A CAMBALHOTA DO CAG

(In Blog 77 Colinas, 04/12/2017)

cambalhota
– Boa noite, doutor Marques Mendes
– Boa noite, Clara.
– Está com um ar abatido.
– Acabo de dar uma valente cambalhota e aleijei-me.
– As melhoras. Há 10 meses atrás, disse que que a notícia de que Centeno tinha possibilidades de vir a ser o próximo presidente do Eurogrupo, era uma treta e que o ministro das finanças estava apenas a pôr-se em bicos de pés e a autopromover-se. Como avalia a atual situação?
– Em primeiro lugar, tenho de dar os parabéns ao Expresso porque acertou em cheio.
– E porque é que o senhor errou?
– A culpa é do Expresso.
– Como assim?
– Estamos habituados a seguir aquela norma de que, se dissermos o contrário do que o Expresso noticia, acertamos e desta vez eles acertaram e eu falhei.
– Doutor, eu pensava que isto era um programa de comentário político e não de previsões astrológicas.
– Claro, Clara. As minhas fontes é que deixaram de ser tão fidedignas, mas eu continuo a ser um CAG.
– Um quê?!!!
– CAG significa Comentador de Alto Gabarito.
– Bolas, que até me assustei.
– É apenas uma sigla. A minha esmerada educação não permitiria outra interpretação
– O que pensa da possível eleição de Centeno para presidente do Eurogrupo?
– É uma vitória de Centeno, do Governo e do país.
– O seu camarada de partido Rangel não pensa assim
– Camarada?!!!
– Desculpe, o seu corre…ligionário de partido.
– Não ligue, esse ainda é mais parvo que eu.
– Doutor Marques Mendes, o que é que o levou a dar tamanha cambalhota?
– FU
– Outra sigla? Explique lá o quer dizer.
– Essa não explico porque preciso deste tacho.


 

Anúncios

Marques Mendes e o enviesamento da Justiça

-(Por Estátua de Sal, 15/10/2017)

mm1

Alguns dos meus leitores poderão dizer que sou masoquista. Frequento com reverência todos os comentadores de direita que opinam no espaço público, leio amiúde o Observador e até vejo a CMTV, apesar de não simpatizar com nenhum dos personagens que lá debitam opinião. Farto-me de sofrer mas não se pode analisar e antever as tácticas da Direita sem lhes escrutinar os clarins. Assim, hoje não perdi, a homília dominical do Marques Mendes.

Começo pelo fim da peroração. A Catalunha foi à defesa, deixando tudo em aberto, para poder cair, no futuro, para o lado que mais lhe convier – é o truque da pitonisa.

O orçamento. Bem o orçamento é mau porque é “chapa ganha, chapa gasta” – usando uma expressão do “grande economista” Gomes Ferreira -, e porque pode vir aí uma crise qualquer, o preço dos ananases sobe, as pessoas comem mais bananas, as cascas vem todas desaguar às praias de Portugal, os turistas fogem todos e temos que chamar a troika de novo. E por isso não se devia aumentar os rendimentos do trabalho nem baixar o IRS, para amealhar, e assim se poder limpar as areias da costa assoreada. É claro que estou a ironizar, mas este é o raciocínio da Direita. É claro que, numa economia aberta como a nossa, se houver uma nova crise mundial com a dimensão da de 2007/2008 que afecte as nossas condições de financiamento, estamos sempre tramados, qualquer que seja o nível do déficit e qualquer que seja o orçamento. Essa história do “papão” da crise não passa do wishful thinking, da Direita para chegar de novo ao poder, como sucedeu em 2011. O tal “diabo” de aguilhão em riste de que falava o Passos.

Chegamos assim, ao princípio da intervenção, a parte mais suculenta. Sócrates, claro. O Mendes acha que essa flor de estufa que é a presunção de inocência é só para os tribunais. Para ele, o dito cujo é mais do que culpado. Se não for dado como culpado em tribunal, pelo menos é sacripanta porque veste fatos Armani, ia de férias para sítios requintados, e tudo sempre à pala do amigo a quem “cravava” sem pudor. E portanto, para o Mendes, está visto que é objetivamente, culpado, senão de corrupção, pelo menos de “cravanço”. Acresce que o Mendes já há muito tempo que sabia que o Sócrates era “venal”, já o tinha atacado quando ele, Mendes, era líder do PSD, tendo havido à época um deputado do seu próprio partido que veio em defesa de Sócrates: Duarte Lima.

Logo, para o Mendes, a prova está feita: se Sócrates foi defendido pelo Duarte Lima, sabendo nós o que sabemos do Lima, o Sócrates só pode ser culpado, pelo que o MP produziu uma investigação “sólida” e está de parabéns. E está tanto de parabéns a D. Joana Vidal que Mendes concluiu que com o anterior Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro, nunca teria havido investigação.

A afirmação de Marques Mendes é gravíssima. Diz ele que a Justiça é uma arma de arremesso a soldo de interesses políticos. Marques Mendes deve saber do que fala, e digo eu, talvez deva saber mesmo, em causa própria, daquilo que fala. É que o argumento é reversível.

Durante os últimos anos Marques Mendes foi associado a várias situações de ilegalidade, situações de dúbio contorno pelo menos, que nunca foram investigadas em profundidade, a última das quais é a sua ligação  ao caso dos Vistos Gold, cujo julgamento está a decorrer a sete chaves, sem que nada se saiba nem transpire para a comunicação social nem mesmo para o sempre bem informado Correio da Manhã. Deixo aqui um elenco de notícias várias que associam o nome de Marques Mendes a situações de pouco clara legalidade. Uma delas é de pasmar. Tive que ir ler a Bola para saber que Miguel Macedo “meteu cunha” a Paulo Núncio no caso dos Vistos Gold! Sobre esta notícia escreveu o Expresso? Não. Deu a SIC, a TVI, a RTP a notícia? Não que eu visse.

Vejamos então a lista das notícias:

 Marques Mendes apanhado em negócio ilegal de ações

MigueMacedo foi sócio da dona da Golden Vista

Amigos incriminam Macedo e Marques Mendes sabia dos favorecimentos dos Vistos Gold

Marques Mendes apanhado a pedir favores em escutas relacionadas com o caso Vistos Gold

«NÚNCIO CONFIRMA CUNHA DE MINISTRO MIGUEL MACEDO» – CORREIO DA MANHÃ

 Logo, a minha conclusão é só uma. O argumento que Marques Mendes usou para acusar Pinto Monteiro de uma hipotética parcialidade pró-Sócrates, é reversível: se a Procuradora-Geral da República não fosse hoje Joana Marques Vidal será que Marques Mendes estaria tão tranquilo e tão leve de sorriso a falar sobre o caso de Sócrates? Será que as situações, que acima elenquei, não teriam tido outro tipo de investigação, desaguando em conclusões que o levariam a perder a sua prosápia de justiceiro dominical? É a pergunta final que aqui queria deixar.

 

OS COMENTADORES ISENTOS

(In Blog 77 Colinas, 09/10/2017)

Mijadouro

– Marques Mendes, boa noite.

– Boa noite Clara, pode tratar-me por Dr. Marques Mendes que eu não sou de cerimónias.

– Com certeza, mais alguma objecção?

– Esqueceram-se de pôr as quatro listas telefónicas em cima da cadeira e não chego à mesa.

– Pedimos desculpa, a produção já vai tratar disso.

– Não tem importância, eu fico de pé.

– Dr. Marques Mendes, como é que o Costa sai destas eleições autárquicas?

– O Costa é o grande perdedor destas eleições. Ganhou, mas perdeu.

– Como assim?

– Porque, se perdesse, o Jerónimo e a Catarina ficavam felizes e facilitavam a negociação do orçamento.

– E o Dr. Passos Coelho?

– O Dr. Passos Coelho, com um resultado melhor, não deixaria a presidência do PSD e a oposição continuaria enfraquecida.

– Mas assim, o Costa perdia as eleições e apresentava a demissão.

– Claro, Clara. Eleições antecipadas e o Costa obtinha a maioria absoluta.

– Dr. Marques Mendes, estou mesmo muito confusa. Então, visto desse modo, o Dr. Passos Coelho afinal ganhou.

– Claro, Clara. Assim deixa a presidência do PSD e vem para comentador isento da SIC onde ganha muito mais dinheiro. Tal como eu.

– É um raciocínio brilhante.

– Claro, Clara. Próprio de um brilhante cientista político, como é o meu caso. Génio é o meu nome do meio.

– Dr. Marque Mendes, estou muito curiosa. O que é que se passa com aqueles putativos candidatos à presidência que têm vindo a desistir por razões pessoais?

– Clara, é óbvio. Eu e o Dr. Passos Coelho comentamos ao domingo e ao sábado, logo restam cinco vagas para mais comentadores isentos do PSD, bem remunerados.

– Portanto, mais oportunidades de sacar dinheiro ao Balsemão.

– Claro, Clara.

– Dr. Marques Mendes, porque é que lhe chamam Tangerina?

– Porque sou muito pequeno para ser laranja e muito velho para ser laranjinha.
(Pum!!! O programa foi interrompido para prestar assistência médica à Clara de Sousa.)


Fonte aqui