Fonte: BISCATES – PALMAS E PALMINHAS DA DIREITA SEMPRE FAQUISTA – por Carlos de Matos Gomes
(In Blog A Viagem dos Argonautas)
Fonte: BISCATES – PALMAS E PALMINHAS DA DIREITA SEMPRE FAQUISTA – por Carlos de Matos Gomes
(In Blog A Viagem dos Argonautas)
(Nicolau Santos, in Expresso, 12/03/2016)

Depois do patético debate semântico entre o presidente do Eurogrupo e o vice-presidente da Comissão Europeia, Jeroen Dijsselbloen e Pierre Moscovici, com o primeiro a dizer desconhecer a diferença entre “se” e “quando” Portugal teria de aplicar medidas adicionais de austeridade, e o segundo a dizer que viria a Lisboa esclarecer a diferença, o certo é que Moscovici passou por cá e depois de reuniões com Mário Centeno e António Costa (que voltou a garantir que não há qualquer plano B) disse que não discutiu com o Governo português medidas adicionais, remetendo para maio um eventual orçamento retificativo, que na opinião das instituições europeias será inevitável. É espantoso que um orçamento que ainda não foi sequer aprovado pela Assembleia da República mas cujas linhas gerais mereceram luz verde da Comissão e do Eurogrupo seja já considerado por estas instituições como um nado-morto. Mas, como é óbvio, são razões que a razão conhece muito bem.
E a razão que se conhece é que ninguém tem dúvidas de que o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloen, e o vice-presidente da Comissão Europeia, Valdis Dombrovski, ou seja, a linha dura austeritária que continua a pontificar na Europa, tudo fará para minar a solução governativa portuguesa e para inviabilizar o caminho orçamental que tem vindo a seguir.
A linha dura que continua a pontificar na Europa tudo fará para minar a solução governativa portuguesa e para inviabilizar o caminho que tem vindo a seguir
Por isso, não há dia em que qualquer facto que levante obstáculos à atuação do Governo seja abertura de noticiários televisivos, rádios e jornais. Esta semana foi a Capital Economics, uma consultora financeira, a prever que a agência de rating DBRS ia classificar a nossa dívida como lixo, cortando-nos o acesso ao programa de compra de dívida pública do BCE e levando as nossas taxas de juro para 8%, uma “análise”. É claro que tal “análise” teve de ignorar que em 12 de fevereiro a DBRS disse estar confortável com o rating atribuído a Portugal — “BBB”, acima de lixo —, mantendo a perspetiva “estável”; e que a Moody’s no dia 2 de março elogiou a aprovação do OE-2016, frisando que eliminava o risco político.
A última ‘alegria’ de todos os que querem derrubar a atual experiência governativa foi o facto de o Tesouro ter colocado dívida a cinco e dez anos no mercado a taxas acima das da última emissão (cerca de 0,6 pontos), com uma procura menor. Só que na quinta-feira o Banco Central Europeu anunciou o seu fortíssimo pacote de estímulos à economia europeia. Resultado: as taxas de juro das Obrigações do Tesouro de todos os países da periferia caíram a pique e, no caso português, baixaram para menos de 3%. Conclusão: contra as sete pragas do Egito, rogadas pelas Cassandras austeritárias, eis que surge Super Mario (Draghi) a deitar-lhes por terra as previsões. Mais uma vez. Já é preciso azar…
António Saraiva, o bom patrão
O presidente da CIP deu uma entrevista à Antena 1/“Económico”, onde critica o Governo por tentar impor um salário mínimo de 530 euros e por repor os feriados civis sem compensar as empresas, defendendo ainda o trabalho precário ao desemprego. O trajeto profissional de António Saraiva faz supor que algumas coisas que diz são mais para os associados da CIP do que aquilo que pensa. Mas dando como adquirido que o que disse é mesmo o que pensa, então é de perguntar: o que fez a CIP quando o salário mínimo esteve congelado mais de quatro anos? Protestou publicamente? E o que fez a CIP quando o anterior Governo cortou quatro feriados? Também defendeu compensações para os trabalhadores? Terceiro: o que faz a CIP para travar o trabalho precário? Opõe-se-lhe? É que o desemprego tem vindo a descer mas o trabalho precário a aumentar. As perguntas são, talvez, originais. As respostas é que são seguramente velhas e conhecidas.
O estranho caso do dr. Varela
O dr. Varela foi escolhido pela dra. Maria Luís Albuquerque para liderar a supervisão prudencial do Banco de Portugal, após a implosão do BES. Disse a ex-ministra das Finanças: “A supervisão não poderia ter melhor titular.” Por outras palavras, o até aí titular do cargo, Pedro Duarte Neves, tinha falhado e era substituído pelo Poirot da supervisão. O elogio foi tão entusiástico que o dr. Varela passou a ser considerado o putativo sucessor de Carlos Costa. Mas, no final de 2015, as coisas começaram a correr mal ao dr. Varela. O Banif, onde ele tinha sido administrador em representação do Estado, fechou as portas, sem que o dr. Varela, com o seu olho de águia, tenha evitado a catástrofe. E agora demite-se com estrondo: “Não me identifico o suficiente com a política e a gestão do Banco de Portugal.” Pelo meio, o dr. Costa foi reconduzido. Só uma pergunta: quem é o dr. Varela?
Novo ciclo, grande Presidente
Decididamente, respira-se um novo ar político em Portugal. E não tem só a ver com o facto de haver um Governo do PS apoiado pelas forças à sua esquerda, o que nunca aconteceu em 42 anos de democracia. Essa tendência ficou agora reforçada com a saída de cena de Cavaco Silva e a ascensão a Belém de Marcelo Rebelo de Sousa. Nas intervenções que já fez, bem como nos atos destinados a assinalar a sua tomada de posse, Marcelo distingue-se do seu antecessor pela forma e pelo conteúdo, mas afasta-se igualmente da política seguida nos últimos quatro anos pelo Governo PSD/CDS, ao defender que “finanças sãs desacompanhadas de crescimento e emprego podem significar empobrecimento e agravadas injustiças e conflitos sociais”, bem como um sistema financeiro “que não crie ostracismos ou dependências contrárias ao interesse nacional”. Habemus um grande Presidente!
As
perucas das senhoras em quimioterapia uma
vez por semana fogem para o
cabeleireiro. As donas
calvas
das perucas têm de ser pacientes —
sair de lenço à cabeça
(ocultando a alopecia)
passeando o infortúnio até a noite baixar.
Há que dar tempo às perucas. Mais
que nunca estão exaustas da doença prolongada
e não prescindem do ensejo de
lavar e pentear até
se sentirem refeitas. Há que apoiar as perucas
nesta fase complicada. Não é fácil
escutar as donas o dia inteiro a ter
tão maus pensamentos.
(João Luís Barreto Guimarães, ‘Balada dos maus pensamentos’, in “Mediterrâneo”, Quetzal, março de 2016)
(José Pacheco Pereira, in Público, 05/06/2016)

Pacheco Pereira
O PS sabe muito bem o que aí vem e que precisa de ter uma resposta política concertada face às exigências “europeias” e que estão longe de poder ser acomodadas por um qualquer pacífico Plano B.
Quem veja nestes dias um noticiário da televisão sem som parece que o tempo andou para trás. Passos Coelho passeia-se por feiras e encontros de empresários, “inaugura” escolas em autarquias do PSD, tratado como primeiro-ministro, com a postura oficial de um primeiro-ministro, com a bandeira da lapela usada pelos membros do seu Governo e que continua a usar para não deixar dúvidas que se considera ele próprio o primeiro-ministro com direito ao cargo, que outros usurparam numa espécie de golpe de Estado.
O mais interessante é que faz todas estas coisas no âmbito de uma campanha eleitoral interna para a liderança de um partido político, ou seja, uma questão mais do interior do foro partidário não há. Nem sequer é como líder do PSD, logo da oposição, mas como candidato numa eleição interna de um partido. António Costa ao lado dele, informal e com comitivas mais ou menos caóticas, com a clara má vontade dos seus acompanhantes empresariais, parece, esse sim, um candidato em passeio eleitoral. De um lado a pompa do Estado e da função, do outro o aspirante esforçado a um qualquer cargo eleitoral de uma autarquia.
A expressão que usei várias vezes de “primeiro-ministro no exílio” popularizou-se e escapou ao autor, mas corre o risco de ser vista de um só lado, o do bizarro primeiro-ministro que não o é, e não do lado do exílio. Que terra de exílio é esta que se parece tanto com o Portugal do passado recente, como se fosse uma viagem no tempo? Ou não será mesmo o passado e o tempo deixou de se mover e a seta da entropia encravou? Por que razão é que a “velha” política custa tanto a desaparecer?
Esta é uma reflexão urgente, porque um certo facilitismo e complacência que surgiram à esquerda com a vitória política da formação do Governo não correspondem a uma alteração significativa das condições prevalecentes nas vésperas das eleições legislativas. Ou seja, Passos Coelho está bem onde está e é Costa que está numa terra de ninguém que ainda não foi efectivamente ocupada e que corre o risco de nunca o vir a ser. Voltemos à pergunta: por que razão é que a “velha” política custa tanto a desaparecer?
Há várias respostas a esta pergunta e todas complementares. Primeiro, porque existe um considerável apoio popular e eleitoral à política do ex-PaF, há muita bipolarização agressiva. O PaF teve um bom resultado eleitoral no contexto das eleições em 2015 e, em particular, o PS perdeu-as. A legitimidade da maioria que resultou dos acordos PS-BE-PCP é inquestionável como a afirmação de que uma maioria dos portugueses queria mudar em 2015 e votou contra o Governo anterior do PaF. Mas se tudo isto é verdade, nem por isso se transforma numa grande vantagem política, se der origem a um governo defensivo que se comporta como estando sitiado e a forças políticas que o apoiam mais olhando para o seu umbigo do que para a conjuntura geral.
Segundo, porque o PS, permanecendo no terreno da ortodoxia europeia, não se consegue libertar para fazer a política que pretende. Com algumas pequenas concessões e menos rigorismo europeu, podia, mas ninguém lhe fez essas concessões não porque elas significassem uma qualquer revolução na política económica, que continuaria dominada pelo défice, mas pelo facto de hoje a “Europa” ser um instrumento político crucial de apoio aos governos da direita radical, como o PSD-CDS em Portugal, e o PP em Espanha, e como os tempos estão de crise para essa direita, não se pode dar ao luxo de permitir uma débil experiência de que “há alternativa”.
Terceiro, e este é um ponto fundamental que explica a paisagem patronal (mais do que empresarial) dos passeios de Passos Coelho, é que existe uma poderosa coligação de interesses à volta do PSD e do CDS, mais do primeiro, porque é maior, e que esses interesses viveram num paraíso nos últimos cinco anos e estão com síndroma de abstinência do tempo em que o governo lhes pertencia.
Por isso, o país, apesar de ter tido uma revolução política, está longe de sair do terreno da “velha política”, e as enormes pressões nacionais e internacionais, que todos os dias fazem marcação ao Governo lembram-lhe que “não há alternativa”. Todos os dias um relatório nacional ou internacional diz ao Governo de Costa que o “caminho” conduz ao “desastre”, que eles sabem muito bem que ajudam a acontecer com tais “prevenções”. Eu mato-te e digo-te todos os dias que vais morrer.
O Governo anterior também tinha documentos do mesmo teor, só que eram repreensões amáveis, muito mitigadas, porque o Governo era dos “deles”. Quando, em vésperas de eleições, o FMI começou a mudar de tom e a pôr em causa a “obra” do Governo PSD-CDS, o ministro da Economia esnobou do relatório, que, disse, nem merecia ser lido. Seria interessante saber o que é que o FMI diria do PaF se cumprisse o seu programa eleitoral, o que obviamente nunca iria acontecer.
Com o PS este clamor quase diário de declarações e ameaças é para irem à jugular do Governo e acabar com ele. E, para acabar com ele, basta colocá-lo entre os controleiros de Bruxelas e as agências de rating, de um lado e do outro os seus aliados à esquerda que se colocaram imprudentemente atrás de várias linhas vermelhas que sabem muito bem que o Governo pode ter de atravessar. Sim, porque o PS entre a “Europa” e os seus aliados vai sempre escolher a “Europa”.
Por isso, a estratégia de Passos Coelho tem sentido do ponto pessoal e partidário. Não é por acaso que Passos Coelho alimenta a esperança de eleições a curto prazo, mesmo que, por conveniência, o disfarce — aliás, bastante mal. Passos conta com a superficialidade do discurso jornalístico para dizer numa entrevista que não quer eleições e os títulos tomarem-no a sério, quando tudo o que ele faz e diz só tem sentido para o curto prazo. E, no curto prazo, não é uma estratégia irrealista, bem pelo contrário. Passos tem tudo a seu favor a curto prazo e tudo contra a médio. E conta com a União Europeia para derrubar o Governo de Costa e com os múltiplos ecos da política do “ajustamento” que ainda ecoam alto e bom som por todo o lado.
O debate final do Orçamento e algumas declarações recentes de responsáveis do Bloco, do PCP e da CGTP já mostravam maior consciência do problema. Mas a chave está no PS. O PS sabe muito bem o que aí vem e que precisa de ter uma resposta política concertada face às exigências “europeias” e que estão longe de poder ser acomodadas por um qualquer pacífico plano B. O que lhe vai ser pedido pode ser apenas um “sinal”, como agora se diz, mas esse “sinal” será sempre de rendição — obrigar o Governo a fazer a política do “ajustamento”, e, mais do que isso, com os alvos habituais do “ajustamento”: trabalhadores, funcionários públicos, pensionistas, classe média.
É suposto haver uma seta do tempo. Ela explica por que razão só com um enorme esforço e energia se é capaz de fazer a pasta dos dentes regressar ao interior da bisnaga. Mas o que a situação actual revela é que há demasiados dedos a tapar a pasta para não sair, e a pasta precisa de muito mais força para os contornar. O tempo pode voltar para trás, porque ainda não andou decisivamente para a frente.