Trump aterrorizado com a ameaça estratégica dos BRICS

(Pepe Escobar, in SakerLatam.org, 12/07/2025)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

É isso aí. As classes dominantes do Império do Caos, mais o atual e palhaço-chefe do picadeiro, finalmente perceberam que o BRICS é uma séria ameaça estratégica — e um desafio existencial — à sua dominação unilateral do atual sistema de relações internacionais.

Eles não chegaram a essa conclusão examinando cuidadosamente a cúpula anual do BRICS no Rio — ou a cúpula inovadora do ano passado em Kazan, aliás: eles são péssimos em fazer o dever de casa básico.

É mais como se tivessem sido despertados de seu torpor ao sentirem na pele para que lado o vento — global — está soprando, em termos de todos os tipos de modelos que estão sendo testados para contornar o dólar americano e o controle férreo das instituições de Bretton Woods.

A conclusão foi inevitável: Os BRICS cruzaram a linha vermelha definitiva. Não há mais conversas do tipo “Sr. Bonzinho”. A declaração do Rio, com mais de 130 pontos, divulgada no primeiro dia da reunião de cúpula, explicita, de forma educada, mas decisiva: é isso que somos, uma alternativa sistêmica; e vamos escrever as regras do novo sistema do nosso jeito.

Construindo a geopolítica da soberania

O BRICS 2025 no Rio foi uma surpresa impressionante. Inicialmente, as expectativas eram baixas – ao comparar a presidência brasileira com a quantidade extraordinária de trabalho realizado pela Rússia em 2024, levando a Kazan.

No entanto, no fim, o Rio consolidou o que Kazan havia anunciado: o novo sistema em ascensão terá como base a soberania, a igualdade e a justiça, com ênfase na integração econômica continental, no comércio em moedas nacionais, em um papel ampliado para novas instituições financeiras globais, como o NDB (o banco do BRICS), e em inúmeras plataformas para o desenvolvimento sustentável.

Uma Geopolítica da Soberania precisa ser construída estruturalmente: o ferro e o cimento para o novo sistema virão de uma nova interconexão do comércio em moedas nacionais, sistemas independentes de pagamento/liquidação e novas plataformas de investimento.

Geoeconomicamente, o BRICS já está em andamento. Uma rápida olhada em um mapa da Eurásia e da Afro-Eurásia é suficiente para mostrar a interconexão existente e emergente de corredores de conectividade, logística e cadeia de suprimentos. Nas terras do BRICS, esses corredores conectam fontes de energia, depósitos de terras raras e uma grande quantidade de commodities agrícolas.

Para citar o Padrinho do Soul James Bown, “Papa’s got a brand new (BRICS) bag” [O papai conseguiu uma bolsa (BRICS) nova — nota do tradutor].

Por isso, não é de se admirar que uma encarnação imunda do fardo do homem branco, o mestre do circo, tenha desencadeado uma guerra total contra o BRICS e seus parceiros – de ameaças a tarifas, com um atestado de óbito antecipado (na época, ele não tinha a menor ideia do que se tratava o BRICS).

A série Trump Tariff Temper Tantrum (TTT) é, obviamente, outra manifestação de Dividir e Reinar, tentando explodir o BRICS por dentro. E agora estamos subindo vários degraus, com uma carta infantil que é marca registrada, ameaçando com tarifas de 50% sobre todos os produtos Made in Brazil exportados para os EUA — além de tarifas “setoriais” extras.

E, no entanto, isso não tem nada a ver com comércio. Nos últimos 15 anos, o superávit comercial dos EUA com o Brasil foi de mais de US$ 400 bilhões. Algum subordinado de Trump 2.0 deve ter sussurrado esse número no ouvido de seu chefe.

Mas, mesmo que o tenha feito, isso é irrelevante. Porque o último artifício constitui, na verdade, uma interferência estrangeira grosseira na política interna de outra nação e na próxima corrida presidencial, ilegal e previsivelmente mais uma vez ridicularizando o direito internacional.

O mestre do circo começou gritando em suas postagens que o governo Lula — e o sistema judiciário brasileiro independente — havia se envolvido em uma caça às bruxas contra seu amigo, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que está sendo processado legalmente sob a acusação de organizar um golpe para anular os resultados da eleição presidencial de 2022 e impedir que Lula assumisse o poder.

Coube ao não tão bom operador Steve Bannon dar a entender todo o jogo sujo: se vocês desistirem do processo contra Bolsonaro, nós desistimos das tarifas de 50%.

A resposta do presidente Lula foi comedida, mas firme: “O comércio do Brasil com os Estados Unidos representa apenas 1,7% do nosso PIB. Não se pode chamar esses números de vitais (…) Vamos procurar outros parceiros”.

É claro que será muito difícil. Uma tarifa de 50% é como um furacão mortal. Exemplo: O Brasil é o maior exportador mundial de suco de laranja. 95% da produção nacional é exportada, quase a metade para os EUA. Levará algum tempo e muito trabalho duro para encontrar “outros parceiros”. A solução pode estar nas terras do BRICS. Com o tempo, deve haver muitos candidatos para as principais exportações brasileiras, como petróleo, aço, ferro, aviões e peças, café, madeira, carne e soja.

Sindicalização de todos os exportadores do mundo contra os importadores dos EUA

Paralelamente, os dois principais atores do BRICS, China e Rússia — ambos já sob zilhões de sanções (Rússia) e tarifas comerciais (China) — veem a TTT de Trump como uma oportunidade espetacular para minar ainda mais rapidamente o controle unilateral dos EUA sobre o comércio e os sistemas monetários.

A guerra contra o BRICS subiu para o próximo nível, agora que a Rússia, a China, o Irã e o Brasil são alvos confirmados — ilegítimos. Cabe a este ponto de vista do Sri Lanka resumir deliciosamente o que está em jogo:

Trump efetivamente sindicalizou todos os exportadores do mundo contra os importadores americanos”. Tudo se resume a uma equação bastante simples: “Se você impõe tarifas a uma pessoa, mais poder para você. Mas se você tarifar todo mundo, mais poder para nós.”

“Mais poder para nós” significa que o BRICS e o Sul Global em geral estão perfeitamente cientes de que não há outra saída a não ser seguir a todo vapor com o projeto BRICS, culminando com a desdolarização total. De Kazan ao Rio e além, agora também está claro que a TTT fora de controle terá como alvo qualquer nação ou parceiro que se alinhe ao BRICS “antiamericano”.

Você quer guerra? Vamos lá.

Fonte aqui


Este artigo está em português do Brasil, de acordo com a versão publicada na fonte.

Quem precisa de Marx em 2025?

(Yanis Varoufakis in Guardian., 12-07-2025, Trad. Estátua)

Imagem gerada por IA

Para nos libertarmos dos nossos senhores tecno feudais, precisamos pensar como Karl Marx. As corporações despojam-nos de ativos, mas podemos retomar o controlo.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Para nos libertarmos dos nossos senhores tecno feudais, precisamos pensar como Karl Marx. As corporações nos despojam de ativos, mas podemos retomar o controlo.

Uma jovem que conheci recentemente comentou que não era tanto a maldade pura que a deixava furiosa, mas sim pessoas, ou instituições, com a capacidade de fazer o bem, que, em vez disso, prejudicavam a humanidade. A sua reflexão fez-me lembrar de Karl Marx, cuja discordância com o capitalismo era precisamente essa: não tanto por ser explorador, mas por nos desumanizar e alienar, apesar de ser uma força tão progressista.

Os sistemas sociais anteriores podem ter sido mais opressivos ou exploradores que o capitalismo. No entanto, somente sob o capitalismo os humanos foram completamente alienados dos produtos e do meio ambiente, tão divorciados do trabalho, tão privados de até mesmo um mínimo de controlo sobre o que pensamos e fazemos. O capitalismo, especialmente após a sua transição para a sua fase tecno feudal, transformou-nos a todos em alguma versão de Calibã ou Shylock – mónadas num arquipélago de seres isolados cuja qualidade de vida é inversamente proporcional à abundância de engenhocas que as nossas máquinas modernas produzem.

Os jovens sentem isso. Mas a reação contra os migrantes, as políticas de identidade, sem mencionar a distorção algorítmica das suas vozes, paralisam-nos. Mas aqui Marx retorna com conselhos sobre como superar essa paralisia – bons conselhos que jazem enterrados sob as areias do tempo.

Considere o argumento de que as minorias que vivem no Ocidente devem ser assimiladas para que não acabemos numa “sociedade de estrangeiros“. Quando Marx tinha 25 anos, leu um livro de Bruno Bauer, um pensador que respeitava, que defendia que, para se qualificarem para a cidadania, os judeus alemães deveriam renunciar ao judaísmo. O argumento de Bauer era que os alemães não tinham liberdade. Então, ele perguntou: “Ó judeus, como é que vos vamos libertar?” Como alemães, continuou ele, os judeus tinham o dever de ajudar a emancipar os alemães, a humanidade em geral – e não de lutar pelos seus direitos enquanto judeus. Marx ficou furioso.

Embora o jovem Marx não tivesse tempo para o judaísmo, ou melhor, para qualquer religião, a sua apaixonada demolição do argumento de Bauer é um colírio para os olhos:

“Façamos a pergunta inversa: o ponto de vista da  emancipação política  dá o direito de exigir do judeu a abolição do judaísmo e ao homem a abolição da religião?… Assim como o Estado  evangeliza quando … adota uma atitude cristã em relação aos judeus, o judeu  age politicamente  quando, embora judeu, exige direitos cívicos.”

O truque que Marx nos ensina aqui é como combinar o compromisso com a liberdade religiosa, seja a de judeus, muçulmanos, cristãos etc., com a rejeição total da presunção de que, numa sociedade de classes, o Estado pode representar o interesse geral. Sim, judeus, muçulmanos e pessoas de crenças que talvez não compartilhemos, ou que não se assemelham a nós, devem ser emancipadas imediatamente.

Sim, mulheres, negros e pessoas LGBT+ devem ter direitos iguais muito antes de qualquer revolução socialista surgir no horizonte. Mas a liberdade exigirá muito mais do que isso.

Mudando para os trabalhadores migrantes que suprimiam os salários dos trabalhadores locais, outro campo minado para os jovens de hoje, uma carta que Marx enviou em 1870 a dois camaradas na cidade de Nova York oferece pistas brilhantes sobre como lidar não apenas com os Nigel Farages do mundo, mas também com alguns esquerdistas que também morderam o isco da anti-imigração.

Na carta, Marx reconhece plenamente que os empregadores americanos e ingleses exploravam propositalmente a mão-de-obra barata de imigrantes irlandeses, colocando-os contra os trabalhadores nativos e enfraquecendo a solidariedade dos trabalhadores. Mas, para Marx, era contraproducente os sindicatos voltarem-se contra os imigrantes irlandeses e adotarem narrativas anti-imigração. Não, a solução nunca foi banir os trabalhadores imigrantes, mas sim organizá-los. E se o problema é a fragilidade dos sindicatos ou a austeridade fiscal, então a solução jamais poderá ser usar os trabalhadores migrantes como bodes expiatórios.

Falando em sindicatos, Marx também tem conselhos esplêndidos para eles. Sim, é crucial aumentar os salários para reduzir a exploração dos trabalhadores. Mas não nos deixemos levar pela fantasia de salários justos.

A única maneira de tornar o local de trabalho justo é acabar com um sistema irracional baseado na separação estrita entre aqueles que trabalham, mas não possuem, e a pequena minoria que possui, mas não trabalha.

Assim, segundo Marx:

“Os «sindicatos» funcionam bem como centros de resistência contra as invasões do capital. [Mas] [e] geralmente falham ao se limitarem a uma guerra de guerrilha contra os efeitos do sistema existente, em vez de também tentarem mudá-lo.”

Mudá-lo para o tansformar em quê? Numa nova estrutura corporativa baseada no princípio de um funcionário, uma ação, um voto – o tipo de agenda que pode realmente inspirar os mais jovens que anseiam por se libertarem tanto do estatismo quanto de interesses corporativos, movidas pelos lucros de empresas de private equity, ou por um proprietário ausente que pode nem saber que é dono de parte da empresa para a qual trabalhamos.

Por fim, a atualidade e frescura de Marx transparecem quando tentamos dar sentido ao mundo tecno feudal em que as Big Tech, juntamente com as Big Finance e os nossos Estados, nos aprisionaram sub-repticiamente. Para entender a razão pela qual estamos numa era de tecno feudalismo, algo muito pior do que o capitalismo de vigilância, precisamos de presumir o que Marx pensaria dos nossos smartphones, tablets etc. Considerá-los-ia como uma mutação do capital, ou capital em nuvem, que modifica diretamente o nosso comportamento. Permitindo-nos, assim, a compreender como avanços científicos alucinantes, redes neurais fantásticas e programas de IA que desafiam a imaginação criaram um mundo onde, enquanto a privatização e o capital privado nos despojam de toda a riqueza física ao nosso redor, o capital em nuvem dedica-se à tarefa de despojar os nossos cérebros de ativos.

Somente através das lentes de Marx podemos realmente entender: que para possuirmos as nossas mentes individualmente, precisamos de possuir o capital da nuvem coletivamente.

Fonte aqui

Como a excitada tarifa de Trump está a incendiar a casa

(Pepe Escobar, in Resistir, 05/04/2025)


 Maioria global, regozije-se! E entrem no comboio de alta velocidade da desdolarização.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

O mestre de circo Trump batizou a sua tarifa excitada (Trump’s Tariff Tizzy, TTT) como “Dia da Libertação”. Ela está a ser amplamente interpretado em todo o mundo – tanto no Norte Global como no Sul Global – como o Dia do Matadouro.

Esta jogada de demolição económica descontrolada começa de facto com a fantasia distorcida de que lançar uma guerra aduaneira contra a China é uma ideia brilhante. Tão brilhante como cobrar alguns milhões de milhões de dólares extra em tarifas, assumindo que o resto do planeta será de alguma forma “encorajado” a vender ao Hegemon, enquanto finge que essas tarifas levarão à reindustrialização dos EUA.

Ler artigo completo aqui,