O medo do exemplo

(Daniel Oliveira, in Expresso, 01/09/2018)

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O Papa Francisco está sob ataque aberto dos sectores mais conservadores da Igreja. Os que nunca quiseram ouvir as vítimas de crimes sexuais usam o seu sofrimento para derrubarem um dos poucos que tentou remediar o irremediável, fazendo-o pagar por décadas de cumplicidade e silêncio da hierarquia.

Os que nunca permitiram qualquer tipo de pluralismo dentro da Igreja desafiam a sua autoridade. Irritam-se com o renascimento do espírito do Concílio Vaticano II. Não se julgue que este Papa é um liberal. O seu recente deslize, quando mandou os homossexuais consultar um psiquiatra, exibe as suas convicções profundas. Mas quer mudar as prioridades. Quer uma Igreja mais dedicada a acudir os pobres do que a castigar os pecadores, que exerça o poder mais pelo exemplo do que pelo medo. E essa será uma Igreja que, abalada no seu autoritarismo e julgada pela sua coerência, estará condenada a ir retirando privilégios a uma hierarquia que mais dificilmente entraria no reino dos céus do que um camelo passaria pelo buraco de uma agulha. E que reage agora com uma audácia nunca vista. O que tanto bispo e cardeal teme deste Papa não é o seu liberalismo ou a sua heterodoxia, é a coerência da sua fé. Não sendo um político que governa nações, o exemplo é o seu maior poder. E é esse exemplo que dá força à sua palavra junto de todos, crentes e não crentes. Não me converteu a Deus, mas converteu-me a algum respeito pela Igreja que representa. A mim e a muitos católicos desiludidos, protestantes, judeus ou muçulmanos. Num tempo em que as Igrejas que prometem a salvação rápida em troca de dinheiro roubam fiéis pelo mundo, o exemplo de Francisco é o que pode salvar o Vaticano. Mas assusta os burocratas das almas.


A tatear

Começa agora uma campanha que durará um ano. Graças ao ineditismo da atual situação política, quase todos serão obrigados a pisar um chão que desconhecem. Vamos da esquerda para a direita. O PCP tentará voltar a construir um muro que segure os seus eleitores que mais ganharam com esta governação: pensionistas e funcionários públicos. Sem passar a ideia de que quer enterrar o primeiro Governo das esquerdas. O Bloco tentará recuperar a sua autonomia, empurrando o PS para o centro mas mantendo-se, aos olhos dos eleitores, como o campeão da ‘geringonça’. Isto ao mesmo tempo que recupera do efeito profundo que teve o caso Robles. O PS tentará fazer renascer o voto útil, provocando o BE e o PCP e passando a ideia de que são imprevisíveis. E tentará agradar a um eleitorado flutuante do centro, para aproveitar a fraqueza do PSD. Tudo sem perder a autoria da ‘geringonça’. Enquanto é boicotado por dentro, o PSD continuará a tentar descolar da radicalização de Passos e ainda assim a ter um discurso compreensível. Mas propor-se libertar o PS da “esquerda radical” é menos do que pouco: para isso bastaria dar a maioria absoluta ao PS.

O CDS é o que tem o trabalho mais fácil: mais ágil, é o melhor candidato a fazer oposição num cenário em que é claro que a esquerda vai continuar a governar. A ‘geringonça’ mudou a perceção dos eleitores, e este não será um ano de táticas claras. Com exceção do CDS, andará tudo a tatear. E provavelmente a falhar.

O Papa, a homossexualidade e a psiquiatria

(In Blog Um Jeito Manso, 28/08/2018)

Estou eu aqui sossegada, a banhos, e a ser maçada com um surururu que atravessa dunas e marés para aqui chegar até mim. Desde jornalistas a bloggers meio mundo desatinou com um desabafo do ex-Jorge Bergoglio: disse ele que, quando um filho manifesta inclinações homossexuais, os pais deveriam tentar fazer qualquer coisa por ele, nomeadamente levá-lo ao psiquiatra….


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O Papa Francisco e a Igreja católica

(Carlos Esperança, 24/08/2018)

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Sem maniqueísmo, facilmente se admira o atual Papa e desculpa o passado nebuloso do cardeal Bergoglio, benevolente com o ditador Videla e hostil à presidente Kirchner, em sintonia com os Papas de turno, e a presente sujeição ao Opus Dei na convocação de defuntos para alimentar a indústria dos milagres e a criação de beatos e santos.

A vida de figuras públicas tem zonas claras e escuras, e as circunstâncias moldam mais os homens do que estes as circunstâncias. O Papa Francisco é, no conjunto da sua vida, um homem respeitável e, quiçá, o mais estimável dos líderes religiosos mundiais. Não merecia a catadupa de problemas que desabam sobre ele. O futuro dirá se foi o homem certo na hora errada ou o homem errado que chegou na hora certa ao Vaticano.

Ao receber a tiara, o solidéu branco, a romeira, os sapatos vermelhos, a infalibilidade e a diocese de Roma, que vagara porque o antecessor trocou a santidade pela vida, estaria longe de imaginar as desgraças que desabariam sobre ele.

São do domínio público as ligações do Vaticano à Máfia, que Francisco teve a coragem de cortar, a lavagem de dinheiro no IOR, pseudónimo do banco do Vaticano, a que pôs cobro, e a tentativa de acertar o passo com a modernidade e a ética, numa manifestação de coragem que o nobilita.

Não vale a pena escarafunchar os escândalos que envolvem o clero católico, verdadeiros e infamantes, habilmente aproveitados pela concorrência, mais perigosa e assustadora.

Só quem tem a noção dos séculos de impunidade da Cúria Romana pode apreciar a luta deste jesuíta determinado e corajoso, perante um antro de reacionários e dissolutos.

A ousadia de quebrar a moral da Idade do Bronze, quando o Deus de Abraão foi criado por patriarcas tribais, valeu-lhe a aversão da tralha beata, que se confunde com os mulás e sonha com as Cruzadas e à Inquisição. As suas manifestações de humanismo cativam crentes e livres-pensadores, os que defendem a modernidade e se reveem na civilização herdada do Iluminismo e da Revolução Francesa.

Quando alterou o parágrafo do catecismo da Igreja católica sobre a Pena de morte, que considerou “inadmissível” e fez a rutura com a doutrina tradicional, era de admitir que o avanço civilizacional, que incentivava a abolição em países de influência católica, fosse acolhido pelo clero como um momento alto da história milenar do cristianismo e tivesse o consenso de todo o clero, ressarcido das nódoas que o atingem por um ato que honra a Igreja e, por extensão, a clerezia apostólica romana.

Foi uma ingenuidade, não certamente do Papa, que conhece a Santa Máfia que o rodeia, mas dos incréus que ainda aguardavam o contributo do Vaticano para um mundo mais humanista e alinhado com a modernidade.

Enquanto livres-pensadores saudaram a posição do Papa, agitaram-se as sotainas e, do antro do Vaticano e de sucursais reacionárias, surgiram urros de trogloditas que acusam o Papa de adulterar a palavra do Deus deles, que continua aquele velhaco e cavernícola, à imagem e semelhança dos trogloditas para quem a pena de morte é exigência divina.