Em busca da empatia

(Por Scott Ritter, in Substack, 25/12/2024, Trad. Estátua de Sal)

O marechal do Reich Hermann Göring sendo condenado por crimes de guerra, Nuremberga, 30 de setembro de 1946

“No meu trabalho com os réus (nos Julgamentos de Nuremberga dos nazis após a 2ª Guerra Mundial), eu estava a procurar a natureza do mal e agora acho que cheguei perto de o definir. Uma falta de empatia. É a única característica que é comum a todos os réus, uma incapacidade genuína de sentir algo pelos seus semelhantes. O mal, eu acho, é a ausência de empatia.”

Capitão GM Gilbert, psicólogo do Exército dos EUA, autor do “Diário de Nuremberga”.


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Em setembro de 1995, eu estava a trabalhar para a Comissão Especial das Nações Unidas (UNSCOM), encarregada de eliminar as armas de destruição em maciça do Iraque. Era o principal elo entre a UNSCOM e a inteligência israelita na época e fazia viagens frequentes a Israel que podiam durar entre alguns dias e algumas semanas. Durante uma dessas visitas, convidei a minha esposa Marina para vir ter comigo num fim de semana. Marina é georgiana e uma devota cristã ortodoxa e ficou emocionada com a oportunidade de ver a Terra Santa em primeira mão. Caminhámos pela “Via Dolorosa” (o “caminho doloroso”) em Jerusalém, traçando a jornada de Jesus até sua crucificação. Mergulhámos os nossos pés no Rio Jordão no local onde João teria batizado Jesus. Fizemos um tour pelo Mar da Galileia, visitando os vários locais do ministério de Jesus, conforme registado na Bíblia. Todas essas experiências repercutiram profundamente em nós.

Mas foi a excursão que a minha esposa fez ao Yad Vashem, o Centro Mundial de Memória do Holocausto, localizado no Monte Herzl, em Jerusalém Ocidental, que nos causou a impressão mais profunda. Foi lá que Marina ficou cara a cara com fotografias de algumas das crianças vítimas do Holocausto. Marina deu à luz as nossas filhas gémeas em fevereiro de 1993, e na época de sua visita ao Vad Vashem as nossas meninas tinham 2 anos e meio — a mesma idade de algumas das crianças nas fotografias em exposição no centro. Marina viu as nossas filhas nos olhos dessas crianças e imediatamente desabou e chorou. Ela foi tomada pela empatia.

No verão de 1997, eu estava Bagdade à frente de uma equipa de inspeção cujo propósito era confrontar o governo iraquiano com suas informações inconsistentes, e frequentemente contraditórias, sobre materiais relacionados com armas de destruição maciça, que eles dispunham por altura do verão de 1991. Armado com relatórios de desertores e imagens de satélite, eu tinha conseguido encontrar esconderijos de equipamentos de produção de mísseis não contabilizados e desvendar as mentiras de altos funcionários iraquianos que serviram de base à sua narrativa, durante mais de seis anos consecutivos. A minha equipa de inspeção não era muito popular entre o círculo interno do presidente iraquiano Saddam Hussein. Como forma de me pressionar e à minha equipa, o governo iraquiano exibia videoclipes de nossa inspeção, acusando-me a mim e aos outros inspetores de trabalhar para a CIA e culpando-nos pelo sofrimento contínuo do povo iraquiano por mor das sanções ocidentais. Tais acusações originaram várias ameaças de morte, e pelo menos uma tentativa de assassinato contra mim e contra a minha equipa por civis iraquianos descontentes, que levaram a sério as acusações do governo iraquiano.

Em vez de recuarmos ou escondermo-nos, a minha equipa e eu adotámos a abordagem oposta: tornámos a nossa presença no Iraque o mais visível possível – uma abordagem de “Cão Alfa” para a inspeção, que nos fez figurativamente “mijar nas paredes” do Iraque para deixar nossa marca e garantir que os iraquianos soubessem quem estava no comando quando se tratava da implementação de nosso mandato.

O autor caminha ao lado de seu veículo Nissan Patrol da UNSCOM na sede da ONU, verão de 1997

À noite, quando as inspeções terminavam, e enquanto as “notícias” dos nossos esforços eram transmitidas pela televisão iraquiana, a minha equipa e eu dirigíamo-nos para o centro da cidade nos nossos omnipresentes SUVs Nissan Patrol brancos, com as letras pretas “UN” pintadas nas laterais e as nossas marcações táticas exibidas nos tetos e capots ​​em fita adesiva cinza (essas eram as designações da equipa para cada veículo — A-1 de “Alpha One”, etc. O meu veículo era marcado com um “W” de “Whiskey”). Estacionávamos à beira da estrada ao lado de qualquer restaurante que tivéssemos escolhido para jantar naquela noite e entrávamos com toda a arrogância de John Wayne e seus cowboys (de facto, o chefe da Missão Humanitária da ONU no Iraque tinha-nos chamado recentemente “cowboys” numa entrevista que tinha dado ao Le Monde. Decidimos que o título, que pretendia ser um insulto, nos servia bem).

Uma noite, enquanto estávamos sentados num popular estabelecimento de frango assado, a televisão começou a passar um “especial de notícias” que me destacava para ser atacado. Os inspetores e eu observámos a multidão enquanto eles olhavam para o écran da TV, onde as nossas fotografias eram exibidas juntamente com uma narrativa contínua dos nossos muitos “crimes”. O clima no restaurante escureceu consideravelmente, e alguém recomendou que saíssemos enquanto a saída era possível.

“Não”, eu retorqui. “Nós pagámos a nossa refeição, e vamos aproveita-la. Fodam-se essas pessoas.”

Eu não estava com humor para demonstrar fraqueza. Tínhamos acabado de passar um dia estacionados do lado de fora da sede da inteligência iraquiana, com a nossa entrada bloqueada por guardas armados. Num instante, fomos conduzidos para dentro da guarita enquanto a polícia desarmava um homem que havia passado de carro com uma AK-47 carregada, com a intenção de me alvejar e aos outros inspetores.

Assim que essas palavras saíram da minha boca, vi uma mulher levantar-se da cadeira numa mesa à nossa frente. Estava vestida com um vestido preto e com um xaile preto a cobrir-lhe a cabeça. Alguém na mesa a tentou puxar para que se sentasse, mas ela repreendeu-o, e ele soltou-lhe o braço. Ela virou-se e foi em direção à minha mesa, os olhos fixos nos meus.

“Chefe”, disse um dos inspetores, um soldado britânico grisalho. “Há gente a chegar”

“Já vi”, respondi. Observei-a atentamente enquanto ela se aproximava, o meu olhar flutuando nos seus olhos e mãos, tentando adivinhar-lhe as intenções. Não tinha chegado ainda a nenhuma conclusão quando ela parou, de pé sobre mim enquanto eu estava sentado e limpava a gordura de galinha do rosto com um guardanapo.

“Você é Scott Ritter?”, Perguntou ela, com a voz embargada pela emoção.

“Sim, senhora”, disse eu, levantando-me.

“E esses são os seus homens? Os seus inspetores?”

“Sim, senhora”, respondi.

“Eu vejo-o na televisão todos os dias. Eles dizem que é você que eu deveria culpar pela morte dos meus filhos.”

“Sim, senhora”, gaguejei, sem saber o que dizer mais.

“Eles querem que eu te odeie.”

“Sim, senhora.”

Ela olhou para mim, as lágrimas brotando-lhe dos olhos. As mãos estavam enroladas no xaile e, de repente, uma das mãos saiu para fora. Se ela tivesse uma faca, ela teria sido capaz de me esfaquear. Mas era apenas a mão, que ela colocou no meu braço.

“Você está fazendo seu trabalho”, disse ela. “Eu sei disso. Eu sei que, no seu coração, você não me quer mal. Eu sei que, no seu coração, você não queria que o meu filho morresse.”

As lágrimas começaram a escorrer-lhe pelo seu rosto.

“Eu sei que você é filho de alguém. Que todos vocês,” disse ela, gesticulando para os homens duros sentados ao redor da mesa, “têm mães que os amam, como eu amei o meu filho.”

Ela olhou para mim. “Vou rezar pela sua segurança, para que você possa terminar o seu trabalho, e que as sanções possam ser suspensas, para que outras mães não percam os filhos devido às doenças.”

Apertou o meu braço e virou-se, voltando para sua mesa, onde se sentou e afundou a cabeça nos braços da senhora sentada ao seu lado, soluçando.

Olhei para minha refeição inacabada, sem mais fome.

“Vamos”, disse eu, e a raiva e a arrogância que definiram o meu tom anterior desapareceram.

Saímos, cada um de nós colocando a mão no bolso para deixar a maior gorjeta possível, como se todos estivéssemos a tentar expiar nossos pecados comprando perdão.

A multidão, no restaurante, deixou-nos sair sem incidentes.

Enquanto estava sentado no Nissan Patrol, voltando para a nossa sede, onde terminaria o relatório da inspeção diária, ainda conseguia sentir o aperto da moça no meu braço, no sítio onde ela me tinha apertado.

Tentei descobrir porque o teria feito.

Ela tinha todo o direito de nos odiar. Eu sei que se ficasse cara a cara com o homem responsável pela morte dos meus filhos, o encontro não seria descrito como pacífico.

Mas ela escolheu a paz.

Ela fez isso de uma forma muito pública, destacando-me para todo o restaurante ver.

Eu interrogo-me sobre o que teria acontecido se ela não se tivesse levantado.

Se ela não me tivesse confrontado.

O que teria feito a multidão? Eu já tinha sido atacado em vários ambientes públicos, inclusive num restaurante, quando o humor da multidão azedou. As coisas ficaram muito feias muito depressa.

Mas a intervenção dela impediu isso.

Ela interveio para nos proteger.

Porque ela era mãe.

E ela sabia que tínhamos mães.

Ela foi tomada pela empatia.

No início deste ano, tive a oportunidade de visitar a região de Donbass, na Rússia, incluindo a cidade de Lugansk. Antes, fazendo parte da Ucrânia, esses territórios foram tomados na turbulência que tomou conta da Ucrânia após a chegada ao poder em Kiev de nacionalistas ucranianos anti russos, e da revolta de Maidan orquestrada pelos EUA em fevereiro de 2014. A população de língua russa do Donbass revoltou-se contra os novos nacionalistas ucranianos, que buscavam impor uma espécie de genocídio cultural ao proibir a língua, a religião, a cultura e a história russas. A revolta que se seguiu durou quase oito anos, culminando com a intervenção militar russa na Ucrânia e na subsequente anexação de quatro antigas regiões ucranianas, ou oblasts, incluindo as duas cidades — Donetsk e Lugansk — que juntas formam o Donbass.

O memorial “Às crianças da região de Lugansk”, Lugansk, Rússia

Enquanto estava em Lugansk, fui levado a um memorial dedicado às crianças de Lugansk que pereceram na luta que vem ocorrendo desde 2014. Quando o monumento foi instalado, em 2017, havia 33 anjos retratados, um para cada criança de Lugansk que havia perecido na luta. Desde então, 35 crianças adicionais de Lugansk pereceram, elevando o número total de mortos para 68.

O que me impressionou ao visitar o memorial foi como a vida de cada criança ressoou com os cidadãos de Lugansk, como se todos na cidade reivindicassem as crianças perdidas como suas. Eu já tinha testemunhado esse fenómeno antes. Em 2000, visitei o Iraque com o propósito de filmar um documentário sobre a UNSCOM e o desarmamento do Iraque. Enquanto lá estava, visitei a Escola Elementar Martyr’s Place, onde, na manhã de 13 de outubro de 1987, um ataque de míssil SCUD iraniano matou 22 crianças e feriu mais de 160 enquanto elas se reuniam no pátio da escola para começar o dia. Na entrada do pátio havia um memorial representando 22 anjos de bronze subindo ao céu.

Na época da minha visita a Bagdade, cerca de 13 anos após o ataque, os moradores do bairro ao redor da escola ainda estavam emocionados com a perda de vidas das crianças. “Eles seriam jovens adultos hoje”, disse um homem idoso. “Apenas começando suas vidas.”

É a perda das crianças que mais atinge uma comunidade. Seja em Lugansk, Bagdade ou Ma’alot, uma cidade em Israel onde, em maio de 1974, militantes palestinianos ocuparam a escola primária Netiv Meir, onde fizeram cerca de 115 pessoas reféns, 105 das quais eram crianças. Os militares israelitas invadiram o prédio, matando os três atiradores palestinianos, bem como 31 reféns, 22 dos quais eram crianças. Os israelitas ainda falavam sobre Ma’alot quando visitei Israel nem 1995, 21 anos depois.

Algumas coisas não podem ser esquecidas.

E mesmo não tendo testemunhado nenhum desses acontecimentos, como pai de gémeas, senti a dor daqueles que perderam os seus pequenos, como se as vidas perdidas fossem do meu próprio sangue.

Porque eu tinha empatia.

Se a falta de empatia é a principal característica do mal, então a capacidade de empatia deve ser a marca registada do bem.

Nesta época de Natal, o mundo está imerso em conflitos, com tragédias a acontecer diante de nossos olhos diariamente.

Não seríamos humanos se começássemos a ficar imunes ao horror, os sentidos sobrecarregados pelas cenas repetitivas de morte e destruição com as quais somos constantemente confrontados. Estando fisicamente separados da violência, temos a opção de desligar as visões e sons desagradáveis ​​do sofrimento humano.

Afinal, quantas vezes podemos nós ver o corpo dilacerado e sem vida de uma criança retirada dos escombros de Gaza e Beirute? Ou dos destroços de casas na Ucrânia e na Rússia?

A overdose de uma tragédia sem sentido leva ao entorpecimento da nossa alma, ao endurecimento do nosso coração e à diminuição da nossa humanidade.

Mas devemos perseverar, apenas para garantir que aquelas vidas jovens perdidas não tenham sido em vão.

Devemos aprender e lembrar os nomes daqueles que pereceram, não para servir de combustível para a fornalha do ódio que nos leva a buscar vingança, mas porque temos o dever, como seres humanos, de nos colocar no lugar daqueles que perderam os seus entes queridos na guerra, sentir sua dor, entender a sua perda, para que saibamos a importância de tentar pôr fim à violência que ceifou essas vidas.

A guerra nunca é a solução.

A paz é sempre a resposta.

Muitas vezes penso no meu encontro com a mãe iraquiana no restaurante em Bagdade. Foi um momento feio na minha vida, quando fui tomado por um sentido de dever que obscureceu a minha própria humanidade. Eu estava tão singularmente focado na tarefa em questão — desarmar o Iraque — que me esqueci que havia um custo humano associado ao meu trabalho e ao dos meus inspetores.

Já contei a história desse encontro algumas vezes, mas deixei sempre de fora uma parte da história, porque a lembrança dela me parte o coração, até hoje.

Depois que a moça me apertou o braço e começou a virar-se, eu estendi a mão e coloquei-a no ombro dela. Ela virou-se e olhou para mim.

“Qual era o nome do seu filho?” Perguntei eu.

Os olhos dela encheram-se de lágrimas, mas sorriu levemente antes de responder. “Zaynab,” disse ela.

“Zaynab,” repeti eu. “É um nome lindo.”

“Era uma criança linda”, respondeu a mãe.

Não conto essa parte da história porque isso tira a personalidade de durão e de “cão alfa” que desenvolvi naquela época.

Porque quando ela se virou e se foi embora, fiquei sozinho a soluçar.

Mas temos que enfrentar essas coisas.

Zaynab, teria hoje quase 30 anos, idade suficiente para ter encontrado o amor, se ter casado e formado sua própria família.

Mas não foi isso que aconteceu.

Devemos lembrar-nos de Zaynab, assim como devemos lembrar-nos de cada criança cuja vida foi tirada deste mundo cedo demais.

Devemos ter empatia por aqueles que perderam os seus entes queridos por causa das guerras sem sentido travadas pelos homens. Precisamos de garantir que as crianças vivas hoje tenham a oportunidade de crescer e de criar as suas próprias famílias. Caso contrário, nós tornamo-nos instrumentos do mal, senão o próprio mal.

Feliz Natal.

Fonte aqui.

Tanto afecto à solta

(António Guerreiro, in Público, 18/12/2020)

António Guerreiro

A palavra “empatia” tornou-se recentemente de uso corrente nos media e, por essa via, entrou na linguagem quotidiana, à qual não pertencia. Hoje, fala-se de empatia por tudo e por nada, reclama-se o dever de empatia, enaltece-se o sentimento-virtude da empatia e especula-se com ela na bolsa de valores dos afectos da política.

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Não é que a política não tenho sido sempre um meio essencialmente passional e permeável a grandes arrebatamentos, mas as democracias modernas seguem, por definição, uma política racional e comunicacional que se deve aplicar em dominar comportamentos mais emocionais. Uma política sem a expressão dos afectos é da ordem das ideologias totalitárias; mas uma política dos afectos colabora activamente na lógica da despolitização. Sobre as armadilhas, incoerências e incompatibilidades de uma política que a si mesma se designa como “dos afectos”, temos tido, em Portugal, ao mais alto nível, exemplos eloquentes.

O uso imoderado que se faz hoje da palavra “empatia” conseguiu que se tenha substituído, nalguns contextos, outras palavras que pertencem à mesma família semântica e etimológica. De um político ou de uma outra figura pública já não se diz que são simpáticos, se acaso o justificam, mas que têm empatia (evita-se a palavra “empático”, por enquanto não soa bem). Muitas vezes, a palavra “empatia”, inflacionada,  coloniza e absorve a “compaixão”, avança no lugar do “consentimento” e até se substitui à “paciência”. Apetece gritar: “Abaixo a empatia!”.

Antes de passar com armas e bagagem para a linguagem corrente, a empatia estava quase limitada a um uso conceptual em dois campos: o da psicologia e o da estética. No filme Blade Runner, de Ridley Scott, um caçador de andróides, para distinguir um ser humano de um organismo cibernético usa um teste para detectar quem é capaz de experimentar o sentimento de empatia: quem o experimenta é humano. Mas se quisermos remontar às origens de uma teoria da empatia, devemos pensar na célebre catarse ou purificação das paixões de que falou Aristóteles na sua Poética, a propósito das tragédias do teatro grego, que deviam suscitar no espectador um forte sentimento de piedade e de temor. É fácil explicar a grande difusão que a empatia teve num âmbito estético: ela tem a ver com o sentir, e estética, no seu significado primeiro, etimológico, é a disciplina da aisthesis, da sensação. E é uma sensação que está carregada de um conteúdo emocional, uma afecção onde ressoam imediatamente significados de orem psíquica. Com um sentido mais técnico, a “estética da empatia” foi introduzida por alguns historiadores de arte alemães, na viragem do século XIX para o século XX. Neste caso, a “empatia” é um conceito muito preciso, de tal modo que se prefere muitas vezes utilizar, por uma questão de rigor conceptual, a palavra alemã: Einfühlung. Por exemplo, o filósofo Benedetto Croce, apesar de italiano, escreveu um ensaio a que chamou L’estetica della Einfühlung. E os ingleses começaram por traduzir a Einfühlung por esthetic simpathy, e só mais tarde introduziram a empathy.

Falar de empatia significa inevitavelmente recorrer a termos relativos ao âmbito de actos psicológicos subjectivos, tais como a projecção, a transferência, a fusão. Experimentar a empatia significa a identificação perfeita, fazer com que duas coisas se tornem uma só coisa. É este sentido, aliás, que os italianos preservam rigorosamente na palavra immedesimazione, para dizer, num vocabulário mais comum, a erudita “empatia”.

A actual condição dramática da pandemia veio fazer com que a palavra “empatia” se tornasse ainda mais um lugar-comum, um estereótipo repetido até à exaustão. No domínio político, vamos todos soçobrar sob o peso de uma ditadura “empática” que já nem precisa de um objecto: é um puro complexo expressivo que tanto pode ser comovente como grotesco. Há dias, a ministra da Saúde, ao proferir um discurso público de elogio ao Instituto Ricardo Jorge, teve um momento em que começou a chorar. Foi uma irrupção desse sentimento-virtude que é a “empatia”, como logo se disse na linguagem da afectometria vigente, ou foi, pura e simplesmente, uma manifestação de cansaço extremo, de um estado próximo do burn-out, bastante plausível para quem tem estado sujeito a uma mobilização sem tréguas?


Livro de recitações

“Não sei”
Manuel Sobrinho Simões, em entrevista ao PÚBLICO, 14/12/2010

Dezanove vezes “não sei”, repetiu o consagrado patologista nas respostas a uma entrevista feita por Andrea Cunha Freitas. Obviamente, sempre que disse “não sei” Manuel Sobrinho Simões estava a responder a perguntas que não incidiam sobre aquilo que ele, enquanto médico e cientista, é suposto saber (seja-me permitido usar este anglicismo). Eram perguntas que implicavam dons oraculares ou, pelo menos, um grande teor de especulação sobre a situação pandémica que estamos a viver  e os seus efeitos políticos e psico-sociais. O que ele não sabia, ainda ninguém sabe. Mas uma entrevista a uma pessoa de ciência coloca o entrevistado inevitavelmente na posição a que a psicanálise lacaniana, para explicar o transfert, chama “sujeito-suposto-saber”. Não ceder a esta regra, declinar dezanove vezes o estatuto que lhe está a ser concedido, implica perseverança e, sobretudo, a ética do cientista. O “não sei”, neste caso, é um momento de saber.


A política, sob o signo da empatia

(António Guerreiro, in Público, 26/01/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

A entrada da palavra “empatia” na linguagem corrente é um fenómeno que não tem mais do que uns vinte anos. Na bolsa de valores lexicais, a “empatia” conquistou uma massa de investidores que deixaram cair a “simpatia” nos índices de baixo apreço e escassa fluidez. E assim a palavra deixou de ter um uso erudito e científico enquanto conceito da Estética (surgido na segunda metade do século XIX), da Psicanálise (com Freud) e da Fenomenologia (com Husserl), para se alojar na fala quotidiana que prolonga em casa e na rua o idioma mediacrático.

A imitação como lei fundamental dos tropismos sociais, que Gabriel Tarde – um sociólogo pioneiro – analisou ainda no final do século XIX, é um automatismo maravilhoso de se ver, quando age como uma força cega, sem origem nem destino, e comanda os contágios afectivos que se difundem na neblina. Alguém que estudasse a história semântica da palavra “empatia” enquanto ideia, iria perceber que é preciso ligar a fortuna muito recente dessa palavra ao triunfo dos afectos públicos. As afecções que dantes eram da ordem do privado e só na arte – ou pouco mais – ganhavam uma elaboração pública e eventualmente colectiva (como acontece, por exemplo, no teatro), configuram hoje toda a esfera pública: da publicidade à indústria da comunicação, das sociedades empresariais (que chamam “colaboradores” aos trabalhadores e integraram as técnicas do management afectivo) à vida política. Em suma: do capitalismo afectivo à política dos afectos. O que podemos facilmente perceber é que a afecção, sob o nome mágico de “empatia”, está terrivelmente inflacionada na teoria e nas práticas contemporâneas.

Por cá, a “empatia” tornou-se também um valor muito apreciado e um ideal a perseguir, bem visível nesse aparelho de captura que são os afectos sub specie política. Dantes, bastava aos políticos parecer simpáticos; agora, têm de ser empáticos. Falo aqui dos afectos não como um cínico que é impermeável aos seus efeitos e os recusa de maneira ácida, mas como alguém que muitas vezes se sente capturado. Essa gaia política até nos pode encher de júbilo nos momentos em que aspiramos por um suplemento, mas o preço que pagamos por ela é alto e não podemos esquecê-lo.

Sem prescindirmos dos afectos, melhor seria que eles não contaminassem a política. O que é afinal uma política dos afectos? É a última estação da despolitização moderna, da neutralização do político. É o ideal do consenso (palavra cujo sentido é muita próximo de “empatia”), realizado por meio de automatismos pouco racionais. É, na sua dimensão de espectáculo, a produção de experiências pré-fabricadas.

Em última análise, o investimento afectivo na esfera pública (não apenas aquela a que a política dá forma), tal como ele hoje é feito por meios poderosos (veja-se como emerge por todo o lado um populismo digital que depois se transmite a todos os domínios da experiência cultural, social e política), faz-nos regressar aos sonâmbulos de Tarde, magnetizados por emoções que se difundem como manchas de óleo no corpo social. Uma tarefa da política à altura do nosso tempo deveria consistir em interromper esta lógica e não em potencializá-la. A política e o capitalismo afectivos criaram as condições para um regresso à “ética”, que se tornou uma musa de invocação. A ética, neste caso, seguindo uma tradição moderna, é mais ou menos sinónimo de moralidade e acaba por se tornar uma “ideologia”. Na vida política, mais vazio e neutralizante do que o discurso afectuoso, é o da “viragem ética”, sob o qual se esconde um outro aparelho de captura que funciona em sintonia com o primeiro, o da empatia.