Marques Mendes (MM) e os seus paradoxos

(Carlos Esperança, 25/01/2019)

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O ex-líder partidário que faz do tráfico de informações privilegiadas um modo de vida, que compromete o Conselho de Estado, para onde foi nomeado pelo PR, pelas opiniões que emite, que faz da sua tribuna televisiva um instrumento de combate ao Governo, na defesa das teses da direita, esqueceu-se de que já tutelou a RTP onde foi constante a sua interferência no alinhamento dos noticiários e influência nos conteúdos. Talvez, por isso, tema nos outros aquilo de que foi capaz no consulado cavaquista.

Marques Mendes, ex-líder do PSD, foi corajoso quando retirou a confiança partidária a Isaltino Morais e Valentim Loureiro, timorato na Câmara de Lisboa e cobarde perante Alberto João Jardim, cujos desmandos não teve coragem de afrontar, mas, antes de se dedicar aos negócios e à intriga aparentava grande honestidade e uma coluna vertebral direita, independentemente das opções partidárias.

Hoje, ignora-se se MM é a vuvuzela de Belém, intriguista por conta própria ou acumula.

Na penúltima homilia televisiva, o bruxo de Fafe, cujas diatribes têm eco na imprensa escrita, rádio e redes sociais, ou não refletisse ele os interesses de quem lhe paga, levou a baixeza ética de comentador ao nível do arruaceiro partidário, e disse:

1 – “Armando Vara é apenas uma ponta do icebergue de uma rede muito poderosa que durante 20 anos, ou mais, existiu em Portugal” .

2 – “Armando Vara, para ajudar a destruir a CGD e o BCP, não teve apenas o aval de Sócrates. Teve também a aprovação do Banco de Portugal”.

a – Ninguém ignora a lepra da corrupção e a necessidade de ser investigada e punida e, no que diz respeito a Armando Vara já está preso, contrariamente a governantes do PSD e CDS que não passaram os últimos 20 anos fora do poder. Nem agora, na oposição.

b – A denúncia da corrupção é um dever, e que bom seria que a corrupção fosse apenas de militantes do PS e o denunciante, em vez da intriga, apresentasse factos e não tivesse cadastro!

Ignora que foi o atual Governo que pediu a auditoria à CGD, que o governador do BP, reconduzido por Passos Coelho, sem consulta ao PS, como era tradição, recusou pedir? Ignora que foram os seus correligionários os arguidos do BPN? Em questão de Bancos MM mostrou o que sabia quando disse em 12 de julho de 2014 (SIC-N): «O banco [BES] é sólido, não há perigo nenhum para as pessoas», acompanhando o seu medíocre mentor, ao tempo PR.

Deve ter frequentado aulas de ética com um ex-vice-presidente do PSD, o Sr. Joaquim Coimbra, que o empregou em uma ou várias das suas numerosas empresas e adquirido os princípios éticos com que foi gerido por um seu colega de governo o BPN. O próprio BCP foi criado a convite do PM Cavaco Silva por um proeminente membro do Opus Dei, Jardim Gonçalves, e a sua gestão continuou com outro membro do PSD e do Opus Dei, Teixeira Pinto. Quanto à CGD, repito, foi este governo que pediu a auditoria e que procura apurar responsabilidades e entregar eventuais delinquentes à Justiça.

E quanto à sua honorabilidade, de quem se esqueceu dos submarinos, dos sobreiros, do condomínio do BPN na praia da Coelha, das privatizações da ANA, CTT, EDP, Galp, PT e outras, das mais valias de ações das SLN, não cotadas em Bolsa, e tantas outras tropelias, vale a pena recordar o seu próprio caso:

«O Fisco detetou vendas ilegais de ações da Isohidra feitas por Marques Mendes e Joaquim Coimbra, em 2010 e 2011, e que terão lesado o Estado em 773 mil euros. As ações foram vendidas por 51 mil euros, mas valiam 60 vezes mais: 3,09 milhões.» (aqui).

É difícil ser paquete de Belém sem comprometer o inquilino, mas não é saudável para o País a guerrilha feita através de fauna necrófaga, com propaganda sob o pseudónimo de ‘opinião’. Marques Mendes, vuvuzela da direita, é um dos muitos avençados pagos para a intriga e ataques à esquerda, este em equilíbrio difícil entre divergências que corroem os partidos de direita e os recados de Belém.

 

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Marques Mendes, Consiglieri de Estado

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 15/01/2019)

mini_rio(Mas que grande malha, ó Valupi! Cumprimentos da Estátua, pela qualidade da tosa. Só se perdem as que caem no chão com os Marques Mendes & Cª Lda… Eu, cá por mim, tentei ilustrar a preceito.

Comentário da Estátua de Sal, 15/01/2019)


(FCQJ – Leia-se “faz de conta que é jornalista”)

FCQJ – Ora, depois deste caso em que [Vara] foi de recurso em recurso, e mesmo assim todos mantiveram a condenação, faz sentido ele vir para a praça pública acusar, da forma como acusou, o juiz Carlos Alexandre?

MM – Não, não faz sentido nenhum, acho que ele não tem é vergonha na cara. Não, não tem vergonha na cara. É uma coisa sem descrição... Uma pessoa que já foi ministro, uma pessoa que foi alto administrador na Caixa Geral de Depósitos e no BCP (embora não tivesse deixado nenhumas grandes saudades, pelo contrário, deixou foi grandes buracos), não tem o mínimo de vergonha na cara. Porquê? Porque ele veio à televisão, insinuar, no fundo, que vai preso e que foi condenado por causa do juiz Carlos Alexandre. Ora, alguém que foi ministro devia prezar um mínimo de rigor, de verdade e de honestidade intelectual. É que, veja bem, os factos são os factos. Eu não vou dar opinião, só vou dar factos. Quem investigou Armando Vara e o acusou foi o Ministério Público, não foi o juiz Carlos Alexandre. Quem o condenou, a seguir, foi um tribunal em Aveiro, onde não estava, nem está, Carlos Alexandre. A seguir, quem rectificou, confirmou, a sua sentença foi um Tribunal da Relação onde não estava, nem está, Carlos Alexandre. E, finalmente, quem indeferiu o último recurso foi o Tribunal Constitucional, do qual não faz parte, nunca fez, o juiz Carlos Alexandre.

FCQJ – Nem tem sequer poder para influenciar todos esses processos.

MM – Portanto, o juiz Carlos Alexandre não o condenou a coisíssima nenhuma. E Armando Vara sabe isto muito bem e está numa televisão a dizer isto com esta facilidade, a dizer o contrário. Portanto, isto é um descaramento. É uma falta de vergonha completa.

[…]

MM – Em Portugal, até há poucos anos, tínhamos um político que tinha uma grande preocupação de controlar a Justiça e a comunicação social. Chamava-se quê? José Sócrates. Acabou José Sócrates, agora temos Rui Rio. Rui Rio não disfarça, tem uma preocupação de controlar a Justiça e a comunicação social. Eles são diferentes, Sócrates e Rio, de facto; quer no carácter, quer nas intenções, são diferentes. Agora, no resto, nas propostas de controlo, eles são irmãos siameses. Quer dizer, verdadeiramente, se pudessem, queriam decidir quando é que se investiga, o que é que se investiga, da forma como se investiga.

Marques Mendes, 16 de Dezembro de 2018

MM – Neste momento, há muitos políticos em Portugal incomodados com as investigações, sobretudo no combate à corrupção - em especial políticos do PS e do PSD. Há muitos políticos com problemas, a contas com a Justiça. E por isso a questão que se coloca é a seguinte: nesta ocasião, mais políticos no Ministério Público significa melhores investigações, melhor e maior combate à corrupção? A suspeita que fica, justa ou injusta, é que meter mais políticos no Ministério Público é para eles se protegerem, para eles se defenderem, para condicionarem as investigações ou controlarem o Ministério Público. Isto é uma suspeita terrível.

Marques Mendes, 23 de Dezembro de 2018

MM – [a respeito da absolvição de Miguel Macedo e do Ministério Público] Não chega apenas investigar, não chega apenas acusar, e mediatizar tudo isso...

Marques Mendes, 6 de Janeiro de 2019

MM – Em política, o que parece é!

Marques Mendes, 13 de Janeiro de 2019

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Conseguir mostrar como Marques Mendes é um dos mais poderosos cavalheiros de indústria do regime aparece-me como missão urgente após o seu ataque a Rui Rio. Porque o seu poder é oligárquico, a sua agenda sectária, a sua intenção ferina. Obviamente, não tenho capacidade para tal, pois pede logística que só a imprensa profissional possui. Apenas consigo descrever evidências.

Com vinte aninhos, e a licenciatura por concluir, já era uma figura grada do poder autárquico de Fafe – decorria o ano de 1977, o mesmo em que Jimmy Carter tomou posse e saíram os filmes Saturday Night FeverStar Wars e Cet obscur objet du désir (quem puder que estabeleça as conexões). Nos anos e décadas seguintes, não mais largou a política e a advocacia. Foi deputado, secretário de Estado e ministro favorito no Cavaquistão. Continuou ministro com Barroso, no que foi então uma reedição parodiante do cavaquismo. E entrou no Conselho de Estado várias vezes, lá permanecendo hoje pela mão de Marcelo. No entretanto, também conseguiu presidir ao PSD durante o tempo suficiente para o entregar moribundo ao genial Luís Filipe Menezes. Estamos então a falar de 42 anos ininterruptos de exercício do poder ao mais alto nível representativo no Estado e fáctico na “sociedade civil”. Seria supinamente ilustrativo quantificar o número de portugueses que tiveram e têm poder análogo, somando-se os cargos e a duração da sua actividade. Acho impossível que sejam mais de 100, apostando num grupo de 50. Se forem menos, em nada me espantaria. Basta lembrar que o PSD vai no décimo oitavo presidente, e dessa lista apenas cinco ou seis nomes comparam (para pior) com Mendes quanto à sua influência na actualidade.

Que se consegue fazer com quatro décadas de acesso e influência nos mais altos círculos do poder político, financeiro e económico em Portugal? Por exemplo, daria para explicar o fenómeno BPN. Explicar aos portugueses como é que uma parte dos seus colegas na elite cavaquista montaram esse esquema que tanto dinheiro criminoso lhes deu a ganhar, assim como a tantos outros que, sem terem sido envolvidos nas ilegalidades, delas recolheram igualmente proveitos financeiros imorais. Marques Mendes, por maioria de razão, dado ter convivido política, profissional e intimamente com essas pessoas, e dado ser um oceano de integridade e exemplaridade ética, estaria em condições óptimas para nos pintar esse fresco glorioso do maior caso de burla que se conhece na história de Portugal após o 25 de Abril. Acontece que Marques Mendes nada disse ainda sobre o assunto, e será melhor esperar deitado num caixão enterrado a dois metros de profundidade se a ideia for a de testemunhar tal espectáculo. É que ele primeiro tem de ajudar os portugueses a castigar Armando Vara, um perigoso facínora que alguém em Aveiro imaginou ter recebido 25 mil euros de um sucateiro (embora disso não exista qualquer prova, nem da entrega do dinheiro nem do benefício que estaria a comprar, nem exista quem perca um segundo com a farsa que o condenou, tirando o próprio que vai de cana).

Foi o que fez em meados de Dezembro. Tendo à sua frente uma Faz de Conta Que é Jornalista, a qual lançou uma questão falaciosa previamente combinada, o grande Mendes partiu para o deboche. Insultou e mentiu com quantos anos leva a virar frangos para servir ao patego. Até conseguiu apagar que Carlos Alexandre, de facto e para quem jurou só falar deles, foi o juiz de instrução do “Face Oculta”. Um juiz que deturpa a sua função ao decidir não como magistrado dos direitos e garantias dos arguidos mas como super-procurador que usa os poderes que o Estado lhe outorga para castigar cidadãos que persegue. Mas qual foi a base, o fundamento, a prístina verdade na origem da explosão de violência e deturpação vomitada por Mendes? Existe alguma passagem, na entrevista à TVI, onde Vara tenha dito que foi condenado por causa do tal super-juiz? Se existe, peço rogado que ma mostrem. Na sua ausência está a valer aquilo que testemunhei: Vara disse ter sido envolvido no processo “Marquês” como vingança, não diz ter sido condenado no “Face Oculta” por causa solitária do justiceiro de Mação – Armando Vara diz ser vítima do juiz Carlos Alexandre. Para além da renovada actualidade das declarações de Vara à luz da absolvição de Miguel Macedo e do vexante e alarmante fiasco da acusação do Ministério Público no caso dos “Vistos Gold”, a única lição que se pode extrair da verrina de Mendes deixa-nos perante a evidência de que um dos portugueses mais poderosos e distinguidos no regime não passa de um rematado pulha.

Pulha com Vara, sem surpresa, e pulha com Rio, para choque de quem ainda não desistiu de pertencer a uma República que exige módica decência aos seus símbolos e agentes vivos. Encharcado em rancor depois de ter dilacerado e conspurcado o cadáver de Vara, atirou-se de bocarra aberta à jugular do actual presidente do PSD. Ao dizer que Rio e Sócrates eram “irmãos siameses”, o enorme Mendes conseguiu produzir uma verdadeira ofensa à honra de Rui Rio tendo em conta os públicos a quem se dirigia a sua mensagem. Teria sido mil vezes mais suave, até inócuo na comparação, se tivesse optado por chamar a Rio “Grande filho da puta, cabrão de merda, és o maior paneleirão que já passou pelo PSD, chupa aqui.” Nesta última opção, toda a gente o compreenderia e desculparia por se ter emocionado, apenas palavras ao vento. Na opção que preferiu concretizar, o plano foi o de marcar a ferro e fogo o animal, passando este a exibir para onde for essa “Estrela de David” para os decadentes identificarem o inimigo a exterminar. É que Sócrates é o Diabo, como sabe quem leia a imprensa ou veja TV portuguesas. O que não se sabia, nem cá nem no Vaticano, é que o Diabo podia ter um irmão (e siamês, não se fosse pensar que era o irmão mais novo, ainda menor de idade). Pois pode, como ficámos a saber.

O Mendes gigante descobriu que Rui Rio quer “controlar a Justiça e a comunicação social” e detalha o que está em causa: “decidir quando é que se investiga, o que é que se investiga, da forma como se investiga“. E depois, fica implícito, decidir quando é que se noticia, o que é que se noticia, e qual a forma de noticiar. Sim, senhores ouvintes, Marques Mendes disse isto do presidente do PSD, do líder da oposição, e, no dia seguinte, continuava Conselheiro de Estado.

Pertencer ao Conselho de Estado deve ser das coisas mais fixes no regime. Trata-se de um esdrúxulo grupo de vinte bacanos: sete por inerência, três vitalícios (antigos Presidentes), cinco designados pelo Presidente e cinco eleitos pelo Parlamento. Na actual composição, encontramos dezoito homens e duas mulheres, o que deve corresponder à proporcionalidade exacta das diferenças de género em cargos de poder no mundo político nacional. As reuniões terão direito a abundantes salgados e doces do melhor que a zona adjacente ao Palácio de Belém é capaz de fornecer. E o entusiasmo a que se pode chegar no debate entre conselheiros será de homérico para cima, pelo menos a avaliar pelo estatuto de imunidade de que gozam cruzado com o direito ao porte de arma. À partida, isto de querer armar os membros do Conselho de Estado parece algo não só disparatado como até perigoso para os próprios, mas depois um gajo lembra-se de que durante dez anos essas sessões tinham como objectivo aconselhar Cavaco Silva e, súbito, só podemos agradecer e aplaudir a presciência do legislador. Muitos conselheiros terão conseguido sair inteiros e a respirar desses encontros presididos pelo Aníbal por terem lá entrado com a S&W 29 na cintura. Ora, nada é mais prestigiante do que estar no grupinho dos cinco que vão para o Conselho de Estado por convite do Presidente da República. A autoridade do Presidente, eleito por sufrágio directo e universal, estende-se a estes conselheiros e dá-lhes um nível de influência superior sobre o órgão de soberania que ocupa a posição cimeira no Estado. Marques Mendes está nesse lote, ao lado de Leonor Beleza, Lobo Xavier, Guterres e Eduardo Lourenço (mais uma vez, quem puder que estabeleça as conexões ou se aventure numa hipótese do critério seguido por Marcelo).

Para além disso, é percepção geral que Mendes intervém no espaço público também para ser um altifalante oficioso, mesmo subversivo, do Presidente outrora inventor de “factos políticos”. Este o contexto, o subtexto e o pretexto para o ataque à outrance a Rio vindo de uma figura com este labiríntico e esconso poder. Pergunta: que justifica tal violência contra o actual presidente do PSD?

Só há uma resposta, estamos num desses casos à prova de estúpidos. Marques Mendes castigou e ameaçou Rui Rio numa inaudita explosão de cólera porque está em jogo algo valiosíssimo para a oligarquia portuguesa: a manutenção da captura política do Ministério Público e de um certo juiz, ou tipo de juiz, que serve interesses políticos inconfessáveis mas facticamente capazes de espiar primeiro-ministros em funções, condenar sem provas certos alvos políticos e montar e arrastar durante anos um processo judicial intencionalmente dirigido para a criminosa devassa e o criminoso lançamento de calúnias através dos impérios mediáticos da direita com o objectivo de desgastar e diminuir o poder eleitoral do PS.

Rio que se calasse já com essa conversa de querer alterar fosse o que fosse na posição e constituição das tropas. Esta situação, verificável diariamente se não for horariamente, oferece uma desvairada vantagem estratégica no curto, médio e longo prazo que só um louco, um imbecil ou um vendido iriam querer desperdiçar, pensam todos os decadentes da direita. Daí a sua raiva incontida, o ataque de nervos. Sentimento reforçado até ao zénite da confiança por constatarem que a impunidade de que gozam é absoluta, ninguém se opõe (tirando vozes avulsas e inconsequentes de raríssimos comentadores) a que uma direita do poder pelo poder faça da Procuradoria-Geral da República uma polícia política que tem em Sócrates material para continuar o cerco ao PS durante décadas (é ver o número de certidões que foram tiradas da investigação a Sócrates, já para não falar na investigação às PPP, apenas o caso dos cartões de crédito teve o desfecho pífio que se conhece depois de ter alimentado os esgotos a céu aberto). Incrivelmente, até ao actual PS tal quadro convém; a começar pelo facto de acharem que nada podem fazer contra ele e a acabar no outro facto de que o linchamento e execução de Sócrates permite desviar atenções e energia dos pulhas para o auto-de-fé – deixando Costa com mais espaço de manobra para exercer o poder com a descrição que prefere por ser o seu estilo de sempre. Quanto ao PCP e o BE, a sua passividade e silêncio perante o aviltamento e manipulação do Estado de direito não disfarçam a esperança de também dessa sangria socialista tirarem dividendos eleitorais.

A decadência da direita é manifesta há muito e muito tempo, desde Barroso, desde os últimos anos de Cavaco como primeiro-ministro. Habituados a usufruírem de vantagens iniciais na biografia e nas circunstâncias, a forma como lidaram com a implosão do seu ecossistema financeiro com as crises do BPN, BCP e BPN aquando da Grande Recessão consistiu em assumir que estavam perante um combate de vida ou de morte. Iriam fazer o que ainda não tinha sido feito em Portugal após o 25 Abril, usar os poderes do Estado para atacar abertamente na Justiça aqueles que viam como inimigos políticos. Foi essa a origem do “Face Oculta” e foi esse o aproveitamento da “Operação Marquês”. Para quem achar que Marcelo é só esta sua última reencarnação mediática, o tio de Cascais engraçadíssimo, sorridente e beijoqueiro, vedeta adorada do povinho e do povão, e que nada tem a ver com a realidade de termos uma Justiça onde se pôde fazer o que se fez a Vara e a Sócrates, fora as vítimas colaterais, nada como recordar o Marcelo comentador e aquilo que o entusiasmava tão recentemente: Marcelo pede celeridade a Rosário Teixeira

Marques Mendes não veio explicar isto a Rui Rio, pois já tinha esgotado a sua paciência com a criatura. Tratou-se antes de uma humilhação o que lhe quis servir, como bombardeamento inicial antecedendo a invasão do Montenegro apoiado pelas divisões gradas do passismo, Paula Teixeira da Cruz e Maria Luís Albuquerque, mais os fanáticos do ódio na madraça Observador. No Expresso, segue-se outra táctica, a de continuar o desgaste de Rio fingindo que se quer proteger o PSD. Como vimos neste domingo, o enorme Mendes partilhou com a audiência o modus operandi do que está na berlinda: “Em política, o que parece é“. Então, como igualmente explicou uma semana antes, quando se possui o incomensurável e exclusivo poder de investigar, acusar, e mediatizar as mais desvairadas e torpes acusações, tal vantagem sobre o adversário é preciosa demais para ser perdida por causa de um badameco de um líder transitório e totó do PSD como Rio, o qual ainda imagina poder decidir livremente o que quer ou não quer para o País. É que de cada vez que um crime de violação do segredo de justiça contra um alvo socialista é cometido um anjinho ganha asas cor de laranja. Tem sido um bacanal de gozo e testosterona que os deixou completamente viciados. E é só o que têm, a judicialização da política e a politização da Justiça, porque quanto a inteligência política e decência ao serviço da comunidade, nicles.

É neste chiqueiro que se ergue um conselheiro de Estado, pestilento e infecto, difamando e caluniando o presidente do maior partido da oposição só porque ele ousou ter ideias sobre a democratização e transparência do Ministério Público. Um conselheiro, portanto, especialista em missões de assassinato de carácter. O conselheiro levado para a ribalta pela distinção e carta branca do Presidente desta pervertida República. O consigliere de Marcelo.


Marques Mendes e a judicialização populista

(Paulo Baldaia, in Jornal de Notícias, 18/12/2018)

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Quanto é que Luís Marques Mendes (LMM) tem de estar zangado com Rui Rio para dizer dele o que disse na SIC? Tem de estar muito zangado, tem de haver alguma coisa pessoal, para que o ex-líder do PSD, agora comentador de televisão, rasgue de alto a baixo o atual líder do PSD. Ao ouvir LMM, como faço habitualmente, não queria acreditar, foi como se estivesse a navegar na net, numa qualquer rede social, a assistir a um facebookiano desancar um “amigo” com quem perdeu a paciência. Seria de esperar que o imenso poder de um comentário semanal em canal de televisão generalista exigisse mais responsabilidade. O número que LMM montou na SIC não ataca apenas Rui Rio, é um contributo inestimável para o populismo que cresce em Portugal. Aquele que leva uma parte significativa do eleitorado a admitir votar num partido que tenha como bandeira o combate aos políticos corruptos, que é como quem diz: a todos os políticos.

Faço uma declaração de interesses. Conheço bem Rui Rio e inúmeras vezes defendi a sua conduta política, mas este texto não é sobre o líder do PSD. É sobre o perigo de uma deriva populista que, em Portugal, irá passar pelo combate cego à imigração e à corrupção. Recordo o que escrevi aqui no JN nos primeiros dias de dezembro: “Em Portugal não temos ainda terreno fértil para semear e colher rapidamente conflitos anti-imigração ou conflitos raciais, mas o potencial existe. O que garantidamente seria um êxito eleitoral era um partido anticorrupção, liderado, por exemplo, pelo juiz Carlos Alexandre. Sem outra agenda que não fosse o combate a esta chaga, que os portugueses acreditam ser generalizada na elite política e económica, um partido com Carlos Alexandre como cabeça de cartaz estaria em condições de ganhar as eleições. Se não já em 2019, na seguinte. Sem uma liderança forte, podem ambicionar, ainda assim, eleger vários deputados e formar um grupo parlamentar”.

É uma coincidência divina que o jornal (“Negócios”) que publica em papel a prestação de LMM na televisão tenha trazido, também ontem, uma sondagem da Aximagem em que 27% do eleitorado se mostra disponível para votar num partido que apareça “a falar alto contra os imigrantes ilegais e a corrupção”. A maioria desses eleitores surge, é claro, no partido que LMM já liderou e que não gosta da liderança de Rui Rio. Se um dia aparecer esse partido populista, será espantoso ouvir o que LMM tem para dizer, sendo óbvio que análises como a que fez no domingo ajudam a convencer muitos eleitores a apostar em partidos destes. Se Marques Mendes compara Rio a Sócrates e os coloca ao mesmo nível na vontade de controlar a Comunicação Social e a Justiça está a convidar as pessoas a não votarem no PSD. Mais ainda, quando garante que Joana Marques Vidal já não é procuradora-geral da República porque Rio a deixou cair, está a colar o líder do PSD a uma intenção de controlar os processos mediáticos que envolvem os poderosos. Para os salvar, presume-se!

Não vale a pena fazer grande debate sobre a provocação da comparação com Sócrates, nem grande demonstração sobre quão errada é a ideia de que a decisão de António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa, de apostar num mandato único na PGR, foi tomada a reboque de Rui Rio. Mesmo os que não suportam o atual líder do PSD saíram ontem a terreiro para dizer que LMM não tem razão.

O que vale a pena ser explicado, e voltarei ao assunto em próxima crónica, é que o perigo maior não é do ter os eleitos a escrutinar com mais eficácia os operadores de justiça, é ter os operadores de justiça a agirem sem rei nem roque. Todos somos a favor de mais meios para a investigação, mas os democratas não podem aceitar que a separação de poderes se transforme na existência de um poder que se julga no direito de não ser escrutinado.

Não temos de fazer uma opção entre a politização da justiça e a judicialização da política. Temos de lutar sem hesitações para que não exista nem uma, nem outra. É mais simples do que parece e não se coaduna com paninhos quentes em relação a magistrados que fazem chantagem com os eleitos do povo.

*Jornalista