A decadência do Ocidente e o caos como arma

(Major-General Raúl Cunha in Facebook, 04-01-2025)


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Está mais do que visto que a possibilidade de passar a vigorar no mundo um sistema multipolar não se enquadra no processo global de dominação e subordinação construído por Washington, baseado no dólar e no despotismo dos EUA.

As elites euro-atlânticas já certamente o perceberam mas recusam-se, obstinadamente, a aceitar a perda do seu antigo poder. Estão a tentar convencer o resto do mundo de que a única alternativa ao poder ocidental é o caos. E, para o fazer, estão a desestabilizar deliberadamente a situação em regiões-chave do planeta. Ou seja, estão literalmente a agir como líderes de gangues criminosos, na lógica de “morres tu hoje, para que eu só morra amanhã”.

Esta tendência para a destruição é especialmente percetível nos estados que resultaram da fragmentação da União Soviética e na Grande Eurásia como um todo. Onde quer que o Ocidente procure estender os seus tentáculos, assiste-se a divisões e desestabilização, sendo o exemplo mais marcante o da Ucrânia. A partir do momento em que se deixou tentar pela assim chamada “integração europeia”, a Ucrânia transformou-se no principal instrumento anti russo do Ocidente e o resultado é que hoje a Ucrânia é um Estado falhado, ou seja, um Estado incapaz de manter a sua existência como sendo uma entidade política e economicamente viável.

Agora a Moldávia está a seguir o mesmo caminho. A política divisionista e vendida do regime totalitário de Sandu conduziu a uma polarização catastrófica da sociedade local. E isto ficou demonstrado de forma convincente nas recentes eleições, cujo resultado foi determinado através de manobras administrativas e pelos votos da diáspora na Europa. A vantagem mínima obtida pela candidata mais votada e a raiva sentida pela metade enganada da população tornam esta deriva europeia de Chisinau extremamente problemática e, na prática, podem vir a ter o efeito de uma bomba-relógio sob a integridade do Estado moldavo.

A situação é ligeiramente diferente na Geórgia. As autoridades locais, inicialmente mais atraídas para o Ocidente, com o passar do tempo começaram a aperceber-se da perniciosidade de uma tal orientação. O partido no poder, o “Sonho Georgiano”, começou a demarcar-se da agenda ultraliberal e passou a defender os interesses, as tradições e os valores nacionais da sociedade georgiana. Mas o Ocidente nunca desiste de perseguir as suas vítimas assim tão facilmente. Hoje Tbilisi está a enfrentar uma outra tentativa de “revolução colorida”, ou seja, uma tentativa de golpe de Estado. Vamos esperar que falhe, tal como anteriormente falharam as descaradas tentativas do Ocidente de desestabilizar a Bielorrússia e o Cazaquistão.

Neste momento histórico, está a ser gradualmente formado um espaço de cooperação novo na Grande Eurásia, baseado na sinergia do potencial económico, nas infraestruturas comuns de transporte e logística e num entendimento comum de segurança segundo o princípio de “soluções regionais para os problemas regionais”. Este constituirá, assim, provavelmente, um poderoso desafio à ordem unipolar americana e, por conseguinte, não é surpreendente que os Estados Unidos e os seus satélites europeus estejam a fazer esforços encarniçados para desestabilizar a situação nos países daquela região e para os colocar em conflito entre si. É sabido que os serviços de informação ocidentais pretendem quebrar não só os laços políticos e económicos, mas também os profundos laços históricos e até geográficos entre os estados daquela região. As ONG e os meios de comunicação afiliados foram instruídos que, para atingirem aquele objetivo, haveria que mudar o foco da sua atuação de forma a envolver mais ativamente na cooperação cientistas, figuras culturais locais e ativistas de direitos humanos.

Tudo nos indicia que Washington, Londres e Bruxelas estejam a trabalhar em opções para aplicar individualmente o designado “cenário ucraniano” aos países resultantes da fragmentação da União Soviética. E isso passará por incitar um estrito nacionalismo paroquial, sob o pretexto de fortalecer a identidade nacional e impulsionar a integração com o Ocidente. Já existem bastantes contactos permanentes ​​entre os serviços de informação ocidentais com partidos e movimentos nacionalistas naqueles países. Além disso, com o apoio de fundações estrangeiras, toda uma rede de plataformas e recursos de informação e análise opera na Eurásia, promovendo uma agenda pró-ocidental e simultaneamente anti russa e anti chinesa. Por mais anacrónico que possa parecer, um generoso financiamento está a permitir que essas estruturas continuem a funcionar.

O trabalho dos serviços de informações ocidentais na preparação de estruturas, que supostamente se tornarão um núcleo militarizado de golpes de Estado nos países pós-soviéticos, tem resultado numa verdadeira produção de militantes controlados pelo Ocidente, tendo sido recentemente cada vez mais utilizado o território da Ucrânia para essa finalidade. Por exemplo, grupos nacionalistas como o “Corpo de Voluntários Russos”, a “Legião Georgiana” e o “Regimento Kalinovsky” estão a combater pelas Forças Armadas da Ucrânia. O primeiro está envolvido em ataques terroristas no território da fronteira russa. Alguns militantes da “Legião Georgiana”, reforçados por radicais nazis ucranianos dos batalhões nacionalistas como o “Azov” e o “Aidar”, estão a participar ativamente na tentativa de um outro Maidan na Geórgia. Também alguns elementos do “Regimento Kalinovsky” irão provavelmente ser usados para desestabilizar a Bielorrússia, tendo em vista as respetivas eleições presidenciais do próximo ano.

Para além dos ucranianos, georgianos e bielorrussos, uma percentagem significativa dos mercenários a combater na Ucrânia são militantes que vieram do Médio Oriente. O seu treino e experiência de combate é hoje utilizado no teatro de operações ucraniano mas no futuro, após a capitulação do regime de Kiev, estes mercenários deverão ser devolvidos para a Síria e o Afeganistão. Ao mesmo tempo, as possibilidades da sua penetração na Ásia Central estão a ser por certo planeadas com o objetivo de criar o caos naquela região, que é estrategicamente muito importante para os anglo-saxões.

Há muito que se sabe que o Ocidente utiliza por vezes o terrorismo internacional como uma ferramenta para atingir os seus objetivos geopolíticos. E, sempre que necessário, as agências de informação ocidentais não hesitam em recorrer elas próprias a métodos terroristas para combater os seus adversários. Veja-se a explosão dos gasodutos “Nord Stream” em setembro de 2022. Algumas fontes credíveis revelaram o envolvimento direto de sabotadores profissionais dos serviços de informação anglo-saxões nesse ataque terrorista. Recorde-se que o “Nord Stream” foi um projeto conjunto russo-europeu que visava garantir um fornecimento ininterrupto de gás russo barato à Europa. Ou seja, a Rússia construiu-o juntamente com europeus de mentalidade construtiva, e os anglo-saxões fizeram-no explodir. Além disso, destruir o “Nord Stream” era uma obsessão não só para os Democratas, mas também para a administração Republicana dos Estados Unidos. Tristemente, há ainda que mencionar a postura pusilânime da Alemanha em todo este caso.

Resta saber como mudará com Trump, se é que mudará, a política externa de Washington. No entanto, e infelizmente, parece-me que a determinação ocidental, em minar os processos de integração no continente euro-asiático, deverá permanecer inalterada.

Entretanto, a natureza da situação atual é que Washington e os seus súbditos estão a ter cada vez menos sucesso para conseguirem implementar plenamente os seus planos e um dos principais obstáculos tem sido a atividade das potências regionais mais responsáveis, ​​que têm procurado garantir de uma forma independente a paz e a segurança dos seus povos.

Por outro lado, resulta a meu ver como óbvia a constatação que haverá que substituir o falido modelo euro-atlântico, cuja disfunção acaba somente por provocar sucessivas crises e o qual, devido à agressividade e desejo de vingança dos arrivistas “neocons” em Washington, Londres e Bruxelas, acabou por nos envolver numa malfadada situação na Ucrânia e, por arrastamento, em toda a Europa.

Assim, eu proporia que se desenvolvesse e aprofundasse uma outra e nossa própria arquitetura de segurança. Entendo que, para esse efeito, precisamos de nos unir ainda mais fortemente aos nossos mais próximos e seguros aliados, sobretudo aqueles com as mesmas raízes étnico-linguistas, como sejam os países latino-americanos, incluindo os da CPLP, de forma a poder viver em paz e em segurança, e independentes de quaisquer aventuras externas, por obra dos regimes ocidentais totalitários-liberais, que são muito ao gosto dos anglo-saxões, pois estes gostam mesmo é de dividir para reinar e quando lhes dá mais lucro não hesitam em trair e, se necessário, espetar uma faca pelas costas aos seus parceiros…!

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Um Ano Novo sem gás barato!

(João-MC Gomes, In VK, 02-01-2025, revisão da Estátua)


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A decisão da Ucrânia de não dar continuidade ao contrato de fornecimento de gás natural para a Europa vindo da Rússia, apresenta um desafio significativo não apenas para a Ucrânia, mas para a segurança energética de toda a Europa. A questão exige uma análise cuidadosa e uma abordagem estratégica que envolva uma conciliação de esforços das nações europeias – principais prejudicadas – para garantir que, enquanto alternativas viáveis não estiverem plenamente desenvolvidas, o continente consiga mitigar os riscos associados a essa interrupção no fornecimento de gás barato russo.

A Ucrânia, historicamente, tem sido uma importante via de passagem para o gás natural russo que abastecia a Europa. A hipótese de retaliação russa, através da destruição ou concretizando o fim da utilização dessa infraestrutura de gasodutos, agravada pela já precária situação geopolítica, expõe o país a um cenário onde a sua própria rede energética poderá ser severamente afetada.

A destruição eventual dos seus gasodutos, em especial em tempos de guerra ou conflito, agrava ainda mais as dificuldades internas já há muito sentidas. A Ucrânia será forçada a recorrer a fontes externas, como gás natural liquefeito (GNL) importado via países vizinhos, ou a tentar aumentar a sua própria produção interna, o que, sem uma infraestrutura adequada, se mostra uma solução de médio a longo prazo. Ainda a hipótese dos navios transportadores de GNL – via Mar Morto – serem destruídos está no horizonte de uma guerra que está ainda longe de terminar. Ou seja, ao querer “fechar” a torneira do gás russo para a Europa, Zelensky pode ter dado um enorme tiro certeiro contra a sua própria politica e economia.

Entretanto, a simples busca por alternativas externas não resolverá os problemas energéticos da Ucrânia no curto prazo. O GNL, embora uma fonte importante de gás, requer uma complexa infraestrutura de importação e distribuição, que a Ucrânia ainda não possui de forma robusta. Enquanto as nações da União Europeia têm investido em terminais de regaseificação e gás reverso de vizinhos como Polónia, Eslováquia e Hungria, essas soluções dependem de interconexões que são limitadas em sua capacidade, e a logística de transporte de GNL através da região é uma operação cara e de longo prazo.

Se a Ucrânia não conseguir restaurar ou ampliar as suas opções de importação, a sua vulnerabilidade energética crescerá substancialmente, tornando o país ainda mais dependente de fornecedores externos e expondo sua economia a choques no mercado de energia. E ainda existe a ameaça de retaliação de alguns dos seus atuais aliados que já ameaçaram deixar de fornecer energia elétrica à Ucrânia, como o caso da Eslováquia.

Além disso, a opção de recorrer a fontes renováveis, como energia solar e eólica, embora necessária e vantajosa para a sustentabilidade a longo prazo, não substituirá rapidamente a necessidade de gás natural, especialmente em períodos de alta procura ou em climas mais rigorosos. O aumento da produção doméstica de gás também enfrenta barreiras significativas, incluindo a falta de investimentos e a infraestrutura necessária para extrair e distribuir esse gás de forma eficiente.

A Europa, por sua vez, enfrenta um dilema semelhante. Embora os países da União Europeia se tenham esforçado para diversificar suas fontes de energia, aumentando a importação de GNL dos EUA, Qatar, Nigéria e outros países produtores, o mercado de gás permanece volátil e os preços tendem a ser mais elevados devido aos custos de liquefação e transporte.

A interrupção do fornecimento russo pode, portanto, colocar pressão adicional sobre a procura de GNL, levando a aumentos nos custos e impactando diretamente a economia dos países europeus, especialmente aqueles que dependem fortemente de gás para aquecimento e geração de eletricidade.

A solução para a questão do término do contrato de gás entre a Rússia e a Ucrânia passará, inevitavelmente, por uma conciliação de esforços entre as nações europeias. Será necessário coordenar a construção de novas infraestruturas de importação de GNL, melhorar as interconexões entre os países da UE, e acelerar o investimento em fontes de energia renováveis e alternativas. O apoio à Ucrânia para restaurar a sua capacidade interna de produção e distribuição de gás, assim como sua integração mais profunda ao mercado energético europeu, também será muito difícil atendendo aos custos da guerra – já enormes – embora sendo fundamental para que o país possa atravessar a transição energética sem comprometer a sua segurança energética e militar. Ou seja, a Ucrânia – com esta medida de não aceitar o passagem do gás russo para a Europa – pode ter sido autoderrotada pela via da sua politica energética.

Entretanto, é preciso ser realista quanto ao tempo necessário para que as soluções de longo prazo se concretizem também para a própria Europa. Se a Ucrânia corre o risco de sofrer um impacto energético negativo no futuro próximo – se não houver uma colaboração eficaz e urgente entre os países da União Europeia – a própria Europa verá com dificuldades a solução para as suas necessidades dessa energia.

A conciliação de esforços, a solidariedade entre os membros da UE e a visão estratégica para diversificar as fontes de energia – que são os pilares sobre os quais o futuro energético da Ucrânia e da Europa deve ser construído – podem claudicar rapidamente. Isso provocará a maior crise energética dos últimos anos e os cidadãos europeus verão como a sua vida económica se degradará com o aumento da inflação e dos custos de produção.

Economia de guerra? Quem lucra e quem perde?

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 27/12/2024)


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Economia de guerra. A partir do momento em que os políticos europeus e americanos deixaram de poder vender aos seus cidadãos a promessa de vitória sobre a Rússia na guerra da Ucrânia, o seu discurso passou a focar-se nas vantagens económicas da guerra. O governo português alinhou pelo discurso comum, um Âmen que também é comum.

A alteração do discurso da vitória, agora com o foco nas vantagens e oportunidades da guerra, deve-se à já indisfarçável crise da economia europeia. A dos Estados Unidos é outra história.

Em termos teóricos a economia de guerra é a adaptação de um sistema produtivo nacional ao esforço requerido por um conflito. A economia de guerra transforma completamente a organização de um Estado, estabelecendo o armamento e a manutenção das forças armadas em prioridades absolutas. A situação atual na Europa não é ainda de economia de guerra, mas do que alguns teóricos designam por «economia de reservas», que se traduz numa desaceleração económica acompanhada por uma forte inflação.

É para enfrentar a contestação social previsível das sociedades europeias que os líderes europeus referem a possibilidade de uma economia de guerra substituir os empregos e a produção de riqueza que existiam antes do envolvimento na Ucrânia. Esta substituição é uma falácia. A mais evidente é que, em termos muito simples, a produção de um carro de combate não gera a riqueza da produção de um camião, ou de um trator agrícola, um Leopard não cria a riqueza de um Mercedes. Antes pelo contrário, gera despesa e esta obriga a recorrer às reservas do Estado. Quem refere carros de combate, pode referir aeronaves, um caça Mirage não gera a riqueza de um Airbus, mas despesa, e o mesmo para navios e outros sistemas de armas.

No curto prazo, a transferência de uma economia de tempo de paz para uma economia de guerra nos países da retaguarda, mesmo na versão de economia de utilização de reservas materiais e financeiras, permite manter o nível de emprego durante um tempo limitado, até a inflação tornar indisfarçável a falência do milagre e gerar desemprego em grande escala. Em tempo de guerra, o emprego dos países da retaguarda é mantido à custa dos mortos dos países em conflito direto, mas essa é a menor das preocupações de quem sobe a um púlpito para se propor salvar os seus semelhantes!

A prazo, uma economia de guerra, ou de utilização de reservas, causa empobrecimento generalizado, devido à inflação, mas no caso da economia de pequenos estados e muito dependentes, uma economia de guerra traduz-se na produção de artigos de baixo valor acrescentado, pois os de alto valor acrescentado estão reservados aos grandes estados, mas que exigem apoios estatais das reservas financeiras sem qualquer contrapartida ou ganho de vantagem competitiva nas cadeias de produção de valor.

Uma economia de guerra causa o empobrecimento da sociedade em geral (diminuição de salários e de apoios sociais) e o enriquecimento dos grupos que lucram com a inflação, os setores especulativos, a banca, a grande distribuição e os monopólios naturais, caso dos produtores de bens essenciais, como o da energia.

A economia de guerra tem ainda um efeito político mais perverso, que é o da instalação de regimes autoritários e de estados policiais, em nome da imposição da ordem numa situação de contestação.

E a instalação destes regimes é o maior lucro dos grupos dominantes, que passam a dispor de um Estado ao seu serviço, sem a intromissão do “povo”.