A selva promove o rufia e os juízes não ajudam

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 05/01/2021)

Os primeiros três dias de debates da campanha presidencial confirmam mais do que revelam. Há um Presidente que se recandidata e que aparece nas sondagens com cinquenta pontos percentuais de vantagem sobre alguns candidatos que fantasiam sobre uma miraculosa segunda volta; há candidaturas que acusam o Presidente cessante de ter deslustrado a sua função constitucional, ao aceitar leis do governo que apoiam; há debates vários, mas ninguém sabe como vai falar com o povo, sem ser pela televisão, o que é pouco.

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Voltarei depois aos temas desta campanha minimalista, mas para já sublinho uma certeza, Ventura, cujo primeiro debate provocou fuzué. Mas não sei porquê, foi exatamente o que se podia esperar. Ele é o candidato mais previsível: limita-se a imitar Trump. Repete os mesmos tuítes (“a pior candidata de sempre”), lançava o mesmo grito nos jantares partidários (“prendam-nos”), insiste nos mesmos temas (trocando mexicanos por ciganos) e diz as mesmas frases com a mesma atitude.

Qualquer comediante pode incarnar Ventura e produzir o seu discurso, nada que enganar, o guião é público e notório. Não há, portanto, qualquer surpresa ao constatar que o que Trump fez no debate com Biden é o modelo que o candidato vai seguir, se o deixarem. Ele é um rufia orgulhoso da sua imagem e que se anuncia mandatado por um desígnio divino, o que costuma ser indicativo de alguma prosápia e de basta agressividade. Por isso mesmo, para contentar o seu eleitorado, sabe que só tem sucesso nesse campeonato se parecer desembestado. E é por isso que é apreciado por quem tem procurado este modelo de discurso, ensaiado primeiro nos debates sobre futebol e agora estendido à política.

O problema é que isto é embaraçoso para as televisões. É demasiado grotesco, dificilmente pode ser apresentado como um exemplo de pluralismo democrático. Ninguém de boa fé pode alegar que isto apresenta razões eleitorais. Serve somente para a exibição da gritaria de macho alfa. É uma encenação, sem argumentos nem sinceridade. É um pavoneamento de ambições. E não tem regresso: que alguns elogiem o truque ou sugiram o “arregaçar de mangas” nos debate, ou perguntem onde está o “instinto assassino” de outras candidaturas, já dá conta do grau de submissão a que se deixaram levar. O facto é que alguns dos juízes, aquela amálgama de jornalistas, comentadores e até apoiantes de candidaturas que classificam os participantes nos debates com implacáveis notas numéricas, parecem gostar destas exibições.

Ora, o problema é que os responsáveis das televisões estavam avisados e sabiam que os seus colegas nos Estados Unidos tinham respondido a esta vergonha de uma forma eficaz, impedindo Trump de interromper Biden no segundo debate. Preferiram não fazer o mesmo. É até de esperar que, como Ventura sabe quem não mexe uma palha para garantir debates perceptíveis pelos espectadores, se sentirá aí incentivado a multiplicar a sua violência. Outras medidas simples também seriam adequadas, além da solução norte-americana de cortar o pio ao microfone, mas a RTP não disponibilizou aos telespectadores o cronómetro de cada candidato ou candidata, nem a TVI o fez (embora neste caso o moderador tenha referido a sua existência). Por isso, parabéns a Clara de Sousa por ter escolhido mostrar os relógios na SicN, o que introduz uma norma que punirá o comportamento pistoleiro, com a vantagem de levar quem dirige o debate a impor-se para equilibrar os tempos e evitar a selva. Esse tipo de regras é indispensável para proteger a integridade do debate político na eleição presidencial e o que agora for feito moldará o futuro do debate eleitoral em Portugal. Não é coisa pequena e essa escolha está nas mãos de um par de responsáveis de televisões.


Populismo mediático

(Daniel Oliveira, in Expresso, 31/12/2020)

Daniel Oliveira

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Tino de Rans gasta um décimo de Ventura, que gasta um terço de João Ferreira mas o triplo de Ana Gomes, que gasta o dobro de Marcelo. É isto o início da campanha, numa sucessão de títulos de jornais. Despolitizar a política é, há anos, uma das principais ocupações da comunicação social. Neste caso, alimentando a ideia de que os candidatos podem gastar o mesmo por estarem em igualdade de circunstâncias. Marcelo está no lugar e na televisão todos os dias. Para ter igual exposição, João Ferreira teria de gastar muitíssimo mais. Já há cinco anos Marcelo criticou os seus oponentes pela despesa em outdoors. Exposto durante 15 anos, semanalmente e em horário nobre, fez-se Presidente em dois canais de televisão. Mas queria que os que se tinham de se dar a conhecer prescindissem desse esforço. Precisamos de um jornalismo que escrutine o poder. Não precisamos de substituir a democracia pela mediocracia. A campanha populista contra os gastos dos candidatos é uma campanha pelo monopólio mediático sobre a política. Uma campanha inútil em tempo de redes sociais. Mas perigosa, quando essas redes, concebidas de forma a favorecer a polarização, se arriscam a ficar com o exclusivo da mediação. Claro que podemos fazer perguntas difíceis: quem paga as dispendiosas campanhas do Chega, apesar da magra subvenção de um partido com um deputado? E podemos ter respostas difíceis: ao contrário de outros, o PCP não encontra os seus eleitores no Twitter.

Mas é bom lembrar que o populismo de que todos se queixam não nasceu nas redes sociais. O mais desbragado medrou nos tabloides. O mais sorrateiro, que trata com desprezo o poder que elegemos e com obediência os poderes não eleitos (do poder judicial que é fonte de notícias ao poder económico que é financiador de jornais), nasceu na imprensa de referência. E, apesar do moralismo, foi o jornalismo-espetáculo que favoreceu a arruada inútil, o soundbite comicieiro, a polémica vazia para encher ciclos noticiosos de 24 horas. Podem-se e devem-se fazer campanhas mais baratas. Mas elas têm de ser feitas fora da televisão e não podem ficar reféns das redes sociais. E isso custa dinheiro.


Chateia-me, pá!

A brincadeira corre na internet para mostrar como pensa um anti-vaxxer. Com ironia, alguém conta que sofreu uma intoxicação alimentar. Decidiu fazer uma pesquisa e descobriu que, todos os anos, elas matam 420 mil pessoas. Desde então, não alimenta os filhos. Sabe que a alimentação previne a fome, mas acha irresponsável ignorar os perigos associados à comida. E apela a que cada um faça as suas pesquisas. Só depois devem decidir se querem pôr crianças em risco, alimentando-as. Céticos em relação à ciência, os anti-vaxxers têm uma inesgotável fé em tudo o que encontram no Google. É a pandemia do conforto, típica de sociedades ricas e mais habitual em pessoas escolarizadas, com a arrogância do meio conhecimento. Como sempre, haverá reações adversas à vacina contra a covid-19. Mas aos que se tencionam pendurar na minha imunidade, esperando para ver se não há perigo, apetece-me propor que também fiquem para o fim se precisarem de cuidados intensivos. Não o faço, porque aceito a escolha de cada um. Apenas sublinho que quem, sem contraindicações, decida não se vacinar está a prolongar a pandemia e a limitar a minha liberdade por mais tempo do que o necessário. E isso é, como diria Pinheiro de Azevedo, uma coisa que me chateia.


Há 30 anos Marcelo concorria para acabar com a carreira política de Cunhal

(Domingos Lopes, in Público, 29/12/2020)

Há homens e mulheres assim, que assumem a vida política como uma sublime vocação (palavras do Papa Francisco), e outros que imaginam a política como uma sala de espelhos côncavos e convexos que transmitem imagens distorcidas da realidade. Estes, mesmo do alto dos seus atributos, o que fazem é baralhar, é turvar as águas para pescar e trazer as redes cheias de votos e o cargo.

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A propósito do homem que disse que os portugueses tinham sido enganados pela ministra da Saúde, o mesmo que chamou à pressa a um domingo à noite ao seu palácio o chefe da Polícia, lembrei-me de um filme da minha juventude, Um homem para a eternidade, realizado por Fred Zinnemann, com os atores Paul Scofield, Vanessa Redgrave, Robert Shaw e Orson Welles.

No filme dramático ressalta a integridade de Thomas More, o chanceler do reino, católico, que se assumiu contra o divórcio de Henrique VIII que queria esposar Ana Bolena, apesar de casado com Catarina de Aragão. O chanceler não abdicou dos seus princípios morais e não jurou reconhecer os filhos do rei com Ana Bolena como legítimos, como exigiu o rei a todos os funcionários públicos. Ordenou a sua prisão e foi decapitado.

Há homens e mulheres assim, que assumem a vida política como uma sublime vocação (palavras do Papa Francisco) e outros que imaginam a política como uma sala de espelhos côncavos e convexos que transmitem imagens distorcidas da realidade. Estes, mesmo do alto dos seus atributos, o que fazem é baralhar, é turvar as águas para pescar e trazer as redes cheias de votos e o cargo. São os pescadores de almas e de votos. Gogol imaginou o homem que comprava almas mortas, agora é tudo mais pós-modernismo, compram-se frases que assassinam, à boa maneira populista.

O homem que aparece em todo o lado é o mesmo que defende que não pode exprimir condolências à viúva de Ihor, o cidadão ucraniano assassinado por inspetores do SEF e que o tinham à sua guarda. Mas é o mesmo que chama o comandante Magina da PSP a Belém para discutir a restruturação do SEF sem dar cavaco ao ministro, como se este já fosse um cadáver político.

É o mesmo que na véspera das eleições autárquicas de 1990 declarou que se candidatava a presidente do município de Lisboa com o objetivo primordial de pôr um ponto final à carreira política de Álvaro Cunhal, pois o PCP concorria coligado com o PS.

O homem que aparece em todo o lado onde há televisões é o mesmo que não quer aparecer onde já apareceu impante de veleiro a caminho do Brasil.

O homem que leva as televisões atrás dele quando vai participar numa ação de distribuir refeições aos sem abrigo é o mesmo que aplaudia o programa da troika que causou grande número de sem abrigo. É o mesmo que quer que todos saibamos que vai à ginginha ao Barreiro, ele que gosta muito mais de votos que de ginjas. Sabe-lhe que nem ginjas aquela pesca.

O homem que disse numa entrevista à RTP1 que assumia os erros (na sua opinião) da ministra da Saúde é o mesmo que, passados dias, disse sobre o mesmíssimo assunto que a ministra enganou os portugueses, sem sequer se dar ao cuidado de dar conta das explicações da ministra, se é que as pediu.

O homem que vive a pensar nos dividendos que pode tirar seja de que facto ou acontecimento for não é um homem para as estações do ano. É o homem que pensa na estação em pode furar o bloqueio da Polícia Marítima para ir dar um mergulho e aparecer lampeiro nos telejornais, enquanto os compatriotas estavam confinados.

O seu dia a dia é o minuto a minuto à procura do que se passa, do que poderá ter o valor mais alto na cotação mediática dos acontecimentos.

Ele sabe conviver. Já conviveu com tudo. Com o regime fascista, elogiando os carniceiros. Com os gorilas na Faculdade de Direito de Lisboa sem um triste pio. E continuaria a conviver se os democratas e patriotas não tivessem derrubado a ditadura. Já esteve nos jornais. Passou a líder do PSD e perdeu sempre. Ganhou as televisões e graças à deserção do PS foi para Belém e por lá vai continuar. E conviveu com Costa. O tapete vermelho da Autoeuropa pode sair caro a quem não o tiver na devida conta.

O que é que isto tem a ver com Thomas More? Tudo e nada. De relance, a propósito de um tranquiberneiro surge a figura plena, luminosa, eterna, a do chanceler, a do homem que escreveu a Utopia. Ao menos agora que se aproxima um novo ano, vale sempre a pena sonhar. Atrás dos tempos, outros tempos virão.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico