Um mundo virado de cabeça para baixo

(Alastair Crooke in SakerLatam.org, 21/09/2026)


Será que as civilizações conseguem reunir os fragmentos de percepções e conhecimentos mais antigos para fornecer o contexto que torne o discurso moral novamente compreensível?

(Esboço de uma palestra proferida na Escola Superior de Economia, em Moscou, em 07 de setembro de 2026.)

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O futuro global é frequentemente descrito como um mundo multipolar ou multinodal, com a suposição implícita de que os Estados se dariam melhor – e resolveriam suas diferenças mais facilmente por meio do diálogo do que pela guerra.

Essa era uma ideia amplamente difundida nos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial. Livros foram escritos para sugerir que a guerra não poderia acontecer: o texto definitivo sobre esse conceito, publicado originalmente em 1910 como A Grande Ilusão, tornou-se um best-seller internacional

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Donald Trump e a era do Mal

(Chris Hedges, In The Chris Hedges Report, 26/09/2025, Trad. Estátua de Sal)

O Grande Ditador – por Mr. Fish

Sob qualquer perspectiva moral, Trump é depravado. Mas, investido do poder do Estado, desce a outro patamar — o patamar do Mal.


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Donald Trump exibe as características clássicas dos psicopatas: charme superficial, grandiosidade e arrogância, necessidade de estímulo constante, propensão para mentir, enganar e manipular, e incapacidade de sentir remorso ou culpa.

Mas será ele mau?

Se, como escreve a filósofa Susan Nieman , o mal não é simplesmente o oposto do bem, mas antes algo que lhe é hostil, se o objetivo do mal é destruir todas as distinções morais, então Trump qualifica-se como o mal. Para Trump, a moralidade é para os perdedores. Toda a vida é transaccional. O interesse próprio e o enriquecimento pessoal suplantam todas as outras considerações. Ninguém mais importa.

No seu novo livro , “Call It Evil: Understanding the Trump Era” (Chamem-lhe Mal: ​​​​Entendendo a Era Trump), Neiman defende que o mal “não é crueldade, mas algo muito pior: as ideias que permitem que a crueldade se torne comum“.

E ela continua:

Há uma diferença entre chamar má a uma ação e chamar crime a outra. Os crimes são coisas para as quais temos procedimentos — pelo menos para punir, senão para prevenir. Isto significa que um crime pode ser encaixado de alguma forma no resto da nossa experiência. Chamar má a uma ação é sugerir que ela não pode ocorrer — e que, por isso, ameaça a nossa confian,ça no mundo, confiança que necessitamos para o navegar. Não existe uma linha divisória clara entre o mal e o terrível. “Má” é o que se diz quando o queixo nos começa a cair, ao percebermos que uma linha foi ultrapassada.

Trump ultrapassa todos os limites. Declara guerras por capricho. Enriquece-se a si e à sua família com esquemas de criptomoedas, dos quais já lucrou mais de mil milhões de dólares. Ordena assassinatos e o rapto de chefes de Estado. Utiliza milhares de milhões de dólares dos contribuintes para sustentar o genocídio na Palestina e, desde Janeiro de 2025, já vendeu mais de 20 mil milhões de dólares em novas armas a Israel. Desmantela departamentos governamentais criados para apoiar os mais vulneráveis ​​e inflaciona o orçamento de guerra. Cria forças paramilitares desonestas para aterrorizar os cidadãos e os imigrantes. Ataca e tenta censurar a imprensa.

Em suma, ele faz o que todos aqueles que cometem o mal fazem. Fomenta um mundo onde nada é sagrado e onde a democracia e as virtudes cívicas não existem.

Os conceitos de equidade, decoro, justiça e empatia são implodidos pela administração Trump. A sua ameaça de aniquilar o Irão – isto é, cometer genocídio – anunciada, por todo o lado, nas Nações Unidas, é recebida com indiferença por um público anestesiado pela sua vacuidade moral.

“Uma vez que a supremacia do interesse próprio é consagrada como realismo de senso comum em vez de uma ideia filosófica, capacidades morais como a empatia e a vergonha tornam-se não apenas ingénuas, mas suspeitas”, escreve Neiman. E continua: “Os sádicos existem e causam sofrimento interminável. Mas as formas mais comuns de maldade surgem da visão de que apenas os tolos acreditam em algo para além da sua própria vantagem.”

As instituições criadas para proteger a democracia, salvaguardar as virtudes cívicas e promover a igualdade — incluindo os tribunais, os escritórios de advogados, as universidades e os meios de comunicação social, todas capturadas pela classe dos bilionários — rapidamente se curvaram para bajular a Casa Branca de Trump. Os magnatas de Silicon Valley inundaram-no, a ele e à sua campanha, com milhões de dólares. As alegadas virtudes que estas instituições e indivíduos afirmavam defender foram descartadas. Essas virtudes, demonstrou-se, não passavam de marketing, de performance artística, de uma farsa.

Para um público enraivecido, a ganância e a crueldade transparentes de Trump são preferíveis à hipocrisia dissimulada dos políticos, republicanos e democratas, que o antecederam. Ele não se envolve na falsa empatia deles. Na verdade, parece incapaz de empatia.

Quando a moral se torna coisa de tolos, a virtude perde o seu sentido. Quando acreditamos que devemos agarrar o que podemos, mesmo à custa dos que nos rodeiam, sucumbimos ao Mal.

“Ao contrário de nós, exibe permanentemente a combinação de motivações que nos dizem ser as verdadeiras forças motrizes do comportamento humano”, escreve ainda Neiman sobre Trump:

Também não parece entender ninguém. Embora reconheça que as outras pessoas, também conhecidas como perdedoras, têm normas, não faz ideia de como essas normas funcionam, levando as pessoas a sobreporem-se aos seus próprios interesses para as honrar. Agindo no palco internacional à imagem dos genes implacáveis ​​de Richard Dawkins, atraiu milhões de seguidores que dizem admirar a sua autenticidade. Isto não significa que os seus seguidores sejam deploráveis. Podem não ser maus, mas num mundo onde o interesse próprio implacável geralmente se camufla sob cores suaves, consideram a sua franqueza refrescante. Já ouviram tantas vezes que as pessoas escondem o interesse próprio genuíno que realmente move as coisas, que se sentem aliviadas por ver um homem que nunca o esconde.

O pior mal, defende Neiman, “pode ser a negação do mal – tal como o desprezo por qualquer bondade que se lhe possa opor. Quando o interesse próprio se torna a base da razão, o mal já não tem de se justificar. Já foi confundido com racionalidade”.

Este mal conduz-nos pelo caminho já conhecido do fascismo. Foi Mark Milley, chefe do Estado-Maior Conjunto durante o primeiro mandato de Trump, que nos alertou, chamando a Trump “fascista até à medula“.

Os media — sem coragem suficiente para rotular Trump de fascista — preferem a palavra “autoritário“, que, como observa Neiman, pode ser mais tolerável, mas “não tornará o fascismo mais tolerável“.

Autoritarismo, observa ela:

[É] uma palavra que pode ser útil para descrever certos professores alemães e o tipo mais brando de regime militar latino-americano. Mas um país onde homens mascarados deportam pessoas para desertos que nunca viram? As tropas de combate ocupam as grandes cidades e disparam sobre os cidadãos que protestam pacificamente? Um governo que coage os media, as universidades e outros países a atenderem à sua vontade? Um exército que faz explodir pescadores em pedaços com as mais insignificantes justificações e depois inicia o tipo de guerras que o Tribunal Militar Internacional de Nuremberga condenou? Como foi escrit em 1946: “Iniciar uma guerra de agressão não é apenas um crime internacional, é o supremo crime internacional, diferindo dos outros crimes de guerra apenas por conter em si o mal acumulado de todos eles.” Seria fácil continuar, mas enumerar crimes é inútil. Antes destas palavras serem impressas, o governo já terá encontrado inúmeras novas formas de desrespeitar o Estado de Direito.

Estamos em apuros.

A decadência moral na nossa sociedade precedeu Trump. Ele é a sua conclusão lógica. Ele é a apoteose de uma cultura onde a ganância, a exploração e o interesse próprio, os princípios fundamentais do neoliberalismo, são apresentados como as forças definidoras da existência humana.

Devemos lutar enquanto podemos. Mas para isso precisamos de resgatar a linguagem do bem e do mal. Precisamos de fazer escolhas morais e aceitar o sacrifício pessoal. Precisamos de reconhecer a desolação que se apresenta diante de nós, sem desviar o olhar do monólito fascista que se consolida.

Negar estas verdades e recusar-se a desafiar o mal garantirá a nossa escravidão.

Pronunciar estas verdades e estar ao lado dos oprimidos e marginalizados, mesmo que isso implique sacrificar a nossa própria segurança financeira e física, libertar-nos-á.

Fonte aqui


O Ocidente é um deserto distópico de degenerescência moral

(Caitlin Johnstone, 13/09/2024, Trad. Estátua de Sal)

(É claro que a Estátua, em algum grau, gosta dos textos que publica. Uns mais que outros, pois. Uns parcialmente, pois. Uns para gerar o debate também, pois. Mas confesso: o texto que segue atinge os píncaros da minha aprovação pois ele é a chave explicativa – uma espécie de Pedra Roseta -, para muitos dos textos que por aqui se publicam sobre as guerras, a política, a economia e por aí fora, Ele vai à “causa das coisas” e por isso os meus encómios e os meus parabéns à autora-

E quem me segue, se é da mesma opinião, que leia e divulgue, partilhe por aí na blogosfera e nas redes sociais. Saber a “causa das coisas” é meio caminho andado para as poder mudar.

Estátua de Sal, 13/09/2024


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Geralmente, quando se ouve uma pessoa branca a falar sobre degenerescência moral, trata-se de algum maluco denunciando os direitos LGBTQ, ou os direitos reprodutivos das mulheres, ou o que quer que seja, mas não é isso a que eu me quero referir. Neste caso, estou a falar de coisas reais.

A verdadeira decadência moral da nossa sociedade é ilustrada pela forma como todos os candidatos políticos tradicionais podem apoiar abertamente, na atualidade, crimes de guerra infligidos a pessoas do Sul Global, sem serem imediatamente removidos do poder. Pela forma como monstruosos criminosos de guerra de administrações anteriores (Dick Cheney),  podem apoiar um candidato liberal sem que os autoproclamados progressistas se afastem desse candidato com horror. Pela forma como os dois candidatos viáveis e elegíveis para o cargo mais poderoso do mundo, podem prometer continuar um genocídio ativo sem desencadear instantaneamente uma revolução.

A degenerescência moral da nossa civilização manifesta-se também quando vivemos vidas de relativo conforto, construídas à custa dos trabalhadores do Sul Global, cuja mão-de-obra e recursos são extraídos das suas nações por métodos profundamente exploradores, enquanto chovem explosivos militares sobre as populações empobrecidas que se atrevem a desobedecer aos ditames do nosso governo, dia após dia, ano após ano, década após década, e agimos como se tudo isso fosse bom e normal.

Nascer na civilização ocidental é como acordar no meio de uma multidão de linchamento. Algo terrível está a acontecer, mas toda a gente alinha e diz que está tudo bem e que é normal, e mesmo que consigas perceber que o que eles estão a fazer é errado, no meio de todo o caos e confusão, dás por ti impotente para os impedir, porque a coisa toda já tem muito ímpeto e, há demasiadas pessoas cegamente apanhadas no frenesim da sede de sangue, para que consigas fazer com que eles mudem de rumo. Continuar a viver no meio deles torna-te cúmplice das suas acções em muitos aspetos, mas não tens para onde ir, para além da cidade de linchamento em que nasceste. Por isso, mudas-te para as franjas da multidão e partilhas as tuas objeções com as poucas pessoas que te ouvem.

A nossa civilização é cruel e selvagem, mas nós afastamo-nos da sua crueldade e selvajaria, rindo-nos das nossas comédias e dos nossos comediantes insípidos e fazendo de conta que as piores coisas que acontecem politicamente na nossa sociedade são as questões da guerra cultural (LGBT e afins) que os especialistas e os políticos preferem que continuemos a discutir.

Vivemos as nossas vidas sedados pelo entretenimento, pelas redes sociais, pela comida e pelos produtos farmacêuticos, enquanto o genocídio, a guerra nuclear e o ecocídio se desenrolam à nossa volta, achando que somos bons e virtuosos se formos carinhosos com os nossos animais de estimação e se tivermos as opiniões corretas sobre a justiça racial e as vacinas.

Se nós, enquanto sociedade, fôssemos realmente bons, nada disto estaria a acontecer. A lucidez moral consideraria tudo isto intolerável e rejeitá-lo-ia e anulá-lo-ia por todos os meios necessários. É por isso que os poderosos gastam tanta energia a manter-nos sedados e confusos. Muito poder e riqueza dependem da nossa falta de clareza moral.

Há muita riqueza que está a ganhar com a exploração do trabalho e com a extração de recursos em todo o mundo. Há muito poder que está a ser assegurado assassinando, matando à fome e aterrorizando as populações que se recusem a curvar-se aos interesses do Império ocidental. É por isso que o Império ocidental tem a máquina de propaganda mais sofisticada alguma vez concebida: porque tanta riqueza e poder dependem da garantia de que o Ocidente se mantém num estado de degenerescência moral e de que os ocidentais não consideram os cidadãos do Sul Global como plenamente humanos.

Pessoalmente, rejeito a religião, não porque seja uma idiota que usa chapéu de feltro e goza com as pessoas por acreditarem em Deus, mas porque rejeito todos os aspetos da cultura, profundamente doentia em que nasci. Como não me identifico com a religião, sinto-me muitas vezes afastada do jargão religioso que qualifica as acções do Império ocidental como “demoníacas” – ou chama aos EUA “o grande Satã” – mas, ao mesmo tempo, compreendo-o perfeitamente.

Quando vejo em imagens de vídeo, pela centésima vez, o interior do crânio de uma criança, ao lado de soldados das IDF vestidos com as roupas de mulheres palestinianas mortas ou deslocadas e brincando com os brinquedos das crianças mortas ou deslocadas – enquanto os pontífices ocidentais fingem acreditar que o exército que estão a armar não fez nada de errado -, tenho dificuldade em encontrar adjetivos suficientemente fortes para descrever o que estou a ver. Talvez “demoníaco” seja o mais adequado, mesmo que eu não acredite em demónios bíblicos reais.

É disso que estou a falar quando digo que o Ocidente é um deserto de degenerescência moral. O tipo de civilização que permite que o seu governo faça coisas destas tem, necessariamente, uma consciência coletiva que foi tão deformada e distorcida pela propaganda e pelo interesse próprio que é o mesmo que não ter consciência nenhuma.

Se não se pode considerar a grande maioria da população deste planeta como totalmente humana e igual a nós próprios, então, moralmente falando, não somos melhores do que os praticantes da escravatura e do genocídio, que nos ensinaram a julgar negativamente nas aulas de História.

E essa é a norma aqui, no Ocidente. É aquilo em que nascemos. É o que passamos toda a nossa vida a ser treinados para aceitar como normal.

Fonte aqui.