PAPEL COMERCIAL: Carlos Tavares arrasa justificações do Banco de Portugal

(In Expresso Diário, 15/04/2015)

Carlos Tavares

               Carlos Tavares

O regulador do mercado, presidido por Carlos Tavares, elencou à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) os fundamentos jurídicos pelos quais considera que o papel comercial do Grupo Espírito Santo (GES) vendido aos balcões do BES deve ser pago na íntegra aos clientes de retalho. E arrasa as justificações dadas pelo BdP, desmontando, do seu ponto de vista, os fundamentos dados pelo supervisor para não pagar a estes clientes.

Na sequência da sua última audição, Carlos Tavares fez chegar à CPI uma análise detalhada e jurídica para fundamentar o pagamento a estes clientes. Na verdade, no documento a que o Expresso teve acesso, a CMVM vem dizer o contrário do que o Banco de Portugal (BdP) tem vindo a dizer nos últimos meses, quando publicamente recusa, socorrendo-se no texto da resolução, o pagamento aos clientes de retalho que subscreveram papel comercial aos balcões do BES, e apenas a estes.

O supervisor da banca, liderado por Carlos Costa veio dizer que cabia à CMVM a supervisão destes produtos. Agora, a CMVM diz que não é assim. E responsabiliza o Banco de Portugal pela fiscalização deste produto, por se tratar de oferta particular de papel comercial (dado que o valor unitário a subscrever era, no mínimo, €50 mil).

A CMVM acusa o facto de a informação financeira apresentada pelos emitentes, nomeadamente a Espírito Santo International (ESI) e por arrasto a Rioforte, não ser verdadeira. Diz ainda que o BdP e o BES adoptaram medidas “no sentido de assegurar o reembolso do papel comercial da ESI/Rioforte subscrito por clientes de retalho no BES”.

Neste âmbito, a CMVM destaca na missiva enviada à CPI “a constituição de provisões – primeiro nas contas da ESFG e depois do próprio BES – e de uma conta “escrow” no BES com vista a garantir o reembolso dos títulos em causa”. E sublinha que “a constituição de provisões para finalidades específicas tem condições e consequências muito relevantes para o caso em apreço”.

De seguida o supervisor do mercado elenca uma série de regulamentos das normas internacionais de contabilidade sobre provisões, passivos contingentes e ativos contingentes, para concluir que, face a essas normas, “resulta claramente a existência de uma obrigação como requisito para o reconhecimento de uma provisão, ficando apenas por definir o montante e a altura em que a mesma terá de ser cumprida”. E concretiza: “no caso em apreço (…) a constituição pelo BES daquela provisão tem implícita a existência e assunção de uma obrigação que visou acautelar”.

A CMVM vai mais longe ao dizer que “o BES tinha, de facto, assumido um compromisso de reeembolso destes instrumentos de dívida do GES perante os seus clientes de retalho”. Tendo para isso constituído no relatório e contas referente ao primeiro semestre de 2014 – antes da resolução – uma provisão de €588,6 milhões “para fazer face aos compromissos assumidos de reembolso de instrumentos de dívida emitidos por entidades do GES e colocados junto de clientes de retalho do grupo”.

E recorda que na sequência da constituição desta provisão, “o BES começou a reembolsar aos seus clientes não institucionais o capital investido em papel comercial” (o que resulta do documento da comissão executiva do BES, na altura presidida por Vítor Bento, datado de 18 de julho de 2014).

A CMVM aborda ainda a garantia “incondicional e irrevogável” emitida pela ESFG, através da constituição de uma provisão de €700 milhões, para reembolsar estes clientes, a 30 de julho de 2014. E lembra que facew ao agravamento da situação financeira da ESFG e o posterior pedido de proteção contra credores por parte desta holding do GES, levou “o BES a assumir diretamente o reembolso aos seus clientes de retalho”.

Resolução não apaga responsabilidades

O supervisor, presidido por Carlos Tavares, não tem dúvidas: “Assumida e comprovada a existência de compromissos e obrigações de reembolso aos clientes de retalho (não qualificados) dos montantes por eles aplicados em títulos de dívida emitidos por entidades do GES, deverá concluir-se que, nos termos da parte final da alínea (vii) da alínea (b) do ponto 1 do texto consolidado do anexo 2 à deliberação do Banco de Portugal de 3 de agosto de 2014, estes mesmos compromissos e obrigações transitaram para o Novo Banco”. E mesmo depois das alterações introduzidas à resolução do BES e criação do Novo Banco, pelo documento do BdP de 11 de agosto de 2014, a CMVM recorda que transitaram para o Novo Banco todas as responsabilidades do BES relativas ao reembolso de obrigações não subordinadas e demais créditos comuns sobre o BES. Face a isto “nunca será aceitável, à luz do princípio da igualdade e sob pena de violação do princípio da equidade”, nos termos de Regime Geral das Instituições de Crédito e das Sociedades Financeiras (RGICSF) que “aos créditos comuns dos clientes detentores de papel comercial emitido por entidades do GES seja dado um tratamento discriminatório, permanecendo do lado do BES e não se transferindo para o Novo Banco”.

“Outro entendimento não será razoável”, frisa a CMVM

O supervisor do mercado aponta também que a rubrica de provisões no balanço do BES relativo ao final do primeiro semestre de 2014, com correspondência no balanço previsional do Novo Banco, publicado a 3 de agosto de 2014, reflete “a permanência de dotação para estes compromissos e obrigações”. Um compromisso que acabou por ser apagado no balanço final da constituição do Novo Banco.

A CMVM conclui, por isso, que “uma vez que a responsabilidade pelo reembolso destes títulos tenha transitado – como é nosso entendimento, para o Novo Banco, não se verifica nenhum impedimento relcionado com a hierarquia de credores do BES. Isto porque, precisamente, os clientes detentores de papel comercial são credores do Novo Banco, e não do BES”.

Carlos Tavares responde, assim, a reservas manifestadas por Carlos Costa e também por Maria Luís Albuquerque, sobre o reembolso destes clientes, dizendo que podia colocar em causa a hierarquia de credores do BES e, por arrasto, todo o processo de resolução. A ministra das Finanças avisou mesmo na CPI que “é fundamental que qualquer decisão tomada seja com o total respeito pela legalidade. Senão ainda acabamos a ter de indemnizar Ricardo Salgado e a Goldman Sachs”.

Pelas razões expostas, a CMVM afirma ainda que “não será aceitável a tese de que as situações destes investidores devem ser tratadas de forma casuística, através da análise de reclamações que possam apresentar junto da CMVM”. O supervisor diz que essa análise está a ser feita e é importante para o apuramento de responsabilidades contraordenacionais ou outras pelos vícios na comercialização do papel comercial de entidades do GES aos balcões do BES. Mas, “não seria razoável que ela levasse a um tratamento desigual entre os detentores de papel comercial”.

A mensagem do supervisor é clara: é para pagar e para pagar a todos os clientes de retalho que subscreveram o papel comercial aos balcões do BES. Limitando, o âmbito apenas a estes.

E acrescenta ainda que “estes compromissos de reembolso deram aos detentores de papel comercial emitido por entidades do GES uma tranquilidade que os dispensou de qualquer esforço de recuperação antecipada do seu capital, caso conhecessem a verdadeira situação do emitente”. A CMVM salienta que “a falta de veracidade da informação financeira da ESI e o risco de incumprimento dos emitentes, pelo que nos foi dado a saber, foram preliminarmente conhecidos pelo Banco de Portugal no final de 2013”. Se “tivessem os mesmos sido tempestivamente conhecidos pelos clientes detentores de papel comercial, teriam estes fundamento para exigir o respetivo reembolso antecipado”. O que não aconteceu.

Posições públicas assumidas pelo BdP e Novo Banco implicam responsabilidades

A CMVM, na carta enviada à CPI, enumera ainda as posições públicas que foram sendo assumidas pelo BdP e pelo BES/Novo Banco em relação a estes clientes.

Em concreto:

  • De 8 de agosto de 2014 a 15 de janeiro de 2015, é referido na área de perguntas frequentes no sítio da internet do novo Banco que “o papel comercial emitido pela ESI e Rioforte transitam para o Novo Banco, e este mantém a intenção de assegurar o reembolso, na maturidade, do capital investido pelos seus clientes não institucionais junto das redes comerciais do grupo BES de então”.
  • A 14 de agosto de 2014 o Novo Banco emitiu um comunicado do qual consta: “o Novo Banco está determinado em comprar aos clientes de retalho (do Novo Banco) o papel comercial da ESI e Rioforte, subscritos na rede de retalho do BES até 14 de fevereiro de 2014, tal como fora anteriormente afirmado pelo BES”. Nesse comunicado, a instituição refere alguns atrasos deste processo por ter de acertar questões técnicas com o Banco de Portugal, nomeadamente, o cumprimento de obrigações prudenciais que resultam do processo de resolução. E prometia, “num curto prazo”, “ter todas essas questões resolvidas com o Banco de Portugal, para apresentar aos clientes propostas comerciais de compra do referido papel comercial”.
  • A 10 de fevereiro de 2015, Eduardo Stock da Cunha, presidente do Novo Banco, na sua intervenção na CPI, referiu: “Não descansarei enquanto não arranjar uma solução para uma situação que não criei”.

A CMVM considera que “estas posições públicas assumidas pelo Novo Banco reforçaram as expectativas legítimas nos detentores de papel comercial da ESI e da Rioforte, no sentido do respetivo reembolso ou, no mínimo, de uma proposta comercial justa de compra do referido papel”.

E alerta que “o não cumprimento daquilo que foi sendo publicamente assumido pelo Novo Banco, poderá constituí-lo em responsabilidade mormente perante os seus clientes detentores de papel comercial”. Para justificar esta conclusão, o supervisor de mercado, elenca vários artigos legais, que o Novo Banco pode ter violado.

A expectativa criada nos clientes decorrentes das informações que foram sendo públicas não se limitou ao BES/Novo Banco, lembra a CMVM, apontando também o dedo ao BdP. “Foi o Banco de Portugal que primeiramente utilizou a expressão ‘transferência de provisão’, quando, em resposta a diversas mensagens de correio eletrónico de investidores informaram que a provisão que ‘acautela o risco relacionado com o reembolso dos clientes de retalho do BES de papel comercial GES foi transferida para o Novo Banco”.

Uma informação que reforçou a ideia de que embora os emitentes (ESI e Rioforte) fossem responsáveis pelo reembolso dos títulos, “o Novo Banco tal como previamente o BES, tinham meios reservados para o efeito e asseguraria a restituição dos capitais investidos pelos subscritores”.

A CMVM remata dizendo que “o entendimento exposto neste parecer não implica a assunção de responsabilidades pelo Novo Banco relativamente a papel comercial que tenha sido subscrito por outro tipo de investidores ou quaisquer outros credores do GES”. Em causa estão apenas os clientes de retalho, para os quais foram constituídas provisões para assegurar o reembolso.

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A DÍVIDA E O FUTURO

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Durante três anos e meio, de 2011 a meados de 2014, este Governo teve a sua ação facilitada, devido às imposições da troika ao País e à governação. Não precisou de meditar, de ter ideias para o País, ou ter programa político pois o seu programa político limitou-se a ser o programa imposto pelos credores. Tivemos assim um governo em gestão corrente, incapaz de tomar medidas de fundo baseadas numa estratégia coerente de médio e longo prazo. Limitou-se a encaixar nos ditames da troika as opções particulares dos interesses que defende, das castas que alimenta e das clientelas que o suportam. Limitou-se, portanto, a gerir à vista, tomando opções casuísticas e desgarradas, já que o guião de fundo, já escrito, o dispensava de ser tecnicamente competente e politicamente autónomo.

Terminado o programa de assistência económica e financeira em 2014, já não havendo troika, pode perguntar-se qual é atualmente o programa do governo. Pois bem, o programa do governo em execução em 2015, ano de eleições legislativas, é tentar ocultar, tanto quanto possível, os escombros emergentes da destruição da economia que o programa da troika determinou e que este Governo tão zelosamente cumpriu. Algumas medidas recentes são elucidativas de tal estratégia.

Uma delas passa por descer artificialmente a taxa de desemprego, de forma a criar a ideia propagandística de que a retoma da economia e o crescimento económico já estão ao virar da esquina. Como fazem isso? Os desempregados, que estão inscritos nos Centros de Emprego e a receber subsídio de desemprego, estão a ser obrigados em massa a frequentar, entre outras, uma ação de formação que dá pelo nome pomposo de “Comunicação assertiva e técnicas de procura de emprego”. Caso se recusem é-lhes cortado o respetivo subsídio. Como se o desemprego das pessoas fosse originado pela sua inépcia em conseguir convencer os hipotéticos empregadores. Iludindo que se as empresas quiserem contratar, entre cem candidatos sem “técnica assertiva”, escolherão seguramente o menos entaramelado. Como se o desemprego existisse apenas porque há milhares de empregos disponíveis por aí, não os sabendo as pessoas encontrar, mais uma vez por inépcia. Depois de aderirem à erudita ação de formação, os desempregados são imediatamente retirados do sistema informático do Instituto de Emprego. Ou seja, se num dado momento forem pedidos ao IEFP dados sobre o desemprego, eles virão sistematicamente enviesados para baixo, podendo o governo alegar que as reformas estruturais estão a começar a ser um sucesso e o nível do desemprego a baixar de forma sustentada.

Outra das medidas tem a ver com a tentativa de reduzir os números da emigração, sobretudo de jovens, que o Governo receitou, defendeu como boa medida e impulsionou. É nesse contexto que anunciou o tal programa VEM, cujo objetivo é criar hipoteticamente condições para promover o regresso de emigrantes. Programa sem quantificação, sem horizonte temporal, sem orçamento mesmo. Atabalhoado nos números e nas práticas,  insolente mesmo no guião propagandístico.

Complementando a ocultação, surge depois a técnica das listas e listinhas, para glosar o taxas e taxinhas de Pires de Lima. Aqui a ocultação não se reporta às estatísticas, mas sim à proteção das clientelas e dos seus privilégios, bem como à criação de um ambiente policial de cerco aos seus opositores. A lista de contribuintes VIP tenta dissuadir os trabalhadores do fisco de acederem aos dados fiscais dos notáveis no poder, encontrando situações comprometedoras que lhes possam minar ainda mais a credibilidade. E além disso, é uma mensagem de ameaça subliminar para a oposição: que não seja demasiado caustica e crítica para com a governação, porque para o Governo não existem restrições de acesso aos dados fiscais daqueles que se lhe opõem, e que, em qualquer momento, se podem transformar em caso político. A lista de pedófilos é também uma peça perversa desta estratégia, ainda que de uma forma encapotada. Desvia as atenções do essencial, a saber a obrigação do Estado em proteger as crianças, no caso de famílias disfuncionais e de situações de risco devidamente identificadas. É que, dessas obrigações, o governo demitiu-se despedindo recentemente os trabalhadores da Segurança Social que tinham a seu cargo a monitorização e seguimento dessas situações. Resta-lhe propagandear o seu amor à infância, de uma forma barata mas perigosa. Coerente com a sua sanha de tudo privatizar, a lista consubstancia mais uma privatização, desta vez da Justiça, encartando os pais das crianças de ímpetos justiceiros e contribuindo também, dessa forma, para o surgimento de um clima geral de intimidação e suspeita com que se pretende vergar o espírito crítico dos cidadãos.

Como resultado das políticas da troika, tão bem executadas, os números da economia, os reais, são os piores de sempre. O PIB caiu desde 2011 para níveis de 2000. O investimento regrediu para níveis dos anos 80 do século passado. A população envelheceu e os jovens emigraram às centenas.  O risco de pobreza aumentou de forma galopante, bem como o número de pobres e sem-abrigo. A dívida pública, esse grande avatar da troika e deste governo, aumentou apesar dos impostos, sobretudo sobre os rendimentos do trabalho, terem também eles crescido até patamares nunca atingidos. Este é o país que resta depois de se terem aplicado as ditas “reformas estruturais”.

E é neste cenário que se vão desenrolar as próximas eleições. Mas é também neste cenário que o FMI e a Comissão Europeia, acusam o Governo de ter perdido o “espírito reformista”. Quer isto dizer o seguinte: 1) Que as tais “reformas estruturais”, não resolveram o problema da dívida pública, e muito menos os desequilíbrios estruturais da economia portuguesa. 2) Que o Governo parou com as ditas reformas porque, sendo elas não mais que um eufemismo para referenciar mais desemprego e miséria para as populações, não quer prossegui-las em ano eleitoral, sob pena de ser defenestrado para o inferno dos odiados. 3) Que as reformas irão ser continuadas após as eleições, caso esta maioria seja reeleita; ou seja virá mais devastação, miséria e destruição do país. 4) Que afinal os méritos, que o Governo reclama como seus, por as taxas de juro da dívida estarem em mínimos históricos e não termos dificuldades atualmente em nos financiarmos nos mercados internacionais, não podem por este ser reclamados, já que as reformas, como se vê, foram insuficientes e são para continuar.

Ou seja, o único facto positivo para a economia portuguesa, desde 2011 até hoje, consubstancia-se no facto, não de devermos menos, mas de podermos ir renovando a dívida com menores custos. Isto leva-nos a concluir que as dificuldades de financiamento de 2011 não decorreram da má gestão do país de que é acusado o governo de Sócrates. Nem as facilidades atuais de financiamentos são mérito da governação deste governo. Tal constata-se a partir do seguinte paradoxo: os fundamentais da economia portuguesa em 2011, ou seja, a capacidade produtiva real, eram superiores aos atuais e as taxas de juro eram incomportáveis. Ao invés, os fundamentais de hoje são bem piores mas as taxas de juro são baixíssimas. Aparentemente os mercados são pouco racionais na sua apreciação do risco de nos concederem empréstimos. Isto porque, taxas baixas deveriam estar associadas a baixo risco de incumprimento, e altas taxas a alto risco de incumprimento. O que mudou, então, que leva os mercados a considerarem mais baixo o risco dos empréstimos que hoje nos concedem, se os fundamentais da economia portuguesa estão bem piores? Vejamos.

A Europa está numa situação de deflação, com todos os perigos de disfunção económica que tal implica. Adiamento de decisões de consumo, devido às expetativas de queda futura dos preços, conduzem à queda do investimento e em consequência do emprego. É um ciclo não virtuoso de pauperização e declínio que é posto em marcha. A deflação, além do mais, aumenta o valor da dívida, em termos reais, relativamente ao valor diminuído do produto da economia, medido este a preços inferiores. Ou seja, num cenário de deflação, a dívida pública aumenta, mesmo que o défice público seja zero, não se contraindo, portanto dívida nova.

E é neste cenário de deflação que o BCE teve que avançar com o programa de compra de dívida pública, vulto QE, quantitative easing, iniciado há poucos dias. Apesar das limitações do programa, em termos de provocar a chegada de liquidez às empresas que possa gerar investimento, ele tem a vantagem de diminuir o risco associado às dívidas públicas dos Estados da UE, e por isso mesmo, mantém e até impulsiona a tendência à baixa das taxas de juro. E isto quase independentemente da situação específica de cada uma das economias em presença. O intermediário financeiro que compra dívida pública, passou a ter a garantia que a pode negociar sem estar sujeito a percas decorrentes de um eventual default, já que a pode sempre vender ao BCE, mais tarde ou mais cedo, enquanto durar o programa de QE.

Ora, é também neste cenário que a dívida pública portuguesa, e de outros países periféricos, já está a ser reestruturada, ainda que o Governo e a Comissão europeia digam que não se deve falar em reestruturações. A ação do BCE, diminuindo o risco associado às dívidas, e consequen­temente fazendo baixar os seus custos para os emitentes, vai permitir que possam ocorrer reescalonamentos das maturidades, emitindo-se nova dívida com uma maturidade mais longa e taxas mais baixas, para resgatar dívida mais onerosa e de prazos mais curtos. Foi isto exatamente o que aconteceu com o resgate de metade do empréstimo a Portugal feito pelo FMI e que, parece, que iremos pagar em breve.

Qual o perigo, então, desta situação? O perigo decorre do facto do QE não poder durar eternamente. Até ao momento está previsto que irá durar até Setembro de 2016, ao ritmo de 60000 milhões de euros por mês, cabendo a Portugal uma percentagem de 2,5% desse montante. No limite, se a liquidez não chegar à economia e às empresas, gerando novos investimentos e emprego, apenas terá beneficiado mais uma vez o setor financeiro que terá aliviado os seus balanços de dívida pública que se poderá vir a revelar impagável a médio ou longo prazo. No limite, e se não forem obtidos os resultados pretendidos, como sejam o afastamento do cenário deflacionário, a retoma do investimento e dos níveis do emprego, é o Euro que irá colapsar e a Europa que, no final, será confrontada por um retrocesso civilizacional de proporções inimagináveis.

Costuma dizer-se que a História não é feita por atores isolados, mas sim pelo coletivo dos povos, por muito importantes que sejam os papéis de certos atores. Mas também não há História que se faça sem atores.

Como disse, é neste cenário que se irão desenrolar as próximas eleições legislativas. Se o País não tem força, nem peso político para alterar as políticas europeias que o tornam refém de programas de empobrecimento e de agiotagem, e que contextualizam o  presente e o futuro das novas gerações, ao menos que tenha desiderato e empenho para mudar os atores políticos que tem implementado, e se comprazem, com esse destino de escravidão e anomia que tem sido imposto como inevitável.

Assim novos atores se perfilem e sejam credíveis. E que sejam também consequentes nas suas propostas de combate por um outro futuro. E por uma outra esperança.

Estátua de Sal

15/03/2015

A mordaça de Cavaco Silva

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Cavaco Silva tem uma mordaça. Dá pelo nome de “luta político-partidária”. Mordaça que lhe permite não estar cá, e não falar sobre nada que aflija o País e os portugueses. É evidente, que os partidos políticos emitem, por norma, opinião sobre o que vai ocorrendo no país, concordando ou discordando uns dos outros, atacando-se ou coligando-se. Ou não fossem organizações empenhadas na (res)pública, no funcionamento da sociedade e na sua desejável transformação.

Assim sendo, tudo o que interessa ao país, pode ser sempre rotulado como fazendo parte da “luta político-partidária”, o que permite que Cavaco Silva nunca tenha opinião sobre os desnortes deste governo de zombies, desta governação moribunda que ele vai insuflando a sopros continuados de oxigénio.

Os portugueses morrem nas urgências? Cavaco não diz nada porque isso é assunto para comentadores e faz parte da “luta político-partidária”.

Os portugueses passam fome? Cavaco assobia o fado de Boliqueime.

A Justiça escreve o guião dos folhetins do Correio da Manhã? Cavaco não lê jornais e não dá por nada.

A Procuradora Geral da República diz que o Estado está tomado por redes de corrupção? Cavaco não faz parte do Estado, nunca o viu mais gordo, e o professor Marcelo que escalpelize o tema na sua homilia dominical.

Os portugueses são penhorados pelo Estado por não pagarem dívidas privadas, como é o caso das portagens das SCUT – o que deveria ser considerado manifestamente inconstitucional porque a máquina do Estado não pode ser “emprestada” a custo zero a privados? Cavaco não paga portagens e portanto não corre o risco de lhe penhorarem a casa da Coelha.

O Sindicato do Ministério Público diz que a tutela da PJ deve ser transferida do Ministério da Justiça para não depender do poder político que nomeia as chefias da Judiciária e controla os meios que põe ao dispor dos investigadores podendo, desse modo, pré-formatar as investigações? Cavaco está a banhos e deve achar que o dito Sindicato é um porta-voz da oposição.

O Banco de Portugal deixa na miséria os pequenos aforradores que compraram papel comercial do BES, muitos deles influenciados pelos sábios conselhos do Presidente, que achou por bem incentivá-los dizendo que o BES era um rochedo de solidez? Cavaco deixa o tema aos partidos – que curiosamente também não lhe pegam -, já que não corre o risco de ter prejuízos pessoais porque só comprou papel do BPN e vendeu-o a tempo, antes do descalabro.

O Primeiro-Ministro interfere na Justiça, condenando um ex-primeiro ministro – ainda nem sequer acusado, quanto mais julgado -, e fazendo um atentado público ao princípio basilar da presunção da inocência, pedra angular de qualquer sistema de Justiça numa sociedade civilizada? Cavaco não percebeu as alusões de Passos, nem sabe quem foi José Sócrates, nem sabe que está detido, e achou que Passos Coelho estava a contar uma história para embalar crianças.

O Primeiro-Ministro não pagou à Segurança Social, foi processado por dívidas fiscais várias, diz que não conhece as leis, e veio a pagar, e apenas em parte, só quando empurrado pelas notícias dos jornais? Cavaco considera o tema um assunto menor, uma quezília de vão de escada, uma espécie de folhetim de pacotilha onde navega a luta político-partidária.

Cavaco Silva, foi chefe de partido. Foi Primeiro-Ministro, mas trata o debate político como se este fosse um jogo de sueca ou bisca lambida, do qual se deve afastar para não conspurcar a sua imaculada figura.

Não foi para isso que os portugueses o elegeram, nem é isso que se espera de um Presidente da República. Cavaco não sabe o que é a República, à qual supostamente preside. Estão bem os partidos quando tomam posição e debatem a coisa pública. É da sua função.

Está mal Cavaco Silva quando se limita a gerir, seletiva e de forma conivente, os seus silêncios. É que não é necessário falar para se fazer luta-político partidária. Há silêncios que valem mil palavras porque são os silêncios dos cúmplices, dos culpados, jamais o Silêncio dos inocentes. Esse era um título de filme em que, curiosamente, o personagem central também era Aníbal. Ou melhor, Hannibal Lecter, psiquiatra e canibal.

 Estátua de Sal

07/03/2015