Obrigado, Passos Coelho

(Leonel Moura, in Jornal de Negócios, 02/01/2017)

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É trivial dizer que tanto se serve a democracia no Governo como na oposição. Pois é, mas cabe acrescentar que se pode servir bem ou mal. Ora Portugal atravessa um excelente momento. O Governo de António Costa tem servido bem. A oposição de Passos Coelho também.


Muita gente, à esquerda e no próprio PSD, critica Passos Coelho por fazer uma oposição assente exclusivamente no prenúncio de catástrofe iminente. Primeiro, a geringonça não ia funcionar, depois o Orçamento não era viável, por fim o défice não iria ser cumprido. Esses sucessivos alertas foram muito úteis. Reforçaram o sentido de responsabilidade à esquerda; redobraram o rigor no exercício governativo. As aves agoirentas são chatas, mas têm um efeito positivo. Levam-nos a ter mais cuidado nos atos. Aliás, nunca se viu um Governo tão contido, tão atento, tão sóbrio. Ao contrário do passado, em que tanta vez se viu o poder subir à cabeça dos ministros, dizendo e fazendo os mais incríveis disparates, no atual, assiste-se a uma enorme moderação. Deve-se em grande medida à oposição que Passos Coelho imprimiu no PSD. Atenta ao menor deslize, aguerrida, agressiva mesmo.

Essa intransigência tem ainda um outro efeito decisivo. Ao optar pelo confronto total e direto, recusando o mínimo consenso, o PSD impediu que o PS tivesse a tentação de governar à vista, ora apoiando-se na esquerda ora na direita, coisa que já sucedeu noutros tempos com péssimos resultados como se sabe. O PSD tem contribuído, mais do que qualquer outro partido, para a clarificação do sistema político, obrigando o PS a uma coerência pouco habitual num partido tendencialmente centrista. O PS ou consegue governar com a restante esquerda ou não governa de todo.

Acresce que esta atitude clarifica também a posição do próprio PSD. É hoje o único partido da direita, já que o CDS persegue a quadratura do círculo. Estar contra e a favor ao mesmo tempo, segundo os dias da semana, as conveniências e a audiência. Umas vezes é mais à direita, outras mais à esquerda, procurando um centro que já não existe, nem interessa a ninguém. Os eventos políticos internacionais dos últimos tempos são reveladores do desaparecimento da própria ideia de centro.

Nesta perspetiva, Passos Coelho tem dado um outro contributo extremamente relevante em termos de política nacional. Ao radicalizar-se, puxando o partido para a direita, o PSD não permite o aparecimento dos fenómenos extremistas tão comuns no resto da Europa. O PSD é hoje um partido radical, antissocial, defensor do ultraliberalismo económico, mas embora defendendo posições extremistas, é um partido assumidamente democrático, não é de extrema-direita. Pelo contrário, a sua atitude radical, seca o campo das demagogias primárias e todos os perigos inerentes.

Estas observações não são cínicas. Embora eu seja de esquerda, apoie este Governo e a sua aliança com a restante esquerda, gosto de pensar com a minha cabeça. Acho por isso no mínimo injusto que se diabolize Passos Coelho e o PSD tão-só porque seguem uma estratégia de oposição que não cede ao politicamente correto.

Por outro lado, na atual conjuntura ninguém faria melhor do que Passos Coelho. Caso a impaciência o derrube, logo se verá que o próximo não terá vida fácil.

Mas acho mais. Esta é a política do futuro. Clara, frontal, sem hesitações, nem malabarismos. O povo anda farto de meias-tintas. Ao assumir-se como direita radical, intransigente e raivosa, o PSD presta um importante serviço ao país. E à esquerda.


Artista Plástico

(Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico)

O melhor e o pior da política portuguesa em 2016

(In Blog O Jumento, 29/12/2016)

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Deputados

+  Há uma nova geração de deputados no parlamento de que pouco se fala, mas que já preenchem uma boa parte da actividade parlamentar. São deputados competentes, tecnicamente bem preparados, que estudam bem os dossiers. O destaque vai para o deputado João Galamba, do PS, aquele que atingiu um patamar mais levado dentro do seu partido e um dos deputados do parlamento que melhor se prepara para as suas intervenções quase diárias.
–  Do passado herda-se a imagem do deputado que fala muito, que é agressivo e que muitas vezes berra. Um exemplo desta abordagem queirosiana do debate parlamentar é proporcionada pelo truculento deputado Carlos Abreu Amorim, um homem que tem vindo a evidenciar uma grande vocação de navegador pois desde que apareceu na política que faz a circum-navegação da direita, começou no PND e foi uma personagem de destaque deste PSD quase de extrema-direita, liderado por Passos Coelho. Digamos que é um dos deputados mais viajados do parlamento.

Presidência
+  Marcelo parece o coelhinho da Duracell e chega ao fim de 2017 com as pilhas carregadas e com  paciência para ir almoçar com  um Passos Coelho destroçado.
–  Alguém se lembra de um tal Cavaco Silva?

Ministros
+  Centeno provou que era possível ser um ministro das Finanças competente sem que a competência decorresse das suas aptidões para a canalhice. O meu patrício Mário Centeno acabou com a imagem salazarista dos ministros das Finanças que para reduzirem os défices eram modelos de sacanice em matéria de distribuição de rendimentos.
–  Augusto Santos Silva poderia ter sido um dos melhores ministros escolheu os últimos dias de Dezembro para borrar a opa. Como é possível que um político com a experiência do ministro dos Negócios Estrangeiros e número dois do governo, não saiba como se deve comportar em público, pondo em causa a imagem de todo o governo e o sucesso de uma negociação na concertação social? Santos Silva não se deve recordar dos corninhos exibidos pelo seu colega Manuel Pinho, quando este era ministro da Economia. Depois de ter conseguido o melhor, ajudando Guterres a chegar a secretário-geral da ONU, faz esquecer o seu sucesso com uma conversa disparatada.

Primeiro-ministro / Líder da oposição
+  António costa destruiu os mitos da austeridade de Passos Coelho, é possível reduzir o défice sem penalizar grupos sociais ou profissionais, chegando ao fim do ano sem surpresas ou orçamentos rectificativos. Pelo caminho tapou muitos buracos e alçapões deixados pela dupla formada por Passos e Maria Luís. Aos poucos o país regressou à normalidade, com o povo a viver sem a chantagem permanente de um primeiro-ministro extremista, que tinha um especial prazer sádico em impor sacrifícios aos portugueses, em especial aos mais pobres ou aos que odiava, como os funcionários e os reformados.
–  Passos Coelho pensava que nas contas das maiorias parlamentares o CDS contava, mas os deputados do BE e do PCP só contavam para derrubar governos do PS. Enganou-se, teve de sair do governo empurrado e ainda hoje não sabe o que lhe sucedeu. Não soube sair da liderança do PSD e agora ninguém sabe como o tirar, ainda que todos saibam que está a mais.

Fonte: O JUMENTO: O melhor e o pior da política portuguesa em 2016

Balanço dos líderes (4): Passos, à espera da gratidão e do fim

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 28/12/2016)

Autor

                                  Daniel Oliveira

De poucas pessoas se pode dizer com tanta propriedade que são vítimas das suas circunstâncias. Não me refiro obviamente às responsabilidades que Passos teve enquanto primeiro-ministro. Foi dele a escolha de chumbar o PEC IV, acelerando uma crise política que obviamente foi determinante para o resgate. Foi dele a escolha de aproveitar a intervenção externa para impor um programa liberalizador que o país não aceitaria em circunstâncias normais, indo mesmo além da troika. Foi dele a escolha de não negociar com Bruxelas e usar Bruxelas como álibi para um processo de contrarreforma. Foi dele a escolha de fazer dos mais pobres as principais vítimas da austeridade e de juntar à austeridade insuportáveis sermões sobre a vida dos portugueses. É dele o liberalismo de lombada colado com cuspo e o voluntarismo revolucionário que não se importa de usar instituições internacionais e mercados como arma de chantagem sobre o país para impor as suas próprias convicções. Não lerão de mim uma palavra que menorize as suas responsabilidades. Nem de mim nem da maioria dos portugueses, que não só votaram noutros contra ele, tirando-lhe a maioria para governar, como têm no risco do seu regresso uma forte motivação para apoiar este governo. As circunstâncias de que falo são as atuais.

Aconteceu a Passos Coelho o que nunca acontecera a ninguém: liderar uma coligação que ficou em primeiro quando a maioria do Parlamento ficou no lado político oposto. Juntou-se a esta situação um líder do PS disponível para conversar com a esquerda – nesta parte, Passos tem a responsabilidade do seu radicalismo político ter unido a esquerda contra ele. O resultado é conhecido: pela primeira vez temos um líder da oposição que acabou de ser primeiro-ministro. E isto limita de forma determinante todo o comportamento de Passos Coelho.

Antes de tudo, há um fator psicológico que deve ser tido em conta: o cansaço do país. Uma parte substancial dos portugueses perdeu o emprego, passou enormes dificuldades e viu os seus filhos e familiares abandonar o país nos últimos anos. Sem culpa, por culpa própria ou por culpa partilhada, a figura de Passos Coelho está associada a este tempo. Ele achará que Portugal lhe deve gratidão. Eu não acho – pelo contrário, penso que Passos Coelho não teve qualquer sentido patriótico –, mas mesmo que achasse só me poderia espantar pela falta de lucidez de quem pensa que essa gratidão não precisa de distanciamento. E Passos está encalhado no seu próprio ressentimento. Julgando-se credor da gratidão do povo, não consegue sair de cena sem a ter recebido. E tem uma razão formal para não sair: não perdeu as eleições. Passos foi apanhado por acontecimentos extraordinários e não sabe como sair deste impasse.

Com a sua governação interrompida de forma pouco habitual, Passos Coelho precisa de um desfecho. E o desfecho que sonha é que se prove que ele tinha razão. De duas formas contraditórias, que ele vai verbalizando sem se aperceber do paradoxo: ou mostrando que este governo está a fazer o mesmo que ele fez, provando que não havia alternativa; ou mostrando que este governo está a fazer diferente e que isso nos levará para o abismo, provando que não havia alternativa. Já tentou casar as duas coisas, explicando que o Governo está a fazer o mesmo que ele mas que a falta de credibilidade o impedirá de ter os mesmos resultados, levando o país para o abismo e provando que não havia alternativa. Em qualquer um dos casos, Passos fica com um problema: o que tem para dizer é que as coisas vão correr mal. E que espera voltar ao Governo à custa da desgraça nacional. Com este guião, para além da figura de Passos estar associada a quatro anos de crise também está associada ao agoiro dessa crise agudizar. Alguém conhece um líder político capaz de mobilizar seja quem for andando com tão carregada nuvem negra sobre a sua cabeça?

Tudo em Passos é passado. Nada consegue dizer sobre o futuro porque ninguém o associa ao futuro. Mesmo os que o apreciam sabem que está a prazo e partirá brevemente. Uma despedida que terá hoje menos glória do que teria quando Costa tomou posse. Só que Passos cometeu o mesmo erro de cálculo da maioria dos analistas: achou que este governo duraria pouco.

Muitos avisaram: se a geringonça durasse mais do que um ano Passos Coelho não teria qualquer viabilidade como líder do PSD. Durou mais do que um ano e Passos tem os dias contados. Esperará pelas autárquicas, mas pela falta de empenho com que as está a preparar percebe-se que ele próprio sente que o seu tempo acabou. Este foi o ano da morte política de Pedro Passos Coelho. O próximo será o das exéquias.