A direita e a sua omnipresença nas televisões

(Carlos Esperança, 10/07/2018)

mini_mendes2

Que a direita não se resigna à oposição é uma evidência tautologicamente demonstrada. A organização em partidos foi a necessidade decorrente da restauração da democracia, e a sofreguidão do poder é o corolário lógico dos interesses que defende.

Contrariamente à direita europeia, a portuguesa não teve quem se opusesse ao fascismo e ao nazismo. Foi, aliás, a sua cúmplice, tal como a espanhola.

Após o 25 de Abril, vários democratas, com provas dadas na defesa da democracia, e na luta por um sistema pluripartidário, eram a garantia da adesão à democracia dos partidos da direita que integraram a Assembleia Constituinte.

Dos fundadores desses partidos, uns faleceram e outros afastaram-se ou viram-se afastados. Muitos democratas foram ostracizados e cedo tomaram as rédeas partidárias os salazaristas silenciosos e oportunistas de vários matizes.

Esta direita é mais herdeira de Cavaco Silva e Durão Barroso do que de Sá Carneiro e Magalhães Mota, de Adriano Moreira e Paulo Portas do que de Freitas do Amaral ou Amaro da Costa. São ténues os traços e raras as moléculas democráticas no seu ADN. Cada vez se acentua mais o salazarismo do seu genoma.

Marques Mendes, vuvuzela da direita, é um de muitos avençados pagos para a intriga e os ataques à esquerda, em equilíbrio difícil entre as divergências pessoais que corroem os partidos de direita e os recados de Belém.

Quando, há pouco, Rui Rio visitou Angola e foi, como era previsível, recebido ao mais alto nível, logo Marques Mendes se apressou a esclarecer que era uma bofetada no primeiro-ministro português.

Quando hoje li que António Costa recebeu de Manuel Domingos Augusto, ministro das Relações Exteriores de Angola, uma carta de João Lourenço, perante as câmaras da TV, e que o ministro fez questão de dizer publicamente que a carta do PR angolano traduz “um sinal das boas relações” entre os dois países, interroguei-me sobre a capacidade de persuasão e intriga de que os comentadores dispõem.

Passadas umas semanas, quem se lembra da «bofetada de luva branca» do PR angolano inventada por Marques Mendes contra António Costa?

Anúncios

A sagacidade do analista ou a desfaçatez de um moço de recados?

(Carlos Esperança, 02/05/2018)

mmx

A deterioração da minha relação com os canais televisivos nacionais faz-me perder bons programas e informação útil, mas facilita a sanidade mental e o equilíbrio emocional que a idade aconselha.

Prefiro ler jornais e notícias online, certo de que saberei o que comentadores avençados debitam, em especial Marques Mendes, na síntese suculenta de encomendas e intrigas.

Na última homilia, além de esclarecer o discurso do 25 de Abril do PR, tarefa em que é o único com alvará de Belém, referiu o caso do ex-ministro que continuaria a receber, no Governo, o ordenado da empresa em que trabalhara, o BES. É tão grave a corrupção, que escusava explicações, e excedeu-se o propagandista, “porque o seu comportamento, a ser verdade, é um duro golpe na credibilidade de toda a classe política”, não se vendo em que medida a gravíssima conduta referida possa afetar a reputação do PR, PM e do próprio Mendes, por exemplo, ou de Rio, Jerónimo e Catarina, todos da classe política.

Não se indigna MM mais do que qualquer cidadão honrado com a gravidade política e ética da alegada conduta de Manuel Pinho, mas a afirmação, “O mais grave, porém, é o pacto de silêncio entre os partidos” é surpreendente, por servir apenas para atacar todos os partidos, incluindo o seu, talvez por ser Rui Rio a liderá-lo.

Marques Mendes, insinua, intriga e mente nas razões que inventa para cada partido com assento parlamentar. O ex-empregado do Sr. Coimbra, ex-vice-presidente do PSD, dono do Labesfal, onde se ignoram as funções que aí exerceu, despachou o CDS como “um exemplo de demagogia à solta”, e, como é hábito, atacou a esquerda, depois de amarrar o PS ao caso em apreço e ao de Sócrates.

A afirmação “Há um pacto de silêncio dos partidos sobre Manuel Pinho” é falsa. Sucede pior com o ministro dos vistos Gold, o vice-PM dos submarinos, Miguel Relvas com os 6 milhões de euros dados à Tecnoforma, de Passos Coelho, cuja devolução, por burla, a UE exigiu, e a quem a PGR, contra o que admitiu, perante as provas da UE, não reabriu o processo, quiçá por distração. E que dizer do manto de silêncio sobre os bancos?

Essa afirmação podia ser feita, e devia, em relação às ações da SLN/BPN, que um ex-PR comprou e vendeu com substanciais mais-valias, e, mais recentemente, aos casos de Agostinho Branquinho, L. Filipe Meneses, Hermínio Loureiro, Virgílio Macedo, Marco António e Valentim Loureiro, alegados autores do desvio de muitos milhões de euros, em municípios do PSD, revelados na revista Visão e ignorados pela PGR.

Marques Mendes só recebe o Correio da Manhã e o Observador, a PGR não necessita, e nenhum leu a Visão n.º 1278, de 31/8 a 6/9/2017, o primeiro para comentar e a segunda para mandar investigar.

A CAMBALHOTA DO CAG

(In Blog 77 Colinas, 04/12/2017)

cambalhota
– Boa noite, doutor Marques Mendes
– Boa noite, Clara.
– Está com um ar abatido.
– Acabo de dar uma valente cambalhota e aleijei-me.
– As melhoras. Há 10 meses atrás, disse que que a notícia de que Centeno tinha possibilidades de vir a ser o próximo presidente do Eurogrupo, era uma treta e que o ministro das finanças estava apenas a pôr-se em bicos de pés e a autopromover-se. Como avalia a atual situação?
– Em primeiro lugar, tenho de dar os parabéns ao Expresso porque acertou em cheio.
– E porque é que o senhor errou?
– A culpa é do Expresso.
– Como assim?
– Estamos habituados a seguir aquela norma de que, se dissermos o contrário do que o Expresso noticia, acertamos e desta vez eles acertaram e eu falhei.
– Doutor, eu pensava que isto era um programa de comentário político e não de previsões astrológicas.
– Claro, Clara. As minhas fontes é que deixaram de ser tão fidedignas, mas eu continuo a ser um CAG.
– Um quê?!!!
– CAG significa Comentador de Alto Gabarito.
– Bolas, que até me assustei.
– É apenas uma sigla. A minha esmerada educação não permitiria outra interpretação
– O que pensa da possível eleição de Centeno para presidente do Eurogrupo?
– É uma vitória de Centeno, do Governo e do país.
– O seu camarada de partido Rangel não pensa assim
– Camarada?!!!
– Desculpe, o seu corre…ligionário de partido.
– Não ligue, esse ainda é mais parvo que eu.
– Doutor Marques Mendes, o que é que o levou a dar tamanha cambalhota?
– FU
– Outra sigla? Explique lá o quer dizer.
– Essa não explico porque preciso deste tacho.