Há notícias extremamente alarmantes sobre a situação em torno do Irã. Em consultas com o governo Trump — ou melhor, em deferência à ordem de Washington —, os países do E3 (Grã-Bretanha, França e Alemanha), que são os signatários ocidentais remanescentes do acordo nuclear com o Irã de 2015, conhecido como JCPOA, iniciaram o processo de acionamento do chamado mecanismo de snapback com o objetivo de reimpor todas as sanções da ONU contra o Irã, alegando que o país violou os termos do acordo de dez anos.
O Costa estava “horrorizado”. A Ursula brandia mais um pacote de sanções. Os russos eram uns malvados a matar civis e a atacar um escritório da União Europeia, vazio na hora do incidente, mas que ficou sem parte do telhado.
Afinal a Rússia limitou-se a atacar um objetivo militar: uma fábrica de componentes para drones existente a poucos metros do escritório da UE – que a Ucrânia planta em zonas residenciais para evitar que sejam atacadas -, e que levou com alguns dos estilhaços provocados.
Ó Costa, é fácil enganar pategos, mas é mais difícil enganar o Google Maps! 🙂
Vários representantes da União Europeia vieram a público condenar um “ataque russo” contra “infra-estruturas civis” que “causou danos” à Missão da UE em Kiev.
De Ursula von der Leyen à missão diplomata alemã, todos falaram em uníssono, sem personalidade, como é natural. Sucede que tudo isto é falso. E explico facilmente o porquê.
1- Abram o Google Maps e descubram por vocês mesmos.
2- A Delegação da UE na Ucrânia localiza-se na Volodymyrska Ulytsa, n.º 101.
3- Já o British Council, que sofreu danos, localiza-se na Zhylianska Ulytsa, n.º 29.
4- Os dois pontos estão a menos de 140 metros de distância.
5- Agora, façam zoom e vejam o que é que está no outro lado da estrada da Zhylianska Ulytsa, nos números 30 e 32.
6- Até o Google Maps diz que são “UAV components”, ou seja, “peças de drones”.
7- Trata-se da localização da tal Ukrspecsystems, a empresa responsável pelo fabrico e reparação dos drones SHARK e PD-2 que os ucranianos usam para atingir alvos residenciais e civis na Rússia.
Da próxima, Ursula von der Leyen e afins que peçam a Zelensky para não colocar alvos militares junto a civis, muito menos colados à missão diplomática da UE na Ucrânia.
(Por Mark Lesseraux, in Diálogos do Sul, 27/08/2025)
Volodymyr Zelensky (presidente da Ucrânia), Mark Rutte (secretário-geral da Otan) e Ursula von der Leyen (presidenta da Comissão Europeia) durante cimeira em Haia em junho de 2025
Para líderes como Macron, Starmer, Mertz e Ursula von der Leyen, pouco importa que 70% da população da Ucrânia deseje o fim imediato da guerra através de uma solução diplomática...
À medida que os números horríveis (reais) de soldados ucranianos mortos e feridos começam a vazar para os círculos exotéricos da mídia ocidental, fica ainda mais claro o quão distorcida, muitas vezes a ponto de ser criminosa, foi a cobertura da chamada imprensa “mainstream” ocidental sobre a guerra na Ucrânia ao longo dos últimos três anos e meio.
Segundo especialistas militares e políticos como o coronel americano Douglas MacGregor, o tenente-coronel Daniel Davis, o coronel Lawrence Wilkerson (ex-chefe de gabinete do Secretário de Estado dos EUA), o ex-assessor presidencial Jeffrey Sachs e muitos outros, o número real e amplamente aceito de mortos ucranianos está entre 1,3 milhão e 2 milhões.
Recentemente, informações reveladas por meio de quatro ataques hackers a bancos de dados ucranianos (imediatamente rotulados como “propaganda russa” pela maioria dos veículos de mídia ocidental) expuseram os seguintes números de mortos ucranianos, ano a ano:
De acordo com o ex-analista da CIA, Larry C. Johnson: “A Ucrânia está cometendo suicídio total”. Há mais de dois anos, em junho de 2023, escrevi um artigo publicado na Pressenza no qual dizia basicamente que, se a Ucrânia continuasse nesse curso, seria equivalente a cometer suicídio como nação. No mesmo texto, previ que o exército ucraniano entraria em colapso em 2024 e que “depois disso, o aspecto político/óptico da batalha poderia se arrastar até o início ou meados de 2025, mas não mais do que isso”. Os analistas militares e geopolíticos que mencionei no primeiro parágrafo concordaram com essa avaliação na época.
O início da guerra: a verdadeira razão
Em vários artigos anteriores, já detalhei a série de eventos que levaram à fase atual da guerra. Em vez de repeti-los aqui, recomendo fortemente que assistam a esta explicação relativamente curta de Jeffrey Sachs. É absolutamente essencial que TODOS escutem esse ponto de vista, que eu e milhões de pessoas ao redor do mundo compartilhamos:
Por que o conflito deve continuar
Embora eu discorde fortemente da maioria das políticas domésticas e econômicas do governo Trump, concordo plenamente com a tentativa atual do presidente dos EUA de pôr fim à guerra por procuração na Ucrânia. A Rússia está, neste momento, a poucos meses de romper as linhas defensivas centrais que restam ao exército ucraniano. Em resumo: a Ucrânia está sendo aniquilada pela Rússia.
Mesmo assim, políticos como Lindsey Graham, Macron, Starmer, Mertz e Ursula von der Leyen querem escalar o conflito e prolongá-lo o máximo possível, sem nenhuma consideração pela população ucraniana que ainda pode ser recrutada. Pouco importa que 70% dos ucranianos (e crescendo rapidamente) desejem o fim imediato da guerra através de uma solução diplomática.
A razão pela qual políticos estadunidenses querem a guerra em andamento é simples: seus financiadores — os oligarcas que sustentam suas carreiras políticas — estão lucrando fortunas com ela, e pressionam seus “fantoches” para pedirem mais e mais guerra. Ver: Responsible Statecraft, Al Mayadeen e Business Journalism.
No caso dos líderes europeus vassalos como Starmer, Macron e Mertz, a situação é ainda mais patética, pois praticamente apostaram o futuro econômico de seus países no “Projeto Ucrânia”. De fato, Ursula von der Leyen anunciou recentemente um plano de gastar 1,8 trilhão de euros em um fortalecimento militar europeu ao longo da próxima década, voltado principalmente para combater a Rússia.
O que esses líderes míopes e russófobos não entendem (ou fingem não entender) é que a Rússia não quer mais guerra e não vai invadir outras partes da Europa. Lembrem-se do que digo: quando o acordo entre Rússia e Ucrânia for firmado, serão o Reino Unido, a França e a Alemanha — não a Rússia — que farão de tudo para empurrar mais guerra.
Nota: Síndrome de Obsessão Partidária
Existem pessoas que realmente acreditam que concordar com Donald Trump em apenas um tema torna a pessoa uma “traidora da esquerda”. São geralmente os mesmos que ficaram calados ou até discutiram contra quem denunciou o genocídio israelense durante os 17 meses em que Joe Biden o financiou e armou.
Essa síndrome de obsessão partidária, seja vermelha ou azul, é na verdade a forma mais patética de submissão ao poder corporativo/oligárquico que existe atualmente. Se não conseguimos pensar por nós mesmos em relação a guerras (que sempre recebem 100% de apoio dos dois partidos controlados por doadores), não temos nenhuma chance de superar a velha tática de “dividir para conquistar” usada contra nós há décadas.
Trump reabrir canais de comunicação com a Rússia (após três anos de silêncio total da administração Biden) foi absolutamente a decisão correta. Na prática, ao restabelecer o diálogo com a Rússia — o maior poder nuclear do planeta — Trump possivelmente evitou uma guerra nuclear que parecia cada vez mais próxima até o dia em que ele assumiu a presidência. Não reconhecer essa melhora significativa nas relações EUA-Rússia, independentemente do partido a que alguém pertença ou do quanto deteste Trump pessoalmente, é pura cegueira autoimposta.
A queda da casa neocon
O que temos testemunhado nos últimos anos resume-se ao declínio do império neoconservador unipolar dos EUA e à exposição da postura submissa de seus estados vassalos europeus.
Com a ascensão do Brics e a recusa crescente de países não ocidentais em continuar se curvando às ameaças, sanções e violências perpetuadas pelos EUA, Reino Unido e Otan, a maior parte do mundo falou alto e claro — especialmente desde 2022.
O colapso iminente da “casa ultraviolenta do século 21” construída por figuras como Paul Wolfowitz, William Kristol, Donald Rumsfeld, Victoria Nuland e Lindsey Graham já está em curso. A era das guerras intermináveis parece estar chegando ao fim.
Uma nova era de cooperação — em vez de guerra constante contra nossos vizinhos não ocidentais — pode estar prestes a começar. Mas, como disse um sábio do Ocidente: “Ainda não acabou até que acabe”.
Uma questão que se coloca é: a crescente descentralização e nacionalização global, que vem se acelerando devido às últimas duas décadas e meia de violência hegemônica dos EUA, trará consigo um novo conjunto de problemas? A resposta é: muito provavelmente sim. Dito isso, a era unipolar de domínio dos EUA já é coisa do passado. É aqui que estamos, quer queiramos ou não.
Russofobia ocidental
Nas últimas duas décadas, houve uma enxurrada de distorções sobre a Rússia no Ocidente. A visão caricata que temos da Rússia e de Vladimir Putin é baseada em anos de propaganda de quem sempre teve como objetivo destruir a Rússia, derrubar sua liderança e saquear seus recursos — o procedimento-padrão neocon americano.
A Rússia não é uma ameaça para os EUA. Na realidade, gostaria nada mais do que firmar paz com o país norte-americano. A Ucrânia foi usada de forma calculada como um aríete — um proxy — para prejudicar a Rússia sem arriscar vidas americanas.
Isso não significa que a Rússia não tenha seus problemas. Tem, sim. Mas estamos falando de um país com 140 milhões de pessoas que não são tão diferentes de mim e de você.
Nota: O texto segue as normas do português do Brasil