Reflexões sobre a oposição e os seus dadas

(Pacheco Pereira, in Público, 05/02/2022)

Pacheco Pereira

Un homme qui n’a pas de dada ignore tout le parti qu’on peut tirer de la vie. Un dada est le milieu précis entre la passion et la monomanie.” Balzac, Autre Étude de Femme, 1842.


1. A ironia da actual situação pós-eleitoral é que os partidos que com mais veemência criticavam o “socialismo”, a “venezuelização”, a “ditadura do PS” e outros qualificativos cheios de horror com António Costa estão muito mais contentes com o desastre do PSD e a eventual queda de Rui Rio do que preocupados com a maioria absoluta do PS. Aliás, basta ler a comunicação politicamente mais radical nas suas críticas ao poder socialista, o Observador, o Nascer do Sol, o Novo, e a extensão crescente destes núcleos de opinião por muitos mais jornais, rádios e televisões, etc., etc., os seus comentários editoriais, as suas escolhas de entrevistas, os seus comentadores, para perceber uma enorme indiferença para com a maioria absoluta socialista, contrastando com uma muito mal disfarçada excitação e alegria com o estado do PSD, e com a perspectiva de se verem livres de Rui Rio.

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2. Como corolário dessa indiferença versus excitação expectante está o tratamento apologético dos novos partidos radicais que entraram na Assembleia, que trouxeram “juventude”, mobilização, dinamismo e uma “nova”, e presumida mais eficaz, oposição. Esta apologética é mais evidente com a IL, o novo dada da política portuguesa, substituindo nesse papel o BE, já há algum tempo caído em desgraça comunicacional.

3. A atitude destes sectores face ao Chega é igualmente muito mais simpática, abatendo-se ou esbatendo-se quase todas as chamadas “linhas vermelhas”, exactamente onde elas tinham sentido, no plano político e programático. O Chega tinha e tem sempre uma desvantagem face ao forte preconceito social que impregna toda a vida política portuguesa desde sempre: são demasiado “de baixo”, demasiado grosseiros, não sabem comer à mesa, enquanto os elegantes modernos da Iniciativa Liberal sabem.

4. Estes preconceitos atingiram também Francisco Rodrigues dos Santos, independentemente do julgamento sobre as suas políticas. Foi algo de que ele se queixava com razão face à cultura dos “senhoritos” do CDS.

5. Para além desta Schadenfreude com o PSD e Rio, há também um outro contentamento destes sectores com o “encolher” do BE e do PCP, de novo desigualmente motivada. Com o BE, há uma espécie de vingança fracturante perante o espelho inverso, o radicalismo de uns era naturalmente hostil ao radicalismo dos outros. Como se irá ver na Assembleia, o Chega vai propor uma agenda fracturante inversa, nas matérias que um dos novos deputados, Gabriel Mithá Ribeiro, tem defendido com uma clareza pouco habitual: valorização da ordem, da autoridade e da hierarquia, da família e da nação, combate ao valor da “solidariedade” trazido pelo 25 de Abril, entendido como secundário face à “auto-responsabilidade”, reabilitação da história colonial portuguesa.

6. Com o PCP é algo de natureza diferente, vai mais longe e mais fundo e passa muito para além do PCP. Vai para os sindicatos, para os direitos laborais, para as greves, para o mundo do trabalho. Aqui será a IL, como partido representante dos interesses de certo empresariado, antigo e novo, que vai tomar a dianteira. Os seus mentores pouco querem saber das causas dos “brutos” do Chega, mas sabem quem os obriga a ter essas coisas “iliberais” como contratos de trabalho, horários, dificuldades em despedir, condições de trabalho, pagamento de impostos e regulação. Isso é, como se via no papel de propaganda disfarçada de Autoridade Tributária, comunismo. E se pensam que estas ideias são apenas do velho patronato, estão enganados: são de forma mais sofisticada dos novos yuppies das start-ups.

7. Como é que depois de uma clamorosa derrota face à “esquerda” e ao “socialismo” existe este contentamento? A resposta, de que eles não gostam, é que se deu e está a dar um processo de radicalização das direitas e, por isso, o resultado mais importante das últimas eleições para eles são os deputados da IL e do Chega e, muito mais decisivo, é que o PSD está outra vez “a saque”. Um dos aspectos do radicalismo é que é melhor estar confortável na sua casa de palavras e acções, cheia de espelhos amáveis, mesmo que seja mais pequena.

Quero lá saber do Costa para alguma coisa, do PS, do “socialismo”, passou a haver mais dos “meus”, trocamos sinais de pertença, falamos com a mesma língua, podemos ir aos touros sem má consciência, tratar mal as mulheres em nome da “autoridade” e da “família”, ou dissertar sobre como os “países liberais são os mais ricos”, que é uma falsidade, mas sabe bem com este gin tónico ou whisky de malte, ou seja, tudo bem, não podia ter havido melhor resultado.

O autor é colunista do PÚBLICO


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Cavaco Silva – um homem coerente no ódio e na militância

(Carlos Esperança, 20/12/2021)

Conheci boas pessoas salazaristas. Pensavam mal, mas tinham bom coração. Julgavam que o frio assassino de Santa Comba desconhecia os assassínios da Pide, os massacres, as torturas, os presídios, a violência policial e a miséria do povo. Puderam, assim, ser salazaristas.

Não é o caso de Cavaco Silva, homem a quem a democracia deu o que negou a pessoas inteligentes, honestas e generosas. Nunca um homem tão inculto e limitado chegou tão longe e durante tanto tempo.

Rude nas maneiras, medroso e intriguista, foi arrogante e pérfido para os adversários, a quem considera inimigos. O folhetim da posse do Governo de António Costa, depois de ter tentado contrariar a AR e prejudicado o país com o medo que incutiu e a denúncia às instituições estrangeiras, do perigo do governo apoiado pelo PCP e BE, só encontrou paralelo nas palavras boçais aos membros do Governo que lhe desejaram Boas-Festas de Natal, “uma boa tradição que se deve manter, mesmo com este governo” (A. Costa).

Sobre as prevaricações ortográficas, o ódio a Saramago e à democracia, os negócios do BPN, a invenção das escutas do PM, as múltiplas reformas que recebe, o seu carácter e o ódio que o consome, paira um manto de silêncio.

Basta-lhe ver um cravo vermelho ou ouvir a data do 25 de Abril para não conter o ódio à democracia. Ignora que o 5 de Outubro, o 1 de Dezembro e o 25 de Abril são datas da identidade do povo que somos, e só o 28 de maio o satisfaz a sua incultura democrática.

O mundo é feito de mudança, mas o empedernido salazarista não muda. Não conseguiu fazer do PSD um partido fascista, nem ele nem o cúmplice Passos Coelho, mas quer que o fascismo seja o bálsamo da perfídia que acalenta.

«Cavaco diz que acordo com o Chega era melhor solução».

(Frase proferida na formação do Governo dos Açores)


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José Miguel Júdice, “criptofascista”, advogado de Rendeiro (e seu representante em ‘off shores’), comentador da SIC…

(Alfredo Barroso, in Facebook, 09/12/2021)

José Miguel Júdice

Convém lembrar que o ‘avocat d’affaires’ José Miguel Júdice, que é também comentador na SIC, foi um dos mais activos membros do Movimento Federalista Português (MFP), criado após a revolução de 25 de Abril de 1974. O MFP procurou mobilizar o apoio daqueles que pretendiam a continuação de uma união de Portugal com o Ultramar colonial através de uma federação. Este movimento de extrema-direita converter-se-ia em partido político, designado Partido do Progresso, presidido por Fernando Pacheco de Amorim (1920-1999), (monárquico e “integracionista”, que presidiria ao Gabinete Político do MDLP, outro movimento de extrema-direita)…

De facto, com a extinção do Partido do Progresso, durante o chamado PREC (Processo Revolucionário em Curso), em 1975, José Miguel Júdice seguiu Fernando Pacheco de Amorim, juntando-se a António de Spínola e a Alpoim Calvão, entre outros, na fundação do MDLP. Esta organização (política e militar) contra-revolucionária tinha por objectivo fragilizar o poder das forças de esquerda, realizando ações subversivas em território nacional através do seu braço armado bombista, o ELP (Exército de Libertação de Portugal) como resposta à atividade do COPCON, de Otelo Saraiva de Carvalho…

Com a estabilização democrática do país, e já no final da década de 1970, início da década de 1980, José Miguel Júdice resolveu aderir ao Partido Social-Democrata (PPD-PSD) influenciado pela liderança de Francisco Sá Carneiro. Na primeira metade da década de 1980, ao lado de Marcelo Rebelo de Sousa, José Manuel Durão Barroso e Pedro Santana Lopes, ‘conspirou’ contra a liderança de Francisco Pinto Balsemão (na AD e no PPD-PSD) e depois contra o governo do ‘Bloco Central’ (aliança PS-PPD) como membro da ‘Ala Nova Esperança’, numa acção que viria a abrir portas à subida ao poder de Aníbal Cavaco Silva… Júdice viria a presidir à Comissão Política Distrital de Lisboa do PPD-PSD, entre 1985 e 1986…

Afastando-se progressivamente da estrutura social-democrata, Júdice resolveu, em 2005, apoiar a candidatura de Maria José Nogueira Pinto, pelo CDS-PP, à Câmara Municipal de Lisboa. Em 2006 desfiliou-se do PSD, era líder Luís Marques Mendes, não obstante ter apoiado nesse mesmo ano a candidatura de Cavaco Silva a PR… Em 2007, aceitou ser o mandatário da candidatura do PS, encabeçada por António Costa, à Câmara Municipal de Lisboa. Após a vitória eleitoral dos socialistas, foi nomeado, em 2008, para presidir ao Conselho de Administração da “Frente Tejo”, sociedade para a reabilitação da frente ribeirinha de Lisboa, mas acabaria por rejeitar o cargo antes de tomar posse…

Em 2016, apoiou publicamente a candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa a PR. Perante as declarações de José Manuel Rodrigues Berardo (‘Joe’ Berardo) na Assembleia da República – em que este afirmou que não tinha que pagar qualquer dívida aos bancos que lhe emprestaram dinheiro – José Miguel Júdice ameaçou devolver a sua condecoração de Grande Oficial da Ordem do Infante Dom Henrique (que lhe foi atribuída pelo Presidente Jorge Sampaio) se o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa não retirasse a ‘Joe’ Berardo as condecorações de Comendador e Grã-Cruz da Ordem do Infante Dom Henrique. A desfaçatez deste oportunista não tem limites…


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