Poderá Trump salvar a América de si própria?

(Alastair Crooke, in Strategic Culture Foundation, 10/01/2025, Trad. Filipe Alexandre)

Trump pode simplesmente escalar a escada metafísica para dizer simplesmente que só ele tem a visão para salvar a América da Terceira Guerra Mundial.


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Na semana passada, o Primeiro-Ministro russo Lavrov rejeitou as propostas de paz da Equipa Trump para a Ucrânia, considerando-as insatisfatórias. Essencialmente, o ponto de vista russo é que os apelos a um conflito congelado falham precisamente o objectivo: Do ponto de vista russo, tais ideias – conflitos congelados, cessar-fogo e forças de manutenção da paz – não começam a qualificar-se como o tipo de acordo base em tratados, “Big Picture”, que os russos têm vindo a defender desde 2021.

Sem um fim sustentável e permanente para o conflito, os russos preferirão confiar num resultado de campo de batalha – mesmo com o elevado risco da sua recusa levar a uma escalada contínua – mesmo a nuclear – do jogo de cintura dos EUA.

A questão é antes a seguinte: Uma paz duradoura entre os EUA e a Rússia – será sequer possível?

A morte do antigo Presidente Jimmy Carter recorda-nos a turbulenta “revolução” política dos anos 70, que ficou sintetizada nos escritos de Zbig Brzezinski, Conselheiro de Segurança Nacional de Carter – uma revolução que atormenta as relações entre os EUA e a Rússia desde então até hoje.

A era Carter assistiu a um importante ponto de inflexão com a invenção por Brzezinski do conflito identitário armado e a sua defesa das mesmas ferramentas identitárias – aplicadas de forma mais alargada – a fim de colocar as sociedades ocidentais sob o controlo de uma elite tecnocrática “[praticando] a vigilância contínua de todos os cidadãos … [juntamente com a manipulação pela elite] do comportamento e do funcionamento intelectual de todas as pessoas …”.

Os livros seminais de Brzezinski defendiam, em suma, uma esfera identitária cosmopolita gerida, que substituiria a cultura comunal – ou seja, os valores nacionais. É na reacção hostil a esta visão tecnocrática de “controlo” que podemos enraizar os problemas que hoje se manifestam por todo o lado, em todas as frentes globais.

Dito de forma simples, os acontecimentos actuais são, em muitos aspectos, uma repetição da turbulenta década de 1970. A marcha actual em direção a normas antidemocráticas começou com o seminal The Crisis of Democracy (1975) da Comissão Trilateral – o precursor do WEF (“Davos”) e de Bilderberg – com, (nas palavras de Brzezinski), os bancos internacionais e as corporações multinacionais a serem coroados como a principal força criativa no lugar do “Estado-nação como unidade fundamental da vida organizada do homem”.

A percepção preconceituosa de Brzezinski sobre a Rússia não é nova. Pelo contrário, remonta ao Hudson Institute, nos anos 70, e ao senador Henry “Scoop” Jackson, duas vezes candidato à nomeação democrata para as eleições presidenciais de 1972 e 1976. Jackson (de ascendência norueguesa) odiava simplesmente o comunismo; odiava os russos, e tinha tido muito apoio dentro do Partido Democrata.

Brzezinski, de origem polaca, partilhava a russofobia de Scoop Jackson. Persuadiu o Presidente Carter (em 1979) a inserir no Afeganistão uma cultura identitária radicalizada e jihadista para contrariar a cultura socialista secular de Cabul, que Moscovo apoiava. O resultado da guerra do Afeganistão foi posteriormente retratado como uma enorme vitória americana (que não foi).

No entanto – e este é o ponto – a reivindicação de vitória sustentou a noção de que os insurgentes islâmicos eram os “solventes” ideais em projectos de mudança de regime (e ainda o são, como testemunhamos hoje na Síria).

Mas Brzezinski tinha ainda mais conselhos para dar ao Presidente Carter. No seu Grande Tabuleiro de Xadrez de 1997, Brzezinski argumentou que os Estados Unidos e Kiev poderiam potencialmente alavancar complexidades culturais e linguísticas antigas (como foi feito no Afeganistão) para formar a dobradiça em torno da qual o poder do Heartland poderia ser dissolvido, negando à Rússia o controlo da Ucrânia:

“Na ausência da Ucrânia, a Rússia nunca se tornaria a potência do Heartland; mas com a Ucrânia, a Rússia pode e seria [uma potência do Heartland]”, insistiu. A Rússia precisava de ser enredada num atoleiro de identidade cultural ucraniana semelhante, defendia.

Porque é que esta decisão política foi tão prejudicial para as perspectivas de uma paz definitiva entre os EUA e a Rússia? Porque Kiev, incentivada pela CIA, promoveu a afirmação identitária totalmente falsa de que “a Europa acaba na Ucrânia” – e que, para além dela, estão “os eslavos”.

Só esta manipulação permitiu que Kiev se transformasse num ícone da guerra cultural-identitária total contra a Rússia, apesar do facto de a língua ucraniana (corretamente conhecida como o Ruteno) não ser uma língua germânica. Também não se encontra qualquer ADN viking (germânico) entre os ucranianos ocidentais actuais.

No seu desejo de apoiar Kiev e de agradar a Biden, a UE saltou para este revisionismo estratégico ucraniano: a “Ucrânia” entendida como “valores europeus” na defesa contra os valores “russos” (asiáticos).  Era um pólo, embora falso, em torno do qual a unidade europeia poderia ser forjada numa altura em que a realidade era a dissipação da unidade da UE.

Então, será possível uma “paz sustentável” com a Rússia? Se ela for pensada em termos de tentar manter uma Ucrânia sem força como um istmo belicoso da “Europa e dos seus valores” contra a “esfera eslava regressiva”, então a paz não é possível. Porque a sua premissa subjacente seria totalmente falsa e conduziria seguramente a um novo conflito no futuro. Moscovo rejeitaria quase de certeza um tal acordo.

No entanto, há uma ansiedade crescente entre o público americano de que a guerra na Ucrânia parece estar presa a uma escalada eterna, com receios públicos palpáveis de que Biden e os “falcões” no Congresso estejam a levar os EUA a um “holocausto nuclear”.

Será que nós – a Humanidade – vamos continuar a oscilar à beira da aniquilação se um “acordo” de Trump – estreitamente circunscrito à Ucrânia – for recusado em Moscovo? A urgência de travar o deslizamento para a escalada é clara; no entanto, o espaço de manobra política diminui continuamente, uma vez que a compulsão dos falcões de Washington-Bruxelas para lançar um ataque fatal contra a Rússia não está esgotada.

Mas visto da perspectiva da equipa Trump, a tarefa de negociar com Putin é tudo menos simples. O público ocidental simplesmente nunca foi psicologicamente condicionado a esperar a possibilidade de uma Rússia mais forte emergir. Pelo contrário, têm suportado “especialistas” ocidentais a escarnecer dos militares russos; a denegrir a liderança russa como incompetente; e a sua liderança a ser apresentada nas suas televisões como puramente má.

Tendo em conta a contribuição seminal de Brzezinski sobre a democracia e a sua posterior “concentração” numa “esfera identitária” gerida por uma elite tecnológica, não é difícil de notar como um país tão fragmentado como a América se encontra numa situação de desvantagem à medida que o mundo desliza para uma multipolaridade de base cultural.

É claro, não é exactamente verdade afirmar que a América não tem uma cultura comunitária, dada a grande diversidade de culturas imigrantes nos EUA. Afinal, foi esse o cerne da recente eleição presidencial – e das eleições em muitas outras nações.

A noção de que os enviados de Trump estiveram inicialmente em Moscovo, e partiram de mãos vazias, Trump entrará de rompante para concluir um acordo sobre a Ucrânia, não reflecte o que Moscovo tem vindo a salientar incessantemente. O que é necessário é um acordo baseado num Tratado “Big Picture” que estabeleça a arquitectura de segurança e as fronteiras entre os interesses de segurança do Heartland e do Rimland.

Mas será que um tal acordo será visto por muitos americanos como uma “fraqueza”; como uma concessão da “liderança” e da “grandeza” dos EUA? Claro que será visto dessa forma – porque Trump estaria efetivamente a selar a derrota da América e a reposicionar os EUA como um Estado entre iguais num novo Concerto de Poderes – ou seja, num Mundo Multipolar.

É um grande “pedido”. Conseguirá Trump fazê-lo – engolir o orgulho americano? Uma forma viável de avançar seria voltar ao nó górdio original e desatá-lo: isto é, desatar o nó de não haver um tratado escrito pós-Segunda Guerra Mundial que delimite o movimento sempre em frente da NATO e, ao fazê-lo, acabar com a pretensão de que a deslocação da NATO para onde quer que seja que ela escolha não é da conta de ninguém a não ser dela própria.

Infelizmente, a outra forma possível de “equilibrar” a aparência de derrota americana e da NATO em relação à Ucrânia, pode ser vista pelos conselheiros falconados de Trump como sendo o pulverizar do Irão – como um sinal da “virilidade” americana.

As negociações, em última instância, têm a ver com interesses e com a capacidade de resolver o enigma de duas partes perceberem como “a outra” se vê a si própria – como fraqueza ou como força. Trump, se for apanhado num impasse literal sobre a Ucrânia, pode simplesmente escalar a escada metafísica para dizer simplesmente que só ele tem a visão para salvar a América da 3ª Guerra Mundial. Para salvar a América de si própria.

Fonte aqui.


Negacionistas? há um ror deles

(António Gil, in Substack.com, 09/01/2025)

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Mas a palavra anda a ser aplicada à gente errada. Vocês podem talvez tracejar o fenómeno do negacionismo parvo até um tempo que me tenha faltado mas bom, eu só chego (por enquanto, ainda não aprofundei o suficiente) àquela cena do Bill Clinton ter fumado marijuana mas não ter ‘travado’ o fumo.

E logo depois (mais uns anos, vá) ter dito : eu não tive sexo com aquela mulher (Mónica Lewinsky) porque tudo o que ele meteu na sua vagina foi um charuto Havano. Fidel Castro tinha outras formas mais saudáveis de extrair prazer de um charuto, ao que parece. Ele não o metia em sítios esquisitos.

Claro, não foi culpa dele que ela tivesse metido a boca noutra coisa que não o tal charuto. Desde esse episódio, ser-se presidente dos EUA tornou-se uma coisa inenarrável porque não se tratou mais de quem metia o quê e aonde, mas de questões ‘técnicas’.

Mas a malta alarve só começou a notar que havia algo de podre na Presidência dos EUA depois de Trump ter assumido o cargo em 2016, Até aí, nunca nada de chocante tinha acontecido na sala oval ou na Casa Branca, certo?

Obama, esse morenaço charmoso- na definição de Berlusconi – foi lavado mais branco do que a banca suíça, que aceita tudo, desde as fortunas feitas com pós brancos e castanhos, até ao dinheiro feito com armas não brancas (banqueiros inclusivos decerto, nunca ligaram muito à cor das armas: brancas, fuscas, quem se importa com tais detalhes?)

Mas bom, aqui estamos para mais uma performance do célebre maestro da mãe de todos os talk ou reality shows. Eu acho isto engraçado porque a frase favorita dele era: ‘estás despedido’ . E sim, ele vai despedir muita gente. Está-lhe no sangue, nos ossos, nas entranhas.

Se bem me recordo, o programa televisivo que o celebrizou chamava-se ‘o Aprendiz’. E acabava sempre com ele despedindo muita gente candiidata aos seus 15 minutos de fama.

Os candidatos agora serão os líderes europeus, não é giro? eu acho ! mesmo se a razão pelas quais ele vai despedir não sejam as razões pelas quais eu acho que toda essa gente deva ser despedida ainda assim eu exulto. Vocês não?

Muitos dos meus amigos estão pessimistas sobre a real capacidade de Donald Trump de desmantelar a NATO. Deixem-me alegrar-vos a noite: Yes he can! Não vos vou dizer que ele saiba bem o que está a fazer, mas para já está a ir muito bem. É isso que assusta a elite Europeia que deve suas mordomias (mordomias aqui é bem dito porque os líderes europeus são mordomos da NATO).

Ou vocês acham que esse pânico vem donde? Este nem sequer é um caso em que o patrão tenha decidido pelo despedimento massivo, nada disso.

Na verdade, é mais um caso -raro de ver – em que o patrão simplesmente abandona o hospício (assim à doida, ele também é maluco) e diz:

– A partir de agora, vocês, os maluquinhos todos, estais em auto-gestão.

E ele diz isto, sendo o doidão da cena, não um maluquinho qualquer, entendem?

Haverá algo mais aterrorizante para os maluquinhos do que saber que mais ninguém cuidará deles? deixem-me esclarecer-vos.

Macron, por exemplo, pareceu um gajo ajuizado quando anos atrás declarou que a NATO estava cerebralmente morta. Mas que fez ele depois dessa declaração tonitruante? nada, népia, nicles, permaneceu no clube dos cerebralmente mortos.

Scholtz assobiou para o lado quando seu patrão explodiu suas infra-estruturas energéticas e ainda acusa os russos -de vez em quando – de lhe terem cortado o gaz.

Starmer, o advogado especialista em direitos humanos acha que matar crianças de todas as maneiras, a fome e a sede incluídas, faz parte do inalienável direito à auto-defesa.

Eu vou gostar de ver os doidos todos abandonados pelo grande doidão. Mas por enquanto eles continuam em estado de negação fingindo que nada mudou nem vai mudar.

Fonte aqui.

Um milhão de mortos reclamam justiça

(José Goulão, in Strategic Culture Foundation, 06/01/2025)

O golpe de Maidan está na origem da perda de cerca de um milhão de vidas humanas e terá de ser a base, o ponto de partida para um julgamento necessário e justo de todos os que a ele estão associados.


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Não posso garantir que a guerra na Ucrânia resultante do golpe ocidental antidemocrático executado há dez anos “em nome da democracia”, já tenha provocado um milhão de mortos até agora, entre ucranianos e também russos –, os quais, ao contrário da verdade única imposta pela “nossa civilização”, também são pessoas.

O número, porém, anda lá próximo, pode até excedê-lo porque as matanças diárias nos campos de batalha e os “danos colaterais” por elas gerado nas sociedades dos dois países, com muito maiores repercussões na infeliz Ucrânia, sustentam cálculo tão trágico. Por exemplo, a dimensão de alguns cemitérios ucranianos foi multiplicada por quatro desde o início da operação militar especial russa, consumada através de uma ilegítima invasão militar. Os responsáveis por essa catástrofe humanitária, para travar desde já os habituais delírios propagandísticos do euro-“comentariado” e dos nacionais-comentaristas, são os patrocinadores do golpe da Praça Maidan, em Kiev, desencadeado com êxito em 2014 pelas principais potências ocidentais, com os Estados Unidos – nação “excepcional” e “indispensável” e os seus principais países satélites integrados (ou dissolvidos?) na NATO e na União Europeia à cabeça.

Explicou-nos na altura, sem qualquer pudor ou réstia de secretismo, a senhora Victoria Nuland, com a autoridade própria de quem ocupava um posto elevado no Departamento de Estado norte-americano, que os Estados Unidos investiram cinco mil milhões de dólares para derrubarem o governo de Kiev, por sinal resultante de eleições democráticas, livres e justas que ninguém contestou, e colocarem no seu lugar uma junta ditatorial com tutela nazi-banderista.

Segundo a cifra oficial revelada por Nuland, e dando como provável o extermínio de um milhão de pessoas, o preço da vida humana na bolsa de sevícias praticadas pela democracia liberal na sempre alegada defesa dos direitos humanos é de cinco mil dólares (mais ou menos a mesma coisa em euros) por cabeça.

Olhando para a derrocada económica ocidental poderá deduzir-se que o investimento parece excessivo mas, em boa verdade, a possibilidade de a NATO cercar e mesmo desmantelar a Rússia e de assim poder abrir as portas a um saque astronómico, dando um passo de gigante para impôr o tão desejado globalismo, parece valer bem esse preço.

A realidade, porém, foi mal orçamentada e as liquidações ao preço unitário de cinco mil dólares representam um inconsequente desperdício ocidental de mão-de-obra e de dinheiro porque continuam diariamente a morrer pessoas aos milhares nos campos de batalha de uma guerra perdida por Kiev, Washington e Bruxelas. As classes políticas ocidentais e os seus amestrados pés de microfone e zombies marteladores de teclados garantem que não, que a vitória de Zelensky e os seus simpatizantes de Hitler chegará, talvez num dia de nevoeiro, em troca de um módico dispêndio diário da ordem dos 50 milhões de dólares em vidas humanas (cerca de 10 mil mortos por dia), que estará perfeitamente em linha com as previsões de perdas e danos – pelo menos segundo o espírito tecnocrático e a “mão invisível” do Mercado. Há que notar que os cinco mil milhões investidos no golpe propriamente dito mais os gastos ocidentais com a guerra até ao dia de hoje, em armas e financiamento directo e indirecto ao regime banderista, devem andar próximos de um total de mil milhões de milhões, aquilo que os anglo-saxónicos designam como trilião de dólares – ou de euros, tanto faz quando entramos no domínio destas verbas astronómicas, ainda assim a 30ª parte da dívida soberana dos Estados Unidos.

O princípio do fim

A história oficial e única admitida sobre o drama ucraniano, que temos de aceitar sob pena de sermos qualificados como incorrigíveis putinistas, diz-nos que tudo começou em 24 de Fevereiro de 2022, quando “a Rússia invadiu a Ucrânia”. E se alguém alega que devemos recuar até Fevereiro de 2014, logo a versão oficial é adaptada informando-nos que o problema nessa época foi despoletado pela “invasão russa da Crimeia”.

O que as elites ocidentais nunca admitem é que tudo começou com o golpe da Praça Maidan, em Kiev, em 22 de Fevereiro de 2014, quando foi derrubado o presidente legítimo ucraniano, Viktor Yanukovich, eleito democraticamente com 49% dos votos em 25 de Fevereiro de 2010.

Ninguém contestou essas eleições nem os resultados, e todos os países ocidentais as consideraram dentro da normalidade democrática da Ucrânia. Um dos “desvios” das eleições, como tardia e oportunisticamente veio a ser invocado quando já as multidões da “revolução da dignidade” se moviam nas ruas de Kiev sob a batuta de Nuland e do embaixador norte-americano Geoffrey Pyatt, foi o facto de Yanukovich ter sido mais votado no Leste do que no Oeste do país, uma inclinação geográfica que, afinal, parece ser um pecadilho para as sensibilidades democráticas. Mas, para melhor sustentarem o golpe através dos fiéis ecos mediáticos, os donos da verdade e da democracia no Ocidente logo acusaram Yanukovych de corrupto, num país onde a corrupção é congénita, e de “entregar o país à Rússia”, quando se limitara a rejeitar um acordo de parceria com a União Europeia; o qual, como é da praxe, submetia Kiev aos autocratas de Bruxelas. Ou seja, o presidente legítimo foi vítima da sua governação em defesa da soberania nacional – uma prática de que o Ocidente nem quer ouvir falar não por ser “retrógrada”, como diz, mas porque é incómoda para a estratégia do globalismo neoliberal, condição em que seremos felizes sem nada ter e meia dúzia de recônditos megaladrões terão tudo.

Mesmo assim, a 21 de Fevereiro de 2014 deslocaram-se a Kiev os ministros dos Negócios Estrangeiros da Polónia, França e Alemanha, respectivamente Radoslaw Sikorski (também cidadão britânico, hoje de novo no cargo), Laurent Fabius e Frank-Walter Steinmeyer, que mediaram e alcançaram um acordo entre o governo e a oposição para resolver a crise através da realização de eleições gerais e a reentrada em vigor da Constituição de 2004. Por essa altura já Nuland e Pyatt distribuíam biscoitos aos manifestantes na Praça Maidan – parece que a sempre diligente política portuguesa Ana Gomes provou e gostou – enquanto membros de grupos nazi-banderistas, distribuídos pelos telhados de edifícios circundantes, envergando fardas da polícia ucraniana, disparavam sobre a multidão provocando dezenas de mortos. O facto está devidamente comprovado, por isso ficou soterrado no silêncio das elites ocidentais, incluindo as mediáticas.

O acordo não passou de um papel inútil e Yanukovych foi derrubado. Victoria Nuland formou então uma junta de governo em Kiev incluindo dez membros de grupos nazi-fascistas-banderistas e, quando brandamente criticada por não ter partilhado a tarefa com dirigentes europeus, respondeu com a elegância e a consideração de sempre dos Estados Unidos para com os satélites: “Fuck the EU” (tradução dispensável).

O Ocidente apressou-se a reconhecer a junta golpista, a França, a Alemanha e a Polónia nem chegaram a invocar o acordo que mediaram e logo se iniciou a guerra de Kiev contra as populações de origem russa do Leste do país e da Península da Crimeia, território originalmente da Rússia mas que o dirigente soviético Nikita Krustschov, para quem a Revolução de Outubro era um acontecimento morto e enterrado e durante uma noite de libações, nos anos cinquenta, decidira agregar à Ucrânia.

Moscovo reapropriou-se então da Crimeia, logo a seguir ao golpe em Kiev, mas o facto foi consumado apenas depois de uma consulta democrática à população; e, como acontece sempre que os resultados eleitorais não são os por elas desejados, as elites ocidentais consideraram-nos uma falsificação – apesar de mais de 90% da população se ter pronunciado pela reintegração na Rússia.

Porém, no Leste da Ucrânia, genericamente conhecido como a região do Donbass, a população teve de esperar oito anos pelo apoio directo de Moscovo e foi obrigada a organizar-se em estruturas de autodefesa, conseguindo assim travar a ofensiva de Kiev ao cabo de muitos meses, o que amainou a intensidade do conflito.

Negociaram-se então os acordos de Minsk, que estabeleciam uma espécie de solução federativa para a Ucrânia e foram assinados pelas partes ucranianas em conflito sob garantias outorgadas pela Rússia e, novamente, a França e a Alemanha.

Viríamos depois a aprender que o desprezo da Polónia, da França e da Alemanha pelo acordo entre o governo e a oposição estabelecido em 2014 não fora um caso esporádico de mistificação e má-fé. François Hollande e Angela Merkel, presidente francês e chanceler alemã, revelaram alguns anos depois, sem pudor, que as suas assinaturas nos acordos de Minsk se deveram somente à necessidade de o regime banderista de Kiev ganhar tempo e poder armar-se para concretizar no Leste o que começara em Maidan – a expansão a todo o território do regime de apartheid e xenófobo sob controlo do nazi-banderismo. Necessidade que Paris, agora de Macron, e Berlim de Scholz, juntamente com os países da União Europeia e da NATO, sob a tutela de Washington, supriram sem reticências ao longo de uma década, pagando até o preço de mergulharem o Ocidente numa crise profunda, eventualmente explosiva.

Um parêntesis para assinalar que Viktor Yanukovych, desde então no exílio, foi condenado a 13 anos de prisão pela justiça do regime de Kiev, que entretanto suprimiu os partidos capazes de fazer oposição autêntica à junta ditatorial; essa sentença incitou a União Europeia, fiel aos seus hábitos, a impor sanções ao presidente deposto e respectiva família. Enquanto a família Biden, vice-presidente da administração de Obama – o verdadeiro mestre de Maidan -, aumentou o seu incontável pecúlio saqueando riquezas naturais da Ucrânia, em proveito próprio, principalmente no sector do gás natural. Entretanto, o Tribunal Geral Europeu decidiu em 23 de Dezembro de 2023 ilibar Yanukovych e a família das acusações de Kiev, invalidando a sentença e determinando que a União Europeia deve levantar as consequentes sanções, porque foram impostas com base “num erro de avaliação” uma vez que as autoridades do regime ucraniano não conseguiram demonstrar que o julgamento efectuado foi justo.

Como pode concluir-se, as elites políticas ocidentais estiveram sempre do lado da mentira, da violação da democracia e dos próprios acordos internacionais que assinaram a propósito da situação gerada pelo regime de Kiev, onde pontificam saudosistas de Hitler. Como se não bastasse, quando poderiam ter garantido a suspensão do conflito através do acordo de Istambul, ainda em 2022, essas mesmas elites enviaram a Kiev o trampolineiro primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, para o sabotar. Nessa ocasião, a guerra de Kiev contra o Leste já provocara 13 mil mortos desde 2014. Um primeiro e modesto investimento de 65 milhões de dólares do regime nazi-banderista no extermínio do seu povo.

A casta política que gere o chamado Ocidente colectivo, ao serviço das máfias económico-financeiras globalistas e da guerra expansionista, deixou assim o planeta sob a maior ameaça de sempre à sua existência. Por isso, não é digna de respeito, de credibilidade, de qualquer consideração dos povos dos seus países. A democracia liberal não passa de uma falsificação grosseira da democracia.

O TPI tem árdua tarefa pela frente

Façamos de conta que somos todos muito ingénuos e acreditamos que um dia a recente decisão do Tribunal Penal Internacional (TPI) em relação a Benjamin Netanyahu terá algum efeito prático.

Há semanas o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ), organismo da ONU, assumira a mesma posição, porém sem resultados práticos até agora. Netanyahu está imune e impune e assim continuará. E se aceitou um cessar-fogo, certamente temporário, no Líbano, é porque mais uma vez as suas tropas e as suas hordas de assassinos não conseguem vergar o povo libanês e o Hezbollah como seu bastião, que mais uma vez fez frente ao aparelho de guerra sionista e não cedeu, apesar das sucessivas decapitações dos seus principais dirigentes.

Infelizmente dentro da ONU há sempre quem consiga minorar e desautorizar o trabalho do TIJ, como é, neste caso, o secretário-geral, António Guterres. Ao comparecer numa conferência em Lisboa juntamente com a criminosa de guerra sionista Tzipi Livni, directamente envolvida no permanente genocídio em Gaza, Guterres ignorou ostensivamente a posição do tribunal: ele sabe muito bem que a decisão do TIJ não está personalizada em Netanyahu, que sozinho não conseguiria praticar a carnificina em curso, obra que é da responsabilidade da ideologia nazi-sionista transnacional.

Os dois tribunais internacionais reservaram, deste modo, lugares para Netanyahu em dois bancos de réus. O alcance da medida, porém, terá de ser mais amplo e abrangente. A abertura destes precedentes – o que já acontecera em relação a Vladimir Putin – pode e deve significar que os responsáveis pela guerra na Ucrânia terão de enfrentar o seu Nuremberga num dia que o mundo tenha condições para isso, caso os muitos candidatos a esses bancos de réus não o tenham destruído antes.

Com o rigor histórico em que esses necessários tribunais terão de basear-se, os indivíduos a levar a julgamento serão todos os responsáveis directos pelo golpe na Praça Maidan em Kiev, não apenas os operacionais – Obama, Biden, Nuland e Pyatt – mas também os que apoiaram a sua execução e os que vieram a sustentar e a envolver-se na guerra consequente. Que já matou cerca de um milhão de seres humanos, crimes esses que não poderão passar impunes.

É difícil, e nem cabe aqui, enumerar todos os dirigentes, civis e militares, que um dia terão de sentar-se no banco dos réus para que sejam minimamente respeitadas as memórias das vítimas mortais, o drama das suas famílias e reparados os danos provocados a milhões de feridos e estropiados, ucranianos e russos.

Todos os chefes de governo, ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros e altos comandos militares dos Estados Unidos da América e dos países da NATO e da União Europeia terão de ser indiciados. A excepção talvez seja o primeiro-ministro Fico da Eslováquia, que já ia pagando com a vida o preço da sua ousadia de estar contra a corrente. Muitos pensarão que o húngaro Viktor Orban poderia ser poupado devido às suas reticências conjunturais ao envolvimento na Ucrânia; porém, está incondicionalmente de alma e coração com o assassino Netanyahu, o que faz dele um réu igual aos outros.

Sem o golpe de Maidan não haveria guerra na Ucrânia, a Península da Crimeia ainda estaria integrada no território ucraniano, provavelmente não teria havido sequer o massacre da Casa dos Sindicatos em Odessa, em 2 de Maio de 2014; e o nazismo ucraniano continuaria residual como acontecia antes de os responsáveis pelo golpe que derrubou o presidente eleito Yanukovych lhe terem dado gás como agente mais qualificado para garantir a repressão, a tortura, o terror, a militarização da sociedade e a implantação do apartheid como política de Estado. E sem Maidan a Ucrânia continuaria a ser um Estado com plena integridade territorial e vivendo dentro da normalidade – embora sempre à mercê das revoluções coloridas organizadas pelo National Endowment for Democracy (NED), um poderoso ramo golpista da CIA chefiado actualmente pela própria Victoria Nuland, como reconhecimento das suas aptidões terroristas.

O golpe de Maidan está na origem da perda de cerca de um milhão de vidas humanas e terá de ser a base, o ponto de partida para um julgamento necessário e justo de todos os que a ele estão associados. Poderemos citar Obama, Biden e Trump, vários secretários de Estado norte-americanos como Blinken, Pompeo, Tillerson e Kerry, chefes do Pentágono, autocratas da União Europeia e da NATO como Van der Leyen, Stoltenberg, Rutte, Charles Michel, Mogherini, Borrel e Kallas e os principais dirigentes dos governos dos países da NATO e da União Europeia, sem esquecer Costa e Montenegro, Santos Silva e Rangel, tanto pelo apoio à guerra na Ucrânia como pela colaboração activa com o genocídio sionista e a tolerância deliberada e ostensiva em relação aos crimes de Israel.

António Costa, nunca será demais recordá-lo, apropriou-se de 200 milhões de dólares do nosso dinheiro para o entregar ao transtornado criminoso de guerra Zelensky. Os 200 milhões, de acordo com o valor original da vida humana nesta guerra, contribuíram para o assassínio de 40 mil pessoas, uma fracção da chacina a que ninguém pode ficar indiferente, muito menos a justiça.

Em nome do humanismo, dos direitos humanos, dos cânones da “civilização ocidental”, tantas vezes invocados para outras tantas serem violados, o milhão de mortos na guerra imposta no território da Ucrânia a partir do golpe Maidan, em 22 de Fevereiro de 2014, e os milhões de mortos, feridos, desapossados e desterrados desde 1948 às mãos do sionismo reclamam justiça.

Como cidadãos, é inevitável dever e obrigação lutar activamente contra os nossos governos, a União Europeia, a NATO e o imperialismo para que ela seja feita. A força bruta joga a favor dos criminosos, mas a coragem, a determinação, a unidade, até o tempo estão a nosso favor porque a razão humana é difícil, mesmo impossível de vergar e quebrar. É das leis da História.

Fonte aqui.