O Prometido é Devido

(Dieter Dellinger, 02/08/2018)

 

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Foto: Um dos seis pequenos incêndios no Algarve.As bestas querem novamente atacar de sul ao norte da PÁTRIA.

Rui Rio prometeu que se tivermos incêndios suficientes o governo deve ser derrubado e, naturalmente, ele ou outros puseram as suas brigadas incendiárias e FASCISTAS em ação. As mesmas bestas do ano passado voltaram a Pedrógão Grande porque os tribunais não os detiveram nem condenaram.

Todos os criminosos incendiários têm o apoio da magistratura ou parece que têm dada a sua ineficiência em combater aqueles que querem ver a nossa TRISTE PÁTRIA a arder. Viva PORTUGAL, fora com aqueles para quem a PÁTRIA é apenas o seu ordenado e as regalias pessoais e querem condenar os bombeiros que sejam voluntários e militantes do PARTIDO SOCIALISTA.

O incêndio que lavra há quatro dias consecutivos em Pampilhosa da Serra, no distrito de Coimbra, continua ativo c/ 317 bombeiros, 97 veículos e nove meios aéreos envolvidos no combate às chamas.

O incêndio de Relva, Vila Real, mobilizava 68 bombeiros, 18 veículos e um meio aéreo. Este incêndio levou à evacuação de cinco aldeias do Parque Natural do Alvão – Benagouro, Iscariz; Paredes, Coedo e Adofe – e também levou ao encerramento da Estrada Nacional 2.

A frente de incêndio em Quintela, também no concelho de Vila Real, levou à evacuação de algumas pessoas das localidades de Vila Marim e Sapiões. De acordo com o SNBPC, está accionado o Plano Distrital de Emergência em Vila Real.

O incêndio em Vale da Aveleira, concelho de Alvaiázere, Leiria, foi dado como controlado.

No mesmo concelho, em Pedrógão Grande, 45 bombeiros combatem as chamas apoiados por 11 carros. O fogo em Fraga, Concelho de Celorico de Basto (Braga) mobiliza até ao momento 22 homens e seis veículos.

Em Fráguas, concelho de Vila Nova de Paiva, Viseu, 16 bombeiros apoiados por cinco veículos e três meios aéreos combateram um incêndio dado como controlado. Às 19h30, o SNBPC indicava haver dois outros incêndios neste distrito, em Santa Luzia (concelho Tabuaço) e junto ao Aeródromo de Viseu.

A meio da tarde dois outros incêndios estavam a preocupar os bombeiros. Na Sertã, distrito de Castelo Branco, as chamas estavam a ser combatidas por 29 homens apoiados por cinco meios aéreos.

Chora PÁTRIA AMADA e que ninguém desarme e se deixe amedrontar pelos TRAIDORES dos Tribunais que deixaram os Incendiários à solta para voltarem a queimar a PÁTRIA para satisfação de Rui Rio e dos fascistas.

 

Olha, somos a Grécia

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 25/07/2018)

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Daniel Oliveira

Em 2011 imitámos a bancarrota grega de 2010. Agora são os gregos que nos seguem na tragédia assassina dos incêndios descontrolados – muitas dezenas de mortos, autoridades a agirem sem tom nem som, populações abandonadas, enfim… Portugal não é a Grécia, dizia-se, e foi verdade durante uns anos. Agora é mais difícil não voltar a reconhecer semelhanças indesejáveis.” Este canhestro aproveitamento partidário dos incêndios na Grécia não me choca pelo mau gosto. Choca-me porque é provável que o deputado Carlos Abreu Amorim acredite mesmo que em quatro anos se dissipam, ainda mais com medidas de austeridade que obviamente fragilizam os serviços públicos, velhos problemas estruturais do território e do Estado e novíssimos problemas climatéricos. Deve ser fácil pensar assim. Talvez neste post esteja resumida todo o simplismo ideológico que dominou o discurso político do anterior governo. Abreu Amorim funciona como uma espécie de tradutor do primarismo político para uma versão ainda mais primária.

Nádia Piazza, presidente da Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande e membro da comissão de programa do CDS (por mais respeito que nos mereça o sofrimento individual de cada um, quando as pessoas têm intervenção política o seu comprometimento partidário não deve ser ignorado), seguiu aqui no “Expresso”, de forma muitíssimo mais elegante e cuidadosa, o mesmo raciocínio, apenas menos oportunista do ponto de vista partidário: há um qualquer atraso cultural no sul que nos leva ao “desleixo” (uma expressão que ignora as condições em que as escolhas são feitas).

A comparação com a Grécia é natural. Duas tragédias com incêndios em que há sinais do Estado ter falhado. E é habitual. A Grécia sempre foi usada como nosso espelho. Sempre que repetimos, na nossa autoflagelação um pouco megalómana, que “só neste país” acontecem coisas más. Acrescentando depois: “e na Grécia”.

Somos a Grécia porque, antes de tudo, vivemos no mesmo planeta que, em poucas décadas, irremediavelmente destruímos. É isto que vamos deixar aos nossos filhos. Somos a Grécia, a Suécia, a Austrália, a Califórnia, só para falar dos incêndios. Somos o Laos, o Reino Unido, o Japão, só para falar do que está a acontecer esta semana. Quem tentasse falar do aquecimento global depois dos incêndios de outubro era incinerado por tentativa de desculpabilização do governo. Talvez seja altura de dizer a todos os que repetiram “que isto nunca mais aconteça” que isto vai acontecer cada vez mais.

Somos a Grécia porque temos algumas semelhanças climáticas. Como explicou ao “Público” Filipe Duarte Santos, especialista em alterações climáticas, “O que se está a observar é uma maior frequência de ondas de calor em todo o mundo. Nos países do Sul da Europa, da região do Mediterrâneo, também observamos um clima mais seco. A combinação dessa secura com temperaturas mais elevadas é que conduz a um maior risco de incêndios florestais. O que podemos esperar para o futuro é um agravamento dessas tendências, porque as alterações climáticas estão a progredir.” O aquecimento global não é apenas um tema de cimeiras internacionais, está aí para mudar as nossas vidas. E a Europa mediterrânea, com Portugal e Grécia à cabeça, está na linha da frente.

Somos a Grécia porque, na Europa desenvolvida, chegámos historicamente atrasados ao desenvolvimento. Por algumas razões semelhantes e outras diferentes. E isso quer dizer um Estado mais frágil, menos qualificação, menos recursos e, acima de tudo, menos planeamento.

O planeamento não resulta, ao contrário do que alguma conversa de autocarro adora pensar, de um desleixo determinado por uma cultura laxista. Resulta, acima de tudo, de razões económicas e políticas. Planear não é apenas uma questão de vontade, depende de recursos financeiros, técnicos e políticos. E quem não consegue planear acaba, como Portugal e a Grécia, a gastar mais no combate às consequências. Veja-se o coro de protestos contra a exigência de limpeza das matas (e o protesto tinha razões atendíveis que nos dizem coisas sobre o nosso atraso económico e social) e a indignação contra o Estado burocrático que impõe planeamento do território em comparação com a exigência de mais meios para o combate aos fogos para perceber como isto está entranhado nos hábitos.

Tal como o deputado Carlos Abreu Amorim tentou, da forma politicamente desonesta a que já nos habituou, associar o PS à Grécia, assumindo que a destruição pelo fogo resulta de uma qualquer tendência política especifica para o laxismo e subdesenvolvimento, não faltará quem se sinta tentado a criar uma relação entre a intervenção da troika nos dois países e o desastre. Mesmo assumindo que a austeridade debilitou os dois Estados, estamos perante a mesma estreiteza de vistas.

Para além das razões globais e regionais, que as opções políticas de cada país não podem mudar, a impreparação de Portugal e da Grécia para lidar com efeitos crescentes das alterações climáticas tem de ser vista bem para trás, em décadas de atraso e debilidade técnica e política do Estado, com efeitos na ausência de planeamento do território e de qualidade dos serviços públicos. Debilidades que a adesão à CEE (e depois UE) começou por contribuir para resolver e que hoje até dificulta. Quem não vê longe para o passado nunca verá longe para o futuro. E dificilmente consegue mais do que o pequeno oportunismo político do momento.

Se nos queremos preparar para o que aí vem temos de fazer escolhas políticas: mais planeamento implica dar mais poder do Estado sobre o território; melhores serviços públicos de prevenção e combate custa dinheiro. Tudo isto num país (em dois) que vem com um grande atraso em relação a outros e que sentirá os efeitos das alterações climáticas de forma muito mais acentuada e imediata do que eles.

Sim, somos a Grécia: estamos no mesmo planeta que destruímos, no mesmo sul da Europa cada vez mais seco e entramos nesta guerra com o mesmo atraso político, administrativo e económico. Sim, somos a Grécia: temos de nos preparar para isto num tempo em que se impôs a ideia de que as sociedades são mais eficazes se tiverem um Estado mais minguado e fraco. Sim, somos a Grécia com Costa ou Passos, Tsipras ou Samarás. Como em todo o mundo, o combate político tende a concentrar-se no oportunismo partidário do momento para não falar do que é estrutural e custa a mudar. Não há nada mais fácil do que culpar um governo porque não há nada mais fácil do que mudar um governo. Só custa mesmo ao governo.

Portugal não é a Grécia? A doença que vive, a cura que mata

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso Diário, 24/07/2018)

PSG

Pedro Santos Guerreiro

Portugal e Grécia são cruzados pelo mesmo paralelo norte. Hoje, são cruzados também pelo mesmo paralelo morte. A tragédia dos incêndios hoje lá como há um ano cá – como no próximo ano onde? É hora de chorar pelos gregos e de lembrar os portugueses, mas nesta hora já pensamos na próxima, em que abriremos os olhos para ver e as bocas para falar.

Uma tragédia é uma tragédia e pede urgência, uma morte é uma morte e invoca luto. Há uma linha de respeito e dignidade humana a desenhar por cada uma delas – e cada uma isoladamente. Mas será inevitável estabelecer o paralelo. Aliás, já o foi. Mal soubemos ao raiar da manhã das labaredas mortais num outro litoral lembrámo-nos do nosso drama interior.

Talvez isso nos condoa, talvez nos convoque, mas abrimos as notícias, lemos os factos, vemos as imagens na Grécia e ele está lá, está lá o paralelo.

Mais cedo do que mais tarde levaremos este paralelo a outras análises, que desta vez nos farão pensar não só num país, não só em dois países, mas numa União Europeia, mas num planeta global. Lá chegaremos, depois de apagarem as chamas, de contarem os mortos, de vermos gente cair da ravina do desespero para o choro da tristeza, de vermos eclodir a revolta íntima de um outro povo, o grego, mas não do povo que seria o nosso, o europeu, se fôssemos uma união de facto fundada e não uma União em factos afundada, as crises das dívidas soberanas, as crises com refugiados, as crises com o Brexit, Rússia, Trump, a NATO, o populismo fulgente, o nacionalismo repugnante…

Quando lá chegarmos, a esse paralelo, encontraremos sobre a linha imaginária que vemos no mapa três traços reais que muitos não querem confundíveis: dois países com Estados fracos, pequena corrupção e incompetência administrativa; dois países sob austeridade duradoura; um planeta em aquecimento.

O aquecimento global não é um mito ambientalista nem uma invenção de cientistas radicais, é um acontecimento que estamos a viver, numa lenta autodestruição tenuamente combatida em tratados e acordos como os de Quioto e os de Paris, sucessivamente boicotados por interesses políticos e económicos, se é que eles são dissociáveis. Só a pressão social levará as forças políticas céticas ou cínicas a legislar e a impor. Mesmo isso será pouco. Sobretudo se a própria sociedade se alhear, da política e de si própria. Mas cedo as reportagens e os estudos académicos juntarão as imagens de Portugal 2017 e da Grécia 2018 para mostrar que “isto está a acontecer”. Está a acontecer até na Europa, este continente rico e “civilizado”.

Está a acontecer no sul quente e seco. Está a acontecer onde os Estados são falhos, governados à vista desarmada e tomados por administrações públicas lideradas por incompetentes promovidos por cunhas e cartões partidários, incluindo nas suas proteções civis. Portugal e Grécia são casos diferentes mas ambos estão há anos tomados por governos com total incapacidade estratégica de longo prazo (o que nos incêndios se vê na floresta e no ordenamento do território), por comportamentos sociais desvinculados e por uma sujeição orçamental a que chamamos austeridade: impostos muito elevados para pagar despesa pública e corte de meios e serviços públicos por exaustão (o que nos incêndios se vê na falta de recursos de combate).

Esta combinação de incompetência na estratégia e na ação, de falta de planeamento e de falta de meios, leva perfidamente à resignação inaceitável: a da fatalidade. Como se morrêssemos nos incêndios porque a natureza está assim e vida é isto.

Finalmente, o terceiro traço, o de que Portugal e Grécia são países da União Europeia resgatados por uma austeridade então necessária mas disparatada na profundidade com que se espetou a faca na ferida, pelo experimentalismo económico e pela raiva vingativa de políticos e países do Norte. Quiseram fazer uma purga. Criaram um purgatório.

O que Portugal passou é uma fracção do que desabou sobre a Grécia, tanto que somos “um sucesso” na lapela e eles saltam em três resgates. Mas se a União Europeia pensar que a falta de meios de um Estado para funções tão irredutíveis como as de proteger o seu povo são vírgulas orçamentais, então não entenderá nunca a sua própria decomposição nem poderá combatê-la. Nós somos portugueses, eles são gregos, outros são alemães, finlandeses, italianos, franceses, mas não somos europeus exceto quando falamos de dinheiro e do que nos aparta.

“Portugal não é a Grécia”, repetíamos desesperados em 2010 e 2011, com medo “dos mercados”. É verdade, não éramos. Mas hoje, neste preciso dia, somos. Somos países que ardem, onde se morre nas chamas em casa e a fugir delas nos carros. Somos países a fingir estratégias nacionais e irrelevantes na Europa, que nos quer para postal. Lá chegaremos, a esse debate, sem procurar culpas nem encontrar desculpas, esperando que nessa hora se entenda que isto não são casos nem acasos. É um planeta mais quente, é uma União Europeia mais fria, são Estados fracos e enfraquecidos pelos seus próprios sistemas políticos, administrativos e orçamentais. É a morte a sul, onde o sol faz mais brasa do que o bronze da pele dos turistas. Lá chegaremos, às análises frias mais ou menos inconsequentes, depois do combate de hoje, do luto de amanhã, sim, lá chegaremos depois disto a que chegámos. As mortes de hoje têm paralelo.