Como a extrema-direita está a aproveitar o conflito na Ucrânia para receber treino militar e criar uma rampa de lançamento para um movimento transnacional

(João Amaral Santos, in Visão, 17/03/2022)

A plataforma bielorrussa NEXTA foi a primeira a publicar imagens da Legião Internacional

Movimentos de extrema-direita norte-americanos e europeus estão a rumar à Ucrânia com o objetivo de ganhar experiência em cenários de guerra. Grupo de Mário Machado viaja no domingo, 20, mas no seio da extrema-direita portuguesa nem todos estão satisfeitos com o lado escolhido.


Pouco mais de 48 horas tinham passado desde o início da ofensiva militar russa, quando o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, apelou aos cidadãos dos países estrangeiros para se juntarem às forças armadas ucranianas e lutarem contra aqueles que designou como “invasores do século XXI”. Numa mensagem de vídeo, Zelensky incitou a uma guerra em nome “da segurança na Europa e no mundo”.

Para agilizar o processo, o governo ucraniano criou um site, chamado Fight for Ukraine (Lutar pela Ucrânia), onde é possível fazer a “inscrição para a guerra” através de um processo simples de (apenas) sete passos.

Duas semanas depois, Kiev garantiaque 20 mil voluntários e veteranos estrangeiros já tinham expressado o desejo em participar na designada Legião Internacional de Defesa Territorial, uma força que, entretanto, se encontra no terreno, sob comando da Direção de Inteligência do Ministério da Defesa ucraniano e do general Kyrylo Budanov.

Mas entre os cidadãos bem-intencionados que fazem fila para lutar pela Ucrânia, encontram-se alguns voluntários com ligações a grupos de extrema-direita e supremacistas brancos, que aproveitaram o apelo de Zelensky para rumarem à Ucrânia, com o principal objetivo de receberem treino e ganharem experiência de combate num cenário real de guerra.

Os governos e as autoridades de vários Países têm sinalizado um aumento da atividade de líderes da extrema-direita (principalmente norte-americanos e europeus), que, desde esse momento, passaram a promover, nas redes sociais – em particular no Telegram –, ações de recolha de fundos, recrutamento de combatentes e planos para a viagem até à linha da frente do conflito.

O “caso” português: nacionalistas divididos

Também o neonazi português Mário Machado viu neste conflito uma oportunidade. Desde o início da ofensiva militar russa, que o antigo dirigente de movimentos de extrema-direita – como os inativos Frente Nacional e Nova Ordem Social – tem publicado, quase diariamente, mensagens de ódio nas suas redes sociais. Aproveitando a (polémica) posição do PCP em relação à guerra, Machado chegou a anunciar, no Telegram, existir a intenção da extrema-direita portuguesa “preparar a invasão e destruição” das sedes daquele partido, passando a terminar os seus textos sobre a guerra na Ucrânia com a expressão “Morte ao comunismo”.

Seguindo a linha ideológica de “combate aos comunistas”, Machado iniciou uma recolha de fundos, conseguindo reunir um grupo de oito indivíduos (sete homens e uma mulher), que agora se preparam para rumar à Ucrânia (domingo, 20) – numa campanha que designou como “Operação Ucrânia 1143” (numa referência ao ano da assinatura do Tratado de Zamora) –, onde se vão juntar a uma milícia da extrema-direita ucraniana, em Lviv, noticiou o Expresso esta semana.

A opção, no entanto, não tem sido consensual no seio da extrema-direita portuguesa, pois o “inimigo” de Machado, Vladimir Putin, tem sido, na realidade, ao longo dos últimos anos, o líder político mais “amigo” da extrema-direita europeia, financiando uma lista de políticos e partidos populistas e nacionalistas, onde se contam Marine Le Pen, Eric Zemmour, Matteo Salvini ou o partido Alternativa para a Alemanha (AfD), entre outros. Mais: Zelensky é judeu, e vários membros da extrema-direita portuguesa não aceitam a ideia de se lutar ao seu lado, apurou a VISÃO.

A discussão levou Mário Machado a ter de dar explicações, através de um áudio partilhado nas suas redes sociais, em que esclarece que esta “é uma ação a favor do povo ucraniano”, mas “não é contra o povo russo e muito menos (…) a favor de nenhum governo”. “Odiamos o Putin, e tudo aquilo que ele representa (…) mas o Zelensky não é um dos nossos”, diz, acrescentando que o presidente ucraniano – “um judeu”, destaca – “defende a narrativa dos governos traidores da União Europeia (UE)”. “Não estamos ao serviço de governos com os quais não nos identificamos”, assegurando que a sua participação no conflito vai acontecer “num pelotão” que não integra as forças armadas ucranianas.

Anticomunismo e oportunismo: o risco da extrema-direita transnacional

O politólogo José Filipe Pinto explica à VISÃOa participação da extrema-direita neste conflito, e as divergências entre quem ataca e defende Putin. O especialista em movimentos extremistas e populismo considera que estes combatentes têm duas motivações essenciais: a ideológica e a oportunista. E as suas prioridades (e metas) não passam, necessariamente, pela defesa da Ucrânia e dos ucranianos.

Por um lado, os movimentos de extrema-direita “têm uma dimensão ideológica que os faz olhar para a Rússia como uma potência ainda ligada ao comunismo, conotada com tudo aquilo que abominam, no que é uma reminiscência do combate contra a URSS, por outros ideais civilizacionais” – precisamente a linha defendida por Mário Machado.

Por outro, estes grupos “têm uma posição interesseira, aproveitando a ocasião para desenvolver aquilo que eles julgam ser os seus talentos” no palco de guerra. “Lutam não só pela ideologia, mas também por interesse imediato, que passa pela afirmação pessoal e coletiva como elementos indispensáveis para a mudança civilizacional que desejam concretizar”, diz.

Obcecados pelo militarismo e pela ordem, palavras-chave desta ideologia, muitos destes combatentes identificam-se com a personalidade e liderança de Vladimir Putin, que consideram “um verdadeiro chefe”, próximo de uma linha conservadora e nacionalista – o que explica as divergências no interior dos movimentos.

Autor de várias obras – entre as quais o recém-lançado As Europas e os Novíssimos Príncipes, Os escândalos populistas (Sílabo, 208 págs, €15,90) –, José Filipe Pinto alerta para “um sério risco” da participação da extrema-direita neste conflito, pois não tem dúvidas que esta experiência está a ser usada como”rampa de lançamento” para “ser criado um movimento de extrema-direita transnacional, não circunscrito às fronteiras de determinado País, mas com base em ideais”, que vão ao encontro daquilo que são os seus principios identitários: uma Europa branca, cristã e tradicionalista (independentemente de nacionalidades).

“Não tenho dúvidas que o objetivo da extrema-direita europeia, a médio prazo, será coligar todos estes grupos e pessoas em nome de uma Europa que comunga dos seus princípios”, garante. Para isso, contam com o treino e a experiência na guerra (e armas na mão).

O risco das armas de guerra “perdidas” no rescaldo do conflito

Quando, na década de 1980, o Afeganistão era palco de uma guerra entre soviéticos, que suportavam o governo de Cabul, e mujahidines, apoiados pelos Estados Unidos, o País tornou-se no epicentro do jihadismo mundial, com militantes islâmicos radicais (como Osama Bin Laden) a se reunirem para lutarem contra os comunistas.

Os milhares de milhões de dólares norte-americanos permitiram treinar e armar os guerrilheiros islâmicos – incluindo com mísseis Stinger (que se tornariam um flagelo para a força aérea soviética), decisivos para o desfecho do conflito –, mas Washington ignorava, na altura, que a vitória talibã no Afeganistão iria galvanizar os radicais e lançar as bases para o que seriam os futuros ataques terroristas no Ocidente, como o 11 de setembro de 2001.

A história legitima a pergunta: a extrema-direita que, hoje, combate na guerra da Ucrânia – de ambos os lados –, representa os mesmos riscos para o futuro das democracias ocidentais?

Quando tudo isto terminar, as autoridades têm obrigatoriamente de estar mais atentas às atividades destas pessoas e destes grupos.

Jorge Bacelar Gouveia

Contactado pela VISÃO, Jorge Bacelar Gouveia, presidente Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT), admite “alguma preocupação” com estas movimentações, e alerta para “a circulação de armas”, quando o conflito terminar. “As armas, para mais de guerra, não podem voltar para os Países de origem destes combatentes e circular livremente”, sublinha.

O presidente do OSCOT refere que, para já, “nada impede que estas pessoas possam sair dos Países e seguir para a Ucrânia”, mas avisa que “as consequências podem, de facto, ser perigosas”. “No futuro, quando tudo isto terminar, as autoridades, incluindo as portuguesas, têm obrigatoriamente de estar mais atentas às atividades destas pessoas e destes grupos”, conclui.


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Entretanto, a direita espanhola não passa pelos pingos da guerra

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 22/02/2022)

A guerra que ia começar na quarta-feira aconteceu na segunda-feira? Biden diz que não, que estava iminente e por horas, mas ainda não foi desta, pelo que ficou instalada a confusão dentro da Nato, enquanto, do outro lado, Putin explicou no discurso em modo torrencial como Lenine foi o culpado da Ucrânia e duas dezenas de pessoas se fizeram filmar comemorando na praça a declaração de independência de Donbass. A ameaçadora estratégia de tensão vai crescendo no meio da mediocridade das encenações.


Como seria de esperar, pelos pingos desta guerra anunciada, a militar como a mediática, vão passando poucas notícias. No entanto, há pelo menos um país que se ocupa de outros assuntos: em Espanha só se fala da guerra civil no Partido Popular. Depois da eleição antecipada em Castela e Leão, ganha pelo PP mas longe do seu objetivo da maioria absoluta (o centro e a esquerda recuaram, os liberais desapareceram e a extrema-direita ocupou o seu lugar), a querela incendiou-se, contrapondo quem defende um governo com o Vox e quem pretende preservar o espaço da direita tradicional.

Ora, apesar de ser esta a questão que vai decidir os contornos da proposta da direita para o futuro, o que não se esperava é que a luta pela liderança e pela escolha de alianças mobilizasse acusações de corrupção. Mas o facto é que Casado, o presidente do partido, que parece temer a aliança com a extrema-direita, encomendou uma investigação à sua principal opositora interna, Ayuso, presidente da Comunidade de Madrid e que já governa apoiada pela extrema-direita, e revelou que esta teria pago ao irmão uma comissão de 288 mil euros numa encomenda de máscaras Covid.

A comissão foi paga “no dia em que morreram 700 pessoas”, anunciou dramaticamente a direção do PP. Ayuso respondeu que a comissão foram só 56 mil euros e convocou uma manifestação de milhares de militantes em frente à sede do partido, exigindo a demissão de Casado. Vários barões do partido vieram apoiá-la e surgiram vozes a elogiar a forma como ela sustenta a sua família.

O surgimento de acusações de corrupção dentro do PP não é novidade e isso é um problema. O partido foi e continua a ser alvo de várias investigações judiciais. Foi na sequência de uma delas, o caso Gurtel, que foi aprovada a moção de censura que derrubou o governo Rajoy e abriu a porta a eleições que conduziriam ao governo do PSOE e do Podemos. O tesoureiro do partido, Bárcenas, foi condenado a 33 anos de prisão. Dois ex-presidentes da Câmara de Madrid estão a ser julgados. O que é novidade, no entanto, é que acusações deste tipo se tenham tornado o centro da disputa política de uma fação do partido contra outra, agravando os danos de uma batalha suicidária em que todos se condenam.

Se a direita espanhola chega a este ponto de confronto, é porque se sente que a divergência é insanável e as duas fações a interpretam como uma questão de vida ou morte. Nesse contexto, o possível afastamento de Casado, que pode vir a ser substituído por um aliado de Ayuso, o presidente galego, Feijóo, marcaria uma vitória histórica da extrema-direita que, a partir de então, teria o caminho aberto para ser parte integrante da proposta de governo das direitas.

Desse modo, o que em Portugal foi um aperitivo agiganta-se em Espanha para ser uma questão definidora do destino da direita. Só me espanta que, depois de Trump ter governado durante quatro anos o Estado mais poderoso do mundo, ainda haja quem pareça surpreendido com esta evolução vertiginosa em que as direitas europeias vão mobilizar todos os esqueletos do seu armário.


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Coitadinho do Pacheco de Amorim, tão maltratado

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 08/02/2022)

Ventura, matreiro, quer fazer da disputa pela vice-presidência do Parlamento uma telenovela que se arraste pela amargura da vitimização, quanto mais longa melhor, para lhe dourar os galões de antissistema. Escolheu para isso o candidato que lhe dava mais garantias de ser chumbado. Hic Rhodus, hic salta, eis não sei quantos dos profetas da direita a responderem a este apelo e a rasgarem as vestes pela elevação do Pacheco de Amorim a vice, ora apresentando-a como uma obrigação estatutária, ora terçando pela conveniência educativa da iniciativa.

Como seria de esperar, é do Observador que chegam os mais enfáticos, e o seu chefe, José Manuel Fernandes, apresenta numa emissão de rádio o argumento definitivo: “Se querem discutir a eleição de Pacheco de Amorim, discutam a Constituição, pois é lá que está prevista. O que a Constituição não prevê e não devia ser tolerado é uma ‘socranete’ como presidente da AR.”

“Está prevista” a eleição de Amorim na Constituição, curiosa escolha de palavras. De facto, o que o texto constitucional determina é que os deputados têm o poder de “eleger por maioria absoluta dos deputados em efetividade de funções o seu presidente e os demais membros da Mesa, sendo os quatro Vice-Presidentes eleitos sob proposta dos quatro maiores grupos parlamentares” (Artigo 175º, alínea b).

Seria demais pedir ao ideólogo alguma atenção à redação, que atribui o poder de “proposta” aos quatro grupos parlamentares e o poder de “eleger” aos deputados, que são naturalmente livres de exprimirem o seu voto. Tavares, no Público, apimenta a coisa com uma alegada tradição: teríamos um problema se os deputados exercessem o seu voto de modo a produzirem um “corte com a tradição parlamentar desde 1975” (o que, a talhe de foice, é uma “tradição” frequentemente “cortada”, ou seja, sempre que os deputados entenderam diversamente dos proponentes).

Pode-se perguntar em que mais assuntos transcendentes é que esta defesa da “tradição” ou da “previsão” constitucional obrigaria os deputados a abdicarem do seu direito de opinião para aprovarem de cruz o que lhes é proposto. O resultado seria uma estranha democracia, mas certamente obediente.

A rapidez com que os dois ideólogos se escapulem para a eventual proposta de Edite Estrela para a presidência do Parlamento não deixa de ser reveladora de algum desconforto com a sua adesão à candidatura de Amorim. Aliás, os termos em que o fazem denunciam o estratagema, pois seguem a máxima dos aflitos: se a conversa corre mal dispara depressa noutra direção. Acresce que Fernandes não se coíbe de usar uma grosseria que só mobiliza por se tratar de uma mulher. Ela é uma “socranete”, pois claro.

Imagine quem lê esta prosa se alguma vez o diretor do Observador escreveria de Pacheco de Amorim que é um “venturete”. Já sabe a resposta: nunca, afinal o dito cujo é um homem, homens não são majorettes, quanto a mulheres bem podem ser, não é? Tavares, que é mais prudente na escolha das palavras, limita-se a atirar contra “a madrinha do Sócrates”. Veremos se Estrela é mesmo a candidata à presidência do Parlamento pelo PS, o que pareceria uma escolha infeliz – mas compará-la com alguém que fez carreira numa organização responsável por atentados e que se orgulha desse passado, isso é uma abominação. Nesse plano, nenhuma confusão é possível.

Temos então, na direita, três atitudes sobre o Chega, que se vão consolidando e que este episódio volta a revelar. A primeira é de quem quer a extrema-direita para o porradismo social. É, por exemplo, a de Fátima Bonifácio, que explicou que, como “a direita não se conseguiu impor com boas maneiras e falinhas mansas”, um avanço do Chega será o início de “uma barrela de alto a baixo” no país. A segunda é a de quem lhe quer garantir um estatuto na direita, eles que se entendam. Ao que se percebe, é a do Observador. Finalmente, a terceira é a de quem prefere abrir a porta da sala de aula, esperando que os rufias do recreio se sentem sossegadinhos, como parecem ser os casos de Marques Mendes e Lobo Xavier ou, mais enfático, de Pinto Luz.

Para Ventura é um gosto aliar-se com as duas primeiras versões da direita e usar a terceira a seu bel-prazer. Fica a saber que a cartada Pacheco de Amorim mete em sentido uma parte daquela ala e desbarreta outra, afinal foi fácil. Com isso, já ganhou alguma coisa.


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