O próximo livro do presidiário

(Por Amadeu Homem, in Facebook, 25/09/2016)

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   Amadeu Homem

Parece que o facínora José Sócrates vai publicar mais um livro. Não o devia fazer, porque isto de publicar livros salda-se numa actividade só consentida ( e aplaudida ) ao Saraiva das cuecas poluídas por esperma, ao Zé Rodrigues dos Santos , cheio de bestas -céleres , digo best-sellers,, e à Rebelo Pinto , bem como ao Rebello-Presidente ( mas esse foi sobretudo comentador-do-que-não-lia) , e a mais uns mecos-castiços e mui cultos.

O sobredito facínora vai levantar, com a sua precipitada decisão, uma poeira imensa de contestações. O “Correio da Manha”, por exemplo, irá desunhar-se para descobrir uma prostituta, um chulo ou um professor universitário ( cumámim), susceptível de comprovar que jamais (jamé em francês) um débil mental e gatuno como Zé Sócrates se poderá abalançar à aventurosa tarefa de escrever um livro. É uma injustiça que assim se possa pensar. Por exemplo : Caryl Chessmann, que morreu na cadeira eléctrica, escreveu livros ( eu tenho dois e posso apresentá-los, para quem tiver dúvidas); o Zé Camarinha – que assassinou mais “pitos” do que um macho normal poderá despachar em tempo útil, poderá e deverá escrever vários livros – em inglês de Southampton ; e eu tenho esperança que Jorge Jesus, treinador do meu Sporting, venha a escrever um livro … em esperanto.
Confiei isto tudo à tecla para vos dizer, limpinho-limpinho, coisas utilíssimas :
1ª – Não conheço o dito facínora pessoalmente.
2ª – Esse delinquente jamais (jamé em francês) recorreu aos meus bons-ofícios para eu lhe escrever o próximo livro dele.
3ª – É mais do que certo que o criminoso-escritor irá vender muito menos do que o Saraiva das cuecas poluídas, o Rodrigues pisca-pisca, a Rebelo Pito, digo, Pinto, e o Rebello Presidente – que fazia- que lia -mas-não-lia.
E pronto. Como diziam os antigos, “varri a minha testada”. Quando aparecer o livro do marginal farão o favor de me avisar, para eu poder comprar um exemplar do “Correio da Manha”.

A livraria Lello como se subisse para o Olimpo

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 15/01/2016)

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Baptista Bastos

A Livraria Lello, no Porto, completou 110 anos e muitos de nós, eu incluído, tenho belas recordações desse local único. Encontrei-me ali, muitas vezes, com Luís Veiga Leitão, o imenso poeta de “Noite de Pedra”, depois que ele veio do exílio, e alimento na memória auditiva as suas gargalhadas largas e enormes. Veiga Leitão, soube-o muito mais tarde, era parente de outro amigo, Miguel Veiga, de quem tenho tido grandes manifestações de estima e simpatia. A Lello sempre foi uma espécie de local protector: sentia-me acolhido e animado naquele impressionante monumento barroco. Aliás, nas livrarias e nas redacções dos jornais, sempre fui envolvido por esse inexplicável mistério de estar como que numa fortaleza defensora.

Entrei lá, pela primeira vez, levado pela mão amiga de Daniel Constant, jornalista de O Primeiro de Janeiro, que escrevia sobre gastronomia e culinária no famoso jornal. E comprei uma edição de “Narcóticos”, de Camilo. A partir de então, todas as vezes que ia ao Porto, não deixava de visitar a Lello. A Lello não é só a mais bela livraria do mundo: é um sentimento, um estado d’alma, uma sensação de pertença e de bem-estar.

Certa ocasião, evitei uma cena entre dois amigos momentaneamente desavindos, estava eu com Óscar Lopes, cuja nobreza e integridade não se coadunavam com aqueles propósitos. Óscar Lopes, a quem o país da honra, o país cultural, tanto deve e tanto esquece. Vasco Graça Moura dedicou-lhe um poema, “Um Senhor de Matosinhos”, que foca a imensidão do génio e a rara integridade de um homem irrepetível. Óscar Lopes acabou por adquirir e oferecer-me uma bela edição de “Boémia de Espírito”, talvez para atenuar o nervosismo que a tal cena provocara nos dois.

Na década de 60 do século passado, marquei encontro, na Lello, com Mário Ventura, que trabalhava, como eu, na redacção do Diário Popular, então um vespertino de grande circulação. O jornal promovera uma reportagem, “As Férias do Senhor Ninguém”, sob proposta de Francisco Balsemão, na altura proprietário, com o tio e Guilherme Brás Medeiros, do jornal. O esquema consistia no seguinte: um de nós, eu, iria pelo litoral português, o outro, Mário Ventura, pelo interior, e cada um de nós escreveria o que observava e sentia. Sabendo, de antemão, em que localidade e hotel ficávamos, enviávamos o texto para esses sítios, e um outro para o jornal, como se fossem cartas com resposta. A ideia foi um êxito incalculável. Dávamos uma aproximação do país miserável e medíocre, num tom pessoal até então inédito nas imprensa portuguesa. No final, encontrámo-nos na Lello, seguindo, depois, para o restaurante Solar da Conga, onde Daniel Constant e outros ilustres nos ofereceram um opíparo almoço. Recordo que terminava a minha última crónica a dizer uma verdade que ainda hoje me assiste: “Sou o mais tripeiro de todos os lisboetas que conheces, meu caro Mário.”

Não posso relembrar estes episódios apagando a Livraria Lello, porque a imponente casa está, para sempre, ligada a estes e a outros factos da minha vida pessoal e profissional. Já disse, e repito: as livrarias como as redacções dos jornais onde tenho trabalhado são como que a concha onde me refugio, mesmo sem dar conta disso, mesmo que não corra perigo de maior. Essa sensação protectora é comum a muitos amigos e camaradas meus. O mundo dos livros e das palavras como defensores da nossa integridade e dos nossos sonhos e desesperanças.

Subo, agora, aquelas escadas e atravesso aquelas pontes da Livraria Lello e há, nesses movimentos singelos, qualquer coisa de mágico e de infinito. Como se subisse, neste momento, as imponentes escadas de O Século, muito semelhantes, e estivesse a caminho do Olimpo.

O tempo das bibliotecas privadas está a acabar

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 11/12/2015)

Autor

             Pacheco Pereira

Pelo trabalho que tenho tido de salvar livros e papéis, posso perceber algumas tendências da relação das pessoas com os livros, e ver o modo como, na substituição das gerações, numa elite letrada e educada, algumas coisas estão a mudar. É ainda uma observação muito impressionista, mas penso que fundada. Resumindo e concluindo: está a morrer uma geração que tinha muitos livros, pequenas e médias bibliotecas, e a geração dos seus filhos e netos não sabe o que há-de fazer com aquilo que herda. Não digo isto em sentido pejorativo, até porque seria contra o meu interesse próprio, pois tenho recebido muitas ofertas de bibliotecas, algumas integrais, e compreendo bem demais como os livros se podem tornar um ónus para os mais novos, que não têm condições, nem casas, nem interesse em os manter. Mesmo que os mantivessem, seriam bibliotecas mortas, sem ser usadas ou alimentadas. E uma biblioteca para ser viva precisa de alimento, de livros novos.

Muita gente pensa que uma casa sem livros, ou quase sem livros, como muitos jovens têm, é o resultado de uma substituição de uma tecnologia por outra. Não precisam de livros em papel porque está “tudo” na Internet, e há ebooks, e podem ler no telemóvel, no tablet, no ecrã do computador, tudo o que querem, de graça e sem ocupar espaço nas casas cada vez mais exíguas. Não penso isso, não penso que a substituição da leitura física dos livros em papel, por livros no Kindle, ou em qualquer outro suporte, é comparável ou é uma mera substituição de suporte. É outra coisa.

É verdade que mais gente lê hoje do que no passado, com a democratização do ensino e o avanço da escolarização. Mas haver mais gente a ler, não significa que se reproduzam o mesmo grau qualitativo de leitura, de necessidade de leitura, de intensidade de leitura, o hábito quase quotidiano de ler e de ler durante um tempo que hoje seria tido por “muito tempo”. A verdade é que as pessoas estão a ler de forma diferente, mas também é verdade que estão a ler menos porque, se não fosse assim, se podiam “desfazer” das pesadas bibliotecas de seus pais, mas estariam a fazer a sua, uma estante ou duas, de livros realmente lidos, ou seja, teriam mais livros do que têm. Leitores dedicados, com a mesma pulsão do passado, em ecrã, ainda é uma maravilha que está para aparecer. Duas horas a ler um romance, era um tempo trivial de leitura há 40 anos. Quem é que está duas horas diante de um ecrã a ler Balzac, Faulkner, Roth ou Coetzee? E utilizo deliberadamente estes exemplos, porque quem lê estes autores lê-os em livro, até porque, razão grande, é mais cómodo. E também não me parece que façam o mesmo a ler literatura policial, ou ficção científica ou romances cor-de-rosa, num ecrã.

Não escrevo isto por qualquer nostalgia do cheiro dos livros ou da textura do papel. Percebo que há vários tipos de livros que são substituídos com vantagem por um ecrã, e o hipertexto dá uma dimensão completamente nova a um certo tipo de leitura, introduzindo volume e dimensão espacial à folha fixa do papel. Manuais técnicos, livros de referência, enciclopédias (em parte), livros técnicos, cada vez têm mais sentido apenas em versão electrónica. Poemas, artigos, pequenos contos, rápidos, também não fazem grande diferença. O tempo que se demora a ler é um factor. Como é um factor a fluidez da leitura de ficção, que é linear e não se coaduna com o volume do hipertexto. Mas digam-me quantos dos leitores deste artigo, novos ou velhos, leram alguma vez Eça de Queirós, Cardoso Pires, Saramago, Esteves Cardoso, Margarida Rebelo Pinto, num ecrã?

Coloquem-se a ler um livro de papel ou a ler um livro no ecrã. O texto é o mesmo, mas há várias coisas que fazemos, mesmo inconscientemente e que se fazem melhor num livro em papel do que num ecrã. Uma delas é, por exemplo, folhear, e folhear não é “procurar” como se pode fazer facilmente com um motor de busca, aí o ecrã tem vantagem, mas andar para trás e para a frente à procura de uma frase, um nome de uma personagem, uma descrição.

A favor do livro em papel jogam as nossas limitações físicas e psicológicas. E, enquanto elas não forem superadas por qualquer método que nos faça poder ver ao mesmo tempo mais espaço do que o que existe num ecrã de telemóvel, ver bem em letra pequena, estar confortavelmente horas diante de um ecrã, o livro mantém vantagem. E mesmo os jovens que estão o dia todo dependurados num telemóvel não estão a ler, mas a receber e a mandar mensagens, a ver filmes no YouTube, ou a jogar. Por isso, a tese da substituição para explicar a desaparição dos livros nas casas parece-me errada.

A gente não tem os olhos que quer, nem os ouvidos, nem a cabeça. Todos temos regras que estão inscritas no nosso corpo. As máquinas ajudam, mas não acabam com essas limitações. A máquina livro tem respondido muito bem ao nosso corpo. Tão cedo não será substituída. As razões por que as pessoas lêem menos e lêem pior são outras. Estão na sociedade, não nas tecnologias.