O REI FALOU! Calem-se…

(Joaquim Vassalo Abreu, 18/10/2017)

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O Excentíssimo Sr. Presidente da República, quero dizer o REI, porque amigo do Povo como todos os Reis, falou e disse! Mas o que disse? Nada! Como todos os Reis…

Mas, como parêntesis, eu não posso ser considerado um adepto incondicional deste Rei porque, antes mesmo dele ser eleito, eu escrevi umas diatribes acerca do cujo e às quais, como estão escritas, eu não posso renegar! Foram escritas e publicadas no meu Blog, esse que todos conhecem!, nos dias 11 e 13 de Dezembro de 2015, O Marcelo nada! e  O MARCELO NADA (2).

Mas ele hoje falou e disse! O quê? Pouco mais que nada. Mas o Rei Marcelo é o supremo Comandante-em-chefe de todas as Forças Armadas, e chefe maior da Nação, o que quer dizer o seu principal responsável. O responsável supremo, melhor dito.

Ou não? Será ele apenas decorativo? Pois não parece! Pois ele quer saber de tudo e sobre tudo opinar…embora não emitindo veementes avisos como o outro…

Ele comanda, como disse ( mas será que é apenas decorativo?), tudo o que são Forças Armadas, da terra, do mar e dos céus, armadas e não armadas, e já agora ele é, para além disso, dono de tudo o que é político e não político, para além de todos os beijos e abraços e também das selfies

Mas, perante a calamidade, da qual todos devemos pedir desculpa às vítimas pela nossa inoperância e alheamento, os militares que ele tão galhardamente comanda foram para o terreno? Isso era com as chefias…

Demiti-los e já! E os tais meios humanos que faltavam e não apareceram, ficaram onde? Nos quartéis! Fazendo escalas e jogando à sueca, para nào falar em jogos mais “hard”? Isso é com as chefias…

Mas então para que serve o Sr. Presidente, Comandante-Em-Chefe de todas as Forças Armadas e Rei daqui e de além mar, pois temos a Madeira e os Açores para além das Berlengas e das Selvagens, num momento de crise aguda? Para inspeccionar as tropas em desfile, para beijar e para ” selfiar”! E para falar…Mas só!

Ele revista as tropas, certifica-se que estão bem alinhadas, fazem-lhe continência e ele segue hirto e educado. Como manda o protocolo, dele e dos outros todos! Mas que manda? Nada!

Aí ele faz, sem dúvida, de figura decorativa! Mas, no caso premente, o que faltou? O Exército! E todo o mundo notou, Sr. Presidente-Rei-Em-Chefe! Culpa do Governo? Não, de V.Exª, quer dizer, das chefias…já me ia esquecendo…

Mas mais, para além dos meios humanos que todos reclamavam (não há bombeiros para acorrer a mais de quinhentos fogos, já lhe ocorreu?)  faltou também a sua larga e extensivamente frota, de tudo o que imaginar se possa, pois eu vejo-a amiúde desfilando aqui pelas ruas da Póvoa e pavoneando-se como que dizendo: “nós existimos”!

Mas elas têm tudo para desfilar, assim como desfilam no dia glorioso da Pátria e da grei, para além de Camões e das Comunidades, como desfilam todos os arsenais que reservadamente possuímos! Só não desfilam os submarinos pois estes, para além de boiarem na Doca de Santos, só andam pelos fundos dos mares, cumprindo funções de elevadíssimo risco…pois estão debaixo de água e isso é sempre um risco!

Mas, veja bem, ainda há quem pergunte, e só pode ser alguém que da sua própria Pátria mostra asco, para que servem as Forças Armadas e, concomitantemente, note a insinuação, o seu Comandante-Em-Chefe! Para desfilar, dizem eles, do fundo da sua enorme ignorância. Deus lhes perdoe, já que a Pátria tal não pode fazer…

Mas é isso, Sr. Presidente: Sua Exª disse nada, e nada é o que eu esperava ouvir, e sem surpresa!

Mas agora, digo-lhe com toda a franqueza Sr. Presidente, esperava mais de si! Para além de, sem quaisquer tibiezas, ter exigido do PM a demissão da Ministra e de toda a gente do aparelho de Estado, que como dizem os doutos comentadores falhou, enfim, que não da sua, o único imune a qualquer responsabilidade  como qualquer Rei deve ser, S. Exª, tal como a totalidade dos comentadores, opinadores, opinadores disto e daquilo e de tudo e de nada, sabedores e especialistas em tudo e até na “vox- populi”, não referiu nunca aquele pequeno pormenor: é que foram ateados mais de quinhentos fogos numa só noite!

A S. Exª, um ser tão arguto e de pensamento mais rápido que o do Lucky Luck, não lhe surgiu nada? Uma pequena estranheza que fosse? Nenhum assessor, na ausência de sua lembrança ( o Senhor pode ser dotado mas na intempérie de informaçào há sempre algo que pode escapar pois ninguém é sobre-humano, embora haja quem assim faça por parecer…), lhe insinuou sequer: Mas, Sr. Presidente  e Comandante-Em-Chefe de todas as Forças Armadas, do mar,da terra e do céu, é que são mais de quinhentos …! Eu sei, disse V. Exª seca e distraidamente…

E foi assim a decisiva intervenção das nossas Forças Armadas, neste inaudito e inusitado conflito entre as forças do bem e do mal, do mafarrico contra as gentes ordeiras, com o seu Comandante Supremo na chefia!

Tão grandiosa foi a vitória, pesem as mais de trinta vítimas (pedimos-lhe desculpa), que resta apenas dizer: Parabéns incendiários…great job!

PS: Perante as tamanhas alarvidades que eu tenho ouvido, as minhas banalidades são pormenor…


Fonte aqui

As reações ao furto nos paióis em Tancos. Entre o grotesco e o tétrico

(Major-general Carlos Branco, in Expresso Diário, 10/07/2017)

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(Artigo de opinião exclusivo para o Expresso do major-general na reserva Carlos Branco, a propósito do polémico furto em Tancos.)


Tem corrido tudo mal, ou quase. São poucos os intervenientes que ficam bem na fotografia. Os desenvolvimentos que se seguiram ao furto apenas vieram agravar a situação. O Ministro da Defesa assumiu inicialmente a responsabilidade política do furto – sem explicar o que isso significava – para uma semana mais tarde (muito tarde) afirmar na comissão parlamentar de Defesa que se tratava de um problema operacional militar. Aproveitando a gafe, a oposição reforçou os pedidos de demissão, quando na verdade as falhas de segurança apenas aos militares diziam respeito. As associações profissionais juntaram-se ao coro, tentando explicar aquelas falhas com o desinvestimento efetuado na defesa pelas sucessivos governos, apontando o dedo ao poder político. Ninguém conseguirá explicar ao país que a videovigilância estava avariada havia cinco anos, a rede sem eletrificação, e a iluminação (holofotes) inexistente, etc. devido à falta de investimento nas Forças Armadas. Não é claramente um problema dos políticos, mas sim dos militares. Independentemente de especulações legítimas que se possam fazer, não restava ao CEME (Chefe do Estado-Maior do Exército) outra alternativa que não fosse a contrição. O que fez bem.

Entre várias opções, o CEME escolheu uma particularmente injusta e desajeitada – a exoneração de cinco comandantes – criando um problema desnecessário, dando argumento a quem o acusava de ter cedido às pressões do ministro. Esta falta de esclarecimento foi aproveitada por dois tenentes-generais para um ajuste de contas, sob o pretexto do seu compromisso com elevados valores éticos. Era a oportunidade, após terem conspirado, traído e sabotado de uma forma constante e consciente a ação de comando do CEME – nunca aceitaram terem sido preteridos na escolha para CEME – e apoiado discretamente os promotores de uma manifestação sediciosa de entrega de espadas nas suas exortações à revolta, sobretudo depois de saberem que nenhum deles seria escolhido para vice-chefe. Igualmente insólito é a incoerência do anúncio público antecipado de demissão, depois de terem criticado o CEME de ter feito algo semelhante relativamente à exoneração dos cinco comandantes, contrariando um compromisso assumido com os restantes generais do Conselho Superior do Exército.

Assim como a flauta de Hamelin, as palavras “paióis” e “Tancos” atraíram para o espaço mediático especialistas formados à pressa e com conhecimento colado com cuspo. O espetáculo tem sido degradante, dada a despudorada ignorância dos intervenientes.

As manchetes dos jornais insistem no roubo de armamento, quando parece não terem ainda percebido que não foram furtadas armas, mas sim munições, explosivos e outros artefactos militares; um conhecido canal de televisão explicou-nos que uma granada defensiva funcionava por vácuo; o diretor de um reputado jornal, tão conhecedor do pensamento de Sun Tzu, passada uma semana não sabia ainda que o CEME tinha comunicado a exoneração aos visados antes de a anunciar publicamente; um proeminente economista da nossa praça, reciclado em especialista de defesa, em prime time televisivo, não perdeu oportunidade de alardear a sua ignorância questionando a necessidade da existência de tantos paióis, esclarecendo as hostes que “deveria haver uma concentração do armazenamento”. Terá de explicar essa teoria aos iletrados da NATO, e já agora arranjar uma avença para explicar essas ideias geniais nas escolas militares. O seu colega de debate chamava “carregamento” a “carregadores”. Outros eruditos atribuíam um papel decisivo ao atraso na disponibilização de verbas para arranjar a rede do paiol, quando esse assunto é absolutamente irrelevante para explicar o sucedido. Ficamos por aqui em matéria de comunicação social.

A PGR não comunicou ao gabinete do Ministro da Defesa Nacional (MDN) a suspeita de roubos de armas e ainda ninguém colocou o cargo à disposição. A inqualificável baixeza ética dos deputados da comissão parlamentar de Defesa que passaram para a comunicação social informação sobre o que se estava a discutir à porta fechada não terá sido o melhor exemplo de responsabilidade democrática (não será difícil adivinhar de que bancada terá vindo).

Parece que, para além do presidente da Comissão, mais ninguém condenou a ocorrência. A falta de respeito pelas regras, sem consequências, tornou-se trivial. Entretanto, afirmando estar no limite das suas responsabilidades, o Presidente da República tomou a iniciativa e foi a Tancos inteirar-se da situação rebocando o contrariado MDN, enquanto o primeiro-ministro está a banhos.

No meio disto tudo, as unidades continuarão a ter a segurança nos mínimos, nalguns casos abaixo dos mínimos; e os comandantes a terem de desviar verbas destinadas para a instrução e o treino operacional para pagar a água, luz e gás, evitando o seu fecho; continuará a incapacidade dos dirigentes do ministério da defesa em encontrar soluções para resolver os problemas do recrutamento, e evitar o definhamento em que se encontra a Instituição Militar. A atuação medíocre da maioria dos intervenientes nesta comédia sinistra é um bom retrato do país.


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Brincar com a tropa

(Sandro Mendonça, in Expresso Diário, 06/07/2017)

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A operação levada a cabo em Tancos, complexo militar no coração do país, deve ser visto como uma operação planeada e executada contra o Estado português.

Em tempos de paz o perigo vem muita vez de dentro. Se as armas pesadas estão com os militares, pois estes asseguram o monopólio da violência, então uma prioridade da Defesa Nacional tem de ser defender a sociedade dessas próprias armas. Não tem charme nem dá medalhas, mas o controlo das armas não pode ser esquecido como função prioritária pelo sistema de segurança. Isto inclui as polícias: quantidades industriais de armamento ligeiro ou pesado não podem simplesmente evaporar-se.

Forças portuguesas participam e participaram em várias operações no estrageiro, juntando-se a várias missões de patrulha marítima ou de manutenção de paz no terreno. Não se pode pensar que, nestes temos de globalização fluída e fronteiras porosas, o risco não vem bater à porta da própria base de partida.

Diz-se por aí que Portugal, depois da Islândia e da Nova Zelândia, está no pódio dos países pacíficos. Se repararmos estes são países distantes, separados e insulares. Não é o caso de Portugal: bastante central, aliás, termos de rotas internacionais e transcontinentais. Não há portanto nada de predestinado, e o país não é à prova de instabilidade.

Não é tanto uma questão de “os brandos costumes” mas sim de “os bananas do costume”: a espécie sobreviveu porque à porta da caverna estavam uns tipos que não dormiam, lá para o fundo da gruta havia quem ressonava contando carneirinhos pacíficos.

Pois bem, pode dizer-se que a questão é complexa mas:

1. Quão recorrente eram os furtos de material não-bélico em Tancos e em outros paióis? Para dar um exemplo caricato, os kits de sobrevivência do exército têm o condão de “voar”: quem reconhece os talheres encaixáveis destes kits sabe do que eu estou a falar, eles são visíveis por aí, a uso no meio da sociedade (como lá chegaram?!). Porque razão estes sinais fraco nunca foi sistematicamente reportados? Como se construiu e consolidou uma cultura de não-reporte e envergonhada implícita conivência? Uma cultura de “broken windows” na tropa levou depois a este escândalo?

2. Pois, a verdade é que nos anos da troika o “número de bombeiros caiu 10% e de militares desceu 15% no período da ‘troika’”, como apontou Mário Centeno perante a Comissão parlamentar de Orçamento, Finanças e Administração Pública. Mas muitos desses estavam na parte mais adiantada da distribuição etária. A falta de recursos não justifica tudo. A quebra de serviço terá uma natureza sobretudo organizacional.

3. A oposição fala de cativações, tendo ela própria usado e abusado desses expedientes quando estava poleiro. Tem a lata de falar de cativações, mas não a honestidade de falar de “Descativações”. A Conta Geral do Estado referente a 2016 efectivamente mostra que na Administração Central quase metade das verbas foram desbloqueadas e que onde houve mais descativações foi na “aquisição de bens e serviços” com destaque para a Segurança Interna e Defesa Nacional (páginas 102, 103 e 104).

4. Mas um problema nunca vem só. Cedo se percebe que quando há problemas como este e como os fogos (como já me referi aqui) há personagens estrangeiros que se tentam aproveitar e se esforçam por atiçar ainda mais a confusão: e estas iniciativas de interferência estão a vir dos dois maiores jornais espanhóis. Agora foi o caso do jornal El País a cometer mais um exemplo de sub-jornalismo. Tanta incompetência e falta de sobriedade não pode apenas ser talento, é mau demais para ser aleatório. Estas instâncias têm todo o perfil de tentativas plantadas de interferência no processo democrático e de beliscar a serenidade das instituições. E assim devem ser assim sinalizadas.

Brincar com a tropa é coisa bem séria.