A montanha pariu um rato – amarelo

(Estátua de Sal, 21/12/2018)

coletesSe eu fosse adepto das teorias da conspiração diria que esta história dos coletes à portuguesa teria sido encomendada pelo António Costa.

O Governo, atacado pelos enfermeiros, pelos professores, pelos procuradores, pelos juízes, pelos guardas prisionais, pelos helicópteros a cair, pela Procuradora Geral da República a ameaçar, pelos recados do Prof. Marcelo, pelos alarmes da Dona Cristas, e pelo coro de comentadores assanhados que povoam o espaço público, adivinhava-se que iria ter um Natal tristonho, sem bacalhau para a ceia, nem uma prendinha que se visse no sapatinho.

O país estaria zangado com António Costa. O país teria pesadelos e acordava assarapantado de noite com suores frios, porque em sonhos lhe teria aparecido Passos Coelho a prometer uma grande descida de impostos e a jurar, a pés juntos, que desta vez seria mesmo a sério e para valer.

E por isso o país inteiro viria para a rua vestido de amarelo, cartão da mesma cor a dar ao Governo, reclamando menos impostos, maiores salários, menos falhas do Estado, mais serviços públicos, menos mordomias para  os políticos, menos canga para o povo cansado de sofrer, cansado da inoperância e das orelhas moucas da classe política.

As televisões anunciavam e promoviam, em caixa alta, numa espécie de frenesim orgástico a eminente tomada do Terreiro do Paço pela imensa fúria do povo injustiçado, às mãos de uma Geringonça contranatura. O Prof. Marcelo ajudava à festa e, sob o pretexto de apelar à calma e ao comedimento, reunia-se com os líderes do movimento dando-lhes visibilidade e carimbando – qual promulgação presidencial -, a justeza dos protestos e das reivindicações.

As polícias prepararam-se e contaram os stocks de gás lacrimogéneo, não fosse a coisa dar para o torto. Azar, ficaram aflitos. Os stocks estavam mesmo em baixo devido às cativações do Dr. Centeno. Os pivots das televisões deitaram-se mais cedo, antevendo que, no dia seguinte, teriam que fazer uma maratona cansativa com directos de inédita violência, pautados pela sábia e continuada análise dos comentadores de serviço.

Pois bem, o dia começou com céu ligeiramente nublado, temperatura média de 15º graus, sem precipitação, humidade relativa de 79%, velocidade do vento, 5km/h. As gentes saíram para a labuta diária. Carros, autocarros, transportes públicos, engarrafamentos nos pontos do costume.

E os amarelos afinal também apareceram. Às dúzias, apenas. Em Lisboa não chegavam para encher uma bancada do Estádio da Luz e no Porto a mesma insuficiência para o Estádio do Dragão. Em Faro, um directo ridículo da CMTV conseguiu entrevistar cinco amarelos.

O êxito de qualquer manifestação pública mede-se, certamente, pelo número de cidadãos que se manifestam, e costuma sempre haver alguma controvérsia no contar das cabeças. Tal regra não valeu neste caso. As imagens das televisões foram inequívocas: mais polícias e jornalistas que manifestantes foi a proporção que sobressaíu de muitas das imagens.

Pelas onze da manhã, António Costa enfrentou afoito as televisões e, com um sorriso meio trocista, foi dizendo que em Portugal não há razões para se temer que haja alarme social. O Prof. Marcelo, sempre em cima do acontecimento, permanecia mudo, sem agenda pública, talvez muito ocupado a fazer as compras de Natal. Os comentadores estavam de orelha murcha. Por volta do meio-dia a SIC passou as parangonas para o caso do e-toupeira e deixou os amarelos entregues à sua sorte.

Ora, este fiasco amarelo no qual os críticos de serviço deste Governo apostavam em força – alguns de forma óbvia, outros de forma envergonhada e mais sub-reptícia -, por muitas outras justificações que se queiram agora encontrar, só pode ser explicado porque o descontentamento dos portugueses com a governação está longe de atingir o nível de desagrado que a direita propaga e tudo faz para empolar.

Portugal não é a França e Costa não é Macron que tem governado contra a maioria do povo, a favor da elite e das grandes fortunas e assim se preparava para continuar, sendo isso o rastilho da contestação. Costa lá vai subindo um pouco o rendimento das famílias, o salário mínimo, ainda não baixou o IRC como pretende o Saraiva da CIP e todo o coro da direita encartada, e mesmo assim leva logo o cartão amarelo da Comissão Europeia, da Dona Teodora e dos demais profetas da desgraça.

Não, Portugal não é a França. Se o fosse, Costa poderia satisfazer – como fez Macron -, todas as reivindicações salariais da função pública, mais as carreiras dos professores e ainda ficava com uns trocados para acudir ao SNS, sem que ninguém viesse sancionar o país por deficit excessivo, nem que subissem os juros a pagar pela dívida pública.

Pelos vistos os portugueses estão conscientes dessa diferença de contextos, quer a diferença entre o poderio político e económico dos dois países no seio da União Europeia, quer, fundamentalmente, a diferença na postura ideológica dos seus dois governantes na condução da política económica a qual tem impacto sobre o seu nível de vida e de bem-estar.

A partir daqui, quando a Dona Cristas vociferar cobras e lagartos, quando Marcelo vier com as falhas do Estado e o desânimo dos portugueses, quando a direita vier arrolar os comboios que não andam, as estradas que ruem, os helicópteros que caem e as cirurgias canceladas como prova de grande anarquia e descontentamento social, António Costa poderá, com um leve sorriso trocista dizer:

— Não vejo qualquer descontentamento nas ruas, o povo é sagaz, gosta da Geringonça, está sereno, e a protestar só vi meia dúzia de amarelos.

OPOSIÇÃO e… RUA!

(Joaquim Vassalo Abreu, 20/12/2018)

vassalo2

Nota: Texto sem pontuação No Natal ninguém leva a mal

Diz quem o ouviu pois eu apenas li que na sua habitual prédica no crepúsculo dominical o pregoeiro Mini Mendes neste último em que botou sermão se transformou assim como uma coisa que se lhe terá dado no porta voz da Rua elevando-a assim a um agente politico de tal dimensão que para ele já suplantou em força o tido por quarto poder os chamados Midia

Afirmou ele medindo o País à sua pequena escala que O Governo está cercado de greves por todo o lado tendo-se transformado portanto e sou eu que agora o digo numa isolada ilha e que Como não há Oposição existe um vazio e esse vazio é preenchido pelas ruas

Eu não sei o que lhes passa pelo vosso occipital isto lendo mas pelo meu frontispício passou assim como um clarão tipo uma epifania estão a ver e perguntei-me A oposição foi posta na rua quer dizer despedida do Parlamento ou despediu-se e foi para a rua fazer oposição coisa que no Parlamento não vem conseguindo fazer pois só lá tem um Ministro de jeito o Centeno que é assim tipo um canivete mas de matriz nacional pois que Suíço tá queto

E que A Rua não vai parar e aqui eu até confesso que fiquei assustado pois se a rua não vai parar é porque anda e se desloca e ainda falta saber a que velocidade máxima o poderá fazer e nós é que ficaremos parados vendo o futuro avançar Portugal adentro e Europa afora até que a Rua finalmente diga fora a Europa também não explicando se numa de Tugaexit ou se numa Jangada de Pedra Atlântico adiante tudo isto se a Espanha concordar e tal qual Saramago também o Lobo Antunes o deseja para vocês verem

Já estão a vislumbrar o que nos poderá acontecer se a Rua resolver não parar e o fogoso Mini Mendes e notem agora a diferença com o Super Mendes não o do que espectáculo mas o dono dos jogadores da bola que o nosso Mini observa entusiasmado como o super já não pára nas Ruas e já só anda Mundo afora e ele o Mini Mendes repetindo no seu Mini ó Mini vai mais uma mini que espectáculo

Mas dizia eu que entusiasmado e passando-lhe cada vez mais coisas parvas pela sua linguaruda língua o Mini Mendes acrescenta que Esses movimentos inorgânicos vão prejudicar a maioria absoluta do PS e eu aqui até que fico a pensar mais profundamente pois que tratando-se de coisas inorgânicas o mais certo é que conspurquem de coisa amarelada a dita Rua e porque como ele disse é algo em movimento que nós é que temos que seguir e não a conseguindo nós acompanhar também não possamos votar e aí adeus ó absoluta e será que será assim  ou eu é que estou a ficar assim como que varridinho da minha cobertura

E conclui a sua notável prédica dizendo É que está tudo esgotado Mas também aqui falta esclarecer se está tudo esgotado de cansado se de falta de ideias ou de lugares disponíveis mas ele logo a seguir esclarece que Não são só os Partidos e os Políticos que estão esgotados mas que os Sindicatos também estão e por isso só agora percebi porque lhes chama ele de inorgânicos e É que tanto a UGT como a CGTP observam de cabeça perdida estas greves remata o sermoneiro

Mas olhe-me aí ó meu sinhor meu piccolo matraquiilho e se a Ruate levasse

Já sei que ficaste todo amarelado nos panos que te seguram as nalgas quando pensaste vou para a rua também aqui é interrogação agora só para ajudar porque em vez de cagaço poderia até parecer convicção

Não só vais se quiseres ó Mini Mendinho tu o do dedinho espertinho o que arranha o olhinho o que cusca o narizinho o que palita o dentinho e o que coça o rabinho só se quiseres meu danadinho basta só saber em que condição se como despedido ai credo ou se como dirigente sindical mas inorgânico que é o que te falta meu tiromante de meia tijela

E tu bem que motivos tens para ires para a rua e vê só como mudaste o teu discurso com o cagaço da Rua é que tu já nem da CGTP tens medo e até os apelidas de meninos de côro é que agora já só te metem medo os amarelos e sabes porquê Porque nem são vermelhos de cansaço nem são amarelos dos coisos isso mesmo são Verdes e é por isso que estás tão confuso

E só se passaram três anos desde que estes usurpadores vos ocuparam o poder e tu foste virando e virando até que deste um salto mortal no escuro com pirueta encarpada e tudo e voltaste ao futuro isto é ao presente e dizes para ti próprio porque ainda não tens coragem para o dizeres de boca cheia porque te pélas de medo do canivete Centeno três aninhos apenas e olha como tu voltas a olhar Portugal uma desgraça não acham

As estradas a ruírem as pontes a caírem as árvores a tombarem diz a Cristas os helicópteros do INEM a antenas derrubarem tudo estruturas do Estado a falharem diz o Celito mas tanto Tuga a viajar e já não é para emigrar pois os bolsos se mostram a abarrotar e até já sonham em voltar e até o record de dinheiro mandado para a sua Pátria bateram e tudo isto em três anos e não é de se protestar

E em só três aninhos eis as cidades a transbordar dessa gentalha que não trabalha e a quem chamam de Turistas gente que não faz nada na vida e só vêm para cá para o sol nos roubarem os desgraçados para atazanarem as nossas calminhas vidinhas cambada de malandros e se fossem era trabalhar em vez de só se quererem reformar e casa aqui comprar Em só três anos vejam nos que isto ficou é ou não de se protestar

E em só três curtos anos vão-nos pôr é outra vez na bancarrota vão ver que não ora essa mas não o quê e sabem porquê Porque passam a vida nas cativações para porem o dinheiro sabem onde Na almofada nem investem nem criam riqueza é o que é e vai tudo para uma almofada que de tão almofadada qualquer dia passa a colchão e que fizeram mais em apenas três anos Deram foi cabo do nosso querido deficit e até os esquerdalhos se queixam está quase no zero pode isto lá ser Incompetência e gritante não merecem é governar e não é de se protestar

Repuseram tudo o que de tão bom fizemos com os sacrifícios que pedimos aos Portugueses deixem-me agora rir e agora Agora até já os Subsídios pagam e por inteiro e na data estipulada baixaram o IRS repuseram os salários aumentaram as Pensões e até o divino desemprego desceram para metade poderá haver maior inconsciência será isto governar se já nem sacrifícios se pedem nem penitências se obriguem a cumprir É ou não de protestar

Mas quem pensa o “monhé” que nós somos Nós temos grandes aliados e até de mil greves financiadores se é que ainda não notaram desde logo a nossa senhora das cavacas padroeira de toda a enfermage nomeadamente dos que juraram operações não mais acompanhar e trabalharem só quando lhes for permitido fazerem-no em simultâneo no publico e no privado com horários diferenciados e sem trabalho escravo como têm no privado perdão no público

E ex-equo o vosso beato dos nogueirais padroeiro de todo o professorame principalmente dos que não dão aulas e querem receber tudo de uma vez ele que afirmou que 2019 irá ser o seu ano ele prometeu e eu até caí na tentação de acreditar que ele iria finalmente saber o que era uma sala de aulas e enfrentar ganapos em vez de Ministros e que tais mas ledo engano o meu…

Por tudo isso ide e juntai-vos à amarelaje ide e lá ficai ide com a Rua e conspurquem-se de amarela Rua ai que coisa boa

Deus Lhes Pague como um dia escreveu o Chico (Chico Buarque de Holanda)

Nota: Espero estar tudo bem pontuado para que a leitura tenha saído fluente e quase poética!

          Bom Natal e Ano Feliz para todos!

A entrada dos drones na vida política nacional

(José Pacheco Pereira, in Público, 24/11/2018)

JPP

Pacheco Pereira

Está toda a gente indignada com o “falhanço do Estado” no caso da estrada que ruiu matando pelo menos cinco pessoas. E devem estar não tanto pelo “falhanço do Estado”, porque, para além de ser um falhanço, o falhanço é a regra. A excepção é as coisas funcionarem bem — ou seja, dito à bruta e sem rodriguinhos, Portugal é um dos países mais atrasados da Europa.

Repito: Portugal é um dos países mais atrasados da Europa, em que as infra-estruturas estão envelhecidas ou nunca foram modernizadas, não existem onde deviam existir, em que faltam serviços essenciais por todo o país, com mão-de-obra muito pouco qualificada, com patrões muito mal preparados, com baixa produtividade, com uma administração burocrática que não promove o mérito, e é corrupta e clientelar, com instituições de regulação que não regulam nada, com inspectores que não inspeccionam nada, com um território que não tem qualquer policiamento fora das cidades, com escassez de meios para tudo e abundância de desperdício por todo o lado. Podia encher o jornal todo e ainda dava para muita edição.

Comparem estatística a estatística e, de novo, salvo raras excepções, Portugal fica num mau lugar. Um país com tanto atraso estrutural gera inevitavelmente má governação a nível local e nacional, porque falta massa crítica para fazer melhor. E falta pressão para que tal aconteça. Por isso temos o Estado que temos e somos, por regra, tão mal governados. As desigualdades são talvez a melhor marca desse atraso.

Mudou muita coisa nos últimos 40 anos? Mudou, claro, e muita para melhor, mas o atraso era enorme e hoje continua grande. Como dizem os saudosistas do salazarismo, havia muito ouro no Banco de Portugal, mas o preço desse ouro entesourado era uma elevada mortalidade infantil e analfabetismo, a exploração dos mais pobres, uma guerra e uma ditadura.

O 25 de Abril fez muito para retirar o país do seu atraso, através desse valor intangível da democracia, mas está longe de ter conseguido dar a volta a muito do atraso atávico do país. É como com as chuvas de 1967, que mataram em Loures, mas apenas molharam em Cascais.

Mas não se iludam: a maioria dos portugueses pode protestar muito, nos cafés antigos, e nos cafés modernos que são as redes sociais, mas, com excepção dos seus imediatos interesses, não quer saber muito disto é até colabora participando na pequena corrupção, na fuga aos impostos, nos pequenos truques quotidianos com o ambiente, a qualidade dos alimentos, as obras na casa, etc., etc. Só se preocupa com a pátria pelo futebol e de resto manifesta uma indiferença cívica total.

Porque os portugueses são maus ou um caso perdido? Não, nada disso, são como todos os povos, só que pagam o preço do atraso do seu país, tornando-se, pelas suas atitudes, parte desse atraso. O que é que se espera de pessoas pobres, sem grande educação formal, vivendo uma vida dura, acantonadas num diálogo cívico miserável, que é o que se passa nas redes sociais, sem poder e com muitas dependências para exercer o pouco poder que tem, sem conhecer os seus direitos, numa sociedade e com uma política que faz tudo para os embrutecer?

Mas foram eles que permitiram a negligência criminosa daquela estrada? Não, não foram. É sempre em primeiro lugar o governo. Mas, a sua quota-parte de responsabilidades está na sistemática falta de protesto cívico, de punição pelo voto de autarcas e governantes que tão mal gerem os dinheiros públicos, e por muitas vezes fecharem os olhos ao facto de a gestão ser tão má que deixa cair pontes e estradas, como é má gestão fazer um pavilhão gimnodesportivo que custou milhões e depois deixam estar fechado a degradar-se, mas que queriam muito para a sua terra. Ou quando nem querem ouvir falar do encerramento de pedreiras ilegais ou fábricas pirotécnicas, porque dão emprego onde não existem alternativas. Por todo o país fora, até um dia em que as coisas correm mal.

E também não tenham ilusões: este caso só teve a cobertura mediática que teve porque os cenários eram espectaculares para a televisão, e os drones tornaram muito barata a filmagem aérea. Se as mesmas cinco pessoas morressem numa curva de uma estrada contra uma árvore, mesmo que a curva devesse estar há muito sinalizada e houvesse quem tivesse chamado a atenção para a incúria face ao perigo, as notícias não duravam um dia, nem havia debates, nem ia lá o Presidente, nada. Era um não-caso. Só que, aqui, aqueles gigantescos buracos eram magnífica e dramática televisão, e é por isso que temos um “caso”. Os drones entraram definitivamente na vida política portuguesa.