Os cornetas

(Carlos Matos Gomes, in Facebook, 28/10/2024, revisão da Estátua)


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Os cornetas. Desde que entrei para a tropa, aos dezessete anos, que tenho uma má relação com as cornetas. A corneta emite um som que me é desagradável. Nos antigos regulamentos militares, para a especialidade de corneteiro deviam ser escolhidos algarvios, vagabundos e outra gente de mau porte. O corneteiro de facto é sempre um mau músico que se esforça para soprar o seu instrumento e transmitir as ordens do seu chefe.

As  televisões são hoje o lugar de exercício dos corneteiros – dos cornetas  -, e ganharam um estatuto de quase músicos, sendo certo que são uns artistas. Marcelo Rebelo de Sousa será o caso de maior sucesso; alcançou um estatuto de flautista que lhe permitiu chegar onde chegou. 

Hoje há três cornetas principais, com direito a toque sem contraditório e que procuram transmitir as ordens à formatura que são as audiências: o mãozinhas Marques Mendes, o elegante Paulo Portas e o Nuno Rogeiro, a versão local do Bernard-Henri Lévy.

Estas três cornetas trazem as perguntas que entregam às partenaires e debitam o seu solo. Dão umas fífias, mas fica o som roufenho. Estes cornetas consideram normal, fazerem solos para o pagode, e que este os tome por músicos sérios.

Quem não se sente não é filho de boa gente

(Carlos Matos Gomes, in Facebook, 24/10/2024, revisão da Estátua)


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O primeiro-ministro, após 18 dias de reflexão sobre o tipo de relacionamento do Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros com as Forças Armadas Portuguesas, e que teve como episódio mais marcante o da histeria do ministro ofendendo o chefe de um Ramo das Forças Armadas e o comandante de uma unidade militar, declarou que não apenas mantém a confiança em Paulo Rangel, como mantem a “absoluta confiança”, enfatizou.

O papel das Forças Armadas na arquitetura do Estado está definido na Constituição. As Forças Armadas são uma instituição nacional, tem organização e hierarquia definidas constitucionalmente. O ministro da absoluta confiança do primeiro-ministro entende-as como uma banda que toca em seu louvor. Não revela a mais elementar ideia do que é ser “soldado”.

Deixo aqui, na imagem, o emblema que pessoalmente considero mais “marcante” das forças armadas: o escudo, a adaga e a coroa de louros.

Julgo que, com a política de hímen complacente, hoje em dia dominante, que a “cena” do ministro será tomada como uma birra de um irresponsável de toda a confiança.

Estou curioso, mas dentro desse principio do não se passou nada, nas cerimónias do dia 25 de Novembro – o da restauração da ordem, da disciplina, da dignidade das forças armadas, todos os protagonistas surgirão aos olhos do povo alinhados e sorridentes.

 Afinal a Força Aérea é uma companhia de transportes, o aeródromo da Portela é um apeadeiro, há um ministro de Estado e um chefe de estação e, segundo os jornais, havia uns camelos fardados que não tocaram as fanfarras e os bombos à entrada do ministro.

Ditosa Pátria que tais filhos tem. Não coloquei propositadamente a foto de qualquer general português; eles são fruto desta doutrina personificada em Paulo Rangel e em Montenegro, em Marcelo Rebelo de Sousa e Aguiar Branco. No dia 25 lá estarão, firmes e hirtos nos lugares marcados pelo protocolo. E nada de estender a mão ao Paulo Rangel. Quanto aos outros, há que perguntar antecipadamente, para evitar mais vexames.

Deixo a lembrança, esbatida, do general Eanes, tido como o que deu o pontapé de saída para o atual regime, ou que, no mínimo surgiu como o rosto dos generais do novo regime. Como é que Eanes cumprimentará Rangel?

Da Avenida da Ilha da Madeira ao Estádio da Tapadinha. O Desnorte na Defesa Nacional

(Major-General Carlos Branco, in Diário de Notícias, 05/05/2024)

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As tensões entre civis e militares e a frequente interferência destes na política nacional remontam ao século XIX. Salazar tinha fundados receios da Instituição. Por serem o sustentáculo do regime gozavam de considerável autonomia e poder. Não foi por acaso, que os Presidentes da República durante o Estado Novo foram sempre militares, e os militares ocuparam lugares proeminentes no aparelho de estado, em particular no ministério da guerra e mais tarde no da defesa.

Essa autonomia explica, por exemplo, a reabilitação de personalidades como Costa Gomes. O facto de ter participado na intentona de Botelho Moniz (Abrilada de 1961) – sendo na altura subsecretário de estado do Exército, terá sido inclusivamente o seu mentor – não o impediu de exercer posteriormente as funções de 2.º comandante da Região Militar de Moçambique e de comandante da Região Militar de Angola, chegando mesmo a ocupar o cargo mais elevado das Forças Armadas.

No Portugal democrático, a presença dos militares na política acabou, e bem, em 1982, com a extinção do Conselho da Revolução. Contudo, o passado não foi esquecido. Não só permaneceu o ressentimento das elites políticas relativamente aos militares, sobretudo as do “arco da governação”, como foi considerado ser o momento para o ajuste de contas, que já leva quase meio século.

A direita nunca perdoou aos militares terem feito o 25 de abril, e a esquerda não conseguiu superar os complexos e recalcamentos do passado. O revanchismo ficou bem patente nas palavras “cordatas” de Freitas do Amaral quando afirmou “que se lhe apetecesse poria almirantes e generais a andar de bicicleta.” A Instituição tinha de ser sangrada lentamente, pausadamente, progressivamente e sem alaridos ou sobressaltos. Foi o que fizeram a maioria dos responsáveis pela defesa no Portugal democrático, independentemente da cor política. Enfraquecer a Instituição militar para que não pudesse nunca mais vir a constituir uma ameaça.

Mas, na verdade, as elites políticas não se contentaram com o controlo democrático das Forças Armadas, quiseram ir mais longe e governamentalizá-las. Sob a capa da subordinação ao poder político criaram uma organização domesticada, anémica e subserviente. Conseguiram-no, com sucesso! Isso foi particularmente notório nalguns governos do PS, que se destacaram por interpretações muito singulares do conceito de controlo democrático das Forças Armadas.

Essa relação de subserviência, acompanhada pela descida do seu estatuto social, materializou-se de várias maneiras, em particular na perda de direitos e esvaziamento da condição militar, transformando convenientemente os militares em funcionários públicos. Esse tem sido o grande sonho de vários ministros. 

A evolução da carreira militar nestes últimos 50 anos, comparativamente com a de outras carreiras da função pública – magistrados, professores universitários ou diplomatas – fala por si. Mas afinal para que serve discutir vencimentos, saúde e condição militar? O fervor patriótico deveria resolver tudo isso. Mas a verdade é que não resolve. Ser funcionário público tem consequências em matéria de direitos.

O prestígio da instituição militar tem-se esvaído progressivamente. Não será por acaso que a carreira militar deixou de ser atrativa tanto para o quadro permanente (QP) como para o regime de contrato. Assistimos ao abandono das fileiras de quadros superiores experientes, que optam por vidas fora da instituição com maior dignidade e reconhecimento social. Passou-se da miséria dourada, como se dizia antigamente, para a miséria deslavada. Pensávamos que tínhamos batido no fundo… enganámo-nos! É possível ser ainda pior.

Julgámos injustamente que o novo ministro da defesa não tinha pensamento sobre a matéria, mas afinal tem! E pensa arrojadamente e ‘out of the box’. Nada mais adequado para resolver a falta de quadros das Forças Armadas do que as transformar em reformatório. Jovens que cometam pequenos delitos devem cumprir serviço militar, em vez de ingressarem em “instituições que são escola para o crime,” para se tornarem “cidadãos melhores”. No meu tempo para se ir para a tropa tinha de se ter o cadastro limpo, parece que no futuro se irá para a tropa para limpar o cadastro.

Mas um mal nunca vem só. Afinal, o Ministro da Defesa não está sozinho. Há mais ministros no Governo a pensar o mesmo. No aprimoramento da coisa ainda vão buscar inspiração ao cozinheiro de Putin. O responsável por esta veia correcional até poderá ter sido o Exército, uma vez ter sido polícia na tropa. Quando o rei ficou nu, confrontado com as reações em cadeia, passou a viver em realidade paralela.

Com a Cimeira da NATO à porta, o sr. Ministro, que tem vistas largas, poderá ousar e alvitrar a sua excelsa ideia aos seus congéneres. Com os russos ao virar da esquina até pode ser que o ouçam e assim até dá um contributo para a defesa do mundo ocidental. Que me desculpem os meus camaradas artilheiros pelo plágio, mas Deus nos livre do nosso ministro porque do inimigo livramo-nos nós.