O Irão já atacou?

(Por José Gabriel, in Facebook, 09/08/2024)


(Voltemos à deprimência da política nacional, e à agenda do (des)governo em funções:

“O atleta da foto, depois de transformar o caos nas maternidades em rali rodoviário, foi a Paris em busca de medalhas para desviar as atenções do fracasso do Governo. Não é o ouro olímpico que esconde o desastre em que o seu cúmplice Marcelo lançou o País.” (Carlos Esperança, in X, 12/08/2024).

Estátua de Sal, 12/08/2024)


O Irão já atacou?

(A direção da CP assiste, perplexa, à intervenção intempestiva do governo no plano – já em curso e fase de concretização – da alta velocidade. Segundo o governo, é preciso cortar no material circulante já previsto para dar oportunidade ao mercado – nomeadamente ao grupo Barraqueiro – à iniciativa privada, sendo que o plano da CP em curso tinha uma forte componente pública. A manobra move muitos milhões)

O Irão já atacou?

(O Tribunal deu razão ao demitido director do INEM na questão dos helicópteros. O acórdão sobre o assunto é uma brutal bofetada política e ética no governo e na ministra da Saúde em particular)

O Irão já atacou?

(Começaram a retórica e ameaças do governo contra aquilo a que chamavam, em tempos, “peste grisalha”. O problema do país são os velhos. Portanto, toca a dar prebendas fiscais aos jovens – a malta do futebol vai gostar dessa coisa do IRS jovem, perante a redução de milhões nos seus impostos –, às grandes empresas, e pôr os mais velhos a pagar até que se desfaçam em fumo.)

O Irão já atacou?

(O governo faz promessas, anuncia medidas que não realiza, desfaz-se em retórica vã, pratica a demagogia impenitentemente, mal escondendo os interesses que serve)

O Irão já atacou?

(A ministra da Saúde faz um discurso repulsivo sobre o alegado caos no SNS, preparando-se, ela sim, para promover esse caos, preparando medidas servis ao sector privado – por um anunciado excesso de convenção -, caminho que, mesmo os países mais ricos da Europa tiveram de abandonar por ser impossível de pagar. Uma via suicidária. E quem vier atrás que feche a porta.)

O Irão já atacou?

(O presidente da República tudo faz para encobrir os disparates e patifarias dos seus meninos, descobrindo soluções que nunca lhe ocorreram no caso de outros governos. É o vale tudo – incluindo batota.)

O Irão já atacou? Não. Mas a direita portuguesa, rasca e medíocre, sim. O resultado vai ser brutal e amargo. Mas a verdade é que tiveram quem neles votasse.

O Irão já atacou? Não, mas enquanto ataca e não ataca, os tolos vão sendo entretidos. E não se metem no que lhes diz respeito.


Este aquecer as costas a um assassino como Netanyahu não deve espantar ninguém

(Whale project, in Estátua de Sal, 22/07/2024, revisão da Estátua)


(Este artigo resulta de um comentário a um texto que publicámos, de Carlos Matos Gomes, sobre a subserviência da Europa aos EUA, (ver aqui). Pela sua atualidade e assertividade de pontos de vista, resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 22/07/2024)


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Este aquecer as costas a um assassino genocida como Netanyahu não deve espantar ninguém.

Afinal de contas, foi nisso que os Estados Unidos sempre foram brilhantes. Quando sabem quem, num determinado país, é o maior sacana sem préstimo, capaz de vender a própria mãe a uma tribo de canibais, apostam todas as suas fichas nele.

E o apoio não se fica só pelo fornecimento de armas.

Na Indonésia, a CIA forneceu metodicamente listas de morte com os nomes de todos os membros do Partido Comunista do país.

Foi com base nestas listas que mais de um milhão de pessoas foram assassinadas e as ruas de Jacarta se encheram de montes de mortos.

Por todas as ilhas do grande país insular o cenário foi o mesmo. Morte em massa com a bênção do e o apoio técnico do “mundo livre”.

“Jacarta” era o nome que surgia pintado por fascistas, apoiados pelos Estados Unidos, nas ruas da cidade de Santiago do Chile.

Poucos sabiam onde ficava essa cidade distante nem o que lá tinha acontecido.

Mas, com o golpe de Pinochet, viram o rio Mapocho, uma espécie de Rio Tejo de Santiago do Chile, a transportar os seus mortos.

Num e noutro caso, para além da morte em massa, seguiu-se o inferno do neoliberalismo.

No Chile, até os cemitérios foram privatizados, tornando-se insustentável até enterrar os mortos. Mas quem protestasse tinha o problema resolvido: sepultura numa vala comum, depois de levar um tiro nos cornos.

Mais uma vez, as listas de morte da CIA funcionaram e, até foi dado aval ao assassinato de, pelo menos, um jornalista norte-americano.

Na Indonésia, havia fábricas onde os trabalhadores estavam alojados em cubatas ao redor da fábrica, recebendo em troca do seu trabalho apenas alimentação e assistência médica elementares. Lembro-me de uma reportagem indecente, que dizia que essa situação poderia parecer escravatura aos olhos ocidentais, mas era preciso ver que, para os padrões da Indonésia, tais condições eram boas. E quem criou esses padrões na Indonésia?

Mas, é sempre assim que se desculpa o nosso apoio a trastes. São “realidades diferentes”. Os orientais são, por natureza, selvagens e cruéis e, de qualquer forma, podem viver com uma tigela de arroz.

Na América Latina ninguém quer trabalhar e, se os deixarmos à solta, tornam-se comunistas para roubarem o que os grandes empresários empreendedores têm.

Os pretos da neve estão prontos a dominar o mundo, se não os derrotarmos na Ucrânia. E isso dá-nos motivo para apoiar um traste como Herr Zelensky.

Os palestinianos são todos uns terroristas que batem nas mulheres, e querem é fazer explodir coisas. Isto dá-nos um motivo para apoiar um genocida que escarra ódio desde os anos 80 do século passado e cumpre agora o seu sonho molhado de destruição.

Foi sempre este racismo, este desumanizar o outro, que justifica que esta gente apoie o maior filho de uma égua parida que esta terra já deu, e ainda assim durma em sossego.

Quanto à Europa, sempre foi vassala e sempre será.

Mas este aquecer as costas, a um patife como Netanyahu, não deve surpreender ninguém, tendo em conta a nossa longa história de apoio a trastes sanguinários.


Assim vai o SNS: Onze horas na Urgência – um testemunho

(Júlio Marques Mota, 19/07/2024, Revisão Estátua de Sal)

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Ontem estive doente – nada de especial, mas assustei-me. Tanto poderia ser um AVC como outra coisa equivalente ou apenas uma pequena vertigem, é o diagnóstico com que parto de casa. Havia apenas um problema de equilíbrio, sem dores de cabeça ou qualquer outra anomalia. Apenas uma questão de equilíbrio ao caminhar. Levado de ambulância para o Hospital da Universidade de Coimbra, aí estive cerca de 11 horas, grande parte delas numa cadeira de rodas que são brutalmente desconfortáveis. Dir-se-á que as cadeiras de rodas dos hospitais não foram feitas para serem confortáveis mas, que se sente nelas durante 5 horas seguidas um defensor da política de austeridade no SNS, e verá como se levanta depois.

Afinal, o diagnóstico definido, de entre um leque possível, era do ponto de vista de gravidade, o menos mau de todos, já que todos os outros eram assustadores. Para despistagem de problemas tira-se uma TAC, um pouco antes da meia-noite, e a conclusão a que se chegou depois foi: tratava-se apenas de uma minúscula pedra no ouvido, dito cristal de carbonato de cálcio! Para susto chegou.

Mas passou-se uma noite espantosa, a assistir a muita situação de dor, de violência, de esforço, de abnegação, tanto pela parte do pessoal de serviço como pela parte dos doentes que precisavam dos seus serviços. Sempre foram 11 horas no serviço de urgência, embora grande parte delas numa situação recatada. Sem querer fazer nenhuma crónica disto, aqui deixo alguns pormenores relevantes, a saber:

  1. O estado degradado em que se encontravam muitas das cadeiras de rodas. Num caso, estava a ser transportada uma senhora de peso e volume considerável. A cadeira encravou-se. Nem imaginam o trabalho que deu mudá-la de cadeira de rodas. Aqui lembrei-me da troika, de Passos Coelho, o homem que queria ir mais longe do que a própria troika. Uma consequência da sua violência política, do seu desprezo por aqueles que sofrem, estava ali, no raio daquela cadeira de rodas que se recusava a rolar com aquele peso em cima.
  2. O ritmo intenso em que se trabalhava naquela casa, Descanso, era coisa que ali não se via, qualquer que fosse o nível operacional: médicos, enfermeiros, auxiliares, ninguém sabia ali o que era descanso. A azáfama era uma constante.
  3. O mais incómodo de toda esta noite foi um telefonema ouvido a partir de alguém que estava a dois metros de mim, no mesmo corredor. Falava com a ex-mulher, não falava baixo, mas também não gritava. Queria saber onde ela estava, ela recusava dizer-lhe. Ouço a ameaça de que iria procurá-la: ouço o choro convulsivo da mulher a dizer que ele tinha dado cabo da vida dela e da dos filhos. Não o queria ver mais. Irei procurar-te, está descansada, que te encontrarei, insistia ele. E  a pergunta, onde é que estás e a mesma resposta foram ouvidas repetidas vezes. O telemóvel era de muito boa qualidade, dada nitidez do som que se ouvia à distância e falo não só da altura do som mas da nitidez do mesmo. O que ali estava era o drama de mais uma mulher vítima da violência doméstica, não uma só uma pessoa, mas ela e os filhos que acabarão por perceber que não tem um pai, mas sim um monstro. Num contexto físico, diferente daquele em que me encontrava, iria questionar o monstro que estaria ao meu lado e que eu não via, dado haver pessoas pelo meio. Mas, assim, calei-me e silenciosamente senti as palavras ouvidas como balas contra a minha capacidade de sentir.
  4. Um pouco antes da meia-noite sou levado à zona da imagiologia para ser feita uma TAC. Converso com a funcionária que me transporta numa cadeira de rodas. Pergunto-lhe: quantas horas têm em cima do corpo. A resposta foi imediata: 12 horas. Saía à meia-noite. Fico a saber que há muitas funcionárias nesse regime. Quantos dias? Três dias por semana; mas nunca trabalho apenas três dias por semana. Na maior parte das vezes trabalho cinco a seis dias, diz-me. Questiono-me: que política de emprego é esta, uma política que não pode argumentar com falta de pessoal disponível no mercado de trabalho. Pode haver várias explicações para esta situação, não a questionei sobre isso, mas adicionando a esta carga de trabalho os efeitos colaterais de se trabalhar por turnos, trata-se, pois, de uma situação inaceitável nem que seja pelos efeitos sobre a saúde dos profissionais que, a prazo, tudo isto acarreta.
  5. Por volta de meia hora depois da meia-noite, uma enfermeira chega ao corredor das consultas, cheio de gente à espera de consulta, onde eu estava, e diz mais ou menos isto: os pacientes de pulseira verde podem-se ir embora. Não dispomos de médicos. Os doentes à espera de consulta com pulseira amarela podem ir embora ou esperar se quiserem, mas neste caso não garantimos consulta.

Uma das pessoas de pulseira verde era a pessoa que foi mudada de cadeira de rodas. Decidiu ficar à espera, à espera de no fim da noite ter uma borla, uma consulta, por obra e graças a Deus, mas com Este materializado no corpo de um médico ou de uma médica.

Quanto a mim fiquei indeciso. Ficar ou sair? Sair, não podia, pois, tinha um cateter no braço. Ficar, não sabia se tinha consulta. Não passava ninguém, que me informasse e eu tinha medo de andar e de me deslocar  a qualquer lado para saber. Ao meu lado, uma senhora amavelmente pôs-me à disposição um pacote de bolachas. Insistiu, insistiu, recusei sempre. Estava ali, ela sabia-o, estava ali há dez horas, sem comer nem beber. E quem me diz que se começasse a comer não as desejaria comer todas?

Entretanto, sou chamado para o diagnóstico definitivo. O relatório da TAC já tinha chegado. Questiono o médico sobre a situação da falta de médicos e, neste caso, porque é que eu tinha consulta e os outros não. Teria havido uma imprecisão da enfermeira, e diz-me o seguinte: os doentes de pulseira amarela, que aguardam os resultados de exames já realizados, terão consulta. É o seu caso, o de outros não. Falo-lhe do cateter que tenho no braço. Não se preocupe, chamarei um enfermeiro para o retirar. À saída diz-me, amavelmente: não hesite em recorrer a nós quando precisar. Vai entrar na nossa base de dados e será acompanhado pelos nossos serviços de consulta externa.

6. Aqui relembro a incapacidade do sistema de saúde em ter médicos e relembro Passos Coelho e a sua zona de conforto. Mas, uma certa direita, quer agora recuperá-lo: os efeitos da sua política estavam ali bem chapados, em todos aqueles que após horas de espera saíram sem consulta na urgência do maior hospital da região, por falta de médicos. Mas os efeitos não eram só os da política de Passos Coelho eram também os efeitos da política morna do PS e dos seus compromissos com a grande burguesia, com a medicina privada, com os hospitais e clínicas privadas que, por exemplo, no Algarve cresceram como cogumelos. Interesses, mas de quem, não sei.

Do ponto de vista da saúde, uma coisa é certa: quer a administração de Passos Coelho quer a de António Costa não responderam às necessidades do país em termos de saúde e isso era bem visível nesta noite de relativo pesadelo.

No caso de António Costa e das suas contas certas quis dar-se bem com tantos e todos. E quando assim é, sabe-se da vida real, que quando alguém se quer dar bem com todos não se dá bem com ninguém. Se calhar, tal só não é sabido no mundo dos políticos porque o seu mundo é um mundo à parte. E a chantagem, ou nós ou o Diabo levou-o à queda e à vinda do Diabo, materializado na incompetência que se vê nas gentes da AD em que, tudo o que pode representar progresso social, deve ter as suas direções de serviços corridas. O que me fez lembrar um jovem turco de uma Faculdade deste país e desta cidade que achava que deveriam ser eliminadas as disciplinas que ele considerava radicais.

Essa conivência com tudo e com nada que caracterizou a politica de António Costa terá, pois, acabado e creio que Pedro Nuno Santos já percebeu que alguma louça de má qualidade terá que ser partida caso contrário será grande parte da louça boa que a AD se encarregará de escavacar. E creio-o com muita coragem para isso, sendo certo que a coragem é coisa cada vez mais rara nos nossos políticos.  

7. Para sair do Hospital, peço então ao enfermeiro que me retire o cateter. Pergunta.-me: quem é que o vem buscar? A minha neta. O senhor está à nossa responsabilidade. Quando ela chegar, tiro-lhe o cateter e dou-lhe a carta para o seu médico de família. Minutos depois, ela chega, o enfermeiro tira-me o cateter que estava fixo com adesivo de qualidade e pergunto-lhe, se me coloca um adesivo de qualidade. Coloco-lhe o que tenho, não é bom nem é mau. É assim-assim. E colocou-me um adesivo de péssima qualidade.

Quando cheguei a casa substitui o adesivo que já se estava a descolar e lembrei-me outra vez da troika, da política de austeridade imposta e muito defendida por Passos Coelho. Lembrei-me das contas financeiramente certas, mas económica e socialmente erradas de Mário Centeno e de Fernando Medina, lembrei-me de um amigo meu que, no tempo da troika esteve internado nos HUC. Puseram-lhe um cateter, através do qual passava um líquido de um frasco por via endovenosa. Deixou-se dormir, naturalmente, era perto da meia-noite. Nessa noite, um dos seus filhos era intervencionado cirurgicamente. Este meu amigo, engenheiro de formação, acordou então, por volta das duas horas da madrugada, com um pesadelo em torno da operação do filho, e dá por si alagado no seu próprio sangue. Toca à campainha e vêm os enfermeiros socorrê-lo: o cateter tinha-se soltado e o sangue escorria-lhe pela veia; o lençol estava alagado em sangue e tudo porque o adesivo que fixava o cateter era de má qualidade, como de má qualidade era também o que me foi colocado à saída do Hospital.

Um efeito de arrasto da passagem da troika e do seu capanga maior, Passos Coelho, era o que representava aquele simples adesivo de má qualidade.

E fico-me por aqui, ainda recuperar do pesadelo real que vivi.