A livraria Lello como se subisse para o Olimpo

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 15/01/2016)

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Baptista Bastos

A Livraria Lello, no Porto, completou 110 anos e muitos de nós, eu incluído, tenho belas recordações desse local único. Encontrei-me ali, muitas vezes, com Luís Veiga Leitão, o imenso poeta de “Noite de Pedra”, depois que ele veio do exílio, e alimento na memória auditiva as suas gargalhadas largas e enormes. Veiga Leitão, soube-o muito mais tarde, era parente de outro amigo, Miguel Veiga, de quem tenho tido grandes manifestações de estima e simpatia. A Lello sempre foi uma espécie de local protector: sentia-me acolhido e animado naquele impressionante monumento barroco. Aliás, nas livrarias e nas redacções dos jornais, sempre fui envolvido por esse inexplicável mistério de estar como que numa fortaleza defensora.

Entrei lá, pela primeira vez, levado pela mão amiga de Daniel Constant, jornalista de O Primeiro de Janeiro, que escrevia sobre gastronomia e culinária no famoso jornal. E comprei uma edição de “Narcóticos”, de Camilo. A partir de então, todas as vezes que ia ao Porto, não deixava de visitar a Lello. A Lello não é só a mais bela livraria do mundo: é um sentimento, um estado d’alma, uma sensação de pertença e de bem-estar.

Certa ocasião, evitei uma cena entre dois amigos momentaneamente desavindos, estava eu com Óscar Lopes, cuja nobreza e integridade não se coadunavam com aqueles propósitos. Óscar Lopes, a quem o país da honra, o país cultural, tanto deve e tanto esquece. Vasco Graça Moura dedicou-lhe um poema, “Um Senhor de Matosinhos”, que foca a imensidão do génio e a rara integridade de um homem irrepetível. Óscar Lopes acabou por adquirir e oferecer-me uma bela edição de “Boémia de Espírito”, talvez para atenuar o nervosismo que a tal cena provocara nos dois.

Na década de 60 do século passado, marquei encontro, na Lello, com Mário Ventura, que trabalhava, como eu, na redacção do Diário Popular, então um vespertino de grande circulação. O jornal promovera uma reportagem, “As Férias do Senhor Ninguém”, sob proposta de Francisco Balsemão, na altura proprietário, com o tio e Guilherme Brás Medeiros, do jornal. O esquema consistia no seguinte: um de nós, eu, iria pelo litoral português, o outro, Mário Ventura, pelo interior, e cada um de nós escreveria o que observava e sentia. Sabendo, de antemão, em que localidade e hotel ficávamos, enviávamos o texto para esses sítios, e um outro para o jornal, como se fossem cartas com resposta. A ideia foi um êxito incalculável. Dávamos uma aproximação do país miserável e medíocre, num tom pessoal até então inédito nas imprensa portuguesa. No final, encontrámo-nos na Lello, seguindo, depois, para o restaurante Solar da Conga, onde Daniel Constant e outros ilustres nos ofereceram um opíparo almoço. Recordo que terminava a minha última crónica a dizer uma verdade que ainda hoje me assiste: “Sou o mais tripeiro de todos os lisboetas que conheces, meu caro Mário.”

Não posso relembrar estes episódios apagando a Livraria Lello, porque a imponente casa está, para sempre, ligada a estes e a outros factos da minha vida pessoal e profissional. Já disse, e repito: as livrarias como as redacções dos jornais onde tenho trabalhado são como que a concha onde me refugio, mesmo sem dar conta disso, mesmo que não corra perigo de maior. Essa sensação protectora é comum a muitos amigos e camaradas meus. O mundo dos livros e das palavras como defensores da nossa integridade e dos nossos sonhos e desesperanças.

Subo, agora, aquelas escadas e atravesso aquelas pontes da Livraria Lello e há, nesses movimentos singelos, qualquer coisa de mágico e de infinito. Como se subisse, neste momento, as imponentes escadas de O Século, muito semelhantes, e estivesse a caminho do Olimpo.

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