Os custos do Euro: escrever direito por linhas tortas

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 07/03/2019)

Alexandre Abreu

Por ocasião dos vinte anos do euro, o think tank alemão CEP (Centro para as Políticas Europeias), curiosamente associado ao ordoliberalismo alemão e próximo da Fundação Friedrich von Hayek, publicou no mês passado um estudo em que procura identificar as economias que mais ganharam e perderam em resultado da adoção da moeda única. O quadro-resumo dos resultados a que chegou, aqui reproduzido em baixo, circulou pelas redes sociais e suscitou algum debate.

FONTE: GASPAROTTI AND KULAS (2019), 20 YEARS OF THE EURO: WINNERS AND LOSERS. AN EMPIRICAL STUDY

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Entre os oito países analisados, o estudo conclui que o euro beneficiou bastante a Alemanha, a Holanda e, de forma marginal mas surpreendente, a Grécia, que supostamente terá sido muito beneficiada nos primeiros anos do euro e depois muito prejudicada após a eclosão da crise, uma coisa acabando por compensar a outra. Os restantes países considerados terão perdido significativamente, com destaque para Portugal, França e Itália. Relativamente a Portugal, o estudo conclui que a adoção do euro implicou um impacto negativo total sobre a prosperidade de cerca de 424 mil milhões de euros, correspondentes a cerca de 40 mil euros a menos por pessoa.

É hoje bastante bem conhecida a natureza dos desequilíbrios que caracterizam a zona euro, mas quantificar esses mesmos desequilíbrios envolve dificuldades substanciais. Decidi por isso olhar mais de perto para este estudo a fim de perceber melhor como é que chegaram a estes números. Aquilo que encontrei é francamente dececionante.

O método adotado, conhecido como método de controle sintético, consiste em identificar estatisticamente, para cada país (por exemplo, Portugal), no período anterior à introdução do euro (1980-1996), uma combinação de países exteriores à zona euro cujo desempenho em termos de crescimento económico foi o mais parecido possível com o do país em análise. Comparando em seguida, para o período após a introdução do euro, a evolução real do PIB per capita do país em questão com a do país imaginário composto por essa combinação ‘parecida’ de países, temos um exercício contrafactual que, supostamente, nos permite aferir o que cada país ganhou ou perdeu em resultado da moeda única. Os 424 mil milhões de euros de impacto negativo estimados pelo estudo para o caso português correspondem à soma, ao longo destes vinte anos, da diferença entre o PIB efetivamente registado pela economia portuguesa em cada ano e o PIB teoricamente registado por este país contrafactual imaginário.

Obviamente, o método utilizado é bastante duvidoso e criticável, e percebemo-lo bem se tivermos em conta que o país imaginário que serve de contrafactual no caso português é uma combinação de Barbados (com uma ponderação de 33%), Israel (25%), Nova Zelândia (24%) e Singapura (18%). Entre 1980 e 1996, esta combinação particular de países teve um desempenho muito parecido com o da economia portuguesa; de 1999 em diante, a divergência foi muito significativa em desfavor de Portugal. A objeção elementar é que o facto desta combinação de países, num período de referência relativamente curto, ter calhado evoluir de forma muito parecida com a economia portuguesa não torna estes países, com as suas idiossincrasias e sujeição a fatores particulares, num modelo contrafactual válido para Portugal. O método vale por isso o que vale – o que na minha opinião é muito pouco.

Ainda assim, é tão grande a magnitude dos ganhos e perdas que efetivamente advieram aos países do centro e da periferia da zona euro nos últimos vinte anos que mesmo este método discutível permite identificar bastante bem os vencedores e perdedores da moeda única.

Foram principalmente beneficiados os países para quem a adoção do euro representou a adoção de uma moeda subvalorizada face às características da sua economia, e que em consequência acumularam superávites; e perderam os países para quem o euro implicou uma forte sobreapreciação cambial, que consequentemente acumularam défices externos recorrentes e perdas de prosperidade.

Apesar da metodologia duvidosa, as conclusões acabam por ser relativamente acertadas. Também neste genero de coisas se pode escrever direito por linhas tortas.


Vinte anos de engenharia monetária

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 14/01/2019)

soromenho

Parece ter sido Mirabeau (1754-1792) o autor da célebre frase sobre o militarismo prussiano: “A Prússia não é um Estado com um exército, mas um exército que tem um Estado.” Por analogia, poderemos dizer, vinte anos depois da entrada em cena do euro: “A zona euro (ZE) não é uma união de Estados que tem uma moeda, mas uma moeda que tem uma união de Estados.” Na verdade, todos os anos, os Estados da ZE, através do semestre europeu e da disciplina orçamental, têm de obter uma espécie de nova autorização de residência da Comissão Europeia, para continuarem a habitar na ZE. E o mais extraordinário é que o euro, que tantas justas queixas merece, funciona como aqueles imperativos materiais perversos que mantêm os casais desavindos unidos, por razões de simples análise custo-benefício. Antes dormir com o inimigo do que ficar ao relento na rua. De facto, os líderes políticos europeus, distraídos na gestão das suas carreiras, não perceberam a tempo que as sumidades que inventaram o euro não deixaram nenhum plano B de saída de emergência. Estamos como aqueles pilotos do início da I Guerra Mundial, que iam para o combate sem paraquedas. Para o euro não existe artigo 50.º nem saída ordenada. Se e quando a hora do fim chegar, será uma trapalhada monumental…

Quando a pobreza deixa de ter um horizonte de saída, como ocorre demasiado na Europa do monetarismo do euro, sobra em raiva o que falta de razão.

 

Contudo, se é verdade que o euro não permite voltar atrás, também é verdade que desde o Relatório Delors (1989), e até mesmo no velhinho Plano Werner (1970), sempre existiu a promessa de uma porta para diante: completar o euro, com um orçamento comum, suficiente para permitir transferências financeiras entre regiões mais ricas e mais pobres, para acudir a choques assimétricos sem chamar o FMI, para a partilha da despesa social da União com os Estados, para a cooperação fiscal (impedindo a atual concorrência desleal entre Estados que leva à perpetuação de paraísos e dumping fiscal). Finalmente, a porta levaria ao upgrade da zona euro para uma união política, sem o que tudo o resto assentaria em castelos no ar.

O problema que se arrasta há demasiado tempo é que a Alemanha, que nos anos mais pujantes de Kohl era a campeã da união política, meteu a viola no saco e encostou-se à porta do futuro do euro, bloqueando-o. Transformou um período de transição num estado permanente. O resultado é desolador e ameaçador pela sua insustentabilidade.

Os coletes amarelos – sintoma social da crise profunda de uma globalização agravada pela engenharia tortuosa do euro – concretizaram o notável prognóstico avançado por um prometedor jornalista, de nome Paulo Portas, em 1994: “(…) a União Económica e Monetária abriria, sobretudo no mundo do trabalho, uma séria crise de fé na ideia europeia.” Por essa Europa fora, o eleitorado que antes votava comunista, socialista e estava sindicalizado entrou numa deriva em que o voto na extrema-direita aparece no menu do protesto, como se vê em França, na Itália e mesmo em Espanha. Quando a pobreza deixa de ter um horizonte de saída, como ocorre demasiado na Europa do monetarismo do euro, sobra em raiva o que falta de razão.


Professor universitário

O euro de Mário Centeno como "veículo de prosperidade" – O mito e a realidade

(Por Eugénio Rosa, in Resistir, 12/01/2019)

Para Mário Centeno, o euro deve ser “um veículo de prosperidade para os cidadãos europeus”. ( Jornal Negócios, Dez/2018). E como prémio pelo seu apoio fervoroso, a revista The Banker, do Financial Times, ligada à alta finança inglesa (City of London) considerou “o ministro das Finanças português Mário Centeno como o melhor ministro das Finanças do ano (2018) na Europa”, o que foi depois repetido acriticamente por todos os grandes órgãos de informação portugueses e pelos opinion makers que têm acesso fácil aos media, condicionando fortemente a opinião publica nacional. No entanto, o que é bom para os grandes grupos financeiros pode não ser bom nem para Portugal nem para os portugueses. Por isso, interessa analisar com objetividade se o euro tem sido um veículo de prosperidade para os portugueses, o que tem acarretado para o nosso país estes 20 anos de euro, ou melhor, qual é a situação de Portugal e dos portugueses ao fim de 20 anos de euro, e quais os desafios e as dificuldades que os aguardam no futuro. Para isso, vamos utilizar a linguagem objetiva dos dados oficiais. Esta análise, até por limitações de espaço, vai-se limitar a alguns (poucos) aspetos importantes que condicionam o presente e o futuro dos portugueses e de Portugal.
A EVOLUÇÃO DAS CONDIÇÕES DE VIDA DOS PORTUGUESES EM COMPARAÇÃO COM OS DA ZONA EURO SEGUNDO O EUROSTAT, O SERVIÇO OFICIAL DE ESTATISTICA DA UE 
O gráfico 1, com os dados divulgados pelo Eurostat, mostra com clareza como tem evoluído as remunerações dos trabalhadores portugueses em comparação com a média das remunerações dos trabalhadores da Zona Euro, constituída por 19 países.

Gráfico 1.

Segundo o Eurostat, em 2008, a remuneração/hora de um trabalhador em Portugal correspondia 47,3% da média da Zona euro; em 2011 representava já apenas 45,3%; em 2015 somente 41,4% e, em 2017, 41,8% da média das remunerações dos trabalhadores da Zona Euro, ou seja, menos de metade. Eis o “veículo de prosperidade”, para utilizar as palavras de Centeno, que tem sido o euro para os trabalhadores portugueses.

No 3º Trimestre de 2018, segundo o Inquérito ao Emprego do INE, 950.000 trabalhadores (26,2% do total) recebiam mensalmente menos de 600€ e 2.342.500 trabalhadores portugueses (64,7% do Total) levavam para casa menos de 900€ por mês. Eis também o resultado, em números, do “veículo de prosperidade” de que se gaba Mário Centeno.
O AGRAVAMENTO DA DESIGUALDE NA REPARTIÇÃO DA RIQUEZA EM PORTUGAL 
E se completarmos este quadro com outros dados sobre a parte da riqueza criada que reverte para os trabalhadores tanto em Portugal como nos países da Zona euro, ou seja, como se reparte a riqueza criada no nosso pais e nos países da Zona Euro, o retrato fica ainda mais claro e completo. E para que não hajam dúvidas que não estamos a manipular a realidade vamos continuar a utilizar dados divulgados pelo insuspeito Eurostat que é o serviço de estatísticas oficiais dos governos dos países da União Europeia (gráfico 2).

Gráfico 2.

Os dados do Eurostat são claros, não deixam margens para dúvidas e tornam desnecessários os comentários. Em 2006, apenas 46,8% da riqueza criada em Portugal revertia para os trabalhadores que representavam cerca de 84% da população empregada; em 2011, tinha diminuído para 46,3%, e no fim do governo de Passos Coelho/Paulo Portas/troika” tinha-se reduzido para 43,7%, tendo subido em 2017 para 44,3% mas continuando a ser inferior à média da Zona Euro que, em 2017, era 47,5%. Um valor superior ao de 2006, precisamente o contrário do que se verificou em Portugal que diminuiu. Este é também o resultado do “veículo de prosperidade” de que fala Mário Centeno.
A DIVIDA EXTERNA DO PAÍS E DAS ADMINISTRAÇÕES PÚBLICAS CONTINUA A SER ENORME E A CRESCER, QUALQUER SUBIDA DAS TAXAS DE JUROS TEM EFEITOS GRAVES 
O gráfico que a seguir se apresenta, construído com dados divulgados pelo Banco de Portugal, mostra de uma forma clara a enorme divida do nosso país ao estrangeiro. Qualquer subida significativa da taxa de juros terá consequências dramáticas para o país

Gráfico 3.

Este enorme endividamento do país (em 2018, superior em mais de duas vezes ao valor do PIB de Portugal) está associado também a um enorme e crescente endividamento das Administrações Públicas quer total quer ao estrangeiro, como revela o gráfico 4.

Gráfico 4.

Como revelam os dados do Banco de Portugal, a divida total das Administrações Públicas continuou a aumentar com o governo de António Costa/Mário Centeno, embora a divida externa tenha diminuído, mas continuando a ser muito elevada (140.352 milhões € em 2018 ).
PARA CUMPRIR O QUE BRUXELAS EXIGE CORTA-SE NA DESPESA E NO INVESTIMENTO PÚBLICO COM CONSEQUÊNCIAS DRAMÁTICAS PARA O DESENVOLVIMENTO DO PAÍS 
O quadro 1, também com dados do Eurostat, mostra a queda significativa, com consequências dramáticas no desenvolvimento do país assim como na prestação de serviços públicos à população (saúde, educação, transportes públicos, ferrovia, segurança social, etc.), pois sem investimento e sem trabalhadores não é possível realizar isso

Quadro 1.

Os dados do Eurostat revelam que se verificou em Portugal uma quebra significativa quer no investimento total (em 2017, menos 20% que a taxa da Zona Euro) quer no investimento público (em 2017, menos 42,3% que a taxa da Zona euro), e na despesa com pessoal da Função Pública, medida em % do PIB, com efeitos graves quer para o desenvolvimento do país quer para suprir as necessidades básicas da população, com consequências graves na vida dos portugueses, sentidas já pela maioria da população. No período 2006/2017, a taxa média anual de crescimento económico foi de 1,04% na Zona euro e de apenas 0,3% em Portugal, o que mostra bem o que é “o euro como instrumento de prosperidade”. E isto tudo também para cumprir a meta de 0% no défice que Mário Centeno tanto se gaba, mas hipotecando o futuro do país e a vida dos portugueses Mas o euro não teve apenas consequências negativas, teve também aspetos positivos para os portugueses como sejam a estabilidade dos preços e da taxa de câmbio, assim como taxa de juros baixos o que tornou o credito acessível a muitos portugueses (muitos certamente ainda se lembram de taxas de inflação e de juros superiores a 20% que “comiam” salários, pensões e poupanças). Mas isso é matéria para outro estudo.


Fonte aqui