OUTRA VEZ A CENSURA

Estátua de Sal, 24/02/2019

Mais uma vez este blog foi alvo da censura do Facebook. Tudo o que publiquei aqui recentemente e que tinha sido partilhado na minha página do Facebook foi de lá banido sem qualquer explicação cabal, dizem eles porque “não está de acordo com os padrões da Comunidade”

Mas, afinal o que são tais padrões?

Atacar a direita e os seus epígonos vai contra os padrões da comunidade? Publicar e remeter para autores que escrevem em publicações ditas de referência (Expresso, DN, Público, etc), vai contra os padrões da Comunidade?!

Publicar textos oriundos do próprio Facebook e que lá não foram censurados, se os publicar aqui passam a atentar contra os padrões da Comunidade?! Ó santa hipocrisia.

Na verdade, o que se passa, é que este blog está a ser perseguido e há quem o queira calar por o considerar demasiado incómodo tendo em conta a audiência que já atinge.

É lamentável que, num país democrático, as vozes da esquerda estejam sujeitas a censura, já sem qualquer vergonha.

É a Inquisição dos tempos modernos.

Mas a Estátua não se vai calar e vai continuar a persistir no seu combate e conta com todos vocês, todos os que prezam a verdade, a justiça e a liberdade de expressão.

Crimes que não têm reparação

(Francisco Louçã, in Expresso, 23/02/2019)

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A Igreja não pode continuar misógina nem machista. Onde é que está que as mulheres não podem presidir à Eucaristia?


Se alguma das leitoras ou leitores desta coluna alguma vez abriu um livro de David Lodge, e até adivinho que muitas pessoas o fizeram com gosto, terá encontrado a amarga ironia de um casal de católicos ingleses a quem era proibido o uso de contracetivos nos anos de 1950 e de 1960, pelos dizeres das suas autoridades religiosas, aliás contra o que já era norma para a maioria da população, menos exposta a poderes tão fanatizados. A ginástica do registo das temperaturas para tentar adivinhar o ciclo da mulher e a restrição sexual adivinhatória deram a Lodge algumas das suas melhores páginas, mas certamente também muitas frustrações ao longo da vida do casal. Com bonomia e um humor avassalador, o escritor descreve esse mundo de voyeurismo dos padres sobre a sua vida, com as punições, confissões e castigos contra a prevaricação, e de proibição terminante do maior de todos os males, o princípio da tentação, a contraceção.

Ao concentrar tanta da sua energia no controlo estrito sobre a sexualidade dos seus paroquianos, a Igreja Católica chamou sobre si a atenção que agora revela a dupla hipocrisia do crime e da proteção ao crime contra as crianças (e freiras, acrescenta o papa Francisco) que foram sendo vítimas de abusos sistemáticos ao longo de gerações e porventura em todos os países. É para responder a esse manto de crime e de vergonha que se reúnem por estes dias, em Roma, os presidentes das conferências episcopais, forçados a encarar as vítimas.

AI DE QUEM

Citando palavras da Bíblia, o teólogo Anselmo Borges lembra a condenação por Jesus: “Ai de quem escandalizar uma criança. Era preferível atar-lhe a mó de um moinho ao pescoço e lançá-lo ao fundo do mar”. O hediondo destes crimes não é só o acontecimento em si ou a sua repetição, com o cortejo de vítimas que foi deixando pelo caminho. É também o encobrimento que permitiu a sua banalização, ou até o fechamento que manteve o poder de instituições em que a prática do crime era liberalizada. Por isso, é de facto a Igreja Católica que está em julgamento e Francisco assume-o com honestidade.

E é aqui que entra a tristeza escondida no humor de David Lodge. Ele não escreve sobre crimes e abusos. Escreve sobre o mal-estar, sobre a prepotência, sobre a vigilância sexual, um exercício que as regras da Igreja foram indicando aos seus sacerdotes, que as impuseram com devoção aos paroquianos. Ou seja, milhões de pessoas conheceram este tormento da confissão sobre a sua vida sexual e perceberam a obsessão de tantos sacerdotes com esses pecados. Há portanto duas razões poderosas que atualmente multiplicam o escândalo, além do crime contra as crianças e mulheres: a prosápia de pureza que protegia a abominação e a forma como a instituição salvaguardou os seus da acusação de abuso, se é que não criou mesmo uma cultura de culpa para calar as vítimas.

NÃO ESTÁ RELACIONADO?

Com essa cultura, o crime estendeu-se a muitos casos e serão bastantes os padres da Igreja Católica no banco dos réus, até se adivinhando que muitos mais virão a lá chegar. Em Portugal, só duas condenações, incluindo a do ex-vice-reitor do seminário do Fundão, a dez anos de prisão por abuso sexual, em 2013. Mas a pergunta que se impõe é esta: eram só as regras da inquisição no confessionário ou da punição da vida sexual como pecado que levavam a este sentimento de poder por parte de tantos padres?

Anselmo Borges responde que não. Diz ele, numa entrevista desta semana ao “Público”: “Já escrevi, citando um grande sociólogo, Javier Elzo, professor numa universidade jesuíta, que 80% ou mais do clero, padres e bispos em África estão a ter uma vida sexual aberta. Não esqueçamos que Jesus entregou o celibato a uma opção, à liberdade; portanto, a Igreja não pode impor isso como lei. E o abuso das freiras que agora o Papa também denunciou é a prova de que o celibato leva a vidas duplas. (…) Como a recusa da ordenação das mulheres, o celibato não faz sentido. Jesus tinha discípulos e discípulas. A Igreja não pode continuar misógina nem machista. Onde é que está que as mulheres não podem presidir à Eucaristia? O cardeal D. José Policarpo chegou a dizer isto, simplesmente foi chamado ao Vaticano”. Se assim for, o celibato e a assunção de um poder social que considera as mulheres como subordinadas contribuirá, em muitos casos, para projetar uma vida tormentosa, incapaz de lidar com a pulsão sexual.

Olhando para trás, percebe-se o absurdo destas proibições, como a do celibato, só proclamada mil anos depois de Jesus, no Concílio de Latrão, em 1123, e reafirmada no século XVI no de Trento (mas tinha havido pelo menos um Papa casado entre as duas reuniões). No caso do sacerdócio das mulheres, é “sentença definitiva”, determinava João Paulo II (e Francisco repete-o), é mesmo um dos “delitos mais graves” segundo a lista da Congregação para a Doutrina da Fé.

Bem sei que um ateu que se mete nestes assuntos será maltratado por isto ser exclusivo de quem professa obediência. Mas até onde é que levou a obediência a estas regras?


 O sortilégio da eu-sociedade

O Facebook já inclui 2200 milhões de pessoas. Nos Estados Unidos, 72% da população entre os 30 e 44 anos usa-o todos os dias (a menor percentagem é dos mais de 65 anos, ainda assim 54%). No mundo, o YouTube é usado por um pouco menos, 1900 milhões, o WhatsApp por 1500 milhões. Em Portugal, usam o Facebook mais de 50% dos residentes entre os 15 e os 64 anos. Ou seja, não é para amanhã, o modo de comunicação entre as pessoas já mudou. Mudou para a política, como se descobriu com o sucesso das campanhas de Trump e de Boslonaro, ou como ainda só começa a ser ensaiado em Portugal, mudou com a Cambridge Analytica a capturar e a usar 90 milhões de perfis em promoções eleitorais, mudou com o uso de exércitos de robôs que criam a ilusão de consenso em torno de notícias e de argumentos, policiando a internet com palavras-chave e tiros de canhão, mudou com a sensação de que, no mundo da mentira, todo o sucesso é possível. A isto alguns têm chamado a eu-conomia, atentos às suas potencialidades para a publicidade, mas é mais a eu-sociedade que se está a construir — só que sem o eu.

Segundo as análises da Common Social Media, a maioria dos adolescentes diz ter sido assediada no FB. Mas do que não se dão conta é do que acontece quando não são ameaçados: vivem uma sociabilidade intensa mas sem relação face a face com outros (em 2012 metade dos jovens entre os 13-17 anos dos EUA preferia a interação direta, agora só 32% a desejam). O que significa que perdem a capacidade de aprendizagem emocional em circunstâncias diversas e perante pessoas, mesmo que comuniquem com perfis, que podem ser verdadeiros ou falsos. Esta é uma sociedade virtual no rigoroso sentido da palavra. Mas há ainda outra consequência: é que estes adolescentes, e mesmo os outros adultos ou idosos que mergulham neste meandro, e são muitos, passam a aceder exclusivamente a um mundo de informações sem qualquer intermediação que não seja a da tecnologia de criar emoção e, portanto, de efabular. Se, em Portugal, um youtuber de sucesso já tem mais visualizações do que o telejornal mais visto, aqui está um incentivo poderoso a multiplicar a emotividade de cada prestação: ela deve chocar e impressionar. Para que esse youtuber mantenha a sua carreira de sucesso, tem de ser espampanante e criar hábito de consumo. Um dos efeitos deste sucesso, aliás, é que alguma comunicação social está a imitar o modelo, e já temos até um programa em canal de grande audiência que segue precisamente este padrão, a que alguns antiquados chamariam populista.

Assim, talvez sem darmos conta, se vai formando uma nova sociedade. Dentro de cinco anos, haverá jovens a chegar à universidade que nunca abriram um jornal nem olharam um telejornal. Mas terão muita comunicação, a do boato, a da intriga, a dos ódios e dos amores de fulano de tal (a coisa é ainda mais complicada, dado não ser seguro que, se costumarem ver alguma comunicação social tradicional, não alcancem o mesmo hábito). Para a economia de mercado, é uma oportunidade de ouro e adivinho que a publicidade vá mudar para narrativas tremendas que formem clãs em torno de produtos. Para a política, é a ameaça da feudalização dos sentimentos. Para a vida, que ainda importa mais, esta economia da solidão é uma fantasia viciante e perigosa. Chama-se mundo novo.

Carta ao Professor Marcelo

(Por Estátua de Sal, 05/02/2019)

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Caro Marcelo.

As liberdades democráticas estão em perigo e deves tomar medidas. O meu blog, ESTÁTUA DE SAL, está impedido de publicar seja lá o que for no Facebook. Consta que os teus amigos da direita não gostam da Estátua de Sal. Não sei se é pelo facto de sal a mais fazer subir a tensão arterial, mas estou em crer que não. Estou farto de reclamar mas o Zuckerberg não me passa cartão.

Houve tempos em que eu julgava que o Facebook só censurava as fotos de meninas a mostrar as maminhas, mesmo que fossem maminhas de estátuas como eu, mas agora estou a chegar à conclusão que não é só isso. Estou em concluir que essa coisa da censura à nudez é só para enganar os incautos. A censura ocorre sempre que mostramos a realidade NUA e CRUA, sobretudo a realidade social e isso chama-se POLÍTICA e não ESTÉTICA.

Vê lá tu, que os teus amigos andam mesmo engasgados de todo. Publico no meu blog o Miguel Sousa Tavares e eles denunciam porque é abusivo. Publico o Pacheco Pereira e eles arrotam logo a avisar o Facebook de que é um conteúdo abusivo. Publico o Daniel Oliveira e eles espumam. Até publiquei um texto do Jaime Nogueira Pinto e eles, que julgavam que o homem era comunista, denunciaram-no também! Se ainda fosses comentador no EXPRESSO, como antigamente, eu publicaria certamente os teus textos e aposto que eles te iriam denunciar também ao Zuckerberg.

Eu sei que andas preocupado com as liberdades democráticas e a ascensão do populismo MAU e que achas que a melhor forma de o combater é fazeres populismo BOM. Vais aos sem-abrigo, vais aos camionistas, vais à Cristina da televisão, irás à Circulatura do Quadrado na quinta-feira, e agora foste à Jamaica tirar selfies como se vê, e até já marcaste na agenda ires lá outra vez. Parece que as polícias não gostaram gostaram nada de tal visita (ver aqui), mas tu não te importas porque o que não queres é que surjam por cá “coletes amarelos” ou de qualquer outra cor.

Ora, os meus 18000 seguidores no Facebook, andam muito agastados, porque não conseguem partilhar nada que eu publico no meu blog nas suas páginas do mesmo Facebook. Já falam que a PIDE regressou, Aqui ficam alguns exemplos retirados da caixa de comentários do blog que ilustram o estado de espírito da comunidade da Estátua:

1) “A pide do facebook não deixa passar nada da estátua de sal.”

2) “Realmente também já me apercebi de que fui interditada pelo FB de publicar tudo o que esteja ligado ao link deste blog, pelo que tenho copiado os vossos textos que, como sempre, são altamente pertinentes…nem mesmo me têm consentido a menção do link! Não percebo em que é que a Estátua de Sal vai de encontro aos padrões gerais do FB…..Espero que reclamem, preferencialmente em inglês, e que a situação se resolva o mais rapidamente possível!”.

3) “Vergonha mesmo…mas quem é o responsável por esta censura???????????”

4) “Achei este artigo fabuloso. Porém, não consigo partilha-lo no Facebook……QUE SE PASSA?????”

5) “Partilhei o texto do Daniel de Oliveira, acerca do veto presidencial, à Lei de Bases do SNS e fui censurado, fiquei impedido de publicar, ou curtir durante 48 horas”

6) “Mais um texto que o facebook recusa publicar com o argumento que outras pessoas o consideram abusivo. A censura agora é clara a favor das “doutrinas” de Trump.”

7) “Quem é o cabrão ou filho da Mariquinhas que está a censurar estas páginas? Gostava de lhe ver a cara. Saber quem é. Para lhe dizer o que dele penso !!”

Como podes ver, o tom não é nada meigo. As pessoas detestam que lhes seja cerceada a liberdade de expressão, pelo que ainda engendram para aí uma manifestação qualquer com colete ou sem colete.

Nesse sentido, para evitar males maiores a Estátua agradecia a tua visita urgentemente. Mas não venhas de surpresa. Avisa antes as televisões e os jornais. Como “valores mais altos se levantam”, a Estátua não se importa que tragas também a CMTV e os escribas do Observador.

E se achares que isto é mesmo grave, e uma ameaça ao Estado de Direito, podes também trazer o António Costa na comitiva, e até o governo em peso, para ver se a pressão de gente tão importante e distinta chama o Zuckerberg à razão. Só te peço que não tragas o Santos Silva porque ainda iria tentar convencer a Estátua a reconhecer a legitimidade do Guaidó, o que seria de todo impossível.

Na expectativa da tua visita e confiando no teu espírito de solidariedade com todos os carentes de Justiça, recebe os cumprimentos da Estátua, com a qual poderás tirar uma dúzia de selfies quando nos encontrarmos.