Querem-nos ignorantes

(Pedro Marques Lopes, in Diário de Notícias, 05/01/2019)

pml

Pedro Marques Lopes

Em outubro do ano passado, cientistas avisaram que o consumo excessivo de carne está a causar uma catástrofe ambiental. É fundamental que o consumo de carne de vaca seja reduzido em 90% e o de carne de porco e de leite e seus derivados baixe drasticamente. A desflorestação para a criação de gado, com as emissões de metano pelas vacas e a utilização de fertilizantes cria tantas emissões de gás com efeito estufa como todos os carros, camiões e aviões juntos.

Estes dados constam de um artigo recentemente publicado no The Guardian. São apenas alguns poucos dados da imensidade de provas científicas do que o excessivo consumo de carne está a fazer ao nosso planeta.

Pode haver quem pense que não há novidade nenhuma em mais um artigo como o referido e que não faltam filmes, documentários e tratados científicos a abordar o tema. De facto, não há nada de novo, mesmo nada. Sobretudo a pouquíssima divulgação nos principais órgãos de comunicação social de tudo o que diz respeito a este tema e o olhar para o lado do poder político.

A nuvem de silêncio sobre as consequências para a humanidade, para o nosso habitat comum do consumo de carne é absolutamente chocante. Só tem paralelo com a pouquíssima divulgação dos crimes ambientais diários e o olhar indulgente, como se opções corriqueiras fossem, para decisões políticas dos mais importantes líderes mundiais que estão a condenar o futuro da própria existência do homem.

Por esta altura já não me restam grandes dúvidas: há, por ação ou omissão, uma vontade política em ignorar os problemas que o excessivo consumo de carne acarreta. Claro que a tarefa de mudar hábitos alimentares, costumes milenares, uma inteira cultura ligada ao consumo de carne é brutal e leva muito tempo, mas é urgente e exige não só ações políticas decididas como enormes campanhas de sensibilização. O facto é que nada disto está a ser feito, pelo contrário. A questão é simples: queremos ter um mundo para os nossos descendentes ou queremos destruí-lo?

Vivemos num mundo em que a propaganda contra o consumo do tabaco é gigantesca, em que drogas incomparavelmente menos prejudicais para a saúde do que as bebidas alcoólicas ou o tabaco são proibidas, ao mesmo tempo que somos inundados de publicidade para que comamos mais carne e derivados de leite. Ou seja, em vez de se promover a informação de que o excessivo consumo destas substâncias está a destruir o nosso mundo, incentiva-se o seu consumo como se fosse algo de bom.

Há aqui também algo de profundamente pernicioso, uma espécie de ideologia destrutiva da ideia de casa comum. Um cuidado extremo com o indivíduo coexiste com um desprezo olímpico pela comunidade. O indivíduo deve ser são, o meio onde ele vive pode ser destruído. A força das grandes empresas, não só na capacidade de influenciar os governos mas também toda a comunicação, meios tradicionais e redes sociais, é uma parte fundamental do problema.

Que governo se atreve a olhar para a indústria de criação de gado ou leiteira e restringir seriamente a sua atividade? Lá está, impostos, empregos, bem estar presente. Que meios de comunicação social podem pôr em causa grandes empresas de distribuição ou redes de restaurantes sem correr o risco de porem em causa a sua própria sobrevivência financeira? E, claro, essas grandes corporações têm uma capacidade para manipular as redes sociais e até usá-las como forma de vender as suas verdades. Que partidos nos países mais industrializados podem deixar de ser apoiados por lóbis tão fortes como os das indústrias das carnes, dos laticínios, dos fertilizantes ou dos grandes laboratórios?

Vivemos uma espécie de beco sem saída. O poder político demitiu-se de olhar para o futuro da comunidade e foi substituído por um poder económico que apenas pensa no lucro imediato. Nunca tão poucas empresas e lóbis associados tiveram um poder tão avassalador.

A mais importante questão política dos nossos tempos é o problema ambiental e todos os aspetos com ele relacionados. Se não o atacamos não falaremos mais sequer de política porque não teremos comunidade, nem mundo, nem pessoas. E o facto é que é tratado como um problema de terceira categoria pelos governos e, sobretudo, por nós cidadãos.

Por mim, a minha decisão para o novo ano é tentar não comer carne. Custa, mas eu gostava que os meus filhos, netos e bisnetos tivessem um planeta para viver. E gostava que eles vivessem com os seus, caro leitor. Bom ano.



O MEL

No próximo fim de semana, um conjunto de pessoas reúne-se em Lisboa com um objetivo mal disfarçado: lançar as bases para formar um partido. É o projeto que vem sendo anunciado por alguns como a refundação da direita. Por enquanto chama-se Movimento Europa e Liberdade, MEL. Reúne gente do CDS que já percebeu que o partido nunca passará da cepa torta (onde se inclui Assunção Cristas), pessoas do PSD que já não são do PSD mas que se aproveitam do partido para poderem promover a sua própria agenda e vários órfãos do passismo de vários setores. Nada contra a iniciativa destas pessoas. Pelo contrário. Novas iniciativas político-partidárias, mesmo que disfarçadas, são um sinal de vitalidade da democracia.



Vale tudo?

Na quinta-feira, Mário Machado, condenado por vários crimes, líder de um movimento de extrema-direita e divulgador de mensagens de ódio, racistas e xenófobas, foi entrevistado no programa da manhã da TVI de que Manuel Luís Goucha é autor e apresentador. Houve também uma espécie de inquérito de rua onde se perguntava às pessoas se precisaríamos de um novo Salazar. Entretanto, a página de Facebook Manuel Luís – TVI lançava uma sondagem com a pergunta: “Acha que precisamos de um novo Salazar?” Das duas uma: ou o Manuel Luís Goucha e a TVI estão tão desesperados com as audiências que resolveram dar espaço a promotores de ódio, a publicitar ideias fascistas e a desculpabilizar um ditador, ou uma pessoa com a importância mediática do apresentador e a direção da TVI não têm a noção da responsabilidade que é gerir um canal de televisão e do poder de que desfrutam. Francamente, a segunda assusta-me mais.

Senhor Eucalipto

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 20/11/2018)

LOUCA3

Vários jornais acolheram três páginas de generosa publicidade paga que lançou o grito de alerta: há desinformação sobre os incêndios e, pior, “o ataque que se tem registado contra o eucalipto promove a desertificação do interior”. Nove municípios, uma lista de académicos que modestamente assinam “professor tal e tal”, associações de produtores, as principais empresas do sector, os ex-ministros do PS que estão sempre nestas coisas, todos se juntam para repelir o “ataque”. Entre eles destaca-se Álvaro Barreto, que Cavaco Silva foi buscar à Soporcel para dirigir o Ministério da Agricultura e que depois voltou à empresa para cumprir uma longa presidência, um dos mais eloquentes exemplos portugueses da porta giratória entre governos e as empresas do sector que tutelou. São os mandantes, os financiadores, os políticos, os empresários, o Senhor Eucalipto.

Irritados com o Parlamento e com o Presidente, um porque recomendou a retirada dos eucaliptos infestantes, outro porque se fez filmar a arrancar os ditos cujos, os signatários declaram-se dispostos a um debate “que permita aprofundar o conhecimento”. Ora melhor assim. Mesmo que alguns se tenham esquecido de declarar o seu interesse pessoal direto na matéria, o que só lhes ficava bem, falar de “factos sobre a floresta” é razoável.

Mas vejamos o primeiro facto: Portugal é o país do mundo que tem maior proporção de área eucaliptada (e o quarto do mundo em termos absolutos). Maravilha, nenhuma empresa e nenhum governo em país algum do planeta inteiro percebe o milagre que é o eucalipto e replica o sucesso português. A esperteza empresarial é privilégio único daquela lista de professores e empresários que assinam a publicidade, são os melhores do mundo. Entretanto, perguntar qual a razão para que todos os outros países do mundo imponham limites ao eucalipto é crime de lesa majestade. Segundo facto: o eucalipto já representou 24% da área ardida em 2016 e 127 mil hectares em 2017, no ano corrente ainda a conta está por concluir. No incêndio de Monchique, foi o eucalipto. Muitos dos distintos signatários são pagos pelo eucalipto e percebe-se a sua candura, mas escusavam de argumentar que ele nos protege do fogo.

Se nos dizem que o abandono do interior, a perda da agricultura e o desinteresse pela floresta também têm muitas outras razões, só posso concordar. O problema é que o Senhor Eucalipto é hoje a força económica dominante na floresta e o lóbi mais poderoso nos sucessivos Ministérios da Agricultura, e a sua ação agrava os riscos da floresta, acumula pilhas incendiárias e promete aos pequenos proprietários o que não lhes pode dar.

O predomínio do eucalipto na nossa floresta é somente um sinal da vulnerabilidade de Portugal. Que as empresas beneficiárias defendam o seu privilégio e que arregimentem os seus para uma declaração de subserviência, é natural. Que o país vá sofrendo esta prepotência, enterrando os seus mortos nos incêndios, carpindo as perdas das famílias atingidas e esperando resignadamente a desgraça do ano seguinte, isso já é menos aceitável.

 

Nos idos do verão

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 08/09/2018)

MST5

(O Miguel vem em grande forma. O bronze da Meia Praia fez-lhe bem. Eucaliptos e pedófilos, a mesma corja, é o tema. Denominador comum entre ambas as pragas? O fogo do inferno: os infernos de fogo que os eucaliptos alimentam e onde merece ser incinerada a cáfila abusadora das crianças e jovens à sua guarda.

Comentário da Estátua, 08/09/2018) 


Das areias da Meia Praia, vi o fogo começar na Serra de Monchique. Já se tornou um hábito estar sempre a olhar para a serra com medo que um fogo comece. Porém, não me assustou muito, pois, apesar do calor intenso, estava vento sul e com vento sul não mexe uma palha lá em cima. Isso, mais a avalanche de meios terrestres e aéreos imediatamente lançados no ataque ao incêndio, logo elogiados pelo Presidente e que há meses nos vinham sendo cantados em ladainha pelo ministro Eduardo Cabrita como estando disponíveis até para os conhecidos incêndios de Natal, fazia prever que, no máximo de 24 horas o fogo estaria extinto. Mas, não: foram três dias seguidos sem vento desaproveitados, até que aquilo que todos os que conhecem a zona temiam que acontecesse, aconteceu: entrou o vento norte e tudo fugiu de controlo. Monchique ardeu até ao fim, durante oito dias e 26 mil hectares. Outra vez. Um habitual rigoroso inquérito vai apurar como é que tal foi possível e eu, que não percebo nada do assunto, não posso ajudar às conclusões. Excepto numa coisa: por favor, não concluam que não houve incompetência no comando.

Por favor, também não concluam que aquele braseiro demencial não foi tragicamente potenciado pela caixa de fósforos gigantesca em que transformaram a outrora deslumbrante Serra de Monchique. 74% da área florestal do concelho de Monchique são ocupados pelos queridos eucaliptos: lá em cima não corre um fio de água, não se avista um animal bravio, não se escuta um pássaro. Dentro de oito anos serão 84% de eucaliptal e voltará a arder tudo outra vez. É um jogo de roleta: se por acaso não arder, é fortuna garantida para quem os plantou; se arder, o prejuízo é todo dos contribuintes e o lucro é dos que fornecem os meios de combate aos incêndios. Em Maio passado, porém, o presidente da Câmara de Monchique, Rui André, mostrava-se tranquilo com a situação: as plantações de eucaliptos estavam “ordenadas e vigiadas”, os caminhos limpos e os aceiros feitos. “Já são muitos anos a apagar fogos!”, concluía ele, com um optimismo cínico que se viria a revelar mórbido e que num país onde a responsabilidade política não fosse uma palavra vã o deveria ter levado a demitir-se no dia seguinte ao fogo ter sido extinto.


2 Em Monchique, ardeu sobretudo o eucaliptal da Navigator/Soporcel. E, enquanto os eucaliptos alastravam o fogo à serra, destruíam casas e só por sorte e arte dos bombeiros não mataram ninguém, o seu dono passava férias em Ibiza, a bordo do seu iate, onde viria a morrer de ataque cardíaco. O mesmo Presidente Marcelo, que passou o Verão a lembrar e a homenagear as vítimas dos incêndios de 2017 e a preocupar-se com o incêndio de Monchique, apressou-se a lamentar a morte de um “grande industrial português”. E o jornal “Público” dedicou-lhe a capa e as primeiras quatro páginas, em homenagem ao “presidente do maior grupo industrial de base nacional” e “o homem que não se deixou enganar por Ricardo Salgado” (duas verdades inquestionáveis). Porém, nem uma linha para informar os leitores distraídos ou recordar aos outros que o tal “maior grupo industrial português”, além da Secil e daquela fábrica de cimento que é uma ferida terceiro-mundista na Serra da Arrábida, assenta basicamente na fileira predadora das celuloses — responsável pela infertilidade das terras, pelo despovoamento do interior, pela dimensão dos incêndios, pela poluição dos rios e pela destruição inacreditável da paisagem de Portugal a um ritmo avassalador. E cujas árvores, num processo já incontrolável, renascem das cinzas e espalham as suas sementes mesmo para onde ninguém as planta e ninguém as deseja. Não fosse um texto de elogio a Pedro Queiroz Pereira da autoria do engenheiro João Soares, um crónico defensor do eucaliptal, e nem se saberia a que actividade se dedicava aquele. Desse texto, aliás, retive uma passagem em que João Soares relata uma conversa que terá tido com Queiroz Pereira e em que este terá desabafado que quando abria um jornal e se via “acusado de crimes ambientais”, lhe dava “vontade de vender tudo e ir-me embora desta terra”. O problema está em que não há muitos países — aliás, nenhum país do primeiro mundo, que tenha, sequer em termos absolutos, a quantidade de eucaliptos que Portugal tem e consente. Talvez por isso, a Navigator/Soporcel procure outras paragens longe do primeiro mundo. Uma arrepiante reportagem da autoria de Sofia da Palma Rodrigues, curiosamente publicada no mesmo jornal “Público” no dia da morte de Pedro Queiroz Pereira, revelava como é que, ao abrigo de um programa lançado pelo G7 para desenvolver a agricultura tradicional em África, e através de um processo no mínimo nebuloso, a Navigator/Soporcel se apoderou de 356 mil hectares (três vezes a área que explora em Portugal) das terras agrícolas mais férteis das províncias de Manica e Zambézia, em Moçambique, para as forrar de eucaliptos, afastando delas os agricultores locais. Pois é, as coisas são como são. Não se consegue ter sol no eucaliptal e gente nos campos e chuva nos incêndios.


3  Em directo na rádio France-Inter, o ministro do Ambiente francês, Nicholas Hulot, demitiu-se sem aviso prévio, dizendo não conseguir mentir mais a si mesmo. Não, nem Macron consegue fazer cumprir em França as metas da Cimeira de Paris sobre as emissões de CO2: as pressões da indústria são mais fortes do que quaisquer promessas. Na Alemanha, uma comissão independente concluiu aquilo que qualquer condutor já sabia: que os números de consumo dos carros são notavelmente desinflacionados pelos construtores. Na Austrália, um dos países do mundo mais expostos às alterações climáticas, de ano para ano, o país vive incêndios dantescos, viu a Grande Barreira de Coral diminuir para metade e atravessa actualmente a maior seca de que há registos. Signatária do Acordo de Paris, a Austrália é o 4º maior produtor de carvão do mundo e o 16º maior poluente da atmosfera. Na terceira semana de Agosto, o primeiro-ministro, Malcolm Turnbull, foi derrubado por um golpe interno do seu partido, quando ensaiou uma tímida reforma destinada a controlar a emissão de gazes com efeito de estufa, dando cumprimento aos Acordos de Paris. Por trás do golpe estavam as grandes empresas produtoras de carvão, de petróleo e de gás e a maioria da imprensa, dominada pelo império de Rupert Murdoch.

As lições a extrair daqui são simples e assustadoras. A indústria, as grandes empresas, nunca sacrificarão os lucros dos accionistas a causas que tenham que ver com o bem comum. Pouco lhes importam os acordos ou tratados que os governos assinem ou as leis que aprovem: elas têm os governantes nas mãos, sem precisarem sequer de chegar ao extremo de os corromperem; basta assustá-los com a deslocalização, com a perda de impostos, com as consequências económicas, reflectidas em eleições. Restaria a imprensa independente para actuar em nome do interesse dos cidadãos. Mas, para se manter independente, para subsistir, a imprensa precisa de leitores e de anunciantes. Desgraçadamente, porém, os leitores estão a fugir para as redes sociais (alimentadas, irresponsável ou deliberadamente, pelos próprios políticos), e os anunciantes são as mesmas grandes empresas, interessadas em que certas notícias não existam. Num futuro não muito longínquo, alguém contará como é que sucessivas e coincidentes mortes desaguaram numa tragédia global.

4  É provável que o arcebispo Vigano tenha razão na acusação que faz ao Papa Francisco de ter encoberto os abusos sexuais do cardeal americano McCarrick. Mas é provável também que ao pedir a renúncia do Papa, Vigano, ligado aos sectores mais conservadores da Igreja, não seja movido por boas, mas por más razões. E que Francisco se tenha calado porque percebeu que a dimensão do escândalo era de tal forma que toda a Igreja Católica poderia desabar se a verdade inteira fosse conhecida. Mas agora é tarde demais.

O que os novos escândalos da Pensilvânia e da Irlanda puseram a nu de forma cristalina é que durante décadas ou séculos — talvez desde sempre — os homens de Deus se dedicaram à pedofilia sobre as crianças e os jovens que lhes eram confiados, com total impunidade e conivência dos seus superiores. Que Satanás tomou conta do proclamado Reino de Deus e que todas as virtudes santas pregadas pelos seus pastores se traduziram na mais suja e cobarde hipocrisia muros adentro. Não há perdão algum, só nojo.


Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia