A homossexualidade heróica de Pasolini

(António Guerreiro, in Público, 29/07/2017)

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Morreu Giuseppe Pelosi, o “ragazzo di vita” condenado pelo assassínio de Pasolini na praia de Ostia, arredores de Roma, na madrugada do segundo dia de Novembro de 1975. Tinha 59 anos e um tumor no pulmão. A confissão em tribunal e a reconstituição do crime não impediram que o caso ficasse desde sempre envolvido em dúvidas. E agora, anunciando a morte de Pelosi, os jornais regressaram à teoria do mistério: houve uma motivação política no crime? Foi cometido por aquele rapaz, sozinho, que Pasolini tinha “engatado” umas horas antes na praça frente à estação Termini, ou houve mais pessoas implicadas no assassínio?

Nos dias seguintes, a reacção pública à morte de Pasolini era polarizada desta maneira: para uns, ele tinha morrido como sempre tinha vivido, como “um rato de esgoto”; para outros, era o herói trágico de uma forma de vida que, tanto na sua dimensão privada como pública, tanto na literatura, no cinema e na teoria como na sua vida sexual, tinha a radicalidade política e a irredutibilidade idiomática de um herege.

A obra de Pasolini, de uma coerência estrita, na sua pluralidade de géneros e disciplinas, continua vivíssima e até se deu nos últimos anos uma “Pasolini-renaissance”. O que, da lição pasoliniana, pertence ao passado é uma ligação, nas grandes cidades, entre homossexualidade e delinquência: a homossexualidade vista como uma categoria da criminalidade.

Aos olhos da polícia e da justiça, mesmo um intelectual como Pasolini era uma figura típica de um “meio” obscuro, em que as vítimas são tão culpadas como os assassinos. Podemos com toda a segurança pensar que Pasolini sempre preferiu pertencer à categoria dos criminosos, quando a alternativa era ser incluído na categoria psiquiátrica dos “desviantes”.

Ele representou a figura de uma homossexualidade heróica que já não tem lugar no nosso tempo. Pelo tempo em que viveu e pela sua atitude política, Pasolini não aspirava a uma neutralização da homossexualidade, à sua integração estatal, à modelação pelo Estado. Vemo-lo como “uma força do passado” que chega até nós para perturbar a nossa boa consciência, dizendo-nos coisas que agridem e com as quais já não sabemos conviver. Diz-nos ele: antes delinquente que turista do sexo no parque urbano programado ou representante avançado nos horizontes de prazer das mais distintas ordens, corporações e profissões.

Pasolini não foi uma figura respeitável e nunca se deixou neutralizar. Vista a partir do seu observatório (instalado num tempo histórico, mas também num tempo político), a homossexualidade, hoje, embora bem sinalizada com as cores do arco-íris, é uma homossexualidade “branca”. Passámos a um modelo unissexual, uniformizado, comum aos homossexuais e heterossexuais. Pasolini, neste aspecto, surge hoje como um resquício heróico e prodigioso de uma época que parece tão distante de nós como aquela em que os grandes aristocratas e viajantes ingleses e alemães desciam aos países do Sul para “conviverem” com os jovens das classes pobres.

Não é que a atitude seja a mesma: Pasolini não descia aos bas-fonds da Roma proletária com a disposição esteticista com que o barão Von Gloeden se instalou em Taormina, no início do século passado e fotografou os efebos usando as suas prerrogativas de rico aristocrata neo-clássico, imaginando que estava na Grécia Antiga.

Pasolini, pelo contrário, integrou a sua sexualidade na luta política e entendeu que o sexo era algo que tinha de entrar nos cálculos da sua luta contra a burguesia, que ele viu como agente do apocalipse, executora do fim do mundo.

É preciso queimar os jornalistas?

(António Guerreiro, in Público, 21/07/2017)

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António Guerreiro

Numa das suas edições da semana passada, o jornal francês Libération ocupou a primeira página com uma questão provocatória, colocada a propósito de um debate sobre o jornalismo que decorreu na cidade de Autun: Faut-il brûler les journalistes?, “é necessário queimar os jornalistas?”. E fazia um diagnóstico da situação, enumerando algumas razões fundamentais que levaram ao descrédito em que caiu uma profissão outrora respeitada, bem patente numa série de neologismos insultuosos que os franceses inventaram para nomear os jornalistas: merdias, journalops, presstiputes. E as figuras mediáticas que estão sempre na televisão, em debates e como comentadores, são chamados panélistes (porque integram “painéis”). Este ambiente onde se cultiva a suspeita e o desprezo pelo jornalismo e pelo sistema mediático, muito especialmente pela numerosa oligarquia que tem a seu cargo o comentário político e o editorialismo, está instalado em Portugal. A diferença em relação à França é que por cá os jornalistas não ousam colocar a questão publicamente e assimilaram com força de lei este mandamento: “Não farás auto-crítica: o jornalismo é ofício de auto-celebração”. É hoje bem visível que a insurreição contra o poder jornalístico, a que o Libération se referia, está bem activa em Portugal e não consiste apenas numa atitude arrogante das elites intelectuais. Mas a situação portuguesa tem as suas especificidade: sobre a ausência ou a rarefacção de alguns géneros jornalísticos tradicionais, ergueu-se a opinião e o comentário políticos, uma multidão de gente que transita da esfera política para o jornalismo e vice-versa, e começa o dia no jornal, passa à tarde pela rádio e está à noite na televisão. Este sistema conduz ao discurso histérico e à ausência de diversidade intelectual, muitas vezes confundido com a falta de pluralismo político, mas mais grave do que este porque está muito mais naturalizado e dissimulado. E é, além disso, responsável por uma esterilização da esfera pública mediática.

Antes de se ter generalizado a hostilidade em relação ao jornalismo enquanto ramo da indústria do entretenimento (na verdade esta sutura do jornalismo com o entretenimento, que precisa muito mais de “personagens” do que de ideias, é uma operação fatal), já se tinha dado um acentuado êxodo daqueles sem os quais os media ficam afastados de todo o debate intelectual.

A presença, hoje, nos jornais e na televisão, dos chamados intelectuais mediáticos esconde uma escandalosa rasura, na esfera mediática, do que se passa no campo do saber, das artes, das letras, das ciências. Em tempos, de que os mais novos certamente já não têm notícia, o poder jornalístico constituiu-se em luta contra o poder académico, cada um deles com as suas regras e reivindicando a prerrogativa da legitimação. Já vai longe essa inimizade pública: hoje, as duas esferas raramente se encontram.

E isso deve-se ao facto de também a Universidade se ter modificado substancialmente. Mas, sobrepondo-se a todas as alterações no próprio regime de socialização e circulação do saber (no fundo, aquele que tinha sido fundado pelo Iluminismo), está esta nova condição mediática que afasta o debate intelectual ou filtra apenas uma parcela ínfima dele. De um modo geral, foi toda a crítica cultural que desapareceu. Sob os seus escombros, ergueu-se a lógica “people” e “panéliste”, em cuja mobilização total participa alegremente o comentariado político como uma das belas-artes do tempo do jornalismo inócuo, estéril e histérico. O resultado está à vista: os media a funcionar no vazio, alimentando-se de si próprios.

Imprensa e os “Truques”: um poder de pés de barro, em crise e acossado

(Daniel Oliveira in Expresso Diário, 21/07/2017)

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Caro Daniel Oliveira

O teu texto aponta sintomas mas não vai ás causas do mal. Quanto maior for a concentração da riqueza nas mãos de uma minoria a nível global, fenómeno que é cada mais intenso, menos lugar haverá para a existência de instâncias independentes, sejam partidos ou outras formas de representação política, sejam meios de comunicação social. A razão é simples: numa economia de mercado só há concorrência quando o número de compradores e de vendedores for suficientemente grande (atomicidade) para que nenhum deles possa determinar o funcionamento do mercado, nomeadamente dos preços. Se concentramos o poder de compra, logo de financiamento, nas mãos de uma minoria, qualquer instância de mediação fica subordinada a essa minoria. Só há orgãos de comunicação social com alguma independência quando a sua sustentação depende de um conjunto de leitores tão diverso e alargado que nenhum grupo lhes poderá determinar a orientação, já que têm que atender a um conjunto amplo e multifacetado de destinatários. Com o incremento da desigualdade na repartição do rendimento, o público leitor capaz de ser o sustentáculo dos meios de comunicação social é cada vez menor, para já não falar das mutações tecnológicas.

Mas há uma questão que ignoras e que também justifica a reacção exarcebada da comunicação social contra as redes sociais e contra a internet. Durante décadas a comunicação social foi usada de forma oculta para manipular a opinião pública, e nem sempre de forma ingénua (vide a grande mentira sobre a guerra do Iraque e as armas químicas do Sadam).

Ou seja, a comunicação social “respeitável”, tinha o monopólio das “fake news”, e também elas faziam parte do seu “core business”. Neste momento perdeu esse monopólio. E quando se passa de monopólio para um mercado de concorrência, o trauma é sempre enorme.

Estátua de Sal, 21/07/2017


Apesar de ter mais de 150 mil seguidores, muitos leitores não conhecerão a página de Facebook “Os Truques da Imprensa Portuguesa” (https://www.facebook.com/ostruques/).

A página, claramente alinhada à esquerda, dedica-se a denunciar o que considera ser o mau trabalho de jornalistas e órgãos de comunicação social. Concordando com umas coisas e discordando de outras, a recolha é bem feita, com trabalho de pesquisa exaustivo e quase sempre difícil de contestar. Dois pecados. Um menor: as críticas têm um evidente viés político. A maior: o anonimato. Criticar trabalho com assinatura sem pôr a assinatura é desleal. Escrutinar os outros sem dar os instrumentos para ser escrutinado é pouco sério.

Mas não foi por nenhuma destas razões que os jornalistas, e especialmente diretores e editores de órgãos de comunicação social, reagiram com uma rara violência a uma simples página de Facebook. A razão é mais simples: os jornalistas, que se dedicam ao escrutínio, odeiam ser escrutinados.

Sobretudo quando percebem que esse escrutínio é ouvido e lido por muita gente. Estão, aliás, muito pouco habituados a ser escrutinados de forma sistemática. E esse escrutínio torna-se especialmente cruel quando a quase totalidade das empresas de comunicação social está virtualmente falida.

O tempo em que nos queixávamos da proletarização dos jornalistas, cada vez mais alienados do seu trabalho, está a ficar para traz. A coisa está hoje muitíssimo mais feia. A crise, que as redes sociais e o modelo de negócio que entrega todo o poder e todos os lucros às plataformas na Internet, acelerou extraordinariamente na última década.

A imprensa portuguesa pode desaparecer, talvez com exceção de alguns tabloides, nos próximos dez anos. E isso ajuda a explicar uma reação ainda mais agressiva dos jornalistas ao cerco político, mesmo quando legítimo, que lhes é feito por páginas como “Os Truques da Imprensa Portuguesa”.

Sendo a situação portuguesa mais dramática, graças à pequenez do País e da sua massa de leitores de jornais, a fragilidade económica da comunicação social é um problema em todo o mundo. Aconselho, para refletir sobre todas as contradições que este debate complexo nos revela, o visionamento, na Netflix, do documentário “Nobody Speak”. O filme concentra-se no caso que pôs o lutador de wrestling Hulk Hogan (nome profissional de Terry Gene Bollea) contra o site de escândalos Gawker, numa longa e dispendiosa batalha jurídica. À partida, é óbvio identificar o lado certo desta história. O Gawker decidiu revelar um filme de sexo entre o lutador e a mulher de um amigo seu (gravado pelo seu amigo) e o lutador moveu-lhes um processo exemplar em nome do seu direito à privacidade. O problema foi quando se descobriu que por de trás daquele processo, a financiar os advogados e a garantir que aquilo teria uma dimensão absurda para o caso em discussão, estava Peter Thiel, diretor da PayPal e apoiante de Trump, que o mesmo site divulgara antes, sem cometer qualquer crime, ser homossexual. O objetivo daquele processo não era fazer justiça, era servir de instrumento para uma vingança, compreensível mas ilegítima, de um milionário.

No mesmo documentário analisa-se uma história bem diferente, em que o “Las Vegas Journal-Review” é comprado por um empresário do jogo especialmente visado pelo jornal, para garantir o seu silenciamento. Sendo muito mais fácil escolher um lado, a história levanta o mesmo debate: a fragilidade económica da comunicação social torna-a indefesa perante um poder económico cada vez mais concentrado. Nuns casos, são os jornalistas que dão o flanco, noutros limitam-se a fazer o seu trabalho. Os casos em que dão o flanco também se explicam pela sua fragilidade: sem recursos para grandes investigações, é tentador competir por cliques e anunciantes, acompanhando a dinâmica viral das redes sociais. As notícias não têm de ser credíveis se forem muito partilhadas, até porque as pessoas já não têm apenas o ‘seu’ jornal, mas uma sucessão de posts e partilhas onde se misturam histórias pessoais, notícias ‘sérias’ e informações falsas de sites obscuros. Este caminho, que apenas se concentra no sucesso de curto prazo, será a morte da comunicação social. Porque só se o jornalismo conseguir manter a sua pouco lucrativa credibilidade se distinguirá do burburinho das redes sociais e dos sites de notícias falsas e garantirá para si um espaço próprio. Como sobreviverá até lá, ninguém sabe. O mais provável é que não sobreviva.

É neste contexto geral que surgem “Os Truques da Imprensa Portuguesa”, causando um enorme desconforto entre os jornalistas. Um desconforto que resulta desta página identificar esta caminhada para o abismo e expor de forma clara a crescente falta de credibilidade da comunicação social tradicional. Quando a maior fragilidade desta página desapareceu, graças à revelação dos nomes dos seus dois principais promotores, a reação de alguns responsáveis pelos media, com destaque para o diretor adjunto do jornal “Público”, foi reveladora. Não havendo grande espaço para as teorias da conspiração que algumas pessoas alimentaram, passaram a fazer com os “Truques” o mesmo que acusam os políticos de fazerem aos media: um cerco para pôr em causa a liberdade de expressão e a possibilidade de cidadãos escrutinarem a imprensa.

A questão é, no entanto, tão difícil como a do confronto entre Hulk Hogan e o Gawker: o cerco político a uma comunicação social cada vez menos livre acontece no momento em que ela está a um passo do precipício e nada de melhor parece alinhado para a substituir. O que temos é mau. É cada vez pior. Mas a sua morte resultará num vazio trágico para a democracia. Na realidade, acontece com a imprensa o mesmo que acontece com os partidos políticos: a crise de todas as instâncias mediadoras é tão compreensível como dramática. A parte curiosa disto tudo é ver os jornalistas a experimentar a mesma dor que ajudam a infligir aos políticos: o descontentamento popular é alimentado por um cerco que muitas vezes roça a pura demagogia. O problema é que da mesma forma que não temos nada de democrático para substituir as decadentes máquinas partidárias não temos nada de livre e de qualidade para substituir a falida e desacreditada comunicação social tradicional. É por isso que não chega criar páginas para identificar os truques que a imprensa portuguesa usa para participar no confronto político ou económico. É preciso, como na política, ajudar a construir alternativas. Caso contrário a exigência torna-se apenas numa forma de suicídio democrático. A questão é se para além de escrutinar e exigir ainda somos capazes de construir.


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