Clima: não é só vontade política, é uma revolução

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 15/11/2021)

Daniel Oliveira

Quis o acaso que a COP26 coincidisse com a maior crise energética dos últimos anos. A contradição entre cidadãos preocupados com o ambiente e a sua exigência por energia mais barata resume o dilema. Mas como podem países com mais de 150 anos de revoluções industriais poluentes exigir que economias emergentes, como a Índia, saltem etapas? Mesmo em cada país, a distribuição de sacrifícios é assimétrica. Não basta coragem política. É precisa uma autêntica revolução.


A cimeira do clima acabou como começou: uma vitória para a diplomacia para um acordo inconsequente. Em Glasgow, ficou visível o alcance limitado de medidas que precisam de união à escala global, mas que dependem da convergência de vontades políticas e interesses muito contraditórios. Entre países ricos e países em processo de industrialização, entre produtores de energia fóssil e os que apostaram na reconversão energética. E, no meio, cidadãos preocupados com a sustentabilidade ambiental, mas com medo de perder os seus empregos e o acesso a mínimos de conforto, com o aumento do preço da energia e de produtos e primeira necessidade.

O previsível flop desta cimeira – que, ao contrário do que estava escrito na declaração levada à sessão de encerramento, se contenta com a diminuição do uso de algum carvão – pode resumir a falta de coragem de políticos presos a uma teia de interesses contraditórios. Mas simplifica quem pensa que é apenas uma questão de coragem. A impopularidade das medidas necessárias ou de uma mudança que seja vista como hostil pelos cidadãos – normalmente os mais vulneráveis, que são sempre quem mais sofre com a mudança – pode ter como efeito, pelo menos nas democracias, a um recuo ainda maior, com a vitória de correntes negacionistas ou, para ser mais rigoroso, “indiferencistas”. E levar a um retrocesso em tudo. Estamos entalados entre o que é preciso ser feito e os enormes riscos políticos de o fazer.

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Quis o acaso do calendário e a persistência dos efeitos da pandemia que a cimeira global do clima coincidisse com a maior crise energética dos últimos anos. A contradição entre cidadãos preocupados com a proteção ambiental e a sua exigência por energia mais barata é um bom resumo do dilema que enfrentamos. Sabemos o que é preciso fazer para mitigar o efeito da atividade humana nas alterações climáticas, mas os problemas precipitam-se quando os países se juntam para discutir as medidas necessárias.

A equação não é tão simples como gostaríamos. O mundo consome cada vez mais energia – resultado do crescimento populacional ou de hábitos de consumo multiplicados com a emergência de classes médias consumidoras na Índia e China – e a produção energética é direta ou indiretamente responsável por 73% das emissões poluentes. Esta sede interminável de energia levou estes dois países, os mais populosos do mundo, a desenhar planos para aumentar em 20% a produção de carvão. O tema foi um dos principais motivos de polémica na cimeira, liderada por alguns dos países mais ricos e industrializados, alertando para o efeito catastrófico no aumento de emissões.

Ninguém discute os problemas da produção energética com a queima de carvão. A questão é saber como podem países que concentraram níveis inusitados de riqueza com mais de centena e meio de anos de revoluções industriais altamente poluentes exigir que economias emergentes, como a Índia, saltem de um modelo pré-industrial para um modelo de energia limpa e sustentável? É a imposição de uma segunda desvantagem competitiva, acrescentando um lastro a quem quer sair da pobreza inominável em que ainda vivem centenas de milhões de pessoas.

Tudo isto acontece ao mesmo tempo que o país anfitrião da cimeira, o Reino Unido, se prepara para explorar mais um poço de petróleo e uma mina de carvão. Como o discurso sai mais barato do que abrir os cordões à bolsa, os prometidos apoios financeiros de larga escala para a transição energética nos países menos desenvolvidos, que deviam ter começado em 2020, foram chutados para a frente e o fundo de apoio para combater os efeitos climáticos mais extremos que já se fazem sentir está limitado a uns esclarecedores dois milhões de libras.

O cinismo de quem pede para que os mais pobres não assumam o modelo económico que permitiu a concentração de riqueza nos países mais industrializados esconde outra realidade. Se é verdade que China e Índia são os maiores produtores de carvão, quando olhamos para os dados por habitante as coisas mudam de figura. Aí, percebemos que alguns dos líderes desse descontentamento, como a Alemanha, ainda recorrem oito vezes mais ao carvão por habitante do que a tão criticada Índia ou que os EUA extraem tanto carvão como a China e que este ano aumentaram a sua produção em 22%.

Na Austrália, líder destacado na sua dependência da indústria do carvão por habitante, nem os fogos florestais cada vez mais violentos fazem mudar a rota de um dos países mais empenhados em atrasar as metas climáticas. Entre a economia e as alterações climáticas, que o país já sente de forma tão aguda, escolhe-se a primeira. Como dizer à India ou à China, que ainda trata de coisas básicas na vida dos seus cidadãos, que façam diferente?

Três quartos das emissões poluentes em todo o mundo são responsabilidade direta ou indireta da energia que move o planeta (produção de eletricidade; sector automóvel e transportes; energia para casas e escritórios). Curiosamente, o sector que mais energia consome, a indústria (a energia que usa é responsável por 24,2% do total das emissões), é aquele de que menos se fala e exige quando procuramos reconverter modelos energéticos e até de vida em sociedade. A produção de aço e ferro é responsável por 7,2% do total de emissões, mas só há uma siderurgia em todo o mundo alimentada por “energia limpa”.

A falta de ambição dos políticos, a frase mais ouvida nas manifestações em Glasgow, é real, mas ela é tanto reflexo das contradições económicas existentes, como do medo da repercussão dos cidadãos que exigem energia mais barata, têm medo justificado de perder o emprego com a reconversão industrial ou não estão dispostos a pagar mais para alterar o seu modelo de vida. O equilíbrio não é fácil, até porque, mesmo em cada país, a distribuição dos sacrifícios é assimétrica. Quem vive no centro das cidades poderá fazer o seu quotidiano muito mais facilmente sem veículos a combustão, pagar combustíveis mais caros ou ir a uma mercearia com produtos de agricultura sustentável. Outros não. O dinheiro, como sempre, conta.

O que aconteceu nas autárquicas, em Lisboa, onde um voto contra as ciclovias foi responsável por uma parte da penalização eleitoral do PS, não é circunscrito à capital portuguesa. Mesmo nos países escandinavos, os movimentos contra qualquer medida limitadora da circulação automóvel são fortes e têm peso eleitoral. Nas últimas eleições locais na Noruega, em 2019, um partido criado apenas com o propósito de bloquear as taxas de circulação dos automóveis ficou em terceiro lugar na segunda cidade do país e elegeu um representante em Oslo, tendo assumido um papel de destaque na agenda das próprias campanhas. Os coletes amarelos em França ou o voto fora das cidades em Trump são um produto do descontentamento popular com um progresso que sentem ser feito da imposição política de um modelo de vida que sentem incompatível com a sua vida e as suas dificuldades.

Nos EUA, o Departamento do Estatísticas do Trabalho calcula que os empregos com mais rápido crescimento entre 2020 e 2030 sejam os técnicos de turbinas eólicas e os instaladores de painéis solares. A reconversão energética tem de ser vista, também, como aquilo que é na verdade: a melhor oportunidade das últimas décadas para criar novas indústrias e postos de trabalho. A questão é que os empregos não se dirigem aos mesmos que os perdem, nem estão disponíveis no momento em que eles se perdem, e podem nem ser, a longo prazo, no mesmo número dos postos de trabalho perdidos.

Quem sente que pode vir a ser deixado para trás, como os trabalhadores menos qualificados, agarra-se mais facilmente ao que tem, rejeitando a mudança, do que as promessas abstratas de um emprego futuro. E é compreensível que o faça. Nos EUA e na Europa temos assistido a um crescimento das desigualdades, destruição de almofadas sociais, aumento da precariedade e a convicção fundada de cada vez mais gente de que, para a maioria da população, os filhos viverão pior do que os pais. A que se junta uma distância cada vez maior em relação ao poder político. As pessoas não confiam e têm todas as razões para isso. Eu também não.

É por tudo isto que qualquer debate ambientalista que não se divorcie da agenda económica e social neoliberal está fadado ao fracasso. Até porque o debate sobre a forma como hoje produzimos e consumimos, a importância da proximidade e a mudança radical do funcionamento das cidades, desafia o movimento de financeirização do capitalismo global a que assistimos. Uma proposta de transição, nestas condições políticas e económicas, nunca vencerá a convicção mais do que justificada que serão os de sempre a pagar a fatura. As ditaduras resolvem isto à sua maneira. Mas em democracias, as vítimas do costume que têm, felizmente, o voto.

É esse o desafio da classe política e de todos os que pretendem influenciar o debate e as políticas públicas: mostrar que a defesa do ambiente pode ser feita com os cidadãos. Sem os ganhar com uma agenda social e económica agressiva nunca haverá a coragem que exigiram a ONU e manifestantes e movimentos ambientalistas. E continuaremos a ver cimeiras inconclusivas presas por uma vírgula num documento vago de conteúdo. Não basta coragem política. É precisa uma autêntica revolução.


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Vai chegando o pós-covid

(António Guerreiro, in Público, 29/10/2021)

António Guerreiro

Quando a pandemia estava no auge, perguntava-se por todo o lado e de maneira insistente: “Como vai ser o mundo depois da covid-19?” Ao que uns — digamos, os guelfos — respondiam: “Nada deve ser como antes, devemos erguer barreiras contra o regresso à ordem anterior à crise sanitária, de modo a evitarmos o desastre, agora que ficámos a saber que afinal é possível suspender de maneira global e no mesmo momento um sistema económico que tinha o benefício do argumento da força irreversível, como o comboio do progresso que avança sobre carris e não pode ser desviado”. E os outros — digamos, os gibelinos — retorquiam: “É preciso relançar o mais rapidamente possível a produção, erguendo um plano de resiliência e lançando-nos na batalha da recuperação”.

Pouco mais de um ano depois, começamos a perceber que nem sequer é fácil decidir sob que condições podemos declarar que entrámos num tempo pós-covid. Em primeiro lugar porque o vírus, num certo momento, perde força nalgumas regiões e a sua difusão parece controlada, enquanto se dá o seu recrudescimento noutras regiões (mas algum tempo depois pode dar-se uma alternância). Em segundo lugar porque a passagem ao pós-covid não pode ser proclamada com base na experiência dos cidadãos, depende de decisões políticas e essas não se regem universalmente pelos mesmos critérios: há factores culturais que contam bastante e desde o início tornou-se evidente que ser de esquerda ou de direita é um factor que influencia fortemente a imposição das restrições e o seu levantamento. Em terceiro lugar porque os impactos da pandemia não são apenas sanitários, são também económicos e sociais. Há efeitos em vários planos e, por isso, em rigor, só podemos dizer que entrámos no tempo pós-covid quando todos eles estiverem controlados.

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Podemos então perceber que por enquanto, e talvez por muito mais tempo do que previmos a partir do momento em que surgiram as vacinas, não existe uma resposta clara quanto à definição do pós-covid. E há sinais de que as crises se vão encastrando umas nas outras. Que a crise sanitária potencie crises políticas, era previsível. Mas começa a ganhar forma uma crise um pouco obscura, com uma origem indefinida ou que ainda não nos foi explicada devidamente. De repente, instalou-se a ameaça de que tudo começa a faltar: primeiro, foram os combustíveis em Inglaterra e os chips para a indústria automóvel. Aí, as anomalias pareciam dever-se meramente a problemas logísticos. Mas agora, quando nos é dito, e isso se torna um assunto importante na Feira do Livro de Frankfurt, que começa a haver falta de papel para fornecer a indústria editorial, já estamos muito para além dos problemas logísticos (ou é o que parece a quem desconhece os meandros). E quando se começam a ouvir avisos públicos de que o próximo Natal será marcado pelo que vai faltar, há boas razões para pensar que estamos longe de alcançar o tempo pós-covid. De Espanha, tal como antes de Inglaterra (mas aqui o Brexit serviu de explicação), chega-nos a notícia de que faltam milhares de camionistas, e faltam carpinteiros, e faltam electricistas, etc. Por cá, estas faltas não são certamente menores, mas há algum cuidado em publicitá-las.

O que é intrigante para o leigo cidadão é porque é que passámos da abundância à falta de tanta coisa sem termos mudado de regime económico. É certo que houve o tempo de desaceleração da máquina produtiva (mas também da máquina consumidora) durante algum tempo. Mas isso não explica tudo o que se está a passar hoje. O regime da falta é o que de mais perturbante existe na regra económico-política em que vivemos, no coração do capitalismo globalizado. A falta era um problema do mundo periférico, subdesenvolvido, onde tudo o que sucede, fenómenos naturais, políticos ou sociais, se traduz em catástrofe.

A velocidade do tempo catastrófico também não é o mesmo em todo o lado. No mundo rico, ocidental, a catástrofe é sempre lenta, a não ser aquela que é causada por desastre naturais (por exemplo, um vulcão que entra em erupção na ilha de La Palma); no mundo pobre, a catástrofe chega sempre em grande velocidade.

Para o mundo rico, o tempo da catástrofe avança quase sempre de maneira gradual e progressiva. Por isso, começa por ser imperceptível. Tão imperceptível como o Messias que, na mística judaica, chega todos os dias mas ninguém dá pela sua vinda.



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“O que está a acontecer no mundo não é só profundamente imoral, mas também suicida”

(Entrevista a Noam Chomsky, in Diário de Notícias, 09/10/2021 )

Teórico da linguagem, pensador polémico, Noam Chomsky acaba de publicar Um guia essencial sobre capitalismo, política e o funcionamento do mundo. Na entrevista à TSF e DN fala de vacinação, clivagens políticas, Afeganistão e alterações climáticas.


Acredita que os países ricos estão dispostos a assumir as suas responsabilidades e ajudar a fornecer o que o mundo em desenvolvimento ainda precisa em termos de vacinação?
É um escândalo e também é suicida. Os países ricos praticamente monopolizaram a vacina. Tem havido alguns esforços para distribuí-la aos países que precisam dela desesperadamente. Na África, Ásia, América Latina. Não só monopolizaram as vacinas, mas insistem em que as taxas de lucro exorbitantes das empresas farmacêuticas sejam protegidas pelos chamados acordos de livre comércio altamente protecionistas. O que está a acontecer não é apenas profundamente imoral, mas também suicida. Todos entendem que quanto mais tempo levar para o resto do mundo ser vacinado, mais tempo há para o vírus se transformar em variantes que serão incontroláveis, que irão, claro, voltar aos próprios países ricos, como foi com a variante Delta. É um exemplo de como a ganância e a estupidez superam não apenas os valores morais elementares, mas mesmo um sentido de auto-preservação. Agora, há um forte movimento anti-vacinação que, nos EUA, é localizado. De forma esmagadora, nos estados republicanos, praticamente na velha confederação e em alguns estados do noroeste, há uma oposição muito forte à vacinação. E os hospitais estão lotados com quase 100% de pacientes não vacinados. Estão a morrer e dizem “não quero uma vacina, não vou deixar o governo fazer isso comigo”. Sabe, é maníaco, doentio, até alguns segmentos da esquerda são apanhados nisso. Mas a maioria dos republicanos dizem que, simplesmente, não serão vacinados.

Isso relaciona-se com as clivagens e a polarização na política americana atual. Vê-as como uma ameaça importante para a democracia dos EUA?
Bem, a democracia dos EUA está moribunda, está de partida. Podemos ver isso no Congresso agora que está a debater a legislação que levaria os Estados Unidos, em alguma medida, na direção de social-democracia que é normal na Europa. Cuidados de saúde universais dificilmente radicais, ensino superior gratuito, creches, isto é, as coisas normais na maior parte do mundo mas que nos Estados Unidos são consideradas radicais. Os republicanos são totalmente contra.

“A democracia dos EUA está moribunda, está de partida. Podemos ver isso no Congresso agora que está a debater a legislação que levaria os Estados Unidos, em alguma medida, na direção de social-democracia que é normal na Europa.”

Pensa que um Partido Republicano orientado e controlado pelo ex-presidente Trump pode ganhar as eleições intercalares do próximo ano e voltar ao poder na Casa Branca em 2024?
É muito provável. E se o fizerem, o mundo estará em grande perigo. Eles sabem que são um partido minoritário e que não podem ganhar eleições livres. Portanto, têm uma estratégia que passa por reduzir os direitos de voto. Em praticamente todos os estados republicanos estão a impor novas leis que tornam mais difícil o voto de eleitores que tendem a ser democratas, tornam mais difícil para que votem as minorias, os pobres, os trabalhadores, as populações urbanas e assim por diante. Dessa forma, aumentam o poder da base republicana, da direita, da supremacia branca, do nacionalista cristão, do tradicional. A outra tática é desviar a atenção das questões económicas e de classe, onde os republicanos estão muito à direita e a esfaquear os seus próprios eleitores pelas costas, desviando a atenção para as chamadas questões culturais. Concentram-se nisso, ou no aborto, ou em garantir que todos tenham um arsenal de fuzis na garagem, qualquer coisa menos a classe e as questões económicas. Isso faz sentido para um partido totalmente leal aos super-ricos e ao setor corporativo. Pode ver isso dramaticamente com Trump, um homem com uma autoconfiança brilhante, ele poderia levantar-se, com uma mão dizer, “eu amo-te e trabalho para ti”; e, com a outra mão, apunhalar-te pelas costas. Uma terceira parte da estratégia, que é muito aberta e explícita, é fazer com que o país sofra o máximo possível. Se ler os projetos agora no Congresso: seguro-desemprego, creche, uma ajudinha de saúde para o escandaloso sistema de saúde dos Estados Unidos, tudo isso seria muito benéfico para a população. São medidas muito populares, mesmo entre os eleitores republicanos. Mas Trump precisa ter a certeza de que não serão aprovadas. Porque se o país sofrer o suficiente e for ingovernável, eles podem culpar os democratas e voltar ao poder. Algumas das coisas com as quais os republicanos se safam são quase cómicas, como a retirada do Afeganistão, planeada por Trump. Fez um acordo com os talibãs, sem sequer notificar o governo afegão, que era “vocês podem fazer o que quiserem, assumir aquilo. Sem condições. Nós retiramos as tropas. A única condição é não dispararem contra as tropas americanas que vão embora. Fora isso, façam o que quiserem”. Foi uma traição total.

Na Economist, há algumas semanas , o senhor escreveu que os EUA permanecem sem rival em força militar e económica, mas com terríveis consequências para o mundo. Porquê?
Há uma luta em curso, que é muito mal compreendida pela imprensa. É, sobretudo, uma questão de liberdade de navegação. São questões relacionadas com o direito do mar. Há uma disposição que estipula que os países têm uma zona económica exclusiva de 200 milhas, a partir da costa. Agora, a questão da liberdade de navegação com a China está nesse ponto. Os EUA não assinaram a Lei do Mar, nem a ratificaram, mas insistem que a liberdade do direito do mar permite ações militares e de inteligência dentro da zona económica exclusiva. A China aceita a liberdade de navegação, mas sem nenhuma ação militar e de inteligência. É aí que está o conflito que, certamente, pode ser resolvido por diplomacia e negociações, mas os EUA querem resolvê-lo enviando uma armada de navios de guerra para as zonas contestadas da China. Ao mesmo tempo, enviam uma frota de submarinos nucleares avançados para a Austrália, que a Austrália vai pagar, mas que estarão sob o comando americano. Ao fazer isso, deram um pontapé na cara à França. E a Austrália é que teve que lidar com a França, que ficou certamente muito chateada e chamou os seus embaixadores na Austrália e nos EUA. Não se preocuparam com a Inglaterra, porque reconhecem que a Inglaterra é apenas um estado vassalo dos EUA, não um país independente. O principal correspondente militar australiano fez uma análise detalhada do caráter grotesco do negócio e como põe a Austrália em perigo. Mas isso não chega à imprensa ocidental, aqui é um acordo maravilhoso.

“Pode ver isso dramaticamente com Trump, um homem com uma autoconfiança brilhante, ele poderia levantar-se, com uma mão dizer, “eu amo-te e trabalho para ti”; e, com a outra mão, apunhalar-te pelas costas.”

No caso do Afeganistão, o senhor é dos que pensa que invadir foi uma opção má, e que a retirada foi provavelmente ainda pior. E agora? Acha que este novo governo talibã, pode ser melhor para o povo afegão do que o que houve entre 1996 e 2001?
Bem, a traição de Trump ao povo afegão e ao governo afegão foi severa. O acordo que ele fez com os talibãs, de lhes entregar o país, foi uma decisão para maio de 2021, o início da temporada de combates. Foi o pior momento possível, não havia oportunidade para acomodações ou qualquer outro arranjo. Bem, Biden tentou torná-lo um pouco melhor, acrescentou algumas condições que Trump não havia adicionado. Era óbvio que o governo afegão estava afundando, não era apenas um atoleiro de corrupção, mas sim um colapso completo. Era bastante óbvio que o exército afegão entraria em colapso. Eles não têm nada para lutar, os soldados estão lá, mas não são pagos. Por que deveriam lutar pelo poder estrangeiro? O colapso era óbvio. As únicas pessoas que não entenderam isso foram as agências de serviços secretos. Eles sabem exatamente o que está a acontecer e fornecem relatórios precisos. Mas, à medida que esses filtros sobem na cadeia de comando, são modificados de acordo com o que as pessoas no topo desejam ouvir. Quando chega ao poder executivo, eles não têm nenhuma relação com o que está a acontecer. Há um longo historial disso. Os serviços secretos no terreno são muito eficientes. Mas o sistema leva a uma grande confusão no topo. Era bastante óbvio que o exército afegão não resistiria; que o chamado governo afegão, com uma corrupção massiva no seu interior, entraria em colapso imediatamente. E foi o que aconteceu.

“China, Rússia, os estados da Ásia Central querem tentar trabalhar com os talibãs para tentar melhorar a situação e ver se os podem mover numa direção mais moderada. Isso teve a oposição de dois países, os EUA e a Índia.”

O que podemos esperar destes talibãs 2.0?
Bem, há uma divisão entre os poderes que podem lidar com isso. China, Rússia, os Estados da Ásia Central querem tentar trabalhar com os talibãs para tentar melhorar a situação e ver se os podem mover numa direção mais moderada. Isso teve a oposição de dois países, os EUA e a Índia. Nas reuniões da Organização do Conselho de Cooperação de Xangai, a Índia esteve sozinha e opôs-se aos esforços dos demais países para caminhar nessa direção. O Tesouro dos EUA detém os recursos financeiros do governo afegão. Os EUA congelam esses recursos e pressionam o FMI e o Banco Mundial para reter os financiamentos. O povo afegão está a sofrer muito: enfrentam fome massiva e destruição do país. E é aí que estamos. A China liderou os esforços das potências regionais, são os que estão a seguir a política certa. Os talibãs estão no comando, é um facto, são o governo em funções. Há muitas coisas que são muito más neles mas também há coisas muito más vindas de outros governos. O povo afegão deve ser a nossa preocupação. E a forma de ajudar é exatamente trabalhar com os talibãs, tentar induzi-los a tornarem-se mais inclusivos, menos repressivos, fazer com que mudem a economia baseada na produção de ópio, para o desenvolvimento dos seus próprios ricos recursos minerais, tentar estabelecer projetos de desenvolvimento, para ver se gradualmente podem ser incorporados no sistema regional, o que provavelmente significará incorporarem-se na Organização de Cooperação de Xangai. Bem, os EUA estão ocupados a tentar intimidar todos e a mostrar a sua força. A China está a mover-se discretamente para integrar a Ásia Central, partes da África, até mesmo a orientar-se para a América Latina e integrá-los numa espécie de sistema económico com base na China. Não são pessoas simpáticas que o estejam a fazer por motivos de caridade. Estão a fazer isso por razões de poder.

Estamos a menos de um mês da Conferência do Clima COP 26 em Glasgow, e o secretário-geral da ONU disse recentemente que o mundo deve acordar, estamos à beira do abismo e a mover-nos na direção errada. O senhor escreveu um livro com Robert Poland, em que afirma que devemos ter um Novo Acordo Verde Global, Global Green New Deal. Como é que deve ser esse acordo?
Temos ideias detalhadas explícitas nesse livro. São propostas viáveis para reduzir o uso de combustíveis fósseis de petróleo todos os anos, até atingirmos as emissões zero por volta de meados do século, empregando meios para produzir energia melhor, sustentável e mais barata e uma economia melhor; no fundo, uma vida e economia muito melhores para as pessoas. Agora, voltemos ao mundo real. Os líderes do mundo querem levar-nos ao limite o mais rápido possível, para conseguirem os seus objetivos. Se ler os jornais do setor do petróleo, andam eufóricos a discutir todas as novas perspetivas para novos campos de petróleo enquanto descobrem como podem aumentar a produção de combustíveis fósseis, um futuro maravilhoso pela frente. Se houvesse um observador do espaço sideral a observar-nos, pensaria que somos clinicamente insanos. As grandes empresas de petróleo precisam mudar a sua propaganda de relações públicas. É interessante como fazem isso, continuando a produção de combustíveis fósseis e investindo nalguma tecnologia futurística, – que não existe, já agora -, que será capaz de remover os venenos da atmosfera, depois de despejá-los numa lavagem verde. Essa é a política deles. Veja o Partido Republicano nos Estados Unidos. São todos negacionistas; para eles, não está a acontecer. Ou os chamados democratas moderados, como Joe Mancini, aquele que impede os esforços de fazer algo pelo meio ambiente no orçamento. A sua posição é clara e explícita. Ele diz: só inovação; sem eliminação, continuem a produzir combustíveis fósseis sem limites, mas encontrem uma maneira de superar as críticas. É a pessoa que mais recebe financiamento das empresas de combustíveis fósseis no Congresso, o que é muito significativo porque essas empresas financiam e compram abundantemente membros do Congresso. É o campeão nisso. Os seus próprios constituintes, os mineiros de carvão na Virgínia Ocidental, estão a mover-se no sentido da energia sustentável, mas o seu representante no Congresso está comprado pelas petrolíferas, que querem continuar a correr para o precipício.

“[Greta Thunberg] terminou a dizer: vocês traíram-nos. Essas palavras devem ser gravadas na consciência de todos. Na minha geração e na sua. Traímos a juventude do mundo. Estamos a trai-los agora. Estamos a trair os nossos filhos e netos.”

Há motivos para esperar que os jovens ainda possam fazer uma mudança e salvar o mundo para as gerações futuras?
Eles estão a liderar. Na sexta-feira da semana passada, houve uma greve climática global de jovens, centenas de milhares deles nas ruas da Europa, exigindo que as nossas gerações, a sua e a minha, façam algo para acabar com a crise que está a destruir as vidas deles, mas isso quase não foi relatado nos EUA. Não sei como foi em Portugal. Mas são os jovens que nos imploram. Agora, voltemo-nos para a cimeira de Davos no ano passado, dos ricos e poderosos. Greta Thunberg, uma adolescente, foi lá e teve um discurso sóbrio e cuidadoso sobre a situação atual. O secretário-geral da ONU teria concordado com cada palavra. Terminou a dizer: vocês traíram-nos. Essas palavras devem ser gravadas na consciência de todos. Na minha geração e na sua. Traímos a juventude do mundo. Estamos a trai-los agora. Estamos a trair os nossos filhos e netos.


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