O medo de sair do Euro

(Carlos Reis, in Facebook, 14/07/2015)

Carlos Reis

Carlos Reis

Nunca se esqueçam de uma coisa: tudo o que está a acontecer na Grécia, tudo o que aconteceu nestes últimos anos em Portugal e em Espanha, o mal estar em França, a angústia em Itália, é fruto do medo. O fruto maduro do medo de se sair do Euro.

Imaginem um preso numa prisão há muitos anos: sonha com a liberdade mas tem medo. Na prisão conhece todos os amigos, lá fora já não tem ninguém, na prisão tem o seu lugar, a sua posição, o seu estatuto entre os outros, uma cama, comida, cuidados. Não é livre mas está habituado. E fica aterrorizado não com a ideia de continuar preso mas com a possibilidade de sair. Assim também somos todos.

Temos um medo de morte de sair do Euro. Já todos sabemos, no Sul e nas margens da Europa, do Mar da Irlanda e do Atlântico até ao Mar Egeu, latinos, celtas e helénicos, católicos e cristãos ortodoxos, tudo o que nos chegará nos próximos 20 ou 30 anos. Está tudo escrito nos Tratados, tal como antigamente a verdade dos antigos estava anunciada nas Escrituras.

A verdade é que seremos sempre obrigados a empobrecer. Teremos de ser alemães à força mas com o mesmo nível de vida dos moldavos. Poderemos sempre votar mas nunca poderemos decidir nem escolher. O nosso destino será sempre o do empobrecimento e o da política única. Nós, nunca mais poderemos fazer Política: a democracia-cristã e a social-democracia estão proibidos. Inconstitucionais. Uns são piegas e uns moles. Outros uns radicais de esquerda. Esqueçam as nossas Constituições: a Constituição que interessa é a do Tratado Orçamental e a do six pack e a ditada pelo Dr. Scäuble. Esqueçam as veleidades. Nunca mais seremos donos dos nossos destinos.

Sabemos agora isto tudo. No fundo já vinhamos sabendo isto tudo. Mas temos todos medo. É o medo que nos mantém a todos unidos uns contra os outros. Os de cima contra os de baixo, os do Sul contra os do Norte, os perdedores contra os ganhadores, os credores contra os devedores. Mas é o medo que vai manter estes ressentimentos, estas humilhações, estas injustiças, cosidas e cerzidas pela amarra do Euro abrilhantada com as estrelas que nos ficam cravadas nos sonhos vãos de criar países e sociedades justas e decentes.

Vamos caminhando pois todos juntos, como servos acorrentados às grilhetas do Euro, empobrecendo, decaindo, recuando.

Chorem pois portugueses, espanhóis, italianos, franceses, irlandeses, pela Europa prometida dos sonhos de paz e de prosperidade. Vocês afinal têm aquilo que querem. Têm o vosso Euro não têm?

O maior resgate de sempre. O maior perdão de sempre. A maior depressão de sempre?

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso Diário, 13/07/2015)

Pedro Santos Guerreiro

                Pedro Santos Guerreiro

A Alemanha não salvou a Grécia. Não salvou a dívida. Não salvou o euro. É muito difícil acreditar que o plano acordado vá sequer ser implementado. É quase impossível crer que, sendo implementado, funcione. Não é à tareia que se erguem inanimados. Não é deprimindo que se recupera. Chamar ajuda ao que destrói é como chamar terraplanagem a um enterro.

Só pode haver alívio com o acordo deste fim de semana entre as instituições europeias e a Grécia porque sem ele a situação seria a esta hora caótica. Preferiu-se um mau acordo à falta de acordo. Mas só se preferiu isso porque chegámos ao ponto (e ainda devíamos perguntar-nos como pudemos chegar a este ponto) em que passámos a pensar num dia de cada vez. Mas basta ganhar um pouco de perspetiva para fazer as perguntas óbvias: terá o Syriza apoio social (e portanto político) para implementar este acordo? Será credível imaginar reformas do Estado em três dias? Alguém supõe que a dívida pública grega será paga? É com mais três anos de austeridade que se recupera a economia, o emprego, a estabilidade social e política da Grécia? Ou talvez baste uma única pergunta: será que Tsipras tenciona cumprir o plano e que Merkel sequer acredita que ele será cumprido?

1. A humilhação do Syriza

A intenção não foi humilhar a Grécia, foi humilhar o Syriza. A marcação do referendo foi uma perfídia mas o resultado foi uma vitória tão estrondosa de Alexis Tsipras que se tornou necessário vergá-lo. Para mostrar às demais opiniões públicas europeias que o extremismo não compensa. Para que não votem no senhor Pablo Iglesias em Espanha ou na senhora Marine Le Pen em França. Para que fique claro que o risco moral existe e a infração será punida.

Tsipras perdeu, sim, porque engoliu todo o programa eleitoral e fez do referendo que não devia ter marcado (mas ao qual o povo grego respondeu com uma coragem surpreendente) papel para embrulhar peixe. Mas isso põe em causa a própria legitimidade popular que granjeara. Veremos como, com o tempo, a resignação do povo grego permanece ou se esboroa. Porque o povo grego elegeu um governo contra a austeridade e referendou pelo “não” (“oxi”) a um programa que era menos bruto que o agora aprovado. Da glória Tsipras passou ao desespero. Fez do “oxi” um oximoro, um não de aprovação.

2. E no final manda a Alemanha

A imagem de que a França e a Itália fizeram frente à Alemanha não está errada, mas no final quem decidiu foi mesmo a Alemanha. Holande e Renzi não deram murro nenhum na mesa, deram pancadas nas costas um no outro e conseguiram evitar o pior sem impor nada de muito melhor. Não se trata de gostar ou desgostar de Merkel, nem de não compreender que a Alemanha lidera (e liderará) o grupo dos credores. Trata-se de assumir que a desconfiança se transformou em descrença e que a Alemanha só aceitou à última hora um acordo porque foi nos seus exatos termos.

A zona euro não está mais forte desde ontem, está mais fraca. O princípio de “no exit” foi quebrado pelo próprio Eurogrupo, que pela primeira vez assumiu formalmente a possibilidade de uma saída de um país. A importância dessa declaração é equivalente (e simétrica) àquela em que Mario Draghi disse que tudo o BCE faria para salvar o euro. A fragilização da moeda única vem agora de dentro, vulnerabilizando-a a ataques especulativos e movimentos nos mercados de dívida e cambial.

3. O maior resgate de sempre

A culpabilização da catástrofe está tão repartida que nem vale a pena assenti-la. Foram os governos do Pasok e do Nova Democracia que endividaram a Grécia ao longo de décadas, mentindo nas contas oficiais e deixando medrar um Estado ineficiente e uma economia onde a corrupção e a evasão se aninham facilmente. Depois, foram as instituições europeias e o FMI que impuseram um plano que falhou, destruindo muito mais a economia e o emprego do que era suposto. E nada regenerando. Finalmente, foi o Syriza que foi amador e não previu a fuga de capitais e a quebra de cobrança fiscal que a sua própria eleição provocou. Mas se olharmos para o programa de austeridade que acompanhará o terceiro resgate percebemos que podia ser o primeiro. E que, como o primeiro, ele está talhado para falhar.

O pacote de austeridade agora proposta é basicamente mais um choque recessivo (aumento de impostos e corte de pensões, para começar), podemos estar perante mais quebras do PIB e aumento de desemprego nos próximos anos. É assim que a Grécia recupera?

Os credores sentem-se autorizados a impor estas medidas por receio das suas opiniões públicas mas provavelmente também porque estão zangados. A Grécia vai aumentar aquele que já era o maior resgate de sempre. Somando os três resgates, o perdão de dívida e os empréstimos através do Banco Central Europeu, a Grécia receberá mais de 400 mil milhões de euros.

Quatrocentos mil milhões de euros!

É mais do que toda a sua dívida pública. É mais do dobro do PIB português. E é hoje maioritariamente dinheiro emprestado por parceiros europeus. Ou seja, são impostos pagos cidadãos europeus não gregos. A situação é ainda pior porque temos a consciência de que, seja qual for o plano, parte desse dinheiro nunca será devolvido. A Grécia já teve o maior perdão de dívida de sempre. Ele será um dia ainda maior.

Devia ser aqui que os políticos se tornavam políticos, na explicação do que está em causa e que é mais do que solidariedade. É o projeto de construção europeia não apenas como projeto económico mas sobretudo como projeto político de paz. Sim, de paz.

4. As contas da Grécia

A economia grega afundou-se cerca de 25% entre 2008 e 2013. O PIB per capita recuou 15 anos, está ao nível de 1999. Um em cada quatro gregos está desempregado. Um em cada três está em risco de pobreza ou de exclusão social. Em 2014, o PIB recuperou 0,8% e esse podia ser o princípio de uma curva positiva. Acontece que este ano de 2015 está perdido: depois de uma paralisia económica nos últimos meses, sem liquidez nos bancos nem no Estado, sem matérias-primas nas empresas, sem confiança generalizada. Não é difícil imaginar que a recessão está de volta. E como o pacote de austeridade agora proposta é basicamente mais um choque recessivo (aumento de impostos e corte de pensões, para começar), podemos estar perante mais quebras do PIB e aumento de desemprego nos próximos anos.

Termo de comparação: a economia grega poderá sofrer uma das maiores recessões acumuladas de sempre. Na Grande Depressão de 1929/1933, a economia norte-americana, que foi o epicentro do problema, teve uma quebra de 28,5%. O Chile, que foi a economia mais afetada, caiu 31,1% em termos acumulados. Mesmo que a Grécia não atinja estes valores (e todos desejamos que não), é já desta ordem de grandeza que estamos a falar.

5. Até já, até nunca

A situação é muito complexa e dificílima de solucionar. Mas é simples perceber que este acordo é uma corda que não aproxima a Grécia, estrafega-a. Está tudo feito para correr mal. E a não ser que tudo isto seja uma simulação para derrotar o Syriza e comprar tempo, negociando entretanto pela calada algo que faça sentido e que, em vez de castigar, fomente a economia, daqui a meses estaremos de novo a negociar planos e Grexits.

Não, a Alemanha não salvou a Grécia. Não salvou a dívida. Não salvou o euro. Salvou apenas o dia.

A Alemanha não salvou a Grécia. Não salvou a dívida. Não salvou o euro. É muito difícil acreditar que o plano acordado vá sequer ser implementado. É quase impossível crer que, sendo implementado, funcione. Não é à tareia que se erguem inanimados. Não é deprimindo que se recupera. Chamar ajuda ao que destrói é como chamar terraplanagem a um enterro.

Só pode haver alívio com o acordo deste fim de semana entre as instituições europeias e a Grécia porque sem ele a situação seria a esta hora caótica. Preferiu-se um mau acordo à falta de acordo. Mas só se preferiu isso porque chegámos ao ponto (e ainda devíamos perguntar-nos como pudemos chegar a este ponto) em que passámos a pensar num dia de cada vez. Mas basta ganhar um pouco de perspetiva para fazer as perguntas óbvias: terá o Syriza apoio social (e portanto político) para implementar este acordo? Será credível imaginar reformas do Estado em três dias? Alguém supõe que a dívida pública grega será paga? É com mais três anos de austeridade que se recupera a economia, o emprego, a estabilidade social e política da Grécia? Ou talvez baste uma única pergunta: será que Tsipras tenciona cumprir o plano e que Merkel sequer acredita que ele será cumprido?

1. A humilhação do Syriza

A intenção não foi humilhar a Grécia, foi humilhar o Syriza. A marcação do referendo foi uma perfídia mas o resultado foi uma vitória tão estrondosa de Alexis Tsipras que se tornou necessário vergá-lo. Para mostrar às demais opiniões públicas europeias que o extremismo não compensa. Para que não votem no senhor Pablo Iglesias em Espanha ou na senhora Marine Le Pen em França. Para que fique claro que o risco moral existe e a infração será punida.

Tsipras perdeu, sim, porque engoliu todo o programa eleitoral e fez do referendo que não devia ter marcado (mas ao qual o povo grego respondeu com uma coragem surpreendente) papel para embrulhar peixe. Mas isso põe em causa a própria legitimidade popular que granjeara. Veremos como, com o tempo, a resignação do povo grego permanece ou se esboroa. Porque o povo grego elegeu um governo contra a austeridade e referendou pelo “não” (“oxi”) a um programa que era menos bruto que o agora aprovado. Da glória Tsipras passou ao desespero. Fez do “oxi” um oximoro, um não de aprovação.

2. E no final manda a Alemanha

A imagem de que a França e a Itália fizeram frente à Alemanha não está errada, mas no final quem decidiu foi mesmo a Alemanha. Holande e Renzi não deram murro nenhum na mesa, deram pancadas nas costas um no outro e conseguiram evitar o pior sem impor nada de muito melhor. Não se trata de gostar ou desgostar de Merkel, nem de não compreender que a Alemanha lidera (e liderará) o grupo dos credores. Trata-se de assumir que a desconfiança se transformou em descrença e que a Alemanha só aceitou à última hora um acordo porque foi nos seus exatos termos.

A zona euro não está mais forte desde ontem, está mais fraca. O princípio de “no exit” foi quebrado pelo próprio Eurogrupo, que pela primeira vez assumiu formalmente a possibilidade de uma saída de um país. A importância dessa declaração é equivalente (e simétrica) àquela em que Mario Draghi disse que tudo o BCE faria para salvar o euro. A fragilização da moeda única vem agora de dentro, vulnerabilizando-a a ataques especulativos e movimentos nos mercados de dívida e cambial.

3. O maior resgate de sempre

A culpabilização da catástrofe está tão repartida que nem vale a pena assenti-la. Foram os governos do Pasok e do Nova Democracia que endividaram a Grécia ao longo de décadas, mentindo nas contas oficiais e deixando medrar um Estado ineficiente e uma economia onde a corrupção e a evasão se aninham facilmente. Depois, foram as instituições europeias e o FMI que impuseram um plano que falhou, destruindo muito mais a economia e o emprego do que era suposto. E nada regenerando. Finalmente, foi o Syriza que foi amador e não previu a fuga de capitais e a quebra de cobrança fiscal que a sua própria eleição provocou. Mas se olharmos para o programa de austeridade que acompanhará o terceiro resgate percebemos que podia ser o primeiro. E que, como o primeiro, ele está talhado para falhar.

O pacote de austeridade agora proposta é basicamente mais um choque recessivo (aumento de impostos e corte de pensões, para começar), podemos estar perante mais quebras do PIB e aumento de desemprego nos próximos anos. É assim que a Grécia recupera?

Os credores sentem-se autorizados a impor estas medidas por receio das suas opiniões públicas mas provavelmente também porque estão zangados. A Grécia vai aumentar aquele que já era o maior resgate de sempre. Somando os três resgates, o perdão de dívida e os empréstimos através do Banco Central Europeu, a Grécia receberá mais de 400 mil milhões de euros.

Quatrocentos mil milhões de euros!

É mais do que toda a sua dívida pública. É mais do dobro do PIB português. E é hoje maioritariamente dinheiro emprestado por parceiros europeus. Ou seja, são impostos pagos cidadãos europeus não gregos. A situação é ainda pior porque temos a consciência de que, seja qual for o plano, parte desse dinheiro nunca será devolvido. A Grécia já teve o maior perdão de dívida de sempre. Ele será um dia ainda maior.

Devia ser aqui que os políticos se tornavam políticos, na explicação do que está em causa e que é mais do que solidariedade. É o projeto de construção europeia não apenas como projeto económico mas sobretudo como projeto político de paz. Sim, de paz.

4. As contas da Grécia

A economia grega afundou-se cerca de 25% entre 2008 e 2013. O PIB per capita recuou 15 anos, está ao nível de 1999. Um em cada quatro gregos está desempregado. Um em cada três está em risco de pobreza ou de exclusão social. Em 2014, o PIB recuperou 0,8% e esse podia ser o princípio de uma curva positiva. Acontece que este ano de 2015 está perdido: depois de uma paralisia económica nos últimos meses, sem liquidez nos bancos nem no Estado, sem matérias-primas nas empresas, sem confiança generalizada. Não é difícil imaginar que a recessão está de volta. E como o pacote de austeridade agora proposta é basicamente mais um choque recessivo (aumento de impostos e corte de pensões, para começar), podemos estar perante mais quebras do PIB e aumento de desemprego nos próximos anos.

Termo de comparação: a economia grega poderá sofrer uma das maiores recessões acumuladas de sempre. Na Grande Depressão de 1929/1933, a economia norte-americana, que foi o epicentro do problema, teve uma quebra de 28,5%. O Chile, que foi a economia mais afetada, caiu 31,1% em termos acumulados. Mesmo que a Grécia não atinja estes valores (e todos desejamos que não), é já desta ordem de grandeza que estamos a falar.

5. Até já, até nunca

A situação é muito complexa e dificílima de solucionar. Mas é simples perceber que este acordo é uma corda que não aproxima a Grécia, estrafega-a. Está tudo feito para correr mal. E a não ser que tudo isto seja uma simulação para derrotar o Syriza e comprar tempo, negociando entretanto pela calada algo que faça sentido e que, em vez de castigar, fomente a economia, daqui a meses estaremos de novo a negociar planos e Grexits.

Não, a Alemanha não salvou a Grécia. Não salvou a dívida. Não salvou o euro. Salvou apenas o dia.

A caminho da tempestade perfeita?

(Joseph Praetorius, in Facebook, 13/07/2015)

Joseph Praetorius

  Joseph Praetorius

Oiro em queda. Petróleo em queda. Euro em queda. Quedas moderadas.

Atenas terá dinheiro emprestado para pagar empréstimos de dinheiro – e juros usurários – à custa de “reformas” que viabilizam a pilhagem patrimonial do país e pilhagem pecuniária da sua gente. Amarga decepção. Com a virtualidade de suscitar radicalizações imprevisíveis. Quanto à pilhagem das gentes não há nenhuma dúvida. Quanto à pilhagem do património podem existir grandes surpresas. Os adquirentes podem ser a Rússia e a China e não a Alemanha ou a França, por exemplo.

Mas isto é assim no pressuposto de que nenhuma rebelião emerge, porque, com frequência, as revoluções são respostas a que vastos grupos sociais são compelidos – pela utrajante exploração – sem propriamente as terem assumido ou preferido no inicio do processo. A ruptura vai-se construindo e impondo à vítima, de intransigência em intransigência, de ultraje em ultraje.

É um resultado brutalmente decepcionante para o governo Tsipras, embora as coisas pudessem ser e ter sido piores sem ele. A UE mantém a asfixia dos gregos e com isso mantém a Grécia no limite material da sua subsistência. Mas a inversa é igualmente verdadeira. Mantendo-se a Grécia em risco iminente, todos ficam em risco iminente.

Um safanão insurreccional em Atenas e vai tudo raso, financeiramente falando, de Berlin a Washington… É o que começa a pretender a esquerda radicalizada. Pouco preocupada com a viabilização segura da vida do grego comum no próximo mês. O problema é que o grego comum pode não achar que quanto lhe resta sob esta canga deva chamar-se vida. Se assim for, o resultado vai ser desagradável. E definitivo.

A Rússia apressa-se a ponderar modos de auxílio. O abastecimento energético directo é uma das urgências em viabilização e passíveis de execução rápida. A Grécia tem de investir e crescer sob esta opressão asfixiante. E os russos terão nisso um papel. Com os países emergentes, eventualmente. Mas a Rússia quer salvar a Grécia. Apenas. Não quer salvar a UE de quem lhe parece que deve pagar o que deve pagar e sofrer o que deve sofrer, arriscando o que entender arriscar.

O herói continua a ser Varoufakis. Fez bem em não cortar o braço. E os idiotas da UE correm o risco de o virem a suportar como referência inesquecível – senão como presença dirigente de uma ruptura radicalizada – por terem ousado sugerir a sua substituição.

E as vitórias tácticas de Merkel serão a derrota estratégica da UE, plausivelmente. O vassalo finlandês (a propósito) esquece-se com frequência que não deve a viabilidade material da sua existência ao suserano alemão. que seria por si só incapaz de a assegurar. E – mudando o que deve mudar-se – o Tusk, labrego polaco, teria tudo a ganhar se conseguisse controlar-se no que diz.

Para já, o embate no Parlamento Grego vai ser brutal e os resultados disso são imprevisíveis. O embate com a comunidade nacional não vai ser de menor importância. Pode haver desenlaces fatais esta semana.