Autárquicas, complacências e agressividades

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 24/09/2017)
JPP

Pacheco Pereira

As pessoas podem estar cansadas da política e da parafernália eleitoral, mas, no fundo, esperam que os candidatos façam tudo o que é suposto fazerem, colocar cartazes, andar na rua, ter brindes para dar, esforçarem-se.
Estas eleições parecem, sublinho, parecem tão previsíveis que estão a gerar em muitos candidatos efeitos perversos de que bem se podem vir a arrepender. Uns estão tão convencidos de que vão ganhar que são complacentes. Outros estão tão convencidos de que vão perder, e por muito, que fazem apenas os serviços mínimos. Pelo contrário, os candidatos que se esforçam, que são agressivos no meio desta pasmaceira, estão a obter vantagem.
Não me refiro a nenhum partido, nem aos candidatos independentes, porque estes comportamentos são bastante transversais e estão a mostrar como as atitudes face às campanhas e a sua importância podem mudar alguma coisa.

As pessoas podem estar cansadas da política e da parafernália eleitoral, mas, no fundo, esperam que os candidatos façam tudo o que é suposto fazerem, colocar cartazes, andar na rua, ter brindes para dar, esforçarem-se. Esta é uma atitude que dificulta a inovação e a evolução das campanhas presas ao conservadorismo dos eleitores.

Campanhas ricas e pobres

Já me referi aqui ao facto de haver campanhas muito ricas, mesmo muito ricas. De novo, registo a minha perplexidade sobre de onde vem tanto dinheiro. E algumas destas campanhas muito ricas nem sempre são as dos candidatos dos grandes partidos, são-no também de candidaturas independentes. Por exemplo, em Oeiras, os candidatos fora dos partidos desenvolvem campanhas opulentas, deixando para uma relativa modéstia algumas campanhas de grandes partidos como o PSD. Parece haver uma maior correlação com o valor das economias dos concelhos, em particular do imobiliário, como é o caso de Lisboa, Oeiras, Cascais, e Sintra.

Ilustração Susana Villar
Ilustração Susana Villar

Mas há também campanhas pobres, cuja pobreza é ainda mais evidente quando se comparam, num mesmo concelho, com outras campanhas, e nalguns casos mesmo surpreendentemente pobres. Por exemplo, a campanha de Narciso de Miranda parece ter muito poucos meios, em comparação, por exemplo, com a de Isaltino ou Paulo Vistas.

Na concorrência…

Há muito tempo que a nossa linguagem se impregnou de uma visão do “economês” que dominou muito do discurso público nestes últimos anos e ainda está bastante vivo. Um dos exemplos é a expressão com que na televisão, e mesmo na rádio e nos jornais, se refere um outro órgão de comunicação, como sendo a “concorrência”. Na verdade é a SIC ou a TVI ou a RTP, ou o Público ou o Diário de Notícias, a Visão ou a Sábado. Por que razão um comentador ou um jornalista quando se refere a outro órgão de comunicação diz “no programa da concorrência”, ou “o que deu na concorrência”, como se a competição por audiências, por anunciantes, por lucros, seja a principal fronteira entre dois órgãos de comunicação? Que um gestor de um órgão de comunicação se expresse assim, ainda se compreende, que um jornalista o faça, é redutor para todos.

Se for do nosso lado engole-se tudo

Não escapa a ninguém que Trump não tem a preparação, a educação, a honestidade, a atenção à função, a dignidade mínima, qualquer carácter, nenhuma responsabilidade, nem um átomo de sentido de Estado, para ser Presidente dos EUA, ou seja para estar no lugar mais poderoso no mundo. Eu nem sei porque é preciso dizer isto de tão evidente que é.
É verdade, ganhou as eleições. Mas o facto de as ter ganho não lhe dá carácter, nem educação, nem honestidade, nem dignidade, nem cultura, nem competência, nem responsabilidade, como ele aliás faz gala de o demonstrar todos os dias. Esta semana voltou ao “crooked Hillary” e publicou um filme em que Hillary Clinton leva com uma bola de golfe nas costas que a faz cair no chão. O autor da “magnífica jogada”? Donald Trump. Não é novidade nenhuma, já fez o mesmo com vários dos seus adversários, a quem insulta soezmente.

Num certo sentido, e num sentido que é mais preocupante para o futuro, nem é tanto o facto de ele ter sido eleito, mas aquilo que gente que deveria ter outro juízo, lhe permitir e justificar todas as aleivosias. Isso, sim, é um sinal tenebroso do estado da política do poder na América, juntando oportunismo, cinismo, culto da personalidade, revanchismo. O homem é muito mau e funciona como pólo de atracção para muitos “bad hombres” respeitáveis, com as casinhas, as mulherzinhas, as familiazinhas, as gravatinhas, a pompa, do conservadorismo americano, que o usam e o servem. Também esses são de facto piores que os brutos de mão ao alto gritando em inglês as palavras de ordem pensadas em alemão.


Ganhar parado 

PSG

Pedro Santos Guerreiro

Os favoritos em Lisboa e Porto adoram arruadas ruidosas em que ficam calados. É a estratégia fácil para não cometer erros. Mas ficar quedo para não expirar na eleição é deixar de inspirar os eleitores

A melhor maneira de não fazer uma asneira é não fazer nada. O mundo dos políticos favoritos sabe-o e o submundo dos seus assessores recomenda-o: não mexer, falar pouco, sorrir muito, evitar perguntas, encurtar respostas, usar uma carteira com frases preparadas em vez de uma pasta de projetos, mostrar superioridade, representar confiança, porque o risco dos favoritos é deitar tudo a perder ao abrir a goela.

Os que os desafiam que estridulem, pulem, exagerem, que passem debaixo de pianos pendurados, corram sobre os fios das navalhas e percorram os limiares dos invernos prometendo primaveras.

As campanhas autárquicas em Lisboa e no Porto são um belo exemplo disso: está tudo ao rubro em torno dos pálidos Fernando Medina e Rui Moreira. Os casos são diferentes, os objetivos não. Ambas as campanhas estão carregadas de intenção, de excitação, de incitação, mas colidem no pouco substancial dos favoritos. Não é bonito nem feio, é só pouco entusiasmante, ainda que provavelmente eficaz. No discurso destes candidatos não há promissórias, há a sua própria imagem. Não há futuro, mas presunção de continuidade do passado. A naftalina contra a adrenalina. A paciência como caminho da presciência.

Em Lisboa, a dúvida é se Medina tem ou não maioria absoluta, mas o confronto dominante está na direita. A disputa entre Assunção Cristas e Teresa Leal Coelho projeta-se como a afirmação da líder do CDS e o declínio do líder do PSD, o que dispersa a sua batalha eleitoral da carga sobre Medina, candidato virgem em eleições, que tem à sua esquerda entre 15 e 20% disputados pelos candidatos do PCP e do BE.

No Porto, a última semana de campanha vai ser uma fartura, depois de uma inesperada sondagem ter dado ontem empate técnico entre Moreira e Pizarro. O candidato do PS passou de não ter nada preparado em maio para uma campanha bem preparada em setembro, enquanto Moreira preferiu aparecer sem estar e parecer sem ser: a estratégia do quedo é tão pouco entusiasmante que o próprio se enfada nos debates.

Na sexta, o Expresso estará nas bancas com as últimas sondagens de Lisboa e Porto e dois dias depois o país vai a votos. Nessa noite, as análises passarão a medir os erros e os acertos pelos resultados: quem ganhar terá feito boa campanha, quem perder será sovado pelos erros que hoje nem destrinçamos. Mas já é uma pena que os favoritos proponham vencer os outros vencidos de si próprios, falando dizendo pouco e agitando bandeiras com os braços sem abrir as mãos para mobilizar futuro algum. Uma cidade não é só gestão de trânsito e preços de imobiliário, uma cidade é vida se estiver viva. Não fazer nada pode ser uma grande asneira.

Uma “geringonça” em Lisboa? 

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 22/09/2017)

Daniel

Daniel Oliveira

As sondagens não dão mais do que tendências. Mas, no caso de Lisboa, três coisas parecem evidentes: Fernando Medina tem a eleição garantida, a maioria absoluta do PS está em risco e PCP e Bloco podem eleger um vereador cada, garantindo pelo menos um deles a maioria. É verdade que Medina pode governar sozinho. Mas numa cidade que vive, graças à explosão do turismo e à brutal pressão no mercado imobiliário, um momento determinante para o seu futuro, nenhum presidente da Câmara quer estar numa situação tão precária.

O PCP já se pôs de fora de qualquer entendimento. Não me espanta que o faça. O eurodeputado-vereador João Ferreira não parece ter grande simpatia pela estratégia de redução de espaço para o transporte individual e opôs-se à maior conquista da autarquia nos últimos anos: a municipalização da Carris. Como em questões de gestão imobiliária a discordância também é evidente (no que é acompanhado pelo Bloco), não parecem restar grandes pontes entre PCP e PS. Seja como for, e como se vê por esse país fora, o PCP tem mais facilidade em fazer alianças autárquicas com o PSD do que com o PS.

Já com o Bloco as coisas são um pouco diferentes. Não se afastando da estratégia a longo prazo de Medina no que toca ao espaço público, à mobilidade e aos transportes públicos, tem sido justamente crítico perante a doutrina do vereador Manuel Salgado, que Costa primeiro e Medina depois foram aceitando, de que o mercado é a principal solução para a política de habitação e de urbanismo da capital.

Lisboa e Porto, assim como outras cidades mais pequenas, não estão sozinhas no fenómeno que hoje vivem, que combina enorme afluência de turistas, estrangeiros que compram casa para residência muitas vezes não permanente e investimento de fundos internacionais no imobiliário com fins especulativos. Todo este processo resulta de um fenómeno que podemos encontrar em praticamente todas as áreas da economia: globalização e financeirização. A que se acrescenta a democratização do turismo e a fuga de investimento em atividades produtivas e de poupanças para o imobiliário. Tudo isto está para durar. A pressão sobre o imobiliário vai ser ainda mais forte, o turismo vai crescer ainda mais. Quem for a Londres conhece as consequências extremas da pressão especulativa no imobiliário, com zonas inteiras sem habitantes permanentes; quem for a Barcelona conhece as consequências extremas do turismo em enorme escala, que já provocam reações xenófobas.

Claro que não são apenas más notícias. O turismo está a ser o motor para a nossa recuperação económica e a recuperação do mercado imobiliário garantiu a reabilitação de partes enormes do degradado edificado de Lisboa. É nesses resultados que Manuel Salgado, arquiteto sem grande sensibilidade política ou convicção ideológica, se baseia para querer deixar o mercado funcionar. Acontece que deixar o mercado funcionar é um suicídio. Sim, a cidade será reabilitada e a economia florescerá. Mas sem pessoas a viver dentro dela. E, sobretudo, sem pessoas com menos recursos.

As capacidades do Estado intervir são poucas. Não se pode nem se quer limitar a entrada de turistas. Pode-se apenas civilizar o alojamento local – no seu programa eleitoral, Medina prometeu fazer depender novos registos de licenciamento, o que dá à Câmara um novo poder de regulação do mercado. Não se pode impedir a compra de casa por investidores e a experiência diz-nos que o congelamento de rendas tem efeitos perversos – o que não autoriza soluções expeditas para as rendas antigas, com efeitos sociais devastadores. Mas o Estado pode intervir na habitação como intervém na Saúde ou na Educação. Tem de se assumir que a habitação terá de ser incluída nas políticas públicas não apenas como um apoio de emergência para os mais pobres, mas como um serviço capaz de escapar às implacáveis regras do mercado global que atiram os moradores para fora das cidades. Londres percebeu-o e assiste-se a um investimento de larguíssima escala por parte da autarquia para criar um mercado público significativo a preços aceitáveis.

Apesar das divergências nas estratégias, Fernando Medina deu os primeiros passos para a construção de sete mil casas com rendas acessíveis. O Bloco não discorda desta política. Parece discordar da forma encontrada, que envolve privados, e da ambição até agora mostrada.

Na quarta-feira, o candidato do BE, Ricardo Robles, abriu a porta a um entendimento, dizendo: “estamos disponíveis para nos sentar e definir objetivos muito concretos na habitação, nos transportes, nos equipamentos escolares, na limpeza urbana, tudo coisas que implicam com a vida das pessoas e que tem de ser resolvidas, porque não o foram ao longo dos últimos mandatos.”

Como o PCP se colocou fora de qualquer entendimento possível, esta é a oportunidade para o BE dar uma razão prática para o voto no seu jovem candidato

Com a possibilidade de Medina não ter maioria absoluta, podemos ter uma espécie de “geringonça” em Lisboa? Uma “geringonça” em que haja partilha de responsabilidades e de pelouros? Se sim, isso permitiria ao BE apoiar algumas políticas na gestão do espaço público, como o aumento da rede de ciclovias, mais espaço para os peões e a impopular mas indispensável moralização do estacionamento.

Poderia ser exigente com as políticas de transportes e mobilidade, garantindo melhorias reais no funcionamento da Carris agora municipalizada, travando qualquer futura privatização, pressionando o Estado central para fazer qualquer coisa em relação ao estado calamitoso do Metropolitano de Lisboa e fazendo propostas para resolver o estado de engarrafamento crónico de algumas zonas da cidade. E, acima de tudo, obrigando a muito mais ambição numa estratégia para o mercado público de arrendamento que impeça que a prosperidade da cidade a esvazie de moradores

Se se apresentar como possível aliado, o Bloco tem um propósito que ultrapassa a denúncia: o de obrigar Medina a depender mais de Ricardo Robles do que de Manuel Salgado. A depender mais da defesa de políticas públicas do que da fé no mercado. O candidato do BE deu um primeiro passo, ainda tímido, com a disponibilidade para se sentar na mesma mesa que Medina. Precisa de ir mais longe e de apresentar, como Catarina Martins fez com Costa, condições realistas para ajudar a governar a cidade. Como o PCP se colocou fora de qualquer entendimento, esta é a oportunidade para o BE dar uma razão prática para o voto no seu jovem candidato. Porque se não for essa, é tirar a maioria absoluta ao PS para colocar Fernando Medina nas mãos de Assunção Cristas ou Teresa Leal Coelho. E isso não me parece que seja o que eleitor de esquerda ou apenas sensato deseje.


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