EUA: uma história marcada por guerras, derrotas e aversão à paz

(Frei Betto in Diálogos do Sul, 10/03/2026)

Numa indústria cujos lucros dependem da perpetuação de conflitos, a perspectiva de paz permanece um ideal distante. (“Paz”, cartoon de J. S. Pughe – Harper’s Weekly, Vol. 57, No. 1465, março de 1905)

Em seus 250 anos de história, os EUA conheceram menos de 20 anos sem estar envolvidos em guerra.


Desde sua fundação em 1776, os EUA construíram o mais poderoso complexo militar que o mundo já conheceu. Hoje, o arsenal ianque controla 40% das armas do planeta. No entanto, essa potência de fogo nem sempre se traduziu em vitórias inequívocas. 

A imagem da nação estadunidense como um país pacífico é desmentida pelos dados históricos. Nem sempre seus presidentes tiveram a coragem de Trump de declarar que almejavam “a paz pela força”. 700 anos antes da era cristã, o profeta Isaías proclamou uma verdade incontestável, para qual os poderosos quase nunca tiveram olhos para ler e ouvidos para escutar: “A paz só virá como fruto da justiça” (32,17). 

Em seus 250 anos de história, os EUA conheceram menos de 20 anos sem estar envolvidos em guerra. Segundo John Menadue, a poderosa nação do Norte nunca passou uma década sem guerra. O período mais longo sem conflito bélico durou apenas cinco anos, entre 1935 e 1940, devido ao isolacionismo a que foi condenada pela Grande Depressão. 

Nem sempre os EUA saíram vitoriosos das guerras nas quais se envolveram. A derrota mais humilhante foi no Vietnã (1955-1975). Apesar dos intensos bombardeios promovidos pelos ianques e do uso de todos os recursos proibidos pelas convenções internacionais, como napalm, o heroico povo vietnamita alcançou a vitória. Os EUA prantearam a morte de 58 mil soldados. 

Todo o horror provocado pelo governo estadunidense no Vietnã está retratado nos filmes Apocalipse Now (1979), de Francis Ford Coppola; em duas produções dirigidas por Oliver Stone, Platoon (1986) e Entre o Céu e o Inferno (1993); e Nascido para Matar, de Stanley Kubrick (1987).

Outra derrota foi na guerra ao Iraque (2003-2011). Iniciada sob a mentira oficial de que aquele país produzira armas de destruição em massa, a agressão ianque resultou na derrubada de Saddam Hussein ao custo de lançar o país num caos. As mesmas forças políticas de antes ainda governam o Iraque.

A derrota mais recente foi no Afeganistão (2001-2021). A agressão estadunidense no intuito de eliminar a organização terrorista Al-Qaeda, que havia derrubado as Torres Gêmeas de Nova York, e expulsar o Talibã do governo resultou, como no Vietnã, na saída caótica dos invasores. O custo da ocupação foi de 2,3 trilhões de dólares! As convicções do povo afegão se mostraram mais resilientes que o poder de fogo dos invasores. 

Agora, Trump adota uma nova estratégia ao atacar a Venezuela e o Irã: evitar a presença de tropas no terreno inimigo e centrar os ataques no uso da sofisticada máquina de guerra digital, conduzidas por IA, como drones e mísseis. E o objetivo não é mais implantar o modelo ocidental de democracia, e sim subjugar o governo local aos interesses da Casa Branca. 

O complexo industrial-militar é dominado por cinco grandes conglomerados — Lockheed Martin, Northrop Grumman, General Dynamics, RTX e Boeing —, que dividem a maior parte dos contratos. Mas um novo grupo de empresas mais inovadoras, como Anduril, Palantir e SpaceX, tem levantado bilhões em investimentos privados para modernizar a indústria, aproveitando-se de novas tecnologias como drones e inteligência artificial.

Em termos de PIB, o peso do setor é significativo, embora esteja abaixo dos picos da Guerra Fria. Em 2024, os gastos militares dos EUA somaram US$ 997 bilhões (incluindo pensões e gastos correlatos), de acordo com o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI). Isso representa cerca de 3% do PIB americano. 

O governo chinês acaba de anunciar aumento de 7% no orçamento militar. A China não ultrapassa 1,7% do PIB na defesa (300 bilhões de dólares), o que permite investir mais em ciência, inovação e tecnologia. Daí o interesse da Casa Branca em obrigar os chineses a se envolverem em conflitos armados. Para efeito de comparação: os EUA gastam mais em defesa do que a soma dos investimentos de China, Rússia e Índia juntos.

A história dos EUA é indissociável da guerra. A excepcionalidade americana, tantas vezes invocada em discursos, foi forjada em conflitos decisivos, desde a expansão para o Oeste até as intervenções no Oriente Médio. Os períodos de paz verdadeira foram meros intervalos na marcha beligerante que moldou o país.

Derrotas como as do Vietnã, Iraque e Afeganistão expuseram os limites do poderio militar. Mostraram que tanques, drones e bilhões de dólares são insuficientes para dobrar resistências nacionalistas, complexidades culturais e a falta de legitimidade local. A dificuldade em “conquistar a paz” após uma vitória militar inicial é uma lição recorrente que Washington reluta em aprender.

O custo dessas guerras — tanto o preço pago pelos contribuintes, quanto o fardo humano suportado por soldados e civis — alimenta um complexo industrial-militar que, como alertou Eisenhower, exerce influência desmedida sobre a política externa. Numa indústria cujos lucros dependem da perpetuação de conflitos, a perspectiva de paz permanece um ideal distante, de vez em quando apenas um breve parêntese na longa história do inveterado belicismo da nação estadunidense.

O tempo nos dirá como os EUA haverão de se safar do atoleiro que se enfiaram agora ao atacar o Irã.

(*) Texto em português do Brasil, de acordo com a fonte aqui

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A barbárie que nos governa… e triunfa (2)

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 11/03/2026, revisão da Estátua)


Não tenhamos dúvidas: a guerra pelo controlo ocidental do Irão demonstra que o desumano globalismo e o poderoso sionismo mundial são faces de uma mesma moeda e alavancas interligadas da expansão imperial.


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O mundo está no fio da navalha ou, se preferirem em linguagem circense, é como um funâmbulo em cima de uma corda a tremer em todas as direcções sabendo que lá em baixo não existe qualquer rede. De um lado, as poucas vozes de dirigentes e de instituições internacionais a tentar fazer valer o senso comum que ainda resta; do outro, o abismo, o caminho aberto para a generalização do terror que está a ser percorrido pelo chamado «Ocidente colectivo» ou a «nossa civilização», com a demência do imperial-sionismo à cabeça.

O Irão resiste e contra-ataca, ainda capaz de demonstrar que a farronca não vence guerras, enquanto os protagonistas mundiais desta tragédia injustificada continuam convencidos de que a sua imagem de escolhidos de Deus chega para dizimar os bárbaros e hereges.

Não tenho simpatia pelo regime iraniano, como sou naturalmente avesso a qualquer política confessional, seja na Arábia Saudita e outras petroditaduras do Golfo, em Israel e mesmo nos Estados Unidos. No entanto, os governos ocidentais são bastante selectivos. O que é odioso nuns lados é tolerado ou mesmo elogiado noutros; o «Irão dos ayatollahs« é o inimigo, mas o fascismo sionista, tal como o terror saudita, são amigos, representam-nos bem, tanto no mundo da política como dos negócios. É a conhecida política de dois pesos e duas medidas que o triste Josep Borrell, quando era o chefe da diplomacia da União Europeia, considerou apropriada para defender os nossos  interesses e necessidades.

O Irão ainda não foi derrotado nesta ofensiva, apesar de o seu dirigente espiritual, o ayatollah Khamenei, ter sido assassinado. Não se escondeu e continuou a trabalhar, sob os cobardes ataques, no seu gabinete de sempre. Partilhou o sacrifício com o seu povo.

Para demonstrar a imensa perspicácia de Trump e seus mastins recorda-se que foi Khamenei quem emitiu a «Fatwa», uma directiva religiosa de cumprimento obrigatório, que rejeita a posse de armas nucleares pelo Irão. O Ocidente acaba de abater um dirigente que se opôs às armas de destruição massiva, o que demonstra, por outro lado, que a invocação da questão nuclear sempre foi um pretexto e não correspondia a uma preocupação real. 

O sacrifício de Khamenei tornou-o um mártir e, fruto dos óculos de cortiça usados pelo mundo ocidental, que nunca se engana e tem a razão sempre do seu lado, provocou efeitos contrários aos desejados pelos criminosos. O povo desceu às ruas às centenas de milhares, em muitas cidades, embora a media globalista apenas tenha canetas, microfones e câmaras para registar os movimentos da oposição. O magnicídio em Teerão teve também como resultado o endurecimento das posições dominantes do regime, elevando os níveis de decisão da Guarda Revolucionária e contribuindo mais para unir do que desagregar. A escolha de Mojtaba Khamenei, filho do dirigente assassinado, como novo líder espiritual, desloca claramente o regime em direcções menos moderadas.

O grande xadrez euroasiático

O primeiro-ministro da República Portuguesa, Luís Montenegro, coitado, declarou-se surpreendido  com o início dos ataques contra o Irão. Das duas uma: ou está a mentir, actividade em que é mestre, para tentar esconder a mais do que exposta incapacidade de gerir o país, sobretudo em situações de catástrofe como os incêndios, as cheia ou as guerras; ou não anda neste mundo e não percebe nada do que se passa à sua volta, pelo que não é mais do que o homem errado no lugar errado.

A relação de forças internacional a que chegámos 35 anos depois da implosão da União Soviética, uma espécie de impasse entre o velho domínio ocidental, imposto através da totalitária e arbitrária «ordem internacional baseada em regras» e a afirmação crescente de uma ordem multipolar, tem a Eurásia como o cenário geoestratégico decisivo, a encruzilhada entre os dois caminhos. E, dentro da Eurásia, o Irão é o nó que precisa de ser desatado para quebrar o impasse.

O Irão é um país imenso, com quase cem milhões de habitantes e mais de um milhão e meio de quilómetros quadrados, uma área superior à do conjunto da Espanha, França e Suécia, três dos cinco países europeus com maiores dimensões, a seguir à Rússia e à Ucrânia.

O Irão, porém, representa muito mais do que isso. É, desde sempre, uma ponte civilizacional, cultural e comercial entre a Ásia Oriental e Central e a Ásia Ocidental ou Médio Oriente, que abre os caminhos para as regiões ocidentais da Eurásia. No território iraniano coexistem culturas milenares de vários povos, etnias e tribos, formando um mosaico riquíssimo e de saber profundo, desenvolvido desde muito antes do Império Persa e que a cultura ocidental plastificada é incapaz compreender. Daí que a corrompida casta governante neoliberal tenha, para sermos rigorosos, um enorme complexo de inferioridade em relação ao velho e gigantesco país. Um complexo que tenta combater com base na arrogância, na manipulação propagandística e em pretextos inventados para consumo público, a que se agarra desesperadamente de maneira a tentar submeter o Irão à «ordem internacional baseada em regras». 

Esqueçam as lágrimas de crocodilo que Trump e os seus submissos seguidores, da Ucrânia a Portugal, do Reino Unido à Austrália, passando pelo Canadá, vertem pelas «vítimas» do «regime dos ayatollahs» e a situação do povo iraniano. Nada disso os preocupa, como demonstra o estado devastador em que se encontram os países da região agraciados com o proselitismo da «democracia ocidental» ou «liberal», transportada nas ogivas de milhões de toneladas de mísseis, com a colaboração dos carrascos ao serviço da al-Qaida. O que logo se percebeu pelo assassínio de 165 meninas na escola primária feminina de Sharajeh Tayyebeh Minab, ao que dizem devido a um «engano» do sistema de inteligência artificial a quem as forças armadas dos Estados Unidos decidiram entregar a «escolha dos alvos». O «lapso» de pontaria dos mísseis assassinos aconteceu mais ou menos na altura em que Melania Trump, a «primeira-dama» norte-americana, dirigia nas instalações da ONU uma reunião dedicada ao «problema das crianças em conflito». 

As inocentes alunas da escola abatidas por esta agressão «libertadora», que pretende salvar os iranianos «do jugo dos ayatollas», como explica o genocida Benjamin Netanyahu, não devem considerar-se abrangidas pela inquietação da senhora Trump e pelo humanismo próprio da «nossa civilização». Na verdade, graças a esse acto piedoso o mundo ficou livre de 165 «hereges» e potenciais terroristas. Voltando a citar aquele que, segundo membros da administração Trump, é o verdadeiro comandante em chefe desta operação, o primeiro-ministro sionista, a liquidação de recém-nascidos e crianças palestinianas em geral é uma actividade legítima porque um palestiniano – e agora um iraniano – «já é um terrorista quando nasce».

O Irão está, de facto, a ser atacado porque é uma peça essencial no «Grande Jogo de Xadrez» definido em livro pelo falecido «ideólogo» norte-americano Zbigniew Brzezinski, antigo secretário de Estado da Administração Carter e discípulo do criminoso Henry Kissinger. Segundo ele, quem governa a Eurásia governa o mundo e, deduz-se, quem dominar o Irão domina a Eurásia… e o mundo.

Ou seja, o Irão é um obstáculo a remover pelo colonialismo-imperialismo-sionismo ocidental porque desafina a engrenagem da «ordem internacional baseada em regras», atravanca o avanço do globalismo totalitário e, não menos importante do ponto de vista geoestratégico, tem conseguido fechar os caminhos para a construção do Grande Israel.

Não tenhamos dúvidas: a guerra pelo controlo ocidental do Irão demonstra que o desumano globalismo e o poderoso sionismo mundial são faces de uma mesma moeda e alavancas interligadas da expansão imperial. 

O Irão tem resistido, continua a resistir e explora todas as possibilidades para não ser derrotado. Fechou o Estreito de Ormuz e lançou a instabilidade militar nas petroditaduras do Golfo que albergam bases militares dos Estados Unidos. E que, por via disso, se transformaram em instrumentos do poder sionista no interior do mundo árabe. Os militares iranianos têm conseguido desactivar, um após outro, todos os radares estratégicos montados pelos Estados Unidos na Ásia Ocidental, incluindo o que protege a V Esquadra norte-americana, estacionada no Bahrein. O que acontece apesar de Trump, Netanyahu e os seus caniches europeus – com a honrosa excepção de Pedro Sanchez – garantirem, com todo o orgulho e esplendoroso humanismo, que o Irão está a ser derrotado. 

A propaganda de guerra, porém, esconde outras realidades, as adversas. Na verdade, Israel, as bases norte-americanas na Ásia Ocidental e as tropas imperialistas têm demonstrado algumas vulnerabilidades, sobretudo devido às falhas, à insuficiência e à incapacidade de repor os sistemas de defesa antiaérea,  que têm manifestado mais fama do que eficácia.

Experientes militares norte-americanos na reserva não se coíbem de garantir que os Estados Unidos têm limites temporais para conduzir uma guerra de desgaste como esta, porque a canalização de material de guerra para a Ucrânia delapidou gravemente os arsenais que permitiriam eternizar o conflito até à hipotética rendição do Irão. Os mesmos peritos militares não estão certos de que os Estados Unidos consigam suportar uma guerra de desgaste durante mais tempo do que o Irão.

O significado da resistência iraniana

O Irão resiste. O que é bom, fundamental mesmo, para o mundo em geral. Não porque o Irão tenha um regime elogiável – o confessionalismo, repete-se, é a desvirtuação da política – mas porque é um país independente, decide por si próprio, é o único apoio externo institucional que resta ao martirizado povo palestiniano e não se verga ao poder e às ordens ocidentais.

É bom que o Irão resista porque é um pilar da multipolaridade internacional em desenvolvimento. Desempenha um papel insubstituível no desenho de novas rotas de transportes e comerciais alternativas às da velha ordem imperial, as que se baseiam na Iniciativa Cintura e Rota, ou Nova Rota da Seda lançada pela China e na qual participam já mais de uma centena de países. Combater a criação de rotas alternativas é hoje um objectivo prioritário da clique dirigente ocidental.

O Irão integra ou está associado a organizações que defendem um novo tipo de cooperação internacional, igualitária e não de submissão, como a Organização de Cooperação de Xangai, os BRICS, a citada Nova Rota da Seda, a União Euroasiática, que têm em comum a defesa da vigência plena do Direito Internacional e a desactivação da «ordem internacional baseada em regras» – o que seria um grande favor para os desprotegidos povos dos países ocidentais.

A derrota do Irão e consequente nomeação dos novos dirigentes por Donald Trump, a sua maior obsessão actual, acompanhada com júbilo pela estrutura depravada que governa o mundo ocidental, seria um obstáculo à acção dos BRICS e de outras organizações internacionais igualitárias orientadas pelo Direito Internacional.

Esta derrota significaria a abertura imediata do caminho para a Construção do Grande Israel, porque o Irão «ocidentalizado» deixaria de ser um estorvo e, além disso, governos de países como a Síria, o Iraque, o Líbano e o Egipto (sem contar com a martirizada Palestina) não estão em condições nem os seus dirigentes possuem a vontade necessária para combater o domínio da Ásia Ocidental pela aberração do colonialismo sionista, como braço fundamental do imperialismo.

Sendo o sionismo, além disso, uma grande potência nas áreas das finanças, dos media e do entretenimento anestesiadores do chamado «grande público», o seu triunfo seria um passe de gigante na construção do globalismo totalitário, no qual as pessoas não seriam mais do que instrumentos descartáveis. 

Esta guerra ocidental contra o Irão contribuiu também para decifrar um pouco a intrincada associação entre o regime dos Estados Unidos e o sionismo, uma vez que, segundo declarações do secretário de Estado, o fascista Marco Rubio, e do próprio Trump, Washington avançou para a acção militar porque, mesmo que não o fizesse, Israel iniciaria a guerra. E o imperialismo não se poderia dar ao luxo de permitir a derrota do sionismo. Deste modo ficámos a conhecer mais um pouco sobre o mistério de quem manda em quem na aliança Trump-Netanyahu.

Um imenso Irão «ocidentalizado», incrustado como um cancro na Eurásia, seria mais uma machadada no Direito Internacional, uma catástrofe para a construção de uma nova ordem internacional nele baseada e um triunfo geostratégico gigantesco para a «ordem internacional baseada em regras». Este conjunto de circunstâncias iria criar um cenário de base para a construção do globalismo neoliberal em forma de fascismo, de modo a generalizar o poder totalitário do dinheiro e o desprezo absoluto pelas entidades nacionais e pelo ser humano. A China e a Rússia ficariam mais vulneráveis nessa situação, uma vez que a Índia, através do ditador Modri, foi neutralizada imediatamente antes da guerra durante a visita deste a Israel e na qual o genocida Netanyahu o recebeu como um «irmão».

A alternativa entre a construção de uma nova ordem internacional e o triunfo do terror imperialista joga-se em torno do futuro do Irão, o qual, por essa razão, tem um alcance geoestratégico decisivo. A vitória do fascismo de Trump, arrastando com ela todo o mundo ocidental, representaria a agonia da Venezuela – Cuba está no horizonte – e, ironia das ironias, da Dinamarca, neste caso através da anexação da Gronelândia.

Iria garantir também o prosseguimento da conquista imperial de sucessivos países que, não tendo capacidade para entrar no confronto directo, ousem tentar resistir ao diktat de Washington. Então, a guerra, a demência, a irresponsabilidade e a arbitrariedade seriam as únicas leis em vigor no mundo.

Se os cidadãos de todo o mundo não acordarem, continuarem hipnotizados pela propaganda de guerra e a campanha de calúnias contra o Irão, que já entraram no domínio da mentira pura, o futuro imediato do mundo será o agravamento do terror imperial, ancorado na depravação colonial sionista, além da inevitável concretização de uma aniquiladora Terceira Guerra Mundial.

Eis, portanto, o que se joga em torno da dicotomia entre a resistência do Irão e a anulação da sua independência como grande nação euroasiática.

(2) Segundo e último artigo da série A barbárie que nos governa… e triunfa, sobre a situação actual no Médio Oriente. O primeiro pode ser lido aqui.

Para deleite de Israel, Trump abraça a guerra eterna e trai a promessa de ‘America First’

(Alejandro Marcó del Pont in Diálogos do Sul, 09/03/2026)


Saldo da ofensiva ao Irão já é desastroso e potencialmente irreversível para Trump; impactos da operação nos EUA serão severamente sentidos por sua base mais leal.


Em 28 de fevereiro de 2026, as explosões que sacudiram Teerã não atingiram apenas os enclaves subterrâneos do programa nuclear iraniano; sua onda expansiva percorreu milhares de quilômetros até fragmentar o alicerce político sobre o qual Donald Trump havia construído sua segunda presidência. Em uma operação de audácia e risco extremos, a Força Aérea dos Estados Unidos, em coordenação com Israel, lançou o ataque mais contundente contra o Irã desde a crise dos reféns de 1979.

O objetivo declarado da Casa Branca era cirúrgico e clássico: eliminar de uma vez por todas a ameaça representada pelas instalações nucleares e pelo arsenal de mísseis balísticos da República Islâmica. Mas a magnitude do que ocorreu naquela madrugada — com relatos que falavam não apenas de bombas sobre centrifugadoras, mas também de um míssil que atingiu o bunker onde se refugiava o líder supremo, Ali Khamenei — revelava uma ambição muito maior: a decapitação do regime e seu colapso definitivo.

No entanto, a pergunta que paira sobre os escombros de Teerã — e também sobre os mercados de Nova York — não é tanto se o Irã conseguirá se reconstruir, mas se os Estados Unidos e seu presidente poderão sobreviver às consequências de seu próprio sucesso militar. O paradoxo possui a beleza trágica típica de um drama grego. Donald Trump, o presidente que chegou ao poder prometendo enterrar as “guerras eternas” e colocar a “América em primeiro lugar”, acaba de abrir a porta para um conflito de desgaste no Oriente Médio que ameaça devorar seu legado, sua base eleitoral e a estabilidade da economia global. E tudo indica que não o fez sozinho: foi conduzido até ali, com a precisão de um relojoeiro suíço, pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.

Para compreender a magnitude do abismo diante do qual Trump se encontra, é preciso abandonar por um momento os mapas dos generais e voltar os olhos para os postos de gasolina de Ohio e Pensilvânia. O coração do movimento MAGA (Make America Great Again – Fazer a América Grande de Novo, em tradução livre) bate no ritmo do preço do petróleo. Seu núcleo eleitoral — a classe trabalhadora branca e a classe média manufatureira — foi uma das principais vítimas da inflação pós-pandemia. Cada dólar que o barril sobe é um voto que se afasta das urnas republicanas. Analistas do Goldman Sachs e do Barclays vinham advertindo sobre isso havia semanas em seus relatórios: um conflito aberto com o Irã faria disparar o preço do petróleo. Brent e WTI ultrapassariam facilmente a barreira dos 100 dólares, levando a inflação de volta a territórios proibidos, próximos de 5%. As hipotecas ficariam mais caras, o crédito para pequenos negócios do Meio-Oeste se congelaria e o sonho da “America First” se dissolveria na miragem de uma estagflação.

A lógica elementar indicava que Trump não poderia se permitir esse cenário. Seu instinto de sobrevivência política, que sempre foi sua principal bússola, deveria tê-lo levado a contemporizar, a ameaçar, talvez a realizar um bombardeio simbólico sobre instalações militares abandonadas. Mas não isso. Não um ataque que, segundo fontes de inteligência citadas pela Reuters e pelo The Straits Times dias antes da operação, havia sido explicitamente desaconselhado pela CIA. A agência advertia que um “golpe decapitador” contra Khamenei não provocaria o colapso do regime, mas sua substituição por figuras ainda mais radicais da Guarda Revolucionária (IRGC), dispostas a travar uma guerra de desgaste infinita. Se a inteligência americana sabia disso, se os modelos econômicos o previam, que nuvem tóxica turvou o julgamento do presidente?

A resposta, incômoda, mas cada vez mais aceita nos círculos analíticos de Washington, tem duas faces. Uma, a mais vulcânica e pública, é a do próprio Netanyahu, um sobrevivente político que há décadas enxerga no Irã uma ameaça existencial que precisa ser eliminada antes que seja tarde demais. Sua lógica era a do “agora ou nunca”. Com um presidente americano imprevisível e ansioso por demonstrar força, e com a percepção — possivelmente equivocada — de que os aiatolás estavam enfraquecidos pelos protestos internos, a janela de oportunidade parecia escancarada. A outra face, mais turva e que circula nos corredores do poder sob o sigilo do off the record, tem nome e sobrenome: o lobby israelense e os dossiês Epstein.

Sabe-se — e isso não é segredo para os serviços de inteligência — que Jeffrey Epstein não operava sozinho; sua rede de influência e chantagem era uma teia que se conectava a interesses israelenses, incluindo o Mossad. A teoria que ganha cada vez mais adeptos sustenta que o material comprometedor que o Departamento de Justiça dos Estados Unidos guarda em seus cofres sobre figuras-chave do establishment não é propriedade exclusiva do governo federal. O Mossad, argumenta-se, teria uma cópia. E, no momento crucial — quando a máquina de guerra hesitava entre a prudência e a audácia — essa informação pode ter funcionado como um elemento sutil, porém eficaz, de coerção. Não seria necessário um vídeo de Trump em uma situação comprometedora para dobrar sua vontade; bastaria ter a capacidade de vazar informações sobre um colaborador próximo, um familiar ou um grande doador para que a geometria das decisões começasse a se inclinar.

Além da lenda obscura dos vídeos e das fotos, a influência do lobby israelense em Washington é uma realidade tão tangível quanto o mármore do Capitólio. Acadêmicos do porte de John Mearsheimer e Stephen Walt documentaram isso há anos em The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy (O lobby israelense e a política externa dos EUA, em tradução livre). Não se trata de uma conspiração, mas de um fato político: o Comitê de Assuntos Públicos Estados Unidos–Israel (AIPAC) e suas organizações satélites financiam campanhas, moldam discursos e condicionam votações no Congresso com uma eficácia avassaladora. Nenhum político que aspire a manter-se no poder deseja enfrentar uma máquina multimilionária de pressão e desgaste político financiada pelo lobby. Essa coerção — financeira e política — pode ser tão eficaz quanto qualquer forma de chantagem. Assim, quando o Pentágono e o Departamento de Estado debatiam a resposta ao Irã, as opções que priorizavam a “vantagem militar qualitativa” de Israel pesavam mais na balança do que aquelas que defendiam a estabilidade econômica interna dos Estados Unidos.

O que ocorreu no terreno na madrugada de 28 de fevereiro revela até que ponto essas prioridades estavam desalinhadas. Se os Estados Unidos buscavam uma operação cirúrgica para degradar a capacidade militar iraniana e proteger suas bases na região, os resultados indicam outra coisa. Os satélites mostravam impactos em instalações navais e lançadores de mísseis, sim. Mas também chegavam imagens dantescas de Minab, onde uma escola primária próxima a uma base militar foi atingida, matando 150 meninas. Houve ainda ataques contra hospitais em Teerã, já abarrotados de vítimas civis. Era a marca de um ataque concebido não para ser breve e exemplar, mas para ser total e, sobretudo, irreversível. Aquilo não era um aviso; era uma declaração de guerra existencial. Era a assinatura de Israel, o aliado que necessita que o conflito se transforme em um pântano do qual o Irã não consiga se reerguer.

E é nesse pântano que Trump corre o risco de ficar preso. O que ele provavelmente concebeu como um espetacular show of force ao estilo Trump — uma explosão de grandeza destinada a forçar o Irã a negociar sua rendição — foi interpretado pelo mundo e pelos mercados como a entrada em uma armadilha de custos infinitos. O Irã não colapsou. Sua liderança foi substituída por linhas ainda mais duras da Guarda Revolucionária, que prometem vingança. O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 25% do petróleo mundial, treme diante da possibilidade de um bloqueio total. E, enquanto os petroleiros começam a desviar suas rotas, o rendimento do título do Tesouro americano de 10 anos dispara: os investidores exigem maior retorno diante do risco de uma inflação que já não veem como transitória, mas como um fenômeno entranhado na geopolítica.

A lógica de Netanyahu, fria e calculada, funcionou com perfeição. Ele conseguiu que o exército mais poderoso da Terra participasse da eliminação de seu maior inimigo estratégico sem precisar sacrificar a totalidade de suas próprias reservas. Conseguiu também que os Estados Unidos queimassem seu capital político e econômico em um conflito que, para Israel, é uma questão de vida ou morte. Para Trump, em contrapartida, o saldo é desastroso. Ele não apenas rompeu sua promessa fundacional de encerrar as “guerras eternas”, como o fez em um momento de máxima vulnerabilidade econômica para seu eleitorado. A fratura em sua base mais leal — profundamente antiglobalista e responsável por levá-lo ao poder — pode já ser irreversível. Muitos o veem agora como um presidente que foi enganado ou chantageado, ou que simplesmente traiu seus próprios princípios sob pressões externas.

A teoria da “captura estratégica”, estudada nas academias militares, ganha aqui uma expressão concreta. Quando um aliado menor consegue levar uma potência maior a executar ações que servem essencialmente a seus próprios interesses regionais — mesmo à custa do bem-estar interno da potência dominante — a relação deixa de ser uma aliança para tornar-se uma espécie de tutela invertida. E foi exatamente isso que ocorreu. Netanyahu olhou Trump nos olhos e o convenceu de que assassinar Khamenei seria um presente. Mas esse presente veio acompanhado de inflação, aumento das taxas de juros e da quase certeza de uma derrota nas eleições de meio de mandato.

Enquanto a fumaça se dissipa sobre Teerão e as represálias iranianas atingem bases americanas em sete países, uma pergunta paira sobre o Salão Oval: quem governa realmente a política de defesa dos Estados Unidos? A resposta, por mais incômoda que seja em um país que se orgulha de sua soberania, parece apontar para Jerusalém.

Donald Trump, o negociador que prometia não se deixar enganar, caiu na armadilha mais antiga do tabuleiro do Oriente Médio: acreditar que é possível usar a força sem pagar um preço político. Seu legado — o da “America First” — jaz agora enterrado sob as ruínas de um bombardeio que não trará paz, mas uma guerra interminável concebida nos gabinetes de Tel Aviv.

E a história, mais uma vez, provavelmente o lembrará não como o presidente que encerrou guerras, mas como aquele que foi utilizado por seu aliado mais astuto para iniciar a mais perigosa de todas.

(*) Texto em português do Brasil, de acordo com a fonte aqui

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