(Daniel Oliveira, In Expresso Diário, 07/07/2017)

Daniel Oliveira
“O Dr. Daniel Sanches assinou um papel. Por acaso, a única coisa que lhe disse, quando ele se foi despedir, porque ia para ministro, foi isto: ‘Eu lamento que o senhor vá para ministro, mas há uma coisa que lhe garanto: há lá um problema nosso para resolver e se, alguma vez, alguém lhe disser que lhe pedi para assinar aquilo, o senhor não aceite, porque não é verdade. Eu não peço agora e jamais lhe pedirei que faça alguma coisa por esse processo’.” É assim, como se cita no trabalho de Paulo Pena, no “Público”, que Oliveira Costa conta como se assinou mais uma Parceria Público-Privado ruinosa para o Estado. Daniel Sanches, ministro da Administração Interna do governo de Santana Lopes e ex-quadro do BPN, assinou a aquisição do SIRESP, da responsabilidade de um consórcio de que fazia parte a SLN, três dias depois das eleições legislativas de 2005. A coisa custava 540 milhões ao Estado, apesar da SLN não ter gasto, soubemos depois, mais do que 80 milhões com ela.
Quando chegou ao Ministério da Administração Interna, António Costa tinha à sua espera um dossier que começara com Guterres, continuara com Durão e se consumara, de forma ruinosa, com Santana. O assunto era tóxico e já tinha ganho contornos de escândalo nacional. O negócio foi anulado mas, em vez de começar da estaca zero, Costa preferiu renegociar o que parecia ser (e provavelmente era) irrenegociável. Abateu-se no preço (pouco) e, para o fazer, abateu-se no serviço. O SIRESP foi sempre notícia por más razões – e nem por isso alguém fez fosse o que fosse para mudar essa situação. Incluindo Costa e incluindo, como é evidente, o último governo. Se o SIRESP não funciona agora, também não terá funcionado nos últimos cinco anos. E o jogo de Passos Coelho, que garante que até deixou “procedimentos concursais” preparados para outros fazerem o que ele devia ter feito, não lhe dá grande espaço de manobra.
Chegados a Pedrógão, e sabendo-se que as falhas do SIRESP poderão ter resultado em perdas de vidas, cada um tenta aproveitar as falhas deste negócio como mais o favorecer. José Manuel Fernandes, cujo currículo político o torna especialista em retoques nas fotografias, até conseguiu descrever assim as coisas: o SIRESP começou em Guterres e acabou em Sócrates. Pelo meio lá se apagou, por arte retórica, o governo do tal ministro que assinou, depois de trabalhar com o fornecedor, o negócio. É de mestre.
As PPP foram moda e, digo-o com experiência de as ter contestado como jornalista no início dos anos 2000, era aplaudida pela generalidade dos “especialistas”, a começar pelos jornalistas de economia, que as achavam o suprassumo da modernidade. Escusam agora de se pôr ao fresco. E escusam de apontar o dedo aos “cúmplices” comunistas e bloquistas por não estarem na linha da frente no tiro ao Costa. Cúmplices foram os que, durante anos, deram suporte ideológico e mediático a esta forma de fazer as coisas. Enquanto os “radicais”, demonstrando o seu atavismo conservador, se opunham a estas negociatas.
Vamos sabendo o que fez e não fez António Costa na renegociação do SIRESP. Que informações tinha, em que pareceres se baseou e com que objetivos renegociou. Terá de vir a dar explicações – e não me espanta nada que sejam muitas, que o “modus operandi” do PS nunca foi, nestes assuntos, diferente do PSD e do CDS. Mas não vale a pena continuar a tentar fazer um rali para contornar os que sabemos que tiveram um comportamento inaceitável neste processo: o ministro que, já depois do PSD ter perdido as eleições, comprou uma inutilidade cara à empresa de onde vinha, Daniel Sanches, e o primeiro-ministro que deixou que um governo de gestão fizesse este negócio, Santana Lopes. Costa terá coisas a explicar.
O SIRESP é uma história do bloco central que queima todos os que lhe tocaram e não fizeram o que tinha de ser feito. Mas que não se reescreva a história transformando os protagonistas em atores secundários deste escândalo e escolhendo à medida das conveniências políticas os culpados e os absolvidos. Se o negócio cheira mal, o oportunismo político de muito escriba que por ai anda já tresanda.
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