As intervenções ignóbeis de Trump: como o “imperialismo regional” leva à guerra mundial.

(Ricardo E. Rubenstein in counterpunch.org, 21/01/2026, Trad. Estátua)

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Pouco depois da primeira eleição de Donald Trump como presidente, alguém me perguntou num fórum público se eu o considerava um fascista. Respondi que Trump era um conservador ultranacionalista que tentaria privatizar os serviços públicos, fortalecer ainda mais os oligarcas e reverter muitas políticas sociais liberais – mas que dois aspetos essenciais do fascismo estavam ausentes de sua agenda MAGA. Um deles era o compromisso de conduzir guerras agressivas contra nações “inferiores” consideradas ameaças à segurança da Pátria Sagrada. O segundo era a militarização da sociedade civil, acompanhada por um poder executivo descontrolado, negação generalizada dos direitos civis e campanhas de terror de Estado contra os oponentes reais ou imaginários do Líder.

Esses dois aspetos do fascismo, como Hannah Arendt apontou há 50 anos em As Origens do Totalitarismo, estão organicamente relacionados. As técnicas de conquista e dominação de populações subjugadas, utilizadas em guerras imperialistas, são trazidas de volta para casa pelos belicistas e tornam-se ferramentas essenciais da governação interna. Primeiro, os fascistas decapitam, dividem e conquistam as nações “de merda” (para citar o Sr. Trump). Depois, fazem o mesmo com elementos “de merda” da população da sua própria nação.

Na minha opinião, esse processo ainda não foi concluído nos Estados Unidos. Apesar dos graves abusos do poder executivo por parte de Trump, das políticas desumanizadoras do movimento MAGA e dos excessos violentos do ICE, a militarização interna ainda não chegou ao ponto de terrorismo de Estado contra a maioria dos cidadãos americanos. Mas a direção dessas políticas é inegável. O ataque à Venezuela, na sequência do genocídio financiado pelos EUA em Gaza, é um passo claro em direção a uma política externa fascista, cuja prossecução gera guerras globais.

O que obscurece essa realidade no momento e confunde a cobertura mediática da situação é a invocação, por Trump, da Doutrina Monroe (também conhecida como Doutrina Don-Roe) para justificar a sua viragem brusca em direção ao intervencionismo. Sim, ele sequestrou os Maduros, matou soldados venezuelanos e cubanos, declarou-se dono do petróleo da Venezuela, destruiu ou capturou navios e tripulações que partiam de portos venezuelanos, ameaçou os governantes da Colômbia, Cuba, México e Brasil e prometeu anexar a Groenlândia. Ele também interveio direta e indiretamente no Médio Oriente, na Ucrânia, na África e noutros lugares. Mesmo assim, muitos comentadores concluem que a intenção de Trump é exercer o poder militar principalmente no “quintal” caribenho e latino-americano dos EUA, enquanto outras potências regionais, como a China e a Rússia, agem como bem entendem nas suas próprias esferas de influência.

Essa versão autoritária da multipolaridade pode satisfazer os membros da coligação MAGA que querem acreditar que o aspirante ao Nobel permanecerá fiel à sua promessa original de evitar “guerras intermináveis”. Ela até ganhou aceitação entre alguns analistas de publicações de política externa e ONGs tradicionais. Aceitar esse foco regional, no entanto, significa fechar os olhos para a história e para a dinâmica do imperialismo.

História.   No meio da enxurrada de artigos e transmissões sobre a aventura venezuelana de Trump, encontram-se poucas análises que comparam a agressão dos EUA com as guerras imperiais da década de 1930: em particular, a anexação da Manchúria pelo Japão, a invasão da Etiópia por Mussolini e as intervenções de Hitler na Europa Central e na Guerra Civil Espanhola. Mas a analogia é surpreendente. Assim como as ações recentes de Trump, esses foram ataques assimétricos e de curto prazo contra nações que resistiam à dominação de uma potência hegemónica regional. O seu impacto foi minimizado ao serem caracterizados como guerras limitadas, conduzidas na esfera de influência de alguma potência imperial. Mas hoje entendemos que também foram passos significativos rumo a uma guerra mundial.

Por quê? Por que motivo esse tipo de violência não permanece restrito à esfera regional, em vez de gerar conflitos globais? O primeiro motivo é que essas intervenções visam concorrentes imperialistas, não apenas resistentes locais. A guerra da Itália na Etiópia tinha como alvo os interesses britânicos no Corno de África, a agressão do Japão na Manchúria visava os interesses chineses e russos, e as maquinações da Alemanha na Europa visavam os interesses ocidentais e russos. Quarenta anos depois, Richard Nixon e Henry Kissinger derrubaram o regime de Allende no Chile e instalaram a ditadura de Pinochet porque consideravam Allende um potencial aliado soviético (e cubano). Da mesma forma, o objetivo principal de Trump na América Latina é limitar a crescente influência da China (e a influência menos substancial da Rússia) naquele continente.

Dinâmica. Deixando de lado as doutrinas Don-Roe, o aparente foco local de operações como o ataque à Venezuela é uma ilusão. O fato de o alvo principal ser um império rival obriga outras nações da região afetada a tomar partido – um processo polarizador que tende a criar blocos multinacionais armados e uma ordem mundial bipolar. A obra clássica de Barbara Tuchman, Os Canhões de Agosto, mostra exatamente como isso funcionou para produzir a incrivelmente destrutiva “guerra para acabar com todas as guerras” em 1914. É provável que vejamos essa polarização ocorrer com intensidade crescente nos próximos anos na América Latina, África e Ásia Oriental.

Mas isso não é tudo. As potências imperiais, impedidas de adquirir recursos industriais essenciais em regiões reivindicadas pelos seus concorrentes, tendem a retaliar tomando o controlo de outras regiões onde esses recursos podem ser obtidos. Em 1931, as tentativas ocidentais de enfraquecer e conter os japoneses levaram o regime de Tóquio a forjar um incidente de “falsa bandeira” na Manchúria para se apoderar do carvão e do ferro daquela nação. Uma década depois, os imperialistas japoneses conquistaram o Vietname, a Indonésia e a Malásia para garantir o petróleo, a borracha, o estanho e outros materiais industriais monopolizados pelos imperialistas franceses, holandeses e britânicos no que até então era considerado o quintal da Europa.

Qual é a moral da história? Todos os impérios modernos são globais. Os EUA e os seus rivais não são como os antigos impérios que conquistavam nações mais fracas por desporto, cobrando tributos dos seus governantes, mas geralmente deixando os povos subjugados à própria sorte. Os impérios modernos são potências do capitalismo tardio, impulsionadas a competir globalmente por matérias-primas industriais essenciais, mercados e oportunidades de investimento, e compelidas a “desenvolver” ou transformar as sociedades que dominam. Não há como manter as suas classes dominantes confinadas nos seus próprios territórios – e quando viajam para o exterior (como precisam de fazer para manter a sua própria viabilidade), vão armadas até aos dentes.

Comentadores liberais e conservadores podem ser relutantes a admitir, mas a obra de Lenine sobre o imperialismo acertou em cheio. Por períodos limitados, enquanto emitem ameaças de violência e realizam operações secretas, os construtores de impérios podem até conseguir negociar as suas diferenças “pacificamente”. Mas esses períodos de relativa tranquilidade não duram. Incapazes de resolver os problemas globais que os seus próprios sistemas dominados pelo lucro exacerbam – problemas como a desigualdade social radical, as mudanças climáticas causadas pelo homem e a migração em massa –, eles empregam ameaças de guerra e a própria guerra como métodos prediletos de gestão de conflitos. Chamam a essa estratégia a “paz pela força”, mas entendemos que o que realmente querem dizer é o Império em Primeiro Lugar, por quaisquer meios necessários.

O facto de a guerra estar agora totalmente industrializada e de as armas de destruição em massa, incluindo as nucleares, estarem proliferando a um ritmo vertiginoso não altera essa dinâmica. Tampouco a existência de uma Organização das Nações Unidas lamentavelmente enfraquecida oferece muita esperança de que os conflitos inter-imperiais possam ser controlados antes que se tornem parte de mais um prenúncio de violência global. Mais uma vez, a história faz ecoar alarmes que qualquer pessoa que não esteja ensurdecida pela cacofonia atual deveria ser capaz de ouvir. Foi precisamente quando a Liga das Nações se mostrou incapaz de deter a agressão localizada do Japão, da Itália e da Alemanha que o Pacto Kellogg-Briand, que proibia a guerra como instrumento de política nacional – um tratado assinado por quase todas as nações do mundo – se tornou letra morta. Então e agora, o imperialismo regional intensificado era um sintoma de uma guerra global iminente.

O intervencionismo de Donald Trump representa, portanto, uma significativa guinada rumo ao fascismo – mas a sua importância já está a ser minimizada não apenas pelos seguidores fanáticos do MAGA, mas também por uma ampla gama de liberais do establishment, centristas de ambos os partidos, especialistas em política externa e pela grande mídia.

Devotados ao dogma da “paz pela força”, líderes do Partido Democrata como Chuck Schumer e Hakeem Jeffries são incapazes de criticar as aventuras militares de Trump, exceto para reclamar que ele não consulta o Congresso como deveria e, às vezes, age de forma “imprudente”. Com o Iraque em mente, os editores do New York Times alertam que tentar ocupar nações que não querem ser ocupadas é uma má ideia. Mas se Trump conseguir apoderar-se do petróleo venezuelano sem provocar uma guerra de guerrilha, desestabilizar Cuba sem um novo ataque na Baía dos Porcos, estabelecer o seu “Conselho de Paz” colonialista para a devastada Faixa de Gaza ou anexar a Groenlândia por meio de ameaças e subornos, não ouviremos uma palavra de crítica séria dos defensores da “liderança mundial” dos EUA.

Sejam anti-Trump ou pró-Trump, os nossos líderes imperialistas e os seus parceiros corporativos ignoram as conexões entre guerras regionais, a militarização da sociedade doméstica e a crescente probabilidade de uma guerra mundial. Essa é a má notícia. A boa notícia é que o intervencionismo cada vez mais descontrolado e impenitente de Trump está a despertar as pessoas em diversas frentes. Império, imperialismo e o complexo militar-industrial não são mais palavras e conceitos tabu. Até mesmo Marjorie Taylor Greene entende que a promessa de Trump de ser um bom isolacionista era uma mentira e que a atual onda de intervenções militares dos EUA é um sintoma de um império em declínio.

Enquanto isso, os cidadãos do Minnesota e de vários outros estados americanos estão a aprender o que é ser súbdito da dominação imperial. Os agentes mascarados e armados do ICE, agindo por medo e raiva num ambiente cada vez mais hostil, poderiam estar a invadir Fallujah tanto quanto Minneapolis. Levará algum tempo até que o nosso despertar se torne geral, mas isso acontecerá, espero e rezo, antes que a violência trumpista gere um movimento irreversível rumo a uma guerra mundial.

Para citar a faixa que aparece no final do filme antinuclear de Stanley Kramer de 1959, “A Hora Final” (On the Beach): “Ainda há tempo…irmão”.

Fonte aqui.

Mortes e pilhagens – sempre em nome dos “nossos valores”

(Thomas de Toledo, in Facebook, 17/01/2026)


Na prática, os Estados Unidos são uma ditadura. Não é o povo que decide os rumos do país. Quem escolhe, financia, molda e controla o poder são os grandes complexos da indústria armamentista, do petróleo, dos bancos e das big techs.


Já estou acostumado. Sempre que um país vai ser atacado pelos Estados Unidos, repito a mesma posição: defesa incondicional da soberania e da autodeterminação dos povos. A reação é previsível, uma avalanche de gente com a cabeça formatada pelo discurso imperialista, repetindo propaganda de guerra como se fossem verdades universais.

O roteiro nunca muda. Antes das bombas, vem a narrativa. Primeiro, rotulam o governo de “ditadura”. Depois, fabricam a ideia de um massacre generalizado e, por fim, vendem a invasão como missão humanitária. A opinião pública é preparada como terreno antes do ataque militar.

Já foi assim no Iraque, com a farsa das armas de destruição em massa. No Afeganistão, sob o pretexto de libertar mulheres, deixaram um país em ruínas e o Talibã mais forte. Na Síria e na Líbia, destruíram Estados inteiros e abriram espaço para o caos, milícias e tráfico humano. Na Venezuela, tentaram estrangular a economia para provocar colapso interno. Agora, o alvo é o Irã, seguindo exatamente a mesma cartilha.

Não adianta esclarecer que não há simpatia pelo regime local. Esse detalhe é irrelevante para quem confunde crítica política com autorização para invasão estrangeira. A lógica é binária: se o governo não se alinha a Washington, precisa cair, custe o que custar, inclusive milhões de vidas.

O discurso moral serve apenas como fachada. Nenhuma das invasões promovidas pelos Estados Unidos levou democracia, liberdade ou direitos humanos a lugar algum. O saldo real sempre foi destruição, fragmentação social e dependência econômica. A história recente está aí para quem quiser olhar sem filtros ideológicos.

As motivações reais são materiais e geopolíticas. Roubo de petróleo, controle de rotas estratégicas, sanções como arma de guerra e reafirmação de hegemonia global explicam muito mais do que qualquer fala sobre valores universais. Direitos humanos viram moeda retórica, usada ou descartada conforme a conveniência.

Defender a soberania de um país não significa endossar seu governo. Significa recusar a ideia de que uma potência estrangeira tenha o direito de decidir, à força, o destino de povos inteiros. Essa distinção básica parece impossível para quem já naturalizou o imperialismo como algo “necessário”.

A repetição desse ciclo revela menos sobre os países atacados e mais sobre quem aplaude as invasões. A cada novo conflito, fica claro que o problema central não é a existência de regimes autoritários, mas a recusa em aceitar um mundo que não obedeça a um único centro de poder.

Na prática, os Estados Unidos são uma ditadura. Não é o povo que decide os rumos do país. Quem escolhe, financia, molda e controla o poder são os grandes complexos da indústria armamentista, do petróleo, dos bancos e das big techs. As eleições existem, mas os limites do jogo já vêm definidos muito antes do voto.

Nesse sistema, presidentes são gestores de interesses económicos, não representantes populares. George W. Bush, Barack Obama, Donald Trump, Joe Biden e Bill Clinton acumulam, juntos, milhões de mortes nas suas fichas políticas.

Somados, comandaram ou deram continuidade a invasões, bombardeios, golpes e intervenções diretas ou indiretas em um número enorme de países. Iraque, Afeganistão, Iugoslávia, Líbia, Síria, Somália, Paquistão, Iêmen, Haiti, Panamá, Venezuela, entre outros. O resultado concreto não foi democracia, nem liberdade, nem direitos humanos. Foi destruição de Estados, milhões de mortos, deslocamentos em massa e regiões inteiras jogadas no caos.

Quando interessa, apoiam ditaduras explícitas. Quando não interessa, demonizam governos eleitos. Direitos humanos entram apenas como ferramenta retórica, descartável assim que o objetivo econômico é alcançado.

Chamar isso de democracia é uma farsa conveniente. O que existe é uma máquina imperialista que se recicla, troca de rostos, muda slogans, mas mantém intacta a lógica de pilhagem global. As imagens escancaram aquilo que o discurso oficial tenta esconder: não são salvadores do mundo, são gestores da guerra, do saque e da morte em escala industrial.

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É o colonialismo, estúpido!

(Boaventura Sousa Santos, in Brasil247, 06/01/2026)

O que aconteceu na madrugada do dia 3 de Janeiro em Caracas deixou o mundo estupefacto. Mas a razão mais forte para estupefação é mesmo o facto de o mundo ter ficado estupefacto. O se passou estava anunciado aos quatro ventos. Desde quando? Os menos avisados dirão que desde a subida de Donald Trump ao poder. Mas é, sobretudo, desde a publicação da National Security Strategy, em Novembro de 2025, onde está consignado que os EUA se reservam o direito de intervir em qualquer país sempre que os seus interesses estejam em causa.

Recuemos na historia e analisemos os três componentes principais do que se passou: a surpresa, a captura ilegal de um líder político e as razões invocadas para o acto.

Quanto à surpresa e razões basta recuar a Setembro de 1939. Em 1939, o mundo (o mundo que contava era então a Europa e os EUA) ficou estupefacto com a surpresa do ataque de Hitler à Polónia. Justificação do líder nazi:

“O Estado polaco recusou a resolução pacífica das relações que eu desejava e recorreu às armas… Para pôr fim a esta loucura, não tenho outra escolha, a partir de agora, senão responder à força com força… Destruir a Polónia é a nossa prioridade… Nunca se pergunta ao vencedor se o que ele disse era verdade ou mentira. No que diz respeito a iniciar e travar uma guerra, não há lei – a vitória é o factor decisivo. Há que ser brutal e sem piedade”.

Quem seguisse de perto o comportamento de Hitler podia prever o que se ia passar. Hitler inventava publicamente a agressão polaca enquanto ordenava secretamente ataques surpresa, dizendo aos seus generais para agirem impiedosamente para alcançar a vitória, ilustrando a natureza enganosa da invasão. Inventava-se uma agressão polaca, transformava-se a invenção em realidade através da propaganda e invocava-se a invasão como um acto de legítima defesa. Estava em causa a segurança da Alemanha. Acontece que os diplomatas europeus olhavam, mas não viam, ouviam, mas não escutavam, liam, mas não entendiam. A negação era o disfarce da impotência e da baixa qualidade política dos líderes políticos de então.

Quanto à captura ilegal de líderes, é fácil lembrar o caso do Presidente do Panamá, Daniel Noriega, em 3 de Janeiro de 1990. É, no entanto, preciso recuar muito mais para vermos como uma táctica semelhante já fora usada no passado durante o período do  colonialismo histórico. O Rei Ngungunyane foi, entre 1884 e 1895, o rei do império de Gaza, um território que hoje corresponde em grande parte a Moçambique. Pela sua resistência contra o colonialismo português era conhecido como o “leão de Gaza”. Foi derrotado pelas tropas colonialistas em 1895, em Chaimite. Não satisfeitos com a vitória e temendo que o rei continuasse a alimentar a resistência anti-colonial, os colonialistas capturaram-no e trouxeram-no para Portugal como troféu de guerra. Exibiram-no pela avenida principal de Lisboa. Deportaram-no depois para a uma das ilhas dos Açores, onde morreu em 1906.

Em agosto de 1897, os colonialistas franceses impuseram o controlo colonial sobre o reino Menabé do povo Sakalava, no oeste de Madagáscar, massacrando o exército local. O rei Toera foi morto e decapitado: a sua cabeça foi enviada para Paris, onde foi colocada nos arquivos do Museu de História Natural. Quase 130 anos depois, a pressão dos descendentes do rei, bem como do governo da nação do Oceano Índico, abriu caminho para a devolução do crânio.

Ou seja, exibir na metrópole como troféu os símbolos da resistência (por vezes os líderes em pessoa, os seus crânios ou os seus objectos de arte) é uma prática consistente do domínio colonial. Que o “depósito” seja numa ilha, num museu ou num centro de Nova Iorque é uma questão menor, uma questão de conveniência para o vencedor.

O colonialismo voltou?

Esta é talvez a pergunta mais ingénua que se pode formular neste momento. Assenta na ideia de que o colonialismo é uma coisa do passado, tendo acabado com as independências das colónias europeias. Nada mais errado. O colonialismo é o tratamento de um povo ou de um grupo social considerado como sub-humano e, como tal, indigno de ser defendido pela legalidade internacional ou nacional, pelos direitos humanos ou pelos tratados internacionais. A justificação é perfeitamente racional:  sendo sub-humanos, seria um contrassenso tratá-los como humanos. Isso poria em perigo a defesa dos seres considerados plenamente humanos. O colonialismo é racismo, escravatura, pilhagem de recursos naturais e humanos, ocupação por uma potência estrangeira, expulsão de camponeses ou de povos originários dos seus territórios ancestrais para dar lugar aos “projectos de desenvolvimento”, ao desmatamento ilegal das florestas, ao ethnic profiling, à discriminação racial.  

O colonialismo é um componente permanente e essencial do capitalismo. Escrevendo na Inglaterra e tendo presente sobretudo ocaso inglês, Karl Marx enganou-se quando escreveu que a violência colonial seria uma fase inicial do capitalismo (a acumulação primitiva ou originária) que daria depois lugar à “monotonia das relações económicas assentes na exploração do trabalho livre assalariado”. A violência colonial é permanente e sem ela não existiria capitalismo. Não está presente da mesma forma em todos os lugares do mundo precisamente porque o colonialismo-capitalismo é um projecto global desigual e combinado. De Rosa Luxemburgo a Walter Rodney e David Harvey, este facto é hoje quase consensual que a acumulação primitiva é, de facto, permanente, ainda que não seja a única forma de acumulação.

Mais recentemente, o que foi a criação do Estado de Israel senão um acto de ocupação colonial, um modo revoltante de os europeus descarregarem sobre os povos palestinianos a expiação dos hediondos crimes que eles, europeus, tinham cometido contra os judeus?  A transformação de Gaza na Riviera do Mediterrâneo oriental é algo mais que um acto de recolonização?

Um outro sinal de recolonização é o regresso anacrónico da pirataria. Em tempo de paz ou de guerra não declarada, interferir com a navegação em águas nacionais ou internacionais é um acto de pirataria.

Se Karl Marx, ao tempo em que escreveu (meados do século XIX), vivesse na India, no Egipto ou na Nigéria, em vez de viver na Inglaterra, certamente que teria dado mais atenção ao colonialismo do que ao capitalismo.  O colonialismo foi o primeiro projecto global moderno, primeiro como pioneiro do capitalismo e depois como componente central da consolidação do capitalismo. Por isso, os países pioneiros (Portugal e a Espanha) foram prontamente marginalizados logo que o período pioneiro terminou.

Um período de recolonização e a dualidade de critérios

É justo pensar que a violência colonial e a monotonia capitalista, apesar de serem irmãs gémeas, tiveram períodos de desigual convivência. O período do pós-Segunda Guerra Mundial deu mais e melhor publicidade à irmã capitalista enquanto no período actual, que não começou com Trump nem acabará com ele, a publicidade está do lado da irmã colonialista. Estamos num período de recolonização, enquanto os intelectuais distraídos e com falsa consciência cantam hinos ao pensamento descolonial. Outros, como Yanis Varoufakis, que muito estimo, falam de tecno-feudalismo, esquecidos de que o feudalismo, mesmo na Europa, foi um regime muito mais confinado do que se pensa. Se há algo de novo no mundo, não é o tecno-feudalismo, é o tecno-colonialismo.

Uma das características fundamentais do colonialismo é a linha abissal que separa o “nós” (a sociabilidade metropolitana dos plenamente humanos) e o “eles” (a sociabilidade colonial dos sub-humanos). Esta divisão não tem nada de essencial ou ontológica (a humanidade é una).  É accionada com objectivos tácticos de curto alcance. E o objectivo principal é sempre o acesso livre aos recursos ditos naturais sem os quais o capitalismo não sobrevive. A legitimidade de Vlodymyr Zelensky é tão grande ou tão pequena quanto a de Nicolas Maduro, mas enquanto o primeiro é recebido como um herói, o outro é capturado e tratado como um criminoso. Se de facto Nicolas Maduro não ganhou as eleições, Zelensky é produto de um golpe de Estado disfarçado de revolução colorida (2014) – em que a senhora Victoria Nuland andou a distribuir sanduíches aos manifestantes – e o seu mandato há muito terminou. O prolongamento da guerra é a apólice de seguro para ele se manter no poder. Zelensky há muito que entregou os minérios e as terras às empresas norte-americanas. O crime de Maduro foi não ter entregado o petróleo até agora. Além disso, Zelensky serve para incomodar a Rússia, o principal aliado da China, enquanto a Venezuela se acomoda com ambos

O medo de Vladimir Putin e de Xi Jinping

Como os actuais líderes ocidentais medem os outros pela sua medíocre medida, a sua preocupação não é com a ilegalidade aberrante e bárbara cometida na Venezuela. Estão sobretudo preocupados com a possibilidade de Putin estar agora legitimado para capturar Zelensky ou a China para invadir Taiwan. Não gosto de fazer previsões, mas estou convencido de que os EUA acabam de proporcionar à China e à Rússia uma oportunidade dourada de mostrarem a sua superioridade moral em relação ao Ocidente. Enquanto impérios ascendentes, tem outros meios para impor a sua vontade e de o fazerem com a aparência credível da soma positiva: todos os países ganham, embora a Rússia e a China ganhem mais.

O que se segue?

Li com muita atenção A National Security Strategy (NSS) publicada em Novembro de 2025. Trata-se de um documento importante que devia se lido por todos os democratas do mundo.  O mundo está dividido entre dois poderes rivais, sendo que um deles está disposto a usar todos os meios para vencer o seu rival e de o fazer o mais rapidamente possível. Para isso, tem de transformar a sua zona de influência numa fortaleza defendida por vassalos leais. Os dois vassalos leais são a Europa auto-mutilada (a Rússia é parte da Europa) e a América Latina.  O acesso da China à Europa já está bloqueado. Foi esse o objectivo da guerra da Ucrânia, que os europeus se encarregam agora de consolidar a expensas suas.

O importante é enfraquecer ainda mais a Europa e torná-la cada vez mais dependente dos EUA. Para isso é importante reduzir a União Europeia à irrelevância. O primeiro acto foi o Brexit e recuperar a incondicional lealdade do reino Unido. Agora trata-se mesmo de acabar com a União Europeia: isoladamente, os países europeus são mais fracos e fáceis de governar. Notemos uma das prioridades da política da NSS para a Europa (p. 27): “Construir nações saudáveis na Europa Central, Oriental e Meridional através de laços comerciais, venda de armas, colaboração política e intercâmbios culturais e educativos”.

  Esta formulação mostra como os países dominantes da União Europeia estão excluídos desta política, sobretudo a França, a Alemanha e os países nórdicos. Na Europa Central, Oriental e Meridional reside a esperança da vassalagem. São os países mais débeis, com uma social-democracia mais fraca e, portanto, mais susceptíveis de serem governados por partidos conservadores (de preferência, de extrema-direita), cuja lealdade aos EUA nunca será posta em causa. Os italianos, os gregos, os espanhóis e os portugueses sabem o que isso significa. Por exemplo, os portugueses, em vésperas de eleições presidenciais, certamente já notaram os grandes investimentos na publicidade do partido de extrema-direita, Chega.  Os pobres votam, mas os ricos pagam. Tudo isto para além da enorme presença nas redes sociais. Num sistema semi-presidencialista, um candidato do Chega, uma vez eleito Presidente da República, facilmente convencerá os portugueses que bem quer mudar Portugal, mas que o sistema não o deixa porque a isso se opõem os partidos do bloqueio. Não há outra solução senão provocar uma crise política, dissolver o parlamento, convocar eleições e esperar que o seu partido ganhe as eleições (sozinho ou em coligação com um partido de direita – PSD – cuja agenda política já esteja “adaptada à da extrema-direita). Depois tudo será diferente…

A América Latina é problemática devida às suas importantes relações comerciais com a China. Os processos de desestabilização têm de ser mais duros.  O caso da Venezuela é bem revelador. No caso do rapto do Osama Bin Laden por forças especiais, não morreu nenhum soldado norte-americano e apenas morreram alguns familiares de Osama. No caso de Maduro, terão morrido entre 30 a 40 soldados da guarda presidencial, muitos deles cubanos, conforme informação do governo cubano. Por enquanto, nada se pode confirmar, nem sequer se houve negociações e quem participou nelas. Uma coisa é certa, o povo venezuelano nada sabia e foi apanhado de surpresa. E do conjunto do povo venezuelano ainda menos se sabe (ou se quer saber) do que pensam os povos indígenas venezuelanos (Wayuu, Warao e Pemon, Yanomani, etc) que são 2-3% da população e cuja relação com a revolução bolivariana há muito era tensa devido  à exploração dos  recursos naturais (mineração) nos seus territórios ancestrais.

Seguem-se os três grandes quebra-cabeças da NSS: Brasil, México e Colômbia. México é uma prioridade porque dele vai depender a sobrevivência de Cuba e Cuba tem de cair por ser uma questão de prestígio para o grande estadista, Marco Rubio. As intervenções variam. Gustavo Petro já foi declarado um narco-terrorista. Por sua vez, como os brasileiros bem sabem, o candidato do bloqueio, Lula da Silva, foi preso em 2018 para ser retirado da corrida presidencial.  Os governos que se seguiram privatizaram a riqueza estratégica do país de modo a que, se não se pudesse evitar o regresso de Lula da Silva, este regressasse a um país muito diferente do que o que deixara. E assim foi. Nicolas Maduro também pode voltar, mas se tal acontecer, irá encontrar um país muito diferente, sobretudo no domínio do controlo da exploração do petróleo

Em cada país a estratégia será diferente, mas todas terão algo em comum: a intervenção massiva da BigTech e o controle que estas têm na Internet, nas comunicações estratégicas por satélite e nas redes sociais. Os apagões digitais selectivos vão ser uma das armas para imobilizar a resistência aos desígnios imperiais. A China e a Rússia já hoje começam a precaver-se e penso que têm boas razões para o fazer.

A América Latina está mais dividida do que nunca, como se tornou claro na recente reunião da CELAC (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos). Aliás, alguns dos países não podem jogar a cartada da inocência e da surpresa em tudo o que se passa na Venezuela. Em meu entender, o Brasil cometeu um gravíssimo erro estratégico ao bloquear a entrada da Venezuela nos BRICS. Foi um contributo importante para o isolamento da Venezuela. O outro, ainda mais perverso, veio dos europeus ao conferir o Prémio Nobel da Paz a quem tinha pedido a intervenção militar dos EUA no seu próprio país. Donald Trump é o protagonista desta barbárie, mas não actuou sem receber sinais encorajadores. Sinais impostos por ele? Talvez nunca saberemos.

            E como bloquear a China em África e no Medio Oriente? É difícil dizer se Israel é, à semelhança da Europa, o vassalo leal dos EUA, porque, neste caso, não se sabe quem é vassalo e quem é senhor. O Irão é o grande quebra-cabeças no Médio Oriente; em África, é a Nigéria. A estratégia está bem definida. De uma ou de outra forma, ambos os países estão na mira da neutralização. O elefante dentro da sala da NSS é o que acontecerá no interior dos EUA, uma sociedade empobrecida, dividida, ignorante sobre o que é hoje e iludida sobre o que foi ontem, em suma, uma sociedade onde uma guerra civil a conta-a-gotas já está a ocorrer com massacres nas escolas, supermercados e igrejas. O que nos vale é que a história não é determinista e que o acaso e a resistência dos povos têm razões que a razão imperial desconhece.

Que fazer       

A esquerda e a guerra de libertação

Se é verdade que estamos num período de recolonização, a resposta dos povos só pode ser a guerra de libertação. Mesmo que seja muito diferente das guerras anteriores, a começar com a do Haiti em 1804. Infelizmente, o pensamento crítico e a política de esquerda ainda não se deu conta da transformação, e cada partido vai apresentando o seu candidatozinho ou a sua candidatazinha com o seu programazinho para entreter os longos serões de inverno ou de verão (conforme os países).

ONU e Conselho Europeu

No plano institucional ouso fazer duas sugestões que envolvem dois portugueses que o destino pôs à frente de duas instituições que já morreram e apenas apresentam provas de vida devido à ilusão criada pela inércia da história.

No caso da ONU, António Guterres devia demitir-se de imediato. Seria o único acto de impacto semelhante e de sinal oposto ao da invasão e recolonização da Venezuela. Quem conhece Guterres sabe que ele terá algumas virtudes, mas há uma que não tem: coragem. Lembramo-nos de Kofi Annan e de Boutros-Boutros Ghali e do preço que pagaram por se oporem aos desígnios dos EUA. Guterres já engoliu tantos sapos que virou sapo.

No caso do Conselho Europeu, presidido por António Costa, também este se devia demitir porque a soberania dos povos deixou de ter sentido, sobretudo quando se pertence à zona de influência dos EUA que acaba de lançar a soberania no esgoto dos magníficos edifícios de Bruxelas. Mas Costa tem o mesmo problema de Guterres e tem um outro problema. Para orgulho dos portugueses, o António Costa nunca foi vítima de racismo (que eu saiba) enquanto foi ministro e primeiro ministro de Portugal. No entanto, estou certo de que, se ousasse sair do guião redigido pela embaixadora dos EUA na EU, Ursula von der Leyen, o Presidente Trump seria a primeira pessoa a lançar a carta racista contra Costa com a grosseria que lhe é tão natural. O mesmo aconteceu a Obama quando ocupava a Casa Branca. Obama portou-se tão bem que até foi o grande promotor da morte à distância e asséptica por meio de drones. Vários milhares de pessoas morreram. E até tinha ganho o Prémio Nobel, pois claro. Por isso, de Costa nada a esperar.

Resta o quê? Tudo.

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