Uma comunicação social cada vez menos plural

(José Pacheco Pereira, in Público, 21/01/2017)

Autor

                Pacheco Pereira

 

Tenho para mim que há uma maneira muito fácil de identificar nos dias de hoje o jornalismo do “não há alternativa”, o jornalismo do “ajustamento”, o jornalismo de direita e da direita, que, em bom rigor, não é jornalismo, mas sim propaganda e manipulação, e constitui um sistema de “pensamento único” que empobrece o espaço público e o torna frágil. Esse critério pode ser enunciado deste modo: trata os problemas da “geringonça” como sendo estruturais e os problemas da oposição, em particular do PSD, como sendo conjunturais. O problema do actual Governo não é Costa, mas a aliança política maldita em que se alicerça; o problema da oposição pode ser Passos Coelho e a sua rigidez, não aquilo que ele diz; o problema do actual Governo é que, faça o que fizer, desde que não execute uma qualquer variante da política do “ajustamento”, está condenado ao fracasso; o problema do PSD pode ser uma crise de protagonistas, mas está sempre do lado da “inevitabilidade”, dos juros ou dos mercados; o problema de Costa é que com as “reversões” violou a austeridade sacrossanta; o problema de Passos Coelho é que convocou o Diabo antes do tempo; um conduz uma política errada pela sua própria natureza; o outro é inábil e talvez precise de ser substituído por uma variante do mesmo. Um erra contra a natureza das coisas; outro erra na coreografia. Onde é que já se leu ou viu isto na comunicação social? Por todo o lado.

O contrário seria igualmente manipulatório e parcial, mas, mesmo que o fosse, precisava de existir para falarmos dele. Ora o contrário não tem hoje jornais, nem estações de rádio e televisão. E modelos como os blogues e páginas de Facebook anónimas como os Truques da Imprensa Portuguesa ou a “geringonça”, na tradição da Câmara Corporativa, são uma péssima resposta, muito habitual nos departamentos de “truques” do PS, porque miméticos face à dominação da direita nos órgãos de comunicação social. Eu não quero substituir uma imprensa de direita por outra do PS, ou pior ainda governamental, mas que haja, bem ou mal, uma comunicação social menos enfeudada ao poder do “pensamento único”, que não condicione pela agenda, pelo tratamento de títulos e notícias, pela duplicidade política do que entende “grave” ou venial e que, acima de tudo, actue num sentido único da vulgata que passa nos nossos dias por ser a “realidade”.

O problema do pluralismo na actual informação não está em substituir um pelo outro – está em cada vez mais os órgãos de informação alinharem pelo “pensamento único”, que nasceu no “jornalismo económico” nos anos da crise de 2008 em diante e se consolidou com força durante os anos da troika e de Passos Coelho.

Foi nessa altura que a direita portuguesa ganhou a batalha ideológica à esquerda e com uma little help from my friends, bastante grande aliás, está a consolidar e a expandir posições. Esses “amigos”, os conhecidos e os desconhecidos, envolvem interesses económicos, investimentos de dúbia origem, como acontece com os angolanos, lobbies políticos e ideológicos que se organizaram mais agressivamente para manter o legado da intervenção da troika, apontando como alvo da austeridade a classe média e os mais pobres, desequilibrando as leis do trabalho a favor do patronato, e pretendendo “limpar” o país das “oligarquias”, ou seja, dos sindicatos, dos intelectuais, dos jornalistas incómodos, de quaisquer pessoas que se lhes oponham. Aliás, a recente campanha miserável contra Silva Peneda, que ousou contestar a posição do PSD, é um exemplo de um estilo que nasceu nestes anos, de pessoalizar os ataques políticos, começando por referir sempre o nome das pessoas nos títulos dos artigos sem discutir as ideias ou as políticas.

Do mesmo modo que veria com muitas reservas se a “geringonça”, ou os Truques “passassem” com armas, bagagens e pessoas para a comunicação social generalista, que se apresenta ao público como não sendo engajada politicamente, mas apenas vinculada a uma ideia e a uma prática do jornalismo no interesse público, também veria com muita preocupação que o Observador, que é um projecto político, “passasse” para um jornal do mainstream como o Diário de Noticias ou o PÚBLICO ou para um canal de televisão como a SIC ou a TVI ou a CMTV. Até porque estes processos de “passagem” nunca são inócuos – implicam colocar na ordem a redacção original, sanear os recalcitrantes, normalmente com pretextos que não são mais do que pretextos, porque, para serem eficazes, não podem revelar a sua verdadeira natureza. E dobrar qualquer protesto ou resistência aproveitando-se da precariedade profissional dos jornalistas e do legítimo e muito realista receio de perderem o emprego. O que recentemente se passou no Sol e no i infelizmente não motivou grandes protestos, até porque há demasiado medo nas redacções, mas, na sua brutalidade e arrogância, é um bom exemplo da actual situação: ou concordam com o que vos exijo, ou vão-se embora. E o que vos exijo é o que os meus “patrões” querem que eu faça, num caminho crescente de escolha das direcções pelo critério da obediência ou pela afinidade ideológica, e não pela qualidade do trabalho jornalístico.

Como os jornalistas estão divididos, como estão na defensiva há muito tempo, como o turnover geracional se faz com a destruição da memória e do saber e como se perdeu qualquer tradição reivindicativa com a quebra da independência das redacções e dos jornalistas individualmente, como a promiscuidade com o poder político e económico é grande e se faz não apenas pela política, mas também pela mundividência cultural e pelas “ideias”, com a crise das mediações assolada pela arrogância da nova ignorância, com a falsa ideia de que as redes sociais são o “público”, e com a pauperização das classes médias, o jornalismo de referência, ou seja, o jornalismo, atravessa uma crise maior. E essa crise maior é, em toda a sua profundidade e extensão, uma crise da democracia.

O congresso dos jornalistas

(José Preto, in Facebook, 16/01/2017)

jose_preto

O congresso dos jornalistas veio testemunhar a indigência que se abate sobre a profissão e a caracteriza hoje. Precários em todo o lado e mais de metade dos jornalistas ganhando menos de mil euros mensais.

As conclusões são meros equívocos. “Jornalismo de qualidade só com empresas viáveis”. Errado. Há inúmeras empresas viáveis – viabilizadas, por exemplo, por serem meros placards de bordeis – onde não há jornalismo digno do nome, onde não há qualidade seja no que for, onde as redacções estão cheias de precários e de gente a ganhar menos de mil euros por mês…

Não são as empresas viáveis que garantem o “jornalismo de qualidade” (parece que estão a falar de texteis, mas como o texto vem da tecelagem – ainda que outra tecelagen – é possivel não embirrar muito com isso). O que garante o jornalismo de qualidade é a qualidade do jornalismo e não outra coisa. O que é preciso – e também isso é outra coisa – é que a viabilidade das empresas (jornalísticas) assente na qualidade do jornalismo. Tudo de pernas para o ar, portanto. Como é costume, de resto.

Surpreende-me que não tenha havido uma referência audivel aos que marcaram o jornalismo. Há jornalistas estudados em Literatura. E nem uma palavra quanto a eles… A mais antiga das jornalistas portuguesas está felizmente viva. Ninguém lhe prestou homenagem.

Os mais velhos jornalistas com prestígio merecido – Baptista Bastos, por exemplo – não são referidos nem homenageados tanto quanto se tenha visto ou ouvido. (A qualidade é uma abstracção, é claro). Um jornalista é presidente da Academia das Ciências, se não erro. Nenhuma referência pública ao facto. Bando de broncos.

A Milenar China deixou claro que, a partir dos oitenta anos, os anciãos têm o direito de vestir a cabaia amarela, apanágio da dignidade imperial. E ocorre que a última vez que o jornalismo representou alguma coisa aqui na terrinha, culturalmente falando, foi com os que são hoje octogenários Mesmo que tivessem sucessores, deveriam ver reconhecida a sua posição de referência. Sem sucesssores, então, nem sei o que dizer…

Decidiram os fornalistas que não irão a conferências de imprensa se não puderem interrogar… É perfeitamente irrelevante. Indo ou não indo fica tudo na mesma seguramente.

O congresso dos jornalistas foi marcado pela indigência. E, se bem vejo, saldou-se na indigência de que se ocupou.

Contou com a presença de Marcello II. Esse grande e importante homem à escala deste sítio sem importância nenhuma que todos os dias se faz mais pequeno.

Registo o evento.

É bem certo que os únicos jornais em Língua Portuguesa com relevância neste território são o Pravda e o El País.

Sobre o jornalismo e seus derivados

(António Guerreiro, in Público, 13/01/2017)

Autor

   António Guerreiro

Começo este texto, ainda motivado pela identificação de uma “nova ignorância”, feita por José Pacheco Pereira, no ponto em que terminei o da semana passada: pela afirmação de que estou consciente da contradição a que me exponho semanalmente. Em que consiste essa contradição? Acho que os jornais precisam de ser pensados, transformados e criticados do interior para tentar interromper a “estratégia fatal” que lhes dita o caminho. E, no entanto, até esta afirmação, enquadrada num espaço de “opinião”, onde há de tudo para representar a pluralidade do mundo, é uma crítica vã, mais não faz do que tornar-me rotineiro e alimentar a rotina do jornal. Nas dezenas de reformas e liftings a que os jornais, nas últimas duas décadas, foram submetidos pelas suas administrações e direcções (se ainda é possível distinguir uma coisa da outra), alguém conseguiu vislumbrar alguma que não fosse para acentuar o sentido da anterior, de cujo sucesso não houve notícia? Alguém assistiu porventura a outras experiências, a autênticas e bem pensadas inflexões? E tudo isso foi feito sem que, de uma maneira geral, os jornalistas proletarizados nas redacções tivessem a possibilidade de ter uma intervenção crítica na vida do jornal onde trabalham. E essa impotência aumentou à medida que cresceu a oligarquia dos colunistas e comentadores, esse exército numeroso que confiscou todos os media e instaurou lá dentro uma nova luta de classes. Um colunista exterior à vida do jornal preocupa-se com o espaço que nele ocupa, com a “visibilidade” (palavra essencial no jargon do meio) que lhe é oferecida e de onde ele retira o capital simbólico, eventualmente convertível em capital real; um jornalista da redacção faz parte de um corpo que é o do jornal na sua totalidade e de um modo geral está excluído desta economia simbólica. O primeiro está ao serviço de uma indústria de conteúdos que não precisa de se pensar enquanto forma. O mesmo é dizer: pensa-se como plataforma que distribui conteúdos e às vezes brindes.