Deixem os jovens em paz!

(Pedro Filipe Soares, in Público, 25/06/2021)

É injusto que a sociedade não lhes reconheça onde lhes falhou e, ainda por cima, os use para passar culpas do que não resolveu nem preparou.


Em Vinte Vinte ainda não se sabia o que a pandemia nos reservava. Branko juntou-se a Ana Moura e a Conan Osíris e lançaram a música em janeiro, no início do ano que ficou marcado pelo vírus que não pediu licença para nos interromper a vida. A arte antecipou a pandemia e o lamento murmurado com que a música se anuncia chama o sentimento que nos trouxe muito do que se seguiu. E as palavras, mesmo sem o saber, prenunciavam o desejo do que não pudemos escolher: “O 20 que eu quero / Não é o tempo que eu espero e (…) Não é a filha dum pai a / Pôr uma mãe a morrer.”

Foi assim que se pediu às novas gerações um esforço brutal: fiquem em casa, pelos vossos pais, pelos vossos avós – neguem os instintos, rejeitem essa avidez com que a vida vos pede para ser vivida, suspendam-se, guardem-se. Esta pressão, chantagem até, foi gigante “para achatar a curva” e “proteger os mais velhos”. E as novas gerações cumpriram, apesar de nunca lhes ter sido verdadeiramente reconhecido esse altruísmo e sacrifício. Uma sociedade que se organizou pelos mais velhos e olhou sempre para os jovens como uns privilegiados, a quem era pedido “apenas que ficassem no sofá”, não percebeu verdadeiramente o peso do isolamento social que caiu sobre crianças e jovens, nem releva o fardo que carregam para o futuro. E por isso mesmo continua irresponsavelmente a apontar-lhes o dedo.

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As recentes notícias de infeções de covid-19 nas faixas etárias mais jovens vêm logo acompanhadas da censura social, do comentário reprovador, um apontar do dedo aos ajuntamentos e à vida social que é retomada – está novamente em risco o Serviço Nacional de Saúde (SNS), espreita logo uma lista negra para ensombrar a economia nacional. Ano e meio desde o início da pandemia e é aos jovens que continuam a pedir para serem um exemplo, a quem colocam toda a responsabilidade em cima dos ombros. Já não basta? Que legitimidade existe para se pedir novos sacrifícios aos mais jovens?

Em ano e meio poderíamos ter feito mais? A resposta é inequívoca: sim. No momento em que o responsável da task force da vacinação diz ter a organização pronta para ministrar 140 mil doses por dia e que o problema é a escassez da entrega das vacinas pelas multinacionais farmacêuticas, sabemos como falharam os que impediram o levantamento das patentes e colocaram os lucros das empresas à frente das nossas vidas, roubando tempo aos jovens. Quando vários especialistas se dizem preocupados com a situação do SNS, lembramos as saídas de profissionais devido à falta de vontade do Governo na garantia de carreiras atrativas e com perspetivas de futuro. São os jovens os culpados destas escolhas erradas? Por outro lado, o que dizer do paupérrimo plano de recuperação das aprendizagens que mostra a desistência do Governo em aplacar os efeitos pandémicos no conhecimento dos jovens?

E quando o Presidente da República diz que jamais voltará a confinar, se faz ver em esplanadas que só com muita criatividade respeitam as normas sanitárias, o que devemos pensar? De um lado, o Governo assegura que as campainhas de alarme estão a tocar, do lado da esplanada presidencial parecem soar ao anúncio da happy hour. E o que dizer do apelo do presidente da Assembleia da República à romagem futebolística “massiva” além fronteiras no momento em que o Governo anuncia novo cerco sanitário à região de Lisboa? Já agora, como perceber um Governo que dizia ter uma matriz que orientaria uma estratégia para o confinamento e desconfinamento e que dá saltos nas medidas sem qualquer plano compreensível ou com escolhas que parecem feitas em cima do joelho? Este desnorte é culpa dos jovens?

As novas gerações já lidaram com uma crise sísmica do capitalismo financeiro, têm a medonha herança de uma crise climática sem precedentes e carregarão para sempre os efeitos da crise pandémica – é injusto que a sociedade não lhes reconheça onde lhes falhou e, ainda por cima, os use para passar culpas do que não resolveu nem preparou.

No entanto, não creio que tudo esteja perdido. Não por achar que o Governo vai corrigir os erros de forma mágica ou os velhos do Restelo deixarão de vaticinar amarguras às novas gerações – acredito que os jovens tirarão a mais importante das lições: o futuro será conquistado por eles a um sistema que não lhes serve.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico


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Aventuras e desventuras do dos afectos

(Amadeu Homem, 17/06/2021)

Leio no Sapo-Informação que o governo, considerando a progressão da pandemia, “decidiu e proibiu a circulação de e para a Área Metropolitana de Lisboa ao fim de semana”.

Isto deve ser uma “fake new” . O dos afectos não quer! O dos afectos, como gosta muito de nós todos, declarou por extenso que “com ele nunca haveria marcha atrás no processo do desconfinamento”. Eu ouvi. O País todo ouviu. E quando o Costa, sensatamente, observou que tudo dependia da expansão dos contágios e que nem um PR os poderia prever, o dos afectos abespinhou-se todo, empertigou o papo, encheu-se de brios e declarou, enfaticamente, que um Primeiro-ministro não poderia desautorizar em nenhuma situação um Presidente da República!

O dos afectos ama-nos tão intensa e desmedidamente que nos quererá ver doentes, internados em meio hospitalar, eventualmente, entubados.

Ora, acontece que eu moro no Bairro da Bica, aqui mesmo pertinho do coração do Bairro Alto, onde os sensatos jovens – umas vezes de sexos diferentes outras vezes de sexos iguais – circulam sem máscara e prestam a sua vassalagem ao dos afectos, beijocando-se como calha.

Garanto desde já ao dos afectos que eu nada tenho contra as beijoquices. O gajo que beije as velhinhas cariadas, que abrace os jovens, que faça festas aos meninos de colo, que faça o que bem lhe apetecer para que o desconfinamento lisbonense nunca volte para trás, uma vez que ele assim o decidiu.

O que a mim me chateia é a possibilidade de ficar doente, de ter de hipoteticamente ser internado no Hospital de Santa Maria (preferiria esse) ou entubado nos cuidados intensivos desse mesmo hospital.

Eu confesso que nada me daria mais prazer do que continuar a ouvir o dos afectos a cacarejar as coisas descerebradas que ele serve aos basbaques. Mas já me chateia quando tenho de lhe pagar os preços das baboseiras expelidas pela boca beijoqueira com o meu rico corpinho e com a minha preciosa saúde.

Por isso, decido escrever este texto, com a esperança improvável de que tal gajo não se lembre de vir ao Bairro da Bica e me infecte a Travessa do Sequeiro.


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O PR e a irreflexão de Marcelo

(Carlos Esperança, 15/06/2021)

O PR não governa, mas Marcelo, na sua obsessão mediática, tudo faz para fingir que as decisões boas são da sua autoria e as más do Governo.

Descoroçoado com o estado da sua direita, enquanto a fascista sobe, sabe que é ele a única oposição credível, que se esforça por manter, enquanto não aparece um líder a galvanizar as hostes que deram maiorias a Cavaco e levaram Passos Coelho a S. Bento.

Marcelo sabe de tudo, comenta tudo, e está simultaneamente na rádio, nos jornais, nas televisões e redes sociais, num excesso alheio às prerrogativas da função e aos estragos que faz entre banhos de multidão, da Guiné à Madeira, de Belém ao resto do Mundo.

Que diga da seleção de futebol, onde não joga, “nós somos os melhores do mundo”, não prejudica ninguém, mas que afirme perentório que, “comigo o país não volta atrás, no confinamento”, insistindo “comigo nunca mais”, revela uma insensatez, que nenhum virologista subscreve, e obriga António Costa a prevenir o país contra os riscos que ainda corre.

O narcisista Marcelo, sem competência para avaliar a pandemia, não se conformou com a sensatez do PM, sobre quem recaem todas as responsabilidades, e não hesitou, ele que não comenta assuntos internos no estrangeiro, a advertir, autoritário, a partir da Hungria, onde se deslocou em viagem de lazer, “Por definição, o Presidente nunca é desautorizado pelo primeiro-ministro. Quem nomeia o primeiro-ministro é o Presidente, não é o primeiro-ministro que nomeia o Presidente”, num exagero de quem dá posse a quem depende da AR.

Não sei se Marcelo, de quem há muito se espera a encomenda de vichyssoise para o PM, tem consciência de que a pressa de levar a direita ao poder pode comprometer o futuro do país, mas é tempo de ser avaliado com isenção na pertinaz intromissão nas funções do Executivo.

Não falta quem atire setas ao Governo nos arraiais da direita antidemocrática.


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