Será ouro branco?

(Daniel Oliveira, in Expresso, 21/09/2019)

Daniel Oliveira

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Numa campanha que se esverdeou, há um debate interessante a fazer, porque cruza escolhas ambientais difíceis e estratégias económica distintas: o lítio. E seria interessante porque deixaria claro que a política ambiental não é diferente de todas as outras: há clivagens ideológicas e tenta-se escolher o mal menor. Comecemos pela primeira dificuldade: falta-nos tempo para atingir a dificílima meta da neutralidade carbónica. Para fazer a transição energética e eletrificar os transportes precisamos de armazenar energia e, para isso, precisamos de baterias. A tecnologia disponível, até que outras alternativas se tornem viá­veis (do sódio ao flúor, passando por tudo o que ainda virá), é o lítio. Podemos depender do lítio importado a quem não tem qualquer respeito pelo ambiente. Ou podemos extraí-lo nós, exigindo-nos as condições que gostaríamos que os outros cumprissem. Portugal tem uma das maiores reserva de lítio do mundo. Há 12 áreas ricas em lítio identificadas (oito e meia fora de áreas protegidas). Mas com os estudos ainda em fase preparatória é muito arriscado fazer conjeturas. Há quem pense que encontrámos a saída para todos os nossos problemas. Técnicos com quem falei atiram baldes de água gelada para o excesso de otimismo. E o lítio tem problemas ambientais relevantes: um forte impacto na paisagem, grande consumo de água e de energia e utilização de químicos nocivos, como o ácido sulfúrico. Como precisamos dele para descarbonizar, ou o produzimos ou importamos células para produção de baterias da China ou lítio do Chile ou da Bolívia.

Passamos à segunda dificuldade. Temos duas opções. A primeira é o modelo clássico e tudo indica que será a do governo: fazem-se concessões a privados. Se as negociarmos bem, como nunca fazemos, o Estado ficará, usando o modelo de outros países, com cerca de 35% da receita, entre royalties e impostos. E a fiscalização ambiental será tão limitada como de costume. A outra possibilidade é aprender alguma coisa com o que os noruegueses fizeram com o petróleo. O Estado poderia encontrar parceiros privados para criar uma empresa de capitais mistos com maioria pública, garantindo um verdadeiro controlo da mais importante matéria-prima que teremos nas próximas décadas e sobre as condições em que é explorado. Como os noruegueses, podemos ficar com 78% da receita e criar um fundo ambiental cuja receita financiasse a recuperação do impacto desta exploração e os 85 mil milhões que serão necessários à descarbonização nos próximos 30 anos. E tentar fazer aqui a produção de baterias e a sua reciclagem. A escolha é entre o modelo neoliberal ou terceiro-mundista e o modelo social-democrata ou escandinavo.

Sabendo que é na próxima legislatura que estas escolhas se farão, questio­nei o ministro do Ambiente no meu podcast. Respondeu-me que o Estado não tem know-how para extrair lítio. Mas também é para isso que servem os parceiros privados. O Estado — todos nós — é dono da matéria-prima e tem a capacidade de fazer o investimento, que pode ser de 300 milhões em Montalegre, com um retorno bastante interessante.

Na encruzilhada em que estamos, as nossas reservas de lítio são uma oportunidade. Claro que os ecologistas de outdoor explicarão que não devemos explorar o lítio, nem usar combustíveis fósseis, nem expandir o gasoduto em Sines, nem extrair hidrocarbonetos, nem construir mais barragens. Concordo com muitas destas interdições. Mas não podem ser todas ao mesmo tempo. Se a transição energética é para ontem não se pode esperar por tecnologias que só serão viáveis amanhã. Fazem-se escolhas. As melhores das possíveis. Chama-se política.

A religião, a carne de vaca e o Reitor da Universidade de Coimbra

(Carlos Esperança, 18/09/2019)

Imagem de António Neto Brandão, in Facebook

Preservar o ambiente e tornar sustentável o Planeta é assunto demasiado sério, que não se compadece com ironias fáceis ou adiamentos em período de emergência, mas há um mínimo de bom senso aparentemente alheio ao Reitor da Universidade de Coimbra.

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Todos sabemos que o modo de vida das sociedades atuais não é sustentável e que a sua perpetuação só abreviará o prazo de validade do Planeta para a vida humana. É urgente um novo paradigma que me leva a refletir sobre o aquecimento global e as tragédias que nos aguardam, mas há diferenças entre a ponderação exigida e o exibicionismo fácil.

Desconhecia a competência do Magnífico Reitor nas ementas das cantinas e a função de nutricionista-mor para proibir um alimento não proscrito pelas autoridades sanitárias.

A abolição inopinada da carne de vaca parece-me uma prepotência própria de um crente cujo proselitismo não aceita o contraditório. O atual reitor da UC, uma instituição laica, já surpreendeu na tomada de posse ‘antecedida de Missa Solene na Capela de S. Miguel, pelas 9 horas’, em 18 de fevereiro deste Ano da Graça.

Foi uma atitude pioneira de indignidade, de que pode não ter sido o responsável, mas a sua posse integrou uma missa para abrilhantar a cerimónia, missa cujo anúncio inédito mereceu a indignação de vários docentes. Foi a primeira vez que um reitor tomou posse com missa anunciada.

Se em 1 de março foi o primeiro reitor a manifestar publicamente a preocupação com a salvação da alma, em 17 de setembro, meio ano depois, é pioneiro a salvar o Planeta. Espero que não pense que o pão ázimo, que alimenta a alma, transubstanciado em corpo e sangue, após os sinais cabalísticos, seja a fonte de proteínas para substituir a carne de vaca.

Para já, parece-me abuso de funções, à semelhança da Missa Solene, impor aos outros o direito individual que lhe assiste.

Como na missinha, volto agora a repudiar a prepotência do Magnífico Reitor, por não lhe reconhecer autoridade para a decisão que tomou.

Sê jovem e cala-te

(António Guerreiro, in Público, 26/04/2019)

Costa interrompido no seu discurso. Dá cá o microfone…

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No início desta semana, enquanto discursava na festa de aniversário do PS, António Costa foi interrompido por vários indivíduos que se manifestaram contra a construção de um novo aeroporto no Montijo, lançaram aviões de papel na sala e exibiram um cartaz a dizer “Mais aviões? Só a brincar”. Um deles até tentou retirar o microfone ao primeiro-ministro para falar à plateia. A notícia deste acontecimento, em todos os jornais, tomou a categoria etária — que é hoje muito mais do que isso — para nomear os manifestantes. Ficámos assim a saber que se tratava de “jovens”, ou então de “jovens activistas”, e que um deles, retirado do palco pelos seguranças, era “um jovem de barbas” (uma descrição que poderia levar o leitor a pensar que era um indivíduo com o aspecto de um mujahidin, mas dessa hipótese eram as imagens que a televisão mostraram um categórico desmentido). Porquê a insistência na condição jovem destes cidadãos, como se isso assinalasse uma identidade e uma prática política? Ainda que de modo implícito e provavelmente nem sequer racionalizado, estas notícias, tal como foram redigidas, apontam para uma identificação das questões ecológicas e ambientais com a geração dos jovens. Nesse aspecto, mais do que uma diferença, há uma fractura geracional. E essa fractura é sugerida no comunicado deixado pelos “activistas” (uma nomeação que, como sabemos, serve para dizer que falta às suas acções a legitimidade de fundo que se reconhece nas acções políticas convencionais): “Lamentamos estragar a vossa festa, mas o rio Tejo, aqui ao lado, a nossa cidade e as futuras gerações nada têm para celebrar”. Os termos deste comunicado sintetizam bem um discurso político de tipo geracional que começou a emergir: enquanto os mais velhos, a geração instalada desde os anos 1980 (parte dela socializada politicamente ainda nos anos 1960/70), fazem a festa, os jovens a quem até lhes foi retirada a possibilidade de viver a ideia de “geração” pagam as contas da festança e levam com os detritos. Os jovens começam a ter uma consciência da finitude do mundo a que foi poupada a geração festiva dos Fat Pigs, como já são nomeados pelos jovens desclassificados que não podem nem sonhar que alguma vez beneficiarão de condições semelhantes.

Sem anular as desigualdades intergeracionais não se conseguirá prevenir a ruptura do compromisso intergeracional ou mesmo uma guerra de gerações. A favor dessa guerra contam alguns dados incendiários. Por exemplo, aqueles que mostram que nos países europeus o perigo da pobreza recai muito mais sobre as crianças e os jovens do que sobre os mais velhos.

A realidade anterior foi invertida: enquanto entre os anos 1970 e hoje a taxa de pobreza dos indivíduos com mais de 60 anos desceu para metade, os números da pobreza na faixa dos 20 aos 30 anos subiu para o dobro. O que será transmitido a esta geração, senão umas migalhas, desse Estado-providência fundado pela geração dos avós e consumido pela geração dos pais? Há hoje um forte sentimento de regressão geracional cuja manifestação mais visível é o adiamento do acesso à idade adulta e a conquista de autonomia que lhe está associada. Está em curso, mas ainda no início, uma política das gerações: o voto geracional já existe, como sabemos muito bem pelo Brexit, desde a eleição de Sarkozi (eleito pelos velhos) e de Obama (eleito pelos jovens). A fractura geracional ameaça ser tão poderosa nos seus efeitos como outros modos de conflitos sociais, tais como a divisão em classes e as discriminações racistas e sexistas. Mas há ainda uma outra inversão muito interessante, bem patente nesta nova consciência ecológica e na leitura dos sinais da finitude e da catástrofe: a transmissão é ascendente (dos filhos para os pais) e não descendente (dos pais para os filhos). A antropóloga americana Margaret Mead já tinha, em 1968, analisado este tipo de descontinuidades a que ela chamou “fossos geracionais”. Mas a sua análise não se referia, obviamente, a esta nova situação em que um “jovem de barbas” pode a qualquer momento querer subir ao palco e roubar o microfone — a palavra — do senhor primeiro-ministro muito bem barbeado.