O problema da Maçonaria na vida política democrática

(José Pacheco Pereira, in Público, 20/03/2021)

Pacheco Pereira

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A discussão actual foi suscitada por uma proposta original do PAN e outra do PSD que, com diferentes graus de obrigatoriedade, implicam a revelação na vida política da qualidade de membro da Maçonaria. Ambas estão mal feitas, são atabalhoadas e, no caso do PSD, misturam, por uma obsessão salomónica que passa por isenção, o Opus Dei e a Maçonaria. Ambas as organizações podem gerar efeitos políticos semelhantes, no âmbito do clientelismo e do patrocinato, mas são diferentes na sua génese e no seu modus operandi e, acima de tudo, distinguem-se no modo como tratam o segredo, o aspecto mais relevante para a actual discussão. Acresce que a Maçonaria intervém essencialmente pelos seus membros, as suas afinidades e “irmandades”, sem comando colectivo, embora haja uma hierarquia de graus, e o Opus Dei tem hoje uma intervenção na vida pública que envolve o seu papel nas instituições financeiras e no mundo dos negócios, para além da presença, que não é única na Igreja, nas instituições de ensino.

É sobre a Maçonaria que me vou pronunciar, porque sou a favor da obrigatoriedade de declaração de pertença, para o registo de interesses, dos participantes na vida política, em particular em eleições e cargos electivos. Toda esta matéria está armadilhada, por conspirações, desconhecimentos vários, análises sem contexto histórico, quer do lado antimaçónico quer do dos defensores da Maçonaria. Esclareço desde já que nada me move nem contra a Maçonaria, nem a sua pertença, nem comparticipo das teorias sobre a sua relevância como “sombra” de tudo o que acontece, posições, aliás, alimentadas pelo segredo que a envolve. Penso, de resto, que a sua importância é habitualmente exagerada e que a sua influência na coisa pública é hoje muito menor do que a que existiu no passado, mesmo depois do 25 de Abril.

Acresce também que não há apenas uma Maçonaria, mas duas, e que são diferentes em muitos aspectos. A antiga Maçonaria, aquela a que praticamente toda a gente se refere, é o Grande Oriente Lusitano, o GOL. Mas na década de 80 começou a surgir uma cisão que deu origem à Grande Loja Legal de Portugal/Grande Loja Regular de Portugal, GLLP/GLRP, em 1991. A influência do GOL é predominante no PS, está também presente no PSD e no CDS, mas tem sido a GLLP/GLRP que explica que, na vida política, o único partido em que a influência maçónica cresce é o PSD.

Qual o problema que justifica a obrigatoriedade da declaração de pertença no registo de interesses, em nome da transparência? É muito simples e a confusão que é lançada todos os dias é igualmente suspeita e releva para a importância desse registo: a Maçonaria tem uma intervenção na vida pública que produz efeitos na política, seja pela “protecção” de carreiras, seja pelas escolhas para certas áreas da política democrática de grande sensibilidade, como seja, por exemplo, os serviços de informação e segurança, em que a presença de maçons é relevante. Pode-se e deve-se perguntar porquê. A resposta envolve a horizontalidade da organização, que percorre diversos partidos e facilita os contactos não escrutináveis entre políticos e negócios, mútuas informações e mútuas protecções. E, depois, o oculto do segredo e as relações de confiança entre “irmãos” que tem papel nas escolhas e nas carreiras. Não precisa de estar decidido em reuniões ou em instruções, faz-se naturalmente pelos rituais de pertença, reconhecimento e “irmandade”.

O exemplo que é mais conhecido é o da Loja Mozart, do GLLP/GLRP. Na lista dos seus “irmãos” encontram-se vários membros do PSD e da JSD, alguns que foram membros do governo, um líder parlamentar, deputados, o presidente da Ongoing, um grupo de gente do PSD envolvida no processo da Ongoing, chefes de gabinete, chefes militares, membros da chefia dos serviços de informação. Quando rebentou o escândalo envolvendo o SIED e a Ongoing e começou a haver escrutínio da comunicação social, houve uma debandada da Loja para outras da mesma obediência maçónica, e explicações esfarrapadas de que só lá tinham ido por curiosidade, como se à Maçonaria se fosse por curiosidade. Teve esta Loja e a sua pertença algum papel na vida política? Basta ver a lista de “irmãos” que é conhecida, e que não é total, para ver como nalguns cargos na Ongoing, no grupo parlamentar do PSD e nos serviços de informação estão lá o número um e o número dois, o patrão e o empregado. Para além do mais, é difícil ver na pertença à Loja qualquer especial dedicação ao Supremo Arquitecto, mas sim preocupações de carreira, dinheiro e influência.

A este exemplo podem acrescentar-se outros do PS, em que a presença da Maçonaria é historicamente relevante e mais antiga. A crescente influência no PSD é que é nova, até porque, por razões históricas, se trata de um partido com uma forte génese antimaçónica e anticomunista. Pode-se dizer que o objectivo de Rio é mostrar essa influência no PSD, até porque um número significativo dos seus adversários internos é maçon.

Pode ser, mas também aqui é importante que se saiba, porque na vida política isto não é uma “questão de consciência”, nem matéria de privacidade, nem comparável à revelação da identidade religiosa ou de género. Pode a revelação da qualidade de pertença à Maçonaria ser um prejuízo pessoal, profissional e político? Pode, mas a qualidade de membro do PCP nuns meios ou do PSD noutros também é. E, no caso da Maçonaria, a manutenção do segredo aumenta a especulação que só é mitigada pela revelação da filiação.

A Maçonaria tem um sistema de valores que a colocam no plano cívico e político em sentido estrito e uma forma de organização que implica o segredo ou a “discrição” que é uma aberração em democracia. Se alguém quer ser da Maçonaria em segredo, muito bem, desde que não seja na vida política. Até porque são os mecanismos de segredo que mais têm permitido os abusos de patrocinato, tráfico de influências e corrupção.


A “reconfiguração da direita”

(José Pacheco Pereira, in Público, 06/03/2021)

Pacheco Pereira

Sem o doublespeak orwelliano, esta expressão não significa outra coisa senão capturar o PSD para a direita dos tempos da troika.


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A ocultação pelas palavras e a manutenção do poder pelo controlo sobre as palavras estão na essência do 1984. Orwell descreveu a linguagem do ingsoc assente no doublespeak e o que é mais que actual no seu livro é a percepção de que, mais do que a repressão directa, era o controlo do que se dizia e como se dizia que explicava o poder do Big Brother. Acrescia a esta percepção a também muito actual situação de o Big Brother proibir todos os anos um certo número de palavras, o que, empobrecendo o vocabulário e a sua capacidade expressiva, condenava os seus servos a uma linguagem gutural e pouco comunicativa. Não nos diz nada num mundo dominado pela restrição de caracteres no Twitter e as abreviaturas da linguagem gutural dos SMS?

Por cá temos muitos exemplos do doublespeak orwelliano. Recordo-me de um exemplo típico nos anos (que parecem saudosos a alguns) da troika, quando o Governo Passos-Portas-troika anunciou uma série de “cortes”. Algum “comunicativo” explicou que chamar “cortes” aos cortes era uma asneira e no dia seguinte todos os ministros, secretários e demais pessoal político passaram a falar de “poupança”. Ontem eram “cortes”, hoje são “poupanças”. Mas a prática continuou.

Um exemplo dos dias de hoje é a célebre “reconfiguração da direita”, expressão que muita gente usa descuidadamente como se fosse unívoca. Vamos por partes, começando pela “direita” e acabando na “reconfiguração”. Já disse cem vezes, e repito mais uma, que os termos “direita” e “esquerda” são muito inadequados para uma análise da complexidade da vida política contemporânea, mas, mais uma vez, por maldita comodidade vou usá-los. No entanto, com a redução da política a um grau muito próximo do zero, talvez passe de novo a ter algum sentido. Só que esta “esquerda” e esta “direita” já não são o que eram – são outra coisa, são expressões que são hoje tribais, num período de radicalização que varre tudo o que não seja pertença de uma tribo outra. Estamos no reino dicotómico da esquerda-direita, e tudo o que não se reconheça numa das tribos é visto como traidor por uma delas. Na verdade, a tribalização hoje é mais evidente à direita do que à esquerda, porque a agressividade identitária é muito maior, quer pelas forças, a principal das quais é a aliança com o populismo antidemocrático, quer pelas fraquezas, em particular nas urnas. Por isso, na nossa frase orwelliana da “reconfiguração da direita”, a direita de que se fala tende a não ser a direita democrata-cristã, nem conservadora, nem liberal, mas a direita tribal que vem para regular as contas com o “socialismo”, que parece ser o seu alvo, mas não é.

Vamos então à “reconfiguração da direita”, uma expressão que não significa outra coisa senão capturar o PSD para a direita dos tempos da troika. Para esta direita tribal, o PSD é o seu objectivo principal, não é o PS. Sem o PSD, toda esta direita tribal é grupuscular, quem tem os votos é o PSD, sem eles não se acede ao governo e esse acesso, principalmente em tempos de “bazuca”, é estratégico. O seu inimigo principal não é Costa, é Rio, que cometeu o crime de querer recentrar o PSD e tirá-lo da forte deslocação à direita que se deu no Governo Passos-Portas-troika. Daí a nostalgia do regresso de Passos Coelho, a criação de Relvas, cuja memória é todos os dias objecto de lavagem, também num sentido orwelliano. Um dos instrumentos dessa lavagem é a atribuição das políticas mais impopulares à troika, quando os ditames da troika foram consentidos, desejados e ultrapassados, indo “para além da troika. Na parte em que houve obrigação, isso deveu-se a que o descalabro orçamental de Sócrates foi seguido por vários meses de políticas idênticas, até aos célebres cortes do Natal, que seriam únicos e para não se repetirem (já ninguém se lembra), porque chegavam. O problema nem sequer foi apenas os cortes, mas o alvo dos cortes, o ataque aos mais velhos, a “peste grisalha”, e à baixa classe média, aos direitos laborais, a sistemática tentativa de fazer políticas anticonstitucionais, num ambiente de revanchismo social contra todos os que tinham saído da pobreza por via do Estado, na educação, na saúde, na administração pública. E a coisa acabou com o varrer para o tapete, com a conivência da União Europeia, de tudo o que ficou por resolver como a crise na banca, que ainda hoje pagamos.

Terminando com a “reconfiguração da direita”, sem doublespeak, e traduzindo, significa afastar Rio, trazer Passos ou um qualquer clone de Passos, capturar o PSD para a tribo, colocar o PSD à cabeça de uma “frente de direita” (algo que Sá Carneiro não quis que a AD fosse), e voltar à austeridade com os mesmos alvos do passado, “os que viviam acima das suas posses”, que não eram os que sempre viveram das nossas posses.


Moedas vs. Medina: o futuro do PS contra o do PSD

(Vítor Matos, in Expresso Curto, 02/03/2021)

(ACTIVEM O MOEDAS!

Nos bastidores da crise do BES, Ricardo Salgado largou, numa das conversas gravadas e tornadas públicas, a frase “activem o Moedas”, como sendo um derradeiro trunfo.

Pois bem, Rui Rio, acaba de seguir o conselho do antigo DDT: também ele “activou” o Moedas… 😉

Estátua de Sal, 02/03/2021)


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Bom dia!

Um dia, Zé Moedas, diretor do “Diário do Alentejo”, que era comunista, disse ao filho: “Não concordo contigo, mas luta por aquilo em que acreditas”. E o filho, nascido e criado naquela Beja parada, fez caminho nos estudos e depois nas empresas e a seguir no estrangeiro até ficar rico, digamos assim, para poder dedicar-se à política sem pensar no dia seguinte – nos antípodas do pai -, como militante do PSD e secretário de Estado da troika no Governo de Passos Coelho. Mas o voo mais alto estava para vir, nos cinco anos que passou como comissário europeu da Investigação, Ciência e Inovação. Agora, Carlos Moedas abdica de uma posição confortável na Gulbenkian para aceitar o desafio de Rui Rio e candidatar-se à Câmara de Lisboa. Devemos saber em breve, talvez hoje, o que tem para dizer o challenger do socialista Fernando Medina – também ele filho de dois comunistas que apesar de tudo se tornaram dissidentes do PCP e é de crer que também lhe dissessem para lutar por aquilo em que acreditava.


A política tem destas coisas, se Rui Rio andava com dificuldades em ter um trunfo viável que se pudesse apresentar para ganhar Lisboa, ele aí está: com esta jogada, o líder do PSD mostra instinto mas também cria um possível sucessor (quem sabe se futuro adversário) que ficará muito mais forte só pelo facto de ir a jogo, nem precisa de vencer. Se ganhar, claro, Moedas será promovido a herói laranja – como foi o próprio Rio em 2001 – e ficará o mais bem colocado sucessor na grelha de partida para uma presidência futura do PSD.


Estas coisas que a política tem exigem sempre prudência, e Fernando Medina não podia imaginar que lhe ia sair um touro de 500 quilos na arena – foi o que em 1989 disse António Pinto Leite a Marcelo Rebelo de Sousa quando lhe saiu Jorge Sampaio na rifa. Agora terá de arregaçar as mangas e mostrar o que vale no seu próprio terreno. Se perder, perde a mais importante câmara do país que já deu um Presidente da República e um primeiro-ministro ao PS, mas perde também as possibilidades de um dia poder liderar o partido. Se ganhar (sobretudo se não mirrar mais) continua tudo em aberto, caso um dia um dia queira aparecer como alternativa da ala esquerda de Pedro Nuno Santos e o PS tiver de voltar à zona central onde quase sempre esteve.

Com estes dois homens em competição, pode ser que a campanha seja verdadeiramente interessante, até porque ambos tiveram de pensar “cidade” por dever de funções nos últimos tempos. Há dois anos, quando ainda estava na Europa, o comissário Carlos Moedas fez um discurso em Portugal a dizer: “Hoje, quando vinha para cá, passei pela Avenida da Liberdade, e pensei ‘o que será daqui a dez anos a Avenida da Liberdade?’. O futuro é sempre diferente daquilo que nós pensamos.” São esses dois futuros em confronto que queremos ver a competir em outubro. O teste será decisivo para ambos, para Lisboa, que só tem a ganhar com o elevar da fasquia e já agora para os dois partidos também.

Na sua coluna diária no site do Expresso, o Daniel Oliveira escreveu ontem uma análise do que está em causa na capital, que vale a pena ler e que começa assim: “Há uma semana assinaria o epitáfio de Rui Rio Tudo indicava a desgraça: as sondagens, o crescimento dos partidos à sua direita e o fantasma de Passos Coelho. Mas é capaz de ter sido o sopro de Passos Coelho no seu pescoço que fez Rui Rio tirar Moedas da cartola. (…) As autárquicas podem ser a salvação de Rio. Mas um fantasma do passado pode ser substituído por outro do futuro. Se Moedas ganhasse Lisboa estaria bem colocado para liderar o PSD.” Agora vamos ao resto.

OUTRAS NOTÍCIAS


E o resto é o principal, aquilo que nos tem preenchido ou esvaziado as vidas e que nos mudou tudo, infelizmente para milhares de famílias tem sido uma tragédia, faz hoje um ano desde a primeira infeção por covid em Portugal. E desde então já morreram 16.351 pessoas no nosso país com o novo coronavírus, podia debitar por aqui muitos números, mas este chega para nos pôr a pensar. “Cansa-me o cansaço de estar sempre cansada”, lê-se num destes 28 depoimentos recolhidos e escritos pela Marta Gonçalves para assinalar este momento de fazer balanços: “Um cansaço perigoso, traiçoeiro: num dos casos este cansaço estava a matar e a própria pessoa nem se apercebeu”.

Numa abordagem mais imediata, ficamos a saber que já só há 14 concelhos com risco muito elevado e apenas três com risco extremamente elevado, ou seja, o confinamento está a dar resultados. Noutra mais de fundo, vale a pena olhar para trás e ler este trabalho da Liliana Valente sobre “um ano a governar em aflição” e que foi publicado na última edição em papel do Expresso e que nos conta os bastidores do Governo na gestão da pandemia durante o último ano.

Marcelo Rebelo de Sousa, que se tem assumido como “supremo responsável” por tudo o que se tem passado na pandemia, também fez questão de assinalar um ano de infeções com uma mensagem publicada no site da presidência, onde elogia os profissionais de saúde, o SNS e os privados, mas não deixa de mostrar os dois lados da moeda e de mandar mais um recado ao Governo: “O país foi-se ajustando à pandemia, umas vezes mais proativamente outras, infelizmente, mais reativamente.” O Presidente da República tem insistido numa regulamentação do ruído, mas valerá a pena legislar apenas para o confinamento? A lei do ruído será revista “mais cedo ou mais tarde”, diz ao Expresso o presidente da associação ambiental Zero.

E será que a redução de casos positivos identificados oficialmente está a descer muito porque Portugal está a testar pouco? “Não”, diz um especialista ouvido pelo Expresso e que esteve há uma semana na Assembleia da República. Também pode ouvir aqui o Expresso da manhã, moderado pelo Paulo Baldaia e com os comentários do David Dinis e do Daniel Oliveira, sobre quem afinal é que manda neste segundo ano de pandemia: Marcelo ou Costa? É ouvir.

A semana arrancou com uma mudança um tanto inesperada na estratégia da Comissão Europeia quanto ao já famoso ‘certificado de vacinação’. Depois de semanas de ressalvas e reservas face à hipótese de introduzir esta espécie de passaporte, Ursula von der Leyen anunciou esta segunda-feira, logo pela manhã, que Bruxelas vai avançar com uma proposta legislativa para a criação de um ‘digital green pass for travel’. Este documento poderá incluir informações como o resultado de testes à covid-19, provas de imunidade ou comprobatórios de vacinação. O vice- presidente da Comissão Europeia, Margaritis Schinas, assegurou ontem que “não é uma discriminação; é a criação de um sistema comum para assegurar a mobilidade segura dos cidadãos europeus”. Mas nem todos concordam. Estados-membros como a Bélgica vieram já dizer que a vacinação não pode comprometer a liberdade de circulação na UE ou pôr em causa o princípio europeu de não-discriminação. A proposta de Bruxelas será conhecida em detalhe a 17 de Março e promete não ser pacífica.

Por falar em liberdade de circulação e documentação europeia relativa à pandemia, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras deteve, este domingo, no Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, três cidadãos portadores de documentação falsa sobre a realização de testes de covid-19. Dois deles foram detetados na partida de um voo com destino à República da Irlanda, e outro para a Áustria.

O PCP comemora 100 anos esta semana, o que faz de um partido marxista-leninista a organização mais antiga presente na democracia portuguesa. Como as instituições antigas têm as suas liturgias, os comunistas farão hoje às 11h, em simultâneo, uma romaria aos lugares dos seus mártires por todo o país: pelas vítimas do Tarrafal no cemitério do Alto de São João; em Alcântara, por José Dias Coelho, assassinado pela PIDE em 1961; em Baleizão, no monumento com a foice e o martelo onde Catarina Eufémia foi assassinada pela GNR em 1954; e na Estrada de Bucelas, perto do local onde Alfredo Diniz (Alex) foi morto em 1945. Ontem, Jerónimo de Sousa falou da sua vida mais do que do partido numa entrevista a Miguel Sousa Tavares na TVI: Em meia hora, o homem que há 17 anos lidera o PCP lembrou memórias da guerra, da entrada na política do mundo operário para a bancada da Assembleia Constituinte e ainda do atual estado das relações com o Governo do PS.

Quem continua a detetar falhas e limitações que “fragilizam a monitorização da informação” é o Tribunal de Contas, no seu segundo relatório sobre a execução orçamental das medidas de resposta à covid-19.

E se o Benfica andava há quatro jogos a sofrer com outras falhas e as limitações, ontem o clube da Luz regressou finalmente às vitórias com um golo de Seferovic e outro de Pizzi, frente ao Rio Ave. Mais otimista que nas últimas semanas, Jorge Jesus disse que “a equipa sabe que está a respirar, a meter a cabeça fora. São estas vitórias que nos alimentam e dão confiança”.

Lá fora, em França, a notícia de um ex-presidente preso num país onde a extrema-direita está cada vez mais forte nas sondagens: Nicolas Sarkozy, inquilino do Eliseu entre 2007 e 2012, foi condenado ontem a três anos de prisão, dois de pena suspensa e um de prisão domiciliária efetiva com pulseira eletrónica. Não vai para os calabouços, mas não serão as férias mais agradáveis… O ex-chefe de Estado francês foi condenado por ter tentato obter informação junto de um magistrado de forma ilegal, em 2014, no contexto de um processo jurídico em que estava envolvido, oferecendo-lhe um lugar em troca. Sarkozy ainda será julgado de novo no final de mês, noutro processo relacionado com a sua campanha para as eleições presidenciais de 2012, que perdeu para o socialista François Hollande.


FRASES


Se alguma coisa positiva se pode retirar daquelas imagens trágicas, é o reconhecimento de que há uma disfunção na forma como os doentes acedem às urgências
Nélson Pereira, coordenador do serviço de urgências do Hospital de S. João, no Porto, no “Público”

É arriscado ousar um exercício de otimismo quando a doença grassou, a morte se instalou e a crise levou tantas famílias à miséria. Mas, um ano depois, é fundamental ver em perspetiva o que se passou
Manuel Carvalho, diretor do “Público”, no editorial

Essa maior fragilidade de todos nós é lamentavelmente acompanhada por um Governo que se mostra menos capaz de transmitir uma mensagem de confiança
Helena Garrido, “Observador”


O QUE ANDO A LER


Sam Shepard põe-se a falar ou a escrever de fora quando afinal o que está é a falar sobre si neste pequeno livro de memórias, crónicas, e poemas, um road book em registo diarístico que havia de lhe dar a inspiração para escrever o guião do filme “Paris, Texas” realizado por Wim Wenders no longínquo ano 1984. As “Crónicas Americanas” que um bom amigo me ofereceu há anos suficientes para me sentir velho, mas que só fui lendo agora para desenjoar de outro demasiado volumoso – e que tem em inglês o título “Motel Chronicles” – é uma viagem por parte da vida do escritor, ator e dramaturgo desaparecido em 2017, que nos leva pela aridez das estradas da Califórnia, Texas ou Novo México, e onde só falta sentir o odor a mofo dos quartos à beira do asfalto. Cada texto está assinado com uma data e local onde foi escrito, o que nos dá uma verdadeira sensação de realidade e tempo.

Numa das crónicas (será antes uma reportagem?) fala do “cheiro a cobras”, nojento sim, uma “cascavel Mojave verde” desmembrada, mas a que raio cheira uma cobra?, é melhor nem pensar nisso. Noutra, quem dera escrever assim, porque escrever assim é uma coisa muito dos jornalistas que escrevem bem, descreve como ao descer uma colina a cavalo lhe mete medo (mas ele não precisa de lhe dizer que mete medo) o olhar de um rancheiro que ele nem sabe que está a olhar para ele. Um medo ancestral de descendentes de colonos ou uma reminiscência dos filmes de cowboys? Ou o medo do pai dela, noutro texto, com quem ele “fez” ao longo de uma viagem de comboio, ou ainda, mais impressionante, a história da camisa encarnada… onde o não dito e o que fica por dizer nos incomoda mais do que se fosse dito, até porque imaginamos que haja ali alguma verdade.

Por hoje fico por aqui, obrigado por ter chegado até ao fim da chávena, e tenha um bom resto de semana. Continue a acompanhar as notícias pelo Expresso, pela Tribuna ou pela Blitz.