Derrota ideológica e vitória política

(Pacheco Pereira, in Público, 16/01/2016)

Autor

                Pacheco Pereira

Muitas vezes pergunto se a maioria daquilo que hoje passa por ser um radicalismo da esquerda (e que a direita saliva ao ouvir) não é pouco mais do que moderadamente social-democrata ou democrata-cristão.


Uma coisa a esquerda deve compreender com toda a clareza: a direita venceu a batalha ideológica nos últimos anos. Mais: essa vitória tem profundas repercussões nos anos futuros e molda a opinião pública. É uma vitória muito perigosa e pegajosa, porque se coloca no terreno daquilo que os sociólogos chamam “background assumptions”, molda o nosso pensamento sem trazer assinatura, parece a “realidade” quando é uma construção ideológica. No entanto, convém não confundir duas coisas distintas, a ideologia e política. E a direita perdeu a batalha política, o que ajuda a ocultar a sua vitória ideológica. O problema é que a solidez da vitória ideológica é maior do que a solidez da vitória política.

Para começar, obrigou-me a contragosto a ter que retomar uma linguagem esquerda-direita, que de há muito penso estar ultrapassada e ter mais equívocos do que vantagens. Sim, já sei, conheço a frase de Alain sobre que quem pensa que não é de esquerda nem de direita é de direita, mas hoje a frase oculta mais do que revela.

Considero este retorno a um quadro de dualidades, que só pode ser usado numa perspectiva histórica ou sentimental, um dos estragos mais recentes sobre possibilidade de se sair de uma política do passado. Pode servir para dar identidade, mas explica cada vez menos o que se passa. Um exemplo, é a crítica ao consumismo oriunda da esquerda que preparou o terreno e encaixou perfeitamente na crítica da direita ao “viver acima das suas posses”, em ambos os casos centrando-se na culpabilização dos consumos típicos da classe média. Mais do que de esquerda e direita, estas posições são socialmente reaccionárias.

Num país em que a construção de uma classe média é recente e traz consigo uma nova liberdade face à pobreza e à memória recente da pobreza, isso significa pôr em causa muitos aspectos do mecanismo de elevador social e abre caminho, por exemplo, à negação de que a educação possa ser um elemento fundamental dessa ascensão social. Alguns autores usam a crítica à ideologia republicana da “escola” para pôr em causa aquilo a que chamam o “mito” da educação.

A verdade é que em termos ideológicos, e também em termos políticos, passámos do cinema para a lanterna mágica. Andámos para trás, e isso acontece mais vezes do que aquilo que se deseja. Com a experiência de um Tea Party à portuguesa, ficamos “liberais” à americana. Por isso, lá tive, a contragosto e moendo-me todo, que voltar a falar a linguagem paupérrima da dualidade esquerda-direita.

Este retorno ao dualismo esquerda-direita foi uma vitória do PP de Monteiro-Portas e do Bloco de Esquerda. A sua vítima foi o centro político e o antigo PSD reformista. Ver o PSD de Passos e seus amigos a aceitar com toda a naturalidade serem classificados de direita, foi uma ruptura clara e explícita com o PSD de Sá Carneiro. Do outro lado, o PS evitou cuidadosamente auto nomear-se de esquerda, como se a palavra tivesse sarna, já para não dizer que os diminuía face aos seus novos amigos da banca e dos negócios nos últimos anos. A “terceira via” foi o caminho. Renderam-se todos aos “mercados” como Deus ex machina da política e isso desarmou-os ideologicamente.

Por isso, todo o espectro político está puxado à direita e, por reflexo, deixou apenas franjas na esquerda. As verdadeiras fracturas são hoje de outro tipo e não ganham nada em serem pensadas na dicotomia esquerda-direita. O caso mais flagrante é a questão da democracia e soberania, a perda de poderes do voto dos portugueses, cujo parlamento não tem capacidade orçamental, e a entrega à burocracia transnacional de Bruxelas dos principais instrumentos de governação de um país que era suposto ser independente, ou seja, é mais importante a posição face à “Europa”. E aqui a divisão esquerda-direita não é fácil de fazer.

Mais relevante para perceber o que se passou é ver como o programa social virou parte do centro e da direita para o radicalismo e puxou parte da esquerda para ocupar esse centro. Será que a esquerda não se interroga se muitas das medidas que hoje enuncia como sendo o supra-sumo da esquerda, como seja a reposição de salários e pensões, não são propriamente de esquerda, e só se tornaram de esquerda pela radicalização da direita? Muitas vezes pergunto se a maioria daquilo que hoje passa por ser um radicalismo da esquerda (e que a direita saliva ao ouvir) não é pouco mais do que moderadamente social-democrata ou democrata-cristão.

Ainda recentemente ouvi com atenção uma intervenção de Marisa Matias fazendo para mim uma classificação interior daquilo que era ideologicamente de esquerda e, com excepção da questão das privatizações versus nacionalizações, tudo era da mais pacífica doutrina social da igreja, podia ser dito pela Caritas, por um democrata cristão ou um social-democrata se ainda os houvesse. Até o Papa Francisco, nestes termos, estaria muito mais à esquerda.

O mal é da Marisa Matias? Não, é de nos termos deixado enredar numa confusão entre o interlocutor e o conteúdo da interlocução. Por isso, exames, pensões, reformas, feriados, tudo passou a ser não apenas de esquerda, mas do radicalismo de esquerda, apenas porque só partidos que se auto-classificam de esquerda o fazem. Aceitar que alguém diga isto sem um atestado de ignorância ou uma gargalhada mostra a nossa pauperização política e ideológica.

É por isso que um deputado do ex-PaF se dizia muito surpreendido por o Bloco de Esquerda defender o feriado do Corpo de Deus, sem perceber que o problema é ele ter colocado uma vulgata do “economês” acima de um dia em que se reza ao divino e em que a Igreja quer que as mundanais preocupações dêem lugar à fé. O que se passou é que a radicalização da direita deixou um terreno vazio ao centro que faz com que uma esquerda moderadíssima pareça o bolchevique com uma faca entre os dentes.

A aceitação de que a classificação política dos outros seja feita pela direita radical, coisa que a ala direita do PS interiorizou completamente, é um dos aspectos dessa vitória ideológica. A direita mais radical interiorizou em muitos portugueses um modo de pensar, uma maneira de defrontar os problemas, uma forma de questionar, uma interpretação da vida social, da economia, do estado, que é de facção, mas que muitos aceitam sem questionar.

O esplendor dessa vitória ideológica surge quando um qualquer jornalista puxa do coldre a pergunta “quanto custa?” e “quem paga?”, sempre que se fala de salários, pensões, reformas, diminuição dos horários de trabalhos, qualquer coisa que diga respeito ao mundo do trabalho e não faz o mesmo em todas as outras circunstâncias. Já viram um jornalista confrontar um gestor ou um empresário com a pergunta de “quem paga?” e “quanto custam’” os erros de gestão, a falta de competitividade das empresas devida à má qualidade dos seus empresários, a fuga ao fisco “legal”, etc?

Já viram um jornalista, com a mesma imediaticidade pavloviana do “quem paga?”, perguntar a um banqueiro se ele acha justo que os erros de gestão da banca tenham que ser pagos pelos contribuintes? Não, porque o jornalista já deu na sua cabeça a resposta ideológica, “é preciso salvar o sistema financeiro”.

Por que razão não há sanção moral pública com as muitas pessoas com riqueza acima de um milhão de euros que estão a fazer à pressa doações para escapar à eventualidade de o governo PS criar um imposto sucessório, ao mesmo tempo que não perdem oportunidade de penalizarem moralmente os mandriões dos trabalhadores dos transportes?

É isto a fractura entre a esquerda e direita? Não, é uma fractura que um homem ou mulher honesto, podem colocar noutras palavras como seja a decência. Se admitirmos que há “bom senso” no pensamento, então também podemos admitir que o “bom senso” da ética é a decência.

Recoloquemos aí muito daquilo que é hoje uma falsa fractura ideológica, não porque isso seja um limbo ideológico, mas porque essa recolocação ajuda a limpar o terreno. Depois podemos partir para as fracturas ideológicas do passado, que conhecemos como de esquerda e direita e analisá-las e teremos algumas surpresas pela inversão de alguns papéis. E depois podemos voltar ao limbo inicial para ver se ele subsiste para além de um sistema de valores e se o podemos arrumar de outro modo, limpando-o da superioridade moral que acarreta o uso de valores em política. Para combater a ideologia da direita radical precisamos de algum retorno à moralidade, como os espanhóis compreenderam com as suas “marchas pela dignidade”, e depois então vamos à política pura e dura para nos desentendermos, a boa coisa do debate em democracia e liberdade.

9 pensamentos sobre “Derrota ideológica e vitória política

  1. Resta saber se 2016 não será o ano das surpresas, o ano em que as vitórias políticas da esquerda, que já começaram e dão todos os sinais de continuar, não desencadearão, ao acumular-se, o desmoronar ideológico da direita. As marés sobem devagar, os diques rebentam de um segundo para o outro. O Syriza sozinho não vale nada, como foi barbaramente ensinado aos gregos. Nem o Podemos, nem a “esquerdização” do PS em Portugal, nem Jeremy Corbyn, nem Bernie Sanders. Mas… e tudo junto?

    Terá direita norte-americana, que se trucida minuto a minuto num desvario tão grotesco como trágico, assim tanta certeza de ter do seu lado o senso comum? Ou pressentirá, pelo contrário, um descalabro ideológico a que já não vê como escapar?

    E no outro prato da balança, do lado de lá da Alemanha, na Polónia e na Hungria, não estará a acontecer o contrário simétrico do que vemos por cá? As vitórias políticas da direita não radicarão, lá longe, num senso comum de esquerda?

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  2. Sempre uma perspectiva lógica, lúcida e de bom censo, por mais complexo que seja o assunto.
    Obrigado Pacheco Pereira por tão bem marcar pela positiva a diferença no pântano da opinião política nacional.
    Bem haja!

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  3. Gostava que me dessem uma explicação: porque motivo muitos e muitos portugueses a quem ao fim do mês não sobra um tostão para meter na lata de bolachas que tem em casa à espera desse tostão, têm de pagar para aqueles que têm grandes ou pequenos depósitos nos bancos não fiquem a perder um tostão?
    Fico arrepiada quando dizem que a resolução do Banif (por exemplo) custa 300 euros a cada português! Não há nada mais injusto!
    As empresas vão à falência, as pessoas são declaradas insolventes, ficam na miséria, por vezes suicidam-se e não vem ninguém em socorro delas! Porque será que aos bancos temos de ir todos socorrê-los?
    Acho que ninguém vai conseguir dar-me uma resposta cabal!

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    • Bom dia Marinela.
      Não é verdade que cada português contribuirá 300€ para salvar o Banif. Esse é um valor médio. Todos contribuirão na medida em que pagam impostos. Haverá quem contribuirá muito mais de 300€ e quem contribuirá muito menos. Se é o Estado a pagar entra no orçamento do Estado e numa determinada fatia que vai ser desviada de outras áreas (Saúde, Educação, Defesa) ou então é chutada para dívida suberana (e portanto para o futuro). A escolha é de quem governa.
      No caso do Banif julgo que o perigo de falir é arrastar a economia das ilhas, Açores e Madeira, para o fundo onde o Banif era forte. É por isso que os bancos se salvam. Para não afundarem a economia que faz girar as empresas sacrificando os contribuintes para o Estado. Depois há a questão da quebra da confiança na banca. O problema é que os bancos não tem em dinheiro o dinheiro que todos os depositantes lhes confiam. Se houvesse uma corrida aos levantamentos, os bancos não teriam para dar e por isso é que na Grécia se limitaram os levantamentos. A realidade é que o sistema financeiro vive de um castelo de cartas que não pode cair. Temos todos mais riqueza, mas ela é baseada em dívida (portanto não existe).
      Ajudou?

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  4. “a direita venceu a batalha ideológica nos últimos anos”

    Não, não concordo com tal postulado.
    A direita possui um “escudo protector”, que se chama comunicação social e que, como sabemos, está nas mãos de grupos económicos e financeiros. Estes não fazem mais do que defender os “valores” da direita, o seu ideário, porque entendem e bem que esta é a melhor forma de obterem mais facilidades empresariais e maiores lucros.
    E os patrões da comunicação social arrastaram para a sua causa ideológica também muitos jornalistas sobretudo através de salários principescos.

    Interrogo-me como com uma propaganda tão intensa e mistificadora na comunicação social a favor da direita, as mais recentes sondagens continuam a dar o PSD a descer e o PS a subir.

    Eu creio que o neoliberalismo, o ideário da direita, nunca esteve como hoje tão desacreditado. Não creio que afirmar às pessoas “que as pessoas vivem pior mas o país está melhor”, como afirmou o líder parlamentar do PSD no final da governação Passos/Portas seja de algum modo mobilizador. Ou que alguém possa acreditar nas palavras de Coelho quando afirmou: “Portugal só sai da crise empobrecendo. Não vale a pena fazer demagogia sobre isto, nós sabemos que só vamos sair desta situação empobrecendo – em termos relativos, em termos absolutos até, na medida em que o nosso Produto Interno Bruto (PIB) está a cair”.

    Alguém poderá vencer a batalha ideológica quando promete um futuro de empobrecimento, com a apologia de “mais austeridade para sair da austeridade” o mesmo é dizer com a apologia da austeridade perpétua?
    Não, o que vem suportando este ideário neoliberal do “não há alternativa”, ou da “economia que mata” como diz o Papa Francisco é a avassaladora propaganda lançada pela comunicação social.

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