazer é que a moral e a ética de uma parte da sociedade se imponha, unilateral e ditatorialmente, a todos os utilizadores.

Porque pode o Facebook atuar como guardião de uma moral, de uma ideologia, que não é, necessariamente, a moral de todos os seus leitores e não é, certamente, a moral de todos os povos?

Porque pode o Facebook impor uma moral que reflete, também e necessariamente, opções e aquisições ideológicas, religiosas, culturais e políticas que, claramente, não são as de todos os seus leitores em todos os países e nações por onde eles se espalham?

Porque pode (e porque tantos lho pedem?) o Facebook impor limites à liberdade de expressão dos indivíduos quando, e bem, criticamos tanto os Estados e os governantes que o tentam fazer?

Dirão: “O Facebook é uma empresa privada e pode fazer o que quiser dentro da sua propriedade”… Pois, mas com o tamanho que tem, o Facebook é muito mais do que uma empresa privada: é uma potencial e perigosa fábrica de mentalidades.

Por isso, em nome do bem comum, a rede social Facebook deveria ser socialmente neutra e, na verdade, não o é. Isto é uma ameaça civilizacional.

A máquina de indignar 

(Daniel Oliveira, In Expresso Diário, 09/01/2018)  

Daniel

Daniel Oliveira

A nova polémica foi em torno da ida de Mário Centeno para o camarote presidencial do Benfica, no jogo entre o clube lisboeta e o Futebol Clube do Porto. Não vou aqui desenvolver o tema. Porque o que já se sabe permite dizer que os jornalistas não cuidaram de recolher a informação que mataria o assunto à nascença (parece que a polícia não o quer nas bancadas num jogo como este) e porque, mesmo que assim não fosse, o tema não tem dignidade para uma crónica.

O absurdo do tema não impediu um tabloide de tentar estabelecer um paralelo entre a ida de Centeno à bola (para uma bancada onde já se sentaram quase todos os políticos e pessoas famosas deste país) e um alegado perdão fiscal aos filhos do presidente do clube, já totalmente desmentido. Não é um perdão, mas uma isenção automática. Essa isenção não dependia das Finanças, mas de um parecer da Câmara de Lisboa. As Finanças limitam-se a aceitar uma certidão da câmara onde está o imóvel depois de se verificar o cumprimento dos critérios de reabilitação estabelecidos na lei. Ou seja, Centeno não tem nada a ver com o assunto. E a base para insinuar a existência de uma “cunha” foi um mail privado totalmente inócuo do filho de Luís Filipe Vieira para o seu pai. E quem escreve isto é um sócio do Sporting que não podia ter pior opinião do presidente do Benfica e alguém que já aqui deixou muitas vezes clara a sua pouca simpatia política pelo ministro Mário Centeno.

Os escândalos cadentes duram dois ou três dias, “incendeiam as redes sociais”, e morrem como nasceram. Fica a sensação de que se está rodeado de iniquidade e corrupção. Como equipara o corrupto a quem seja apenas normal, ajuda a esconder a corrupção, a trapaça e os verdadeiros negócios escuros. Resistirá quem não têm nada a perder. Nem sequer o seu nome.

É evidente que o jornalista que escreveu aquilo não acredita que tal relação exista. Mas isso permite alimentar mais uns dias uma suposta “polémica”, dando-lhe contornos de tema legítimo e permitindo criar a ideia de que há sempre mais umas coisas que devem ser esclarecidas. Até o Ministério das Finanças ter, como teve, de se explicar, em dois comunicados e uma declaração pública, conseguindo-se assim que um não tema entre no debate político e ninguém possa fugir dele. Um prolongamento do jogo muito lucrativo quando está em causa o “Cristiano Ronaldo das finanças” e o maior clube nacional. E isto vai-se sucedendo com novos assuntos, uns atrás dos outros, semana após semana, sem que nenhum alguma vez seja realmente dado como encerrado.

Esta é a primeira coisa que temos de estabelecer: se todos os assuntos valem uma polémica. Se não estamos a criar um clima de escândalo e indignação permanentes, em que tudo se igualiza no debate, tornando impossível a sociedade estabelecer prioridades e não se perder numa gritaria sem rumo.

Se olharmos para as últimas semanas, conseguimos identificar vários escândalos cadentes. Duram dois ou três dias, “incendeiam as redes sociais”, como agora se costume dizer, e morrem como nasceram. Quem partilha as notícias que os relatam, dando muitas visualizações que valem publicidade, raramente segue os esclarecimentos posteriores ou se apercebe como o assunto morre. Rapidamente passa para outro “escândalo” e esquece aquele. Nada chega a ficar realmente na memória, mas fica o incómodo, a sensação de que se está rodeado de iniquidade e corrupção. Uma sensação que não só degrada a democracia, como qualquer possibilidade de vivermos em sociedade.

Alguns gostam de apresentar esta sucessão de “escândalos” e indignações virais como um sinal de maior exigência da sociedade. É verdade que um maior escrutínio tornou as pessoas menos tolerantes perante alguns comportamentos. Mas, no essencial, é o oposto. Esta explosão de indignações tem muito pouco a ver com um trabalho mais profundo da comunicação social, capaz de fiscalizar melhor o poder. Pelo contrário, nunca a imprensa teve tão poucos meios para fazer o seu trabalho. Este clima nasce das redes sociais. O que elas têm de novo, dando acesso a todos à produção e consumo de informação, é que destruíram as instâncias intermediárias que hierarquizavam as notícias. Hoje, a comunicação social limita-se a seguir o ritmo imposto pelas redes sociais. Mesmo quando as notícias nascem na imprensa ganham uma dimensão que a imprensa não determina, estando por isso obrigada a dar-lhes uma relevância que não têm. E sem hierarquia as coisas deixam de ser inteligíveis.

O irrelevante é usado, e essa técnica é antiga, para esconder o fundamental. Donald Trump sabe fazê-lo, no seu Twitter, quase diariamente. A sucessão de grandes, pequenos e minúsculos “escândalos”, quase diários, que alimenta a máquina de cliques e partilhas virais de que negócios e vaidades pessoais dependem, cria um ambiente de desconfiança em relação a tudo: ao poder político, à economia, à justiça, aos sindicatos, às igrejas, às IPSS, às associações, aos vizinhos, aos familiares, à humanidade. Não é exigência democrática, é autossabotagem coletiva. Como viver assim é insustentável, há um momento em que as pessoas, cansadas e transidas de medo, escolhem ser governadas por quem “ponha isto na ordem”. Este caos informativo não alimenta a exigência e o escrutínio, alimenta a ansiedade e a demagogia. Sabemos o resultado destas duas coisas juntas: o autoritarismo.

Considero-me uma pessoa razoavelmente exigente comigo mesmo. Nunca, até há uns anos, duvidei da minha capacidade de cumprir, até acima da média, as exigências éticas e cívicas que tínhamos como assentes. Terei falhado algumas vezes, nunca por má-fé e tentando sempre corrigir os erros que tenha cometido como cidadão. Mas, desde que este ambiente se instalou, não tenho qualquer dúvida que não aceitaria ter um cargo político. Porque há uma diferença entre um cidadão honesto e um santo. Porque o clima político assente no pequeno escândalo impõe um suposto código de conduta insano e insensato que nenhuma pessoa normal pode cumprir. Nenhum código ético é absoluto. Nem tudo se equivale, nem tudo merece sanção. Qualquer código ético tem uma hierarquia e, acima de tudo, rege-se por um princípio de razoabilidade. Na realidade, os que o exigem são os primeiros a reconhecer que não o cumprem para logo depois acrescentar: “mas eu não sou político.”

Estou preocupado com o excesso de exigência ética com os políticos? Nada disso. Esta indiferenciação entre o que é importante e o que é irrelevante não corresponde a uma redobrada exigência cívica. Não distingue os honestos dos desonestos. No máximo, impõe aos políticos uma prova de resistência onde aguenta quem não dê grande importância à sua dignidade pública. Na realidade, como equipara o corrupto a quem seja apenas normal, ajuda a esconder a corrupção, a trapaça e os verdadeiros negócios escuros. Resistirá quem não têm nada a perder. Nem sequer o seu nome.

Somos Todos "Hackers"

(Por Dieter Dillinger, in Facebook, 07/01/2018)

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Francisco Pinto Balsemão, o magnata da comunicação social, escreveu no Expresso de ontem um curioso editorial ou testamento.
Para além dos elogios feitos ao seu jornal, que comemora 45 anos de idade, Balsemão define a época actual como “era da pós-verdade” e considera os escribas das redes sociais como “hackers”, o que é calunioso, dizendo o seguinte: “Os “hackers” não existem só para penetrar em sistemas de comunicação teoricamente inatacáveis. Existem também para espalhar, organizadamente, falsidades que convêm aos poderes políticos, económicos, culturais ou desportivos que os contratam”.

Que grande MENTIRA. Eu, por exemplo, e todos os amigos deste facebook não fomos contratados por ninguém. Coloquei a foto de Sócrates na minha página muito antes de ser conhecida a “Operação Marquês” e ficará para sempre qualquer que seja o futuro do ex-PM na justiça ou fora dela.

De resto, a foto era uma alusão humorística à notícia de que Sócrates teria ido estudar filosofia para Paris, pretendendo fazer um paralelo com o Sócrates ateniense do ano V antes de Cristo.

Para Balsemão, as pessoas inteligentes são as que param para ler o Expresso, depois de o comprar como é evidente. O Expresso é para ele o “porto de abrigo, onde as pessoas param, refletem, pensam por si próprias, saem do turtbilhão em que todos nos deixámos envolver, definem em liberdade o rumo que querem seguir”.

Ora, nada mais falso. O Expresso, a Sábado, a Visão, a SIC e toda, mas toda a comunicação social, escrita, falada e vista está CONTRA o Governo de ANTÓNIO COSTA e esses que fazem na Comunicação Social uma CENSURA antisocialista, anticomunista e antibloco de esquerda é que estão pagos pelos interesses capitalistas que não se satisfazem com o mercado livre e a possibilidade de fundarem uma empresa na hora, mas querem fazer do Estado o seu negócio principal, isto é, apropriarem-se dos sistema de saúde como negócio e da segurança social, etc.

A ganância capitalista não tem limites. Se fosse possível, o País seria governado por uma empresa como a quase falida Impresa que terá vendido a um jornalista sem dinheiro por dez milhões de euros quase uma dúzia de revistas, pelo que dizem por aí. Custa-me a acreditar que aquilo tenha esse valor, talvez sejam 10 ou 100 mil euros apenas.

Balsemão diz que pratica o bom e verdadeiro jornalismo e às vezes até acontece, mas no geral, no Expresso, só estão pessoas que condenaram Sócrates antes de qualquer julgamento (Micael Pereira, etc.) e tudo o que possa ser negativo para o Governo actual da PÁTRIA aparece nas páginas do Expresso.

O magnata diz que o Expresso é para as pessoas inteligentes e, por isso mesmo, exigentes. Geralmente não vejo isso, apesar de nada ter a ver com um pasquim como o “Correio da Manhã”, mas o fundamental é que é muito mais inteligente expressar nas redes sociais aquilo que uma pessoa pensa do que estar limitado ao pensamento de outros que servem interesses financeiros.

Balsemão não percebeu que no facebook ou nos blogs pensamos, escrevemos e não pagamos nem recebemos NADA.

Eu não sei se sou inteligente ou não, nunca medi o meu QI, mas sei que 16.450 incêndios no verão passado não foram obra de um qualquer espírito santo, mas sim de muitos INCENDIÁRIOS. Não acredito que algo arda espontaneamente como pretende o especialista Xavier e o DIAP de Leiria mais a PJ e a PGR e, naturalmente, o Expresso.

O “INTELIGENTE” Expresso nunca analisou esse problema e nem o quer fazer. Por isso, não vale a pena parar para ler o Expresso porque sai dele muito pouco, salvo alguns números na secção de economia e, mesmo assim, não o suficiente para termos uma verdadeira ideia do que é o atual OE 2018.