Assalto à última trincheira da liberdade?

(Alfredo Maia, in Abrilabril, 11/07/2017)

 

Ao contrário do que muitos leitores, ouvintes e espectadores poderão imaginar, de um modo geral os jornalistas não gozam de autonomia editorial nem sequer para escolher as áreas e os temas que tratam, nem são eles a decidir, pelo menos em última instância, o que é notícia.


Será útil assentarmos desde já no seguinte: os jornalistas são trabalhadores por conta de outrem, assalariados mais ou menos precários mas geralmente subordinados a uma hierarquia que o patrão estabeleceu, escolheu e mantém enquanto merecer a sua confiança. As excepções são estatisticamente negligenciáveis para o que agora importa discutir.

Pelo menos formalmente, os jornalistas gozam das garantias constitucionais da liberdade de expressão, da liberdade de imprensa e do pluralismo. Mas as liberdades estão de algum modo limitadas pelos estatutos editoriais dos órgãos de informação aos quais eles prestam serviço, pelas orientações e pela disciplina editorial determinada pelas respectivas hierarquias editoriais – essas mesmas, as escolhidas pelos donos através de um sistema de delegação de confiança em cascata: os accionistas escolhem os directores; os directores escolhem os chefes de redacção, os editores de secção…

Ao contrário do que muitos leitores, ouvintes e espectadores poderão imaginar, de um modo geral os jornalistas não gozam de autonomia editorial nem sequer para escolher as áreas e os temas que tratam, nem são eles a decidir, pelo menos em última instância, o que é notícia. É à hierarquia, mais ou menos complexa, de acordo com a dimensão e/ou o modelo organizativo, que cabe estruturar as redacções, geralmente por áreas temáticas, bem como alocar a cada uma delas determinado conjunto de profissionais, coordenados por um superior hierárquico directo.

É a hierarquia editorial que distribui tarefas e aceita, ou não, as sugestões de trabalhos e estabelece as prioridades, atribui os espaços e define os destaques. Nalguns casos (os jornalistas queixam-se de tratar-se de casos a mais, com prejuízo da autonomia técnica que deveria ser-lhes reconhecida) são as chefias a determinar a orientação concreta das notícias e reportagens – os ângulos de abordagem, os pormenores a valorizar ou a desvalorizar, as perguntas a fazer, as pessoas «certas» a ouvir…

É útil termos presente esta descrição chã e simplificada da organização e funcionamento das redacções, para compreendermos as tensões de poder no seio destes organismos e as limitações e constrangimentos que elas produzem, com consequências necessariamente na qualidade da informação disponibilizada ao público. Mas também tomarmos consciência de que os próprios modelos e culturas organizativas traduzem dinâmicas inibidoras de uma expressão mais ampla da diversidade de opiniões no interior das redacções.

«Não admira, por isso, que inúmeros profissionais tenham encontrado, no espaço público democratizado pela gratuitidade dos meios electrónicos, uma espécie de trincheira da liberdade de expressão»

De um modo geral, e sem prejuízo do reconhecimento do mérito próprio nalguns casos, são as relações de poder interno que justificam o acesso ao monopólio da opinião, com direito a coluna regular, habitualmente dividido pelos detentores dos cargos de topo e intermédios da hierarquia, por um ou outro redactor, os quais, juntamente com colunistas externos, constituem a elite editorial.

É essa elite que, com frequência, ocupa simultaneamente espaços de opinião nos principais jornais e revistas, possui lugar cativo de comentário na rádios e nas televisões, determina as tendências, desenha o consenso sobre os principais temas e projecta uma agenda comum da actualidade – salvo algumas honrosas excepções.

Neste contexto, a maior parte dos jornalistas não tem acesso a esse clube, seja pela natureza restritiva resultante das relações de poder e de confiança, seja também pela compreensível escassez de espaço útil.

Não admira, por isso, que inúmeros profissionais tenham encontrado, no espaço público democratizado pela gratuitidade dos meios electrónicos, uma espécie de trincheira da liberdade de expressão, alimentando blogues e perfis em meios sociais, ora retransmitindo criações suas produzidas para os meios onde trabalham, ora publicando textos e imagens produzidos no âmbito da sua liberdade de criação, de opinião e de difusão.

É uma prática que a própria elite com o privilégio da opinião nos media muito valoriza também, replicando as suas colunas, utilizando-a como plataforma adicional para intervenções supletivas, por vezes mais acutilantes, ou versando temas diversos daqueles que habitualmente tratam.

Uns e outros fazem assim uso de uma liberdade protegida pela Declaração Universal dos Direitos do Homem1 e pela Constituição da República2 que nem sequer o malfadado Código do Trabalho põe em causa, já que os poderes de direcção e disciplinar do empregador estão limitados à organização do trabalho, não podendo estes prejudicar a liberdade de expressão e de opinião e de divulgação do pensamento e da opinião3.

«A tendência regulamentista, em nome da preservação da “independência” dos jornalistas e, sobretudo, para não comprometer a “independência” dos órgãos para os quais trabalham, está fazendo caminho»

Por conseguinte, é de estranhar que, entre os jornalistas, haja quem proponha o estabelecimento de restrições à utilização de meios sociais, designadamente para expressar opiniões próprias, para subscrever opiniões de terceiros ou para manifestar apoio a posições, propostas e correntes de pensamento, políticas, religiosas e outras. Uns poucos, com acesso às colunas de opinião e aos espaços de comentários nos media, passariam a deter em definitivo o exclusivo da opinião; os restantes, a maioria, veria capturado o que resta da sua liberdade.

A tendência regulamentista, em nome da preservação da «independência» dos jornalistas e, sobretudo, para não comprometer a «independência» dos órgãos para os quais trabalham, está fazendo caminho e receia-se que desague no congresso convocado para o próximo fim-de-semana, em cujo programa se enuncia a questão «Como conciliar o exercício profissional com blogues e páginas pessoais de jornalistas profissionais em redes sociais?».

O tema não pode ser tabu, mas aconselha toda a prudência, sob pena de lançar os jornalistas numa deriva «purificadora» e de verdadeira captura do derradeiro reduto de expressão da liberdade dos seus próprios camaradas. Se tal acontecer, será uma enorme tragédia para o Jornalismo e sobretudo para a Democracia.

A questão não é isolada – e porventura não é inocente –, compaginando-se com outras lançadas para um debate, que se espera franco e democrático, que causam legítima inquietação, girando em torno de ideias aparentemente consensuais, como a «independência individual dos jornalistas» e de eventuais propostas de revisão do regime de incompatibilidades da profissão, talvez incluindo nelas a participação cívica e política, e até de previsão legal dos «conflitos de interesses».

Há quem proponha até que os jornalistas declarem regularmente os seus «interesses» – todos, dos económicos próprios e de familiares, filosóficos, ideológicos, partidários, religiosos – numa espécie de ecografia pública capaz de perscrutar até ao mais ínfimo átomo das nossas consciências e fixar indelevelmente um retrato moral a escrutinar sabe-se lá por quem.

Mas não há dúvidas de que tais derivas, se não forem travadas pelo bom senso, pela prudência e pela sã camaradagem da diferença e da diversidade, sê-lo-ão pelo menos em razão da inconstitucionalidade e pela ostensiva agressão aos direitos, liberdades e garantias dos quais os jornalistas não estão desapossados.

Fonte: Assalto à última trincheira da liberdade? | AbrilAbril

Quando é isto a referência

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 07/01/2017)

O Público, cumprindo-se como o semipasquim que é, despediu José Vítor Malheiros alegando falta de dinheiro para lhe pagar. Este cronista não era só uma memória viva do jornal enquanto instituição e desde a sua fundação, era e é também uma voz que verte salubridade e inteligência no espaço público.

malheiro

José Vítor Malheiros

Entretanto, o Público e o seu director que já se declarou fã mantêm João Miguel Tavares na lista de pagamentos. É até provável que vejam na figura uma estrela da companhia, adorando de cada vez que ela consegue arranjar alguma “polémica” com outros avençados da opinião. Nada contra, obviamente, a começar porque não contribuo para as despesas desse jornal. Mas chamo a atenção para este caso:

O Presidente da República ficou desgostoso por os portugueses terem elegido “geringonça” como palavra do ano. Ele teria optado por “descrispação”. É uma escolha surpreendente de Marcelo, desde logo porque a palavra não existe. Porto Editora, Houaiss, Aurélio, Academia – nenhum dicionário cá de casa a reconhece.

Caluniador pago pelo Público

Este profissional da calúnia vem para os jornais exibir o seu ultrapositivismo lexical, declarando confiante que as palavras que calhem não aparecer nos dicionários que calhe consultar não existem. É uma ideia muito engraçada, vai sem discussão, mas ele usa-a para defender Cavaco e atacar Marcelo e isso, que num plano já filosófico continua a ter graça, no plano do entendimento e sua fruição cognitiva fica como uma extraordinária manifestação de estupidez.jmt1

O que há de notável no João Miguel Tavares não é a forma tosca como se projecta liberal de pacotilha, de imediato e na mesma frase atacando o Estado de direito ao serviço dos seus ódios e marca se preciso for, nem o uso da calúnia para ganhar dinheiro, onde não passa de mais um na legião. O que é verdadeiramente notável está na mediocridade impante do seu pensamento. E, claro, haver quem tenha dinheiro para lhe pagar na outrora chamada imprensa de referência.

Será que ainda vão a tempo de apanharem o Vítor Malheiros na porta e pedirem-lhe para ele dar ao ex-colega uma lição rápida sobre o que é a linguagem, a língua e a fala? Vá, rápido, que o homem ainda deve estar nas escadas.

Fonte: Quando é isto a referência | Aspirina B

Somos aquilo que juntamos

(José Pacheco Pereira, in Público, 19/11/2016)

Autor

                    Pacheco Pereira

Vejo com ironia também em vários jornais a obsessão de “conquistar” os jovens com artigos escritos por jornalistas quarentões convencidos que têm 15 anos.


Parece que há “boas notícias” e que o Diabo adiou a visita a Portugal pelo menos por uns meses. Podemos, pois, ir para outros territórios respirar um pouco.

Visitei recentemente, em Nova Iorque, o Interference Archive, um pequeno arquivo, vivendo do trabalho voluntário, trabalhando para a comunidade em Brooklyn e com uma interessante série de publicações. É um arquivo “radical” muito voltado para recolher documentação dos movimentos sociais e para o activismo comunitário, tendo em anexo um programa de rádio e podcasts. Muitos aspectos deste arquivo são próximos do trabalho que fazemos no Ephemera e por isso me interessaram em particular.

Um dos cartazes do arquivo tem a seguinte frase: “We are what we archive”, somos aquilo que arquivamos. Excelente, é isso mesmo. Somos aquilo (e aqueles) que “juntamos”, e como por aqui tendemos a ser omnívoros e a ter como palavra de ordem “não deite nada fora” do que serve para a nossa memória colectiva, temos uma ambição holística, ou seja, uma forma de loucura mansa. Seja.

Vamos a um caso pessoal e concreto, que penso ter  algum interesse para a actual discussão sobre os jornais em papel e online. O que é que eu “arquivo” na comunicação social portuguesa corrente, para alimentar a secção de periódicos e, mais significativamente, a de recortes?

Os recortes estão muito subestimados por estes dias, mas para quem investiga, ou simplesmente está a escrever sobre alguma coisa, os recortes são preciosos. Sim, nem tudo está no Google, e, sim, nem tudo na Internet faz o papel da surpresa de “descobrir” algo que nos é muito útil. O papel ainda aí continua a ter várias vantagens. O folhear em procuras imprecisas é uma tecnologia superior no papel, e o modo de olhar o que está em papel e para o que está no ecrã não tem o mesmo tempo e modo, nem os mesmos resultados.

É verdade que posso entrar na categoria escassa de “grande leitor” da imprensa, e isso não abunda, nem é regra. Mas há quem o seja, e a quantidade, como pregava o materialismo dialéctico, transforma-se muitas vezes em qualidade. Leio todos os dias o PÚBLICO, Diário de NotíciasiCorreio da ManhãJornal de Notícias e Jornal de Negócios, em papel, e várias vezes por semana o Observador online. Na verdade, para ser mais exacto, leio o PÚBLICO online de um modo geral antes de o ler em papel, e a leitura em papel dos outros jornais é desfasada no tempo, visto que, não vivendo em Lisboa parte da semana, só os recebo dias depois da sua saída. Mas, mesmo o PÚBLICO online, leio-o na versão “impressa”, ou seja, um fac-símile da versão em papel. Não leio as duas da mesma maneira, mesmo sendo iguais; há artigos que leio só em papel e o tempo que demoro é diferente, mais longo em papel. Leio igualmente O Diabo, a Sábado, a Visão, o Time Out, o Sol e o Expresso. O único jornal partidário que leio sistematicamente é o Avante!, que também, nos dias de hoje, é o único que há.

Parece muita coisa para leitura semanal, mas como há um número considerável de notícias que são iguais em vários jornais, a parte útil concentra-se em reportagens próprias, em entrevistas e na opinião, consideravelmente menos do que o conjunto de títulos pode indicar. Demoro, aliás, cada vez menos tempo a ler jornais, mesmo com esta abundância, porque cada vez menos o que lá vem me interessa, mas esta questão de conteúdo fica para outra altura.

De todos estes jornais “arquivo” integralmente o PÚBLICO e o i, e as revistas e jornais semanais, e nos outros marco os artigos que quero guardar com uma palavra-chave, pode ser o autor ou o assunto, para arquivar nos “recortes”. Há um padrão nesses recortes: no Diário de Notícias, alguns artigos de opinião e algumas páginas especiais no início do jornal e o antigo suplemento cultural agora integrado no corpo de jornal, o que claramente o minimiza; no Jornal de Notícias muito pouca coisa; no Correio da Manhã as páginas dos suplementos de domingo com testemunhos sobre a guerra colonial (há anos que os guardo), e os artigos de Eduardo Cintra Torres sobre televisão (a que se somam os seus artigos  no Jornal de Negócios sobre publicidade); no Jornal de Negócios algumas páginas especiais na primeira parte do jornal, embora tenha guardado toda a série sobre os mais “influentes”, uma iniciativa interessante, mesmo que controversa, e ocasionalmente um artigo de opinião. Na opinião do Diário de Notícias e do Jornal de Negócios guardo os artigos com que mais discordo, ou os que mais me irritam, com intenção futura, raras vezes realizada, de escrever sobre eles. Embora leia sempre o Ferreira Fernandes, não sei bem porquê nunca os recortei, a não ser quando têm uma componente memorialística. O Diabo é uma janela sobre uma direita muito especial, a dos “nacionalistas revolucionários” mais jovens e a dos nostálgicos do salazarismo, pelo que tem interesse próprio. No Avante!, que aliás também guardo integralmente, leio e digitalizo os artigos sobre a história do PCP e da oposição e as necrologias “oficiais”, muitas vezes ocultando, numa frase anódina, uma vida importante na luta contra a ditadura.

Dos semanários e do PÚBLICO e do i não recorto nada, visto que os guardo inteiros, entre outras coisas, no caso dos jornais, pela sua excepcional qualidade gráfica. Mas guardo também integralmente os suplementos Dinheiro Vivo (do Diário de Notícias), W (do Jornal de Negócios) e Ípsilon (do PÚBLICO). Digitalizo para arquivar dos jornais e revistas que não recorto, artigos, entrevistas e testemunhos que me interessam para os trabalhos de história que faço. Entram num arquivo electrónico organizado por pessoas e temas, como, por exemplo, “dicionário biográfico” e “PCP – Barreiro” muitas vezes com cópia para várias entradas. Sempre que há uma necrologia que me interessa, procuro no Google e na imprensa local mais dados, de pessoas há muito esquecidas. A morte costuma lembrá-las por breves dias.

Por bizarro que pareça, demoro mais tempo a ler o Sol do que o Expresso, em parte porque o Expresso é muito previsível politicamente e o Sol é uma mistura de “recados” (aliás, como o Expresso) com os artigos mais absurdos da imprensa portuguesa; por isso leio-o com uma curiosidade, digamos assim, entomológica.

Vejo com ironia também em vários jornais a obsessão de “conquistar” os jovens com artigos escritos por jornalistas quarentões convencidos que têm 15 anos. Do mesmo modo, leio pouco o noticiário “cultural” dos jornais, em particular dos semanários, mas também de diários como o PÚBLICO, que parecem mostrar um país de abundantes “criadores” em todas as artes, de que um ano depois não há qualquer rastro.

Do mesmo modo que as grandes empresas “mandam” no jornalismo económico, o imenso sector da arte subsidiada, principalmente nas grandes cidades, e a rede de conhecimentos pessoais e cumplicidades geram um efeito idêntico no mundo cultural, um dos que mais dependem de lóbis. No jornalismo cultural há excepções que leio sempre, como é o caso do António Guerreiro.

Tomem esta lista de “arquivamentos” como pessoal e subjectiva e por isso muitas vezes pode ser injusta ou genérica. Também deve haver esquecimentos, a mais humana das coisas. Mas é assim que “movo” o meu olhar, o meu digitalizador, as minhas pastas, a antitesoura (a que não é da censura, mas… também é), pela massa do papel dos pixels.

Há mais coisas para dizer, e se o Diabo continuar de férias, volto de novo.