Os «nossos valores» sequestrados

(José Goulão, in AbrilAbril, 06/10/2022)


Não é opção, é uma ordem «baseada em regras»: a lei do «excepcionalismo» de âmbito planetário gerido pela única nação «indispensável». E dizem os comentadores autorizados que não existe imperialismo.


Os nossos dirigentes, tanto os que têm envergadura imperial como os seus súbditos, para quem a soberania nacional é coisa arcaica própria de mentes estagnadas, repetem sem descanso, martelando a cabeça dos cidadãos como no método tradicional de ensino da tabuada, que agimos em função dos «nossos valores partilhados». Nós, o garboso Ocidente, senhores do planeta e dos espaços siderais por mandato divino e usucapião fundado em séculos de expansão e extorsão, assim administrando a «civilização».

«Nossos valores partilhados» nas bocas dos fundamentalistas ocidentais é todo um programa de dominação, um conceito de ordem mundial assente num único poder centralizado com ambição a tornar-se global e incontestado.

Se olharmos o mundo à nossa volta nestes dias assustadores, equipados com lucidez, independência de raciocínio e dose cada vez mais elevada de coragem, concluiremos que a aplicação desses «valores» – a palavra certa é imposição – funciona como um gigantesco exercício de manipulação que transforma princípios universais, humanos, inquestionáveis e comuns a muitas e diversificadas culturas num poder minoritário, de índole mafiosa e níveis de crueldade que vão da mentira institucionalizada à generalização da guerra, passando pelo roubo como forma de governo e de administração imperial/colonial. A este aparelho que pretende impor uma realidade paralela àquela em que vivemos chama-se «ordem internacional baseada em regras», um catálogo de normas de comando voláteis, casuísticas, não escritas e a que todo o planeta deve obedecer cegamente, sem se interrogar nem defender.

«Ordem internacional baseada em regras» é o código imperial que veio soterrar o direito internacional e transformar as organizações mundiais que devem aplicá-lo em órgãos que rodopiam à mercê das «regras» de cada momento, manipulados, desvirtuados e instrumentalizados segundo as conveniências do funcionamento da realidade paralela.

Liberdade e democracia

Poucos princípios preenchem tanto as prédicas dos dirigentes mundiais e seus apêndices às escalas regional e nacional do que liberdade e democracia.

Uma liberdade para expandir globalmentee, porém com uma definição muito específica e padrões limitados pelas «regras» da única ordem internacional permitida.

A liberdade prevalecente, e que condiciona todas as outras, acaba por ser a da propriedade privada e da inexistência de restrições ao funcionamento do mercado. Todas as restantes alavancas que devem fazer funcionar o mundo assentam neste princípio inquestionável que faz da justiça social uma aberração, transforma em servos a grande maioria dos seres humanos, converte as organizações internacionais e a generalidade dos governos nacionais em instrumentos dos casinos financeiros e das oligarquias económicas sem pátria, fronteiras ou limites comportamentais. Uma liberdade condicionada pela ditadura do lucro e a vassalagem ao dinheiro.

Este conceito dominante de liberdade, a liberdade de extorsão própria da realidade em que de facto vivemos, é desde há muitos séculos um alicerce da «civilização» ocidental – a única reconhecida para efeitos de relações internacionais. A ordem «baseada em regras» é extremamente exigente e vigilante em relação a esta mãe de todas as liberdades e, se necessário for, não hesita em recorrer à guerra para a restaurar lá onde estiver ameaçada.

Com a democracia acontece mais ou menos a mesma coisa. Só existe um único formato que permite instituir o «poder do povo», mesmo que depois o povo em nada se identifique e beneficie com a interpretação da sua vontade que dela fazem os eleitos. É mais ou menos assim, segundo o padrão «representativo» determinado pelo Ocidente: de em x anos criam-se festivais ditos políticos onde vigoram a violação tácita da igualdade de exposição de opiniões, a manipulação da informação e das chamadas «sondagens» e a divisão ostensiva e «institucionalizada» entre os partidos com «vocação para governar» e os outros; ensinados assim a «decidir», as maiorias de eleitores escolhem em «liberdade» os seus preferidos, garantidamente aqueles aplicam a doutrina oficial «democrática», nestes tempos o capitalismo na sua arbitrariedade plena, o neoliberalismo.

Exemplo desta democracia no seu grau máximo de evolução é a União Europeia: neste caso os cidadãos nem precisam de «escolher» os dirigentes máximos da organização, simplesmente nomeados para não haver erros nem desvios à doutrina governativa oficial e única; e supondo que os eleitores «escolhem» directamente o Parlamento Europeu, este tem poderes limitados para não perturbar o trabalho arbitrário dos não eleitos ao serviço dos seus patrões.

Quanto aos Estados Unidos, o paradigma democrático a que deve obedecer-se num mundo unipolar, a escolha imposta aos cidadãos limita-se a dois aparelhos mafiosos de poder que agem em formato de partido único. Sendo esta a democracia que funciona como farol, segundo as sentenças abalizadas dos mestres da opinião única, todas as outras devem seguir tendencialmente o mesmo caminho. Não é opção, é uma ordem «baseada em regras»: a lei do «excepcionalismo» de âmbito planetário gerido pela única nação «indispensável». E dizem os comentadores autorizados que não existe imperialismo.

Daí que os praticantes da democracia ocidental, a única, tenham ainda como missão fiscalizar os exercícios democráticos através do mundo. Por isso a União Europeia, por exemplo, arroga-se o direito de «aceitar» ou não os referendos nos quais as populações do Donbass decidiram juntar-se à Rússia.

Trata-se, afinal, de aplicar o princípio de reconhecer as eleições e consultas populares que dão o resultado pretendido pelo Ocidente e rejeitar as outras cujos eleitores decidiram de forma não tolerada pelos vigilantes da ordem internacional, como se tivessem violado as «regras» mesmo cumprido os mecanismos processuais das votações instituídos como únicos. É à luz desse entendimento discriminatório que os Estados Unidos e os seus satélites não reconhecem resultados eleitorais na Venezuela, na Nicarágua, na Rússia, por exemplo, mas assinam por baixo a legitimidade de fraudes como nas Honduras, de golpes como no Brasil, Paraguai, Bolívia, Ucrânia, Paquistão (só alguns dos mais recentes) ou a designação como presidentes de indivíduos que nem sequer concorreram a eleições – o caso de Juan Guaidó na Venezuela. 

A democracia ocidental é, como se prova, bastante elástica em casos que chegam a roçar o absurdo e muito restritiva no reconhecimento de actos eleitorais legítimos, porém menos convenientes para os interesses dos «excepcionalismo». É uma questão de exercício do poder internacional que o Ocidente julga possuir à luz de «regras» casuísticas determinadas consoante os interesses de uma «civilização» que não envolve mais de 15% da população mundial.

Recorrendo a exemplos muito actuais, eis como a «democracia ocidental» é peculiar no próprio Ocidente. Robert Habeck, ministro da Economia da Alemanha, colosso cada vez mais reduzido a um tapete de Washington, garante que não lhe interessa a opinião do eleitorado, o essencial é que a Rússia seja derrotada pela Ucrânia. E Josep Borrell, o «ministro dos negócios estrangeiros» da União Europeia, que ninguém elegeu, determina que os cidadãos europeus «têm de pagar o preço» necessário para «derrotar a Rússia». Ora aqui estão «regras» que corrigem a própria democracia padrão.

O mesmo Borrell, espanhol e também socialista, é claríssimo na interpretação dos «nossos valores partilhados». Considera que na vida internacional há, evidentemente, «dois pesos e duas medidas»: os nossos, os «correctos», e os dos outros, atributos daquilo que George W. Bush qualificou como «a barbárie».

Direitos humanos

Pedra de toque dos «nossos valores partilhados», os direitos humanos traçam a grande fronteira entre o Ocidente «civilizado» e os outros – 85% da população mundial.

Direitos humanos são, por sinal, valores que ilustram a preceito a tese de Borrell sobre dois pesos e duas medidas: nós sabemos o que são direitos humanos, os outros não.

Os principais acontecimentos da actualidade permitiram até refinar o conceito de direitos humanos a partir da clarificação entre seres humanos e entes sub-humanos – distinção baseada nas práticas de Volodimyr Zelensky, por sua vez inspirada nos conceitos purificadores de Stepan Bandera e seus pares, pais e heróis do regime ucraniano de Kiev, no seu tempo colaboradores dos nazis alemães em massacres de dezenas de milhares de seres humanos – talvez deva escrever-se sub-humanos.

As nações europeias dançam a música tocada por Zelensky segundo partitura das «regras» de Washington, para que os russos do Donbass e os russos em geral, sub-humanos por definição dos nazis que mandam em Kiev, sejam devidamente sacrificados tal como vinha a acontecer, metodicamente, como resultado de uma guerra iniciada há oito anos.

A «democracia ocidental» apostando o que tem e não tem, a própria vida dos cidadãos por ela regidos, para que um regime nazi liquide sub-humanos é um cenário apropriado para quem defende os direitos humanos acima de tudo? É o aval para a conversão do nazismo à democracia ou, antes de tudo, a demonstração de que a «democracia ocidental» segue na direcção do inferno do fascismo? O que nada tem de ilógico, pois foi o fascismo que embalou no berço a ditadura neoliberal que dá forma ao regime financeiro-económico-político dominante em termos internacionais, exercido com ambições globalistas e totalitárias e que, em última instância, dita a «ordem internacional baseada em regras».

Governantes, comentadores, analistas e outros formatadores da opinião única incomodam-se quando, a propósito da situação no Donbass, se recordam as atrocidades cometidas pelos Estados Unidos e a NATO, ou respectivos braços mais ou menos informais, nas guerras – algumas delas «humanitárias» – levadas até à Jugoslávia, Afeganistão, Iraque, Somália, Líbia, Síria, Iémen. Sem esquecer o caso exemplaríssimo do Kosovo, onde os Estados Unidos e a União Europeia praticaram uma secessão territorial sem qualquer consulta às populações envolvidas e entregaram o governo a terroristas fundamentalistas islâmicos especializados em múltiplos tráficos, todos eles rigorosamente respeitadores dos direitos humanos, como está comprovado.

E que autoridade têm os que condenam a anexação do Donbass, com o presidente norte-americano à cabeça, os mesmos que são cúmplices da anexação de quase toda a Palestina e territórios sírios por Israel, do Saara Ocidental por Marrocos, que esfacelaram o Iraque e a Líbia, que roubam ouro e milhões de milhões de dólares ao Afeganistão, à Rússia, à Venezuela, à Líbia, sem esquecer o petróleo da Síria?

Na sequência natural da definição dos padrões únicos e civilizacionais dos direitos humanos surgem outros direitos tão ou mais invocados como sagrados, por exemplo o de opinião, o de expressão, o respeito pela privacidade de cada um, a liberdade de informar e ser informado.

A situação actual é rica em exemplos de como a «democracia ocidental», o mundo baseado «em regras» e a partilha dos «nossos valores» andam de mãos dadas com o cinismo, a hipocrisia, a mentira pura e simples e o desrespeito pelo ser humano (para já nem falar nos sub-humanos).

A pressão sobre as opiniões e a liberdade de pensar torna-se cada vez mais asfixiante, intolerante, adquirindo contornos inquisitoriais. Regra geral, a partir sobretudo da implantação do neoliberalismo durante os últimos 40 anos, as opiniões dissonantes da verdade única e tolerada foram desaparecendo da comunicação social, dos espaços de debate público, das instituições de ensino.

O que é silenciado não existe, o comum dos mortais habituou-se a viver com os conceitos que recebe de enxurrada, quase sem tempo para pensar, se tiver preocupação e cuidado em não perder o hábito de fazê-lo. A individualidade, a faculdade de pensar fundiram-se e dissolveram-se no interior de um imenso rebanho de repetidores de verdades absolutas e incontestáveis que, não poucas vezes, agridem e alienam a sua condição de cidadãos livres e com direitos.

O processo não é estático – evolui no pior sentido, o da agressão de um direito essencial do ser humano, que é o de pensar pela própria cabeça e partilhar as reflexões e conhecimentos com os outros. Os acontecimentos acuais, designadamente a guerra na Ucrânia e o envolvimento profundo e cúmplice do Ocidente institucional no apoio ao regime de inspiração nazi de Kiev, transformou a estratégia de silenciamento das opiniões dissonantes numa perseguição de índole totalitária. Pensar de maneira diferente tornou-se um delito, uma colaboração com entidades maléficas, um atrevimento inaceitável e, por isso, submetido a difamações, ameaças de agressão e às mais rasteiras calúnias públicas. Enquanto a comunicação social se tornou refém da propaganda terrorista.

Nesta «civilização cristã e ocidental», incapaz de cortar o cordão umbilical com o imperialismo e o colonialismo, sobrevivem reconhecidamente os resquícios inquisitoriais. Que se afirmam com veemência crescente ao ritmo de uma fascização que os horizontes não afastam.

Neste contexto, os «nossos valores partilhados» são cada vez mais instrumentos para criação de uma ficção que arrasta perversamente os seres humanos em direcções contrárias aos seus próprios interesses.

Trata-se de uma armadilha que é, ao mesmo tempo, um esforço desesperado para tentar impedir o fim da era do poder unipolar, que parece inevitável – mas pode ser travado por uma guerra de proporções e consequências catastróficas.

Os «valores partilhados» autodefinidos como um distintivo da pretensa superioridade humanista e civilizacional do Ocidente, e que são fundamentos da arrogância de pretender dar lições a outros povos, culturas e civilizações, são, afinal, universais; não têm donos, proprietários, muito menos polícias e esbirros. E as civilizações não estão hierarquizadas: classificá-las num qualquer ranking entre bondade e maldade, legitimidade e ilegitimidade, correcção e erro é um perigoso jogo de cariz xenófobo – o que parece incomodar cada vez menos os orgulhosos, prepotentes e fundamentalistas praticantes e adeptos da suposta superioridade ocidental,

De facto, no Ocidente esses tão invocados «nossos valores partilhados» estão sequestrados, pelo que é fácil subvertê-los e usá-los perversamente como instrumentos para ludibriar e neutralizar o espírito crítico da grande maioria dos cidadãos.


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As Irmãs da Itália — Pum!

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 26/09/2022)

(Mais um texto brilhante do Coronel Matos Gomes. Um grande bem-haja a uma das poucas vozes lúcidas que se consegue ir ouvindo na desmontagem da narrativa a que o “Império” nos vai sujeitando.

Estátua de Sal, 26/09/2022)


Lembro-me de uma canção jocosa dos tempos da infância: As Irmãs da Caridade — Pum… seguia-se uma lengalenga pouco canónica.

A Itália tem agora uma irmandade no governo, que inclui o Força Itália do antigo comediante e organizador de festas do Bunga-Bunga. A decadência dos impérios tem na Itália a mais rica das fontes e esta eleição é um ato da decadência da UE que decorre no que hoje os programadores de espetáculos classificariam como uma longa Rave e na antiguidade seriam bacanais ou festas dionisíacas.

Não é um assunto de bons augúrios, mas no ponto em que os europeus se encontram não existe lugar para bons augúrios. Estamos, na U E como crianças metidas num escorrega. A irmã Meloni prometeu aos italianos que, no fundo da rampa, ao aterrarem, encontrarão um fofo tapete de espuma e não pedras de arrestas vivas que lhes dilacerarão as carnes.

Quanto a irmandades. Um dos mais antigos gritos de apelo não foi, como se pode julgar o guerreiro: — A Eles! — ou: — Às armas! -, mas o sibilino: — Irmãs e irmãos! — Irmãos é a arma de arremesso mais poderosa dos demagogos. A sabedoria dos curas e dos sacerdotes de todas as crenças sabem que é assim que se iniciam os sermões.

A proclamação é aliciante e parece corresponder a uma verdadeira intenção e ser lógica. Biblicamente todos somos filhos de Deus. Irmãos, portanto. Mas a porca torce o rabo quando nos recordam que o primeiro crime foi o assassínio de um irmão pelo outro. O Caim matou o Abel, ou ao contrário.

São conhecidas ao longo da História várias organizações que recorreram ao truque do “irmão”, elas vão das Mafias (cujos princípios se julga terem sido trazidos da China por Marco Polo), às Tríades chinesas, das ordens religiosas cristãs, aos gangues de Chicago ou Nova Iorque, da Opus Dei, à Maçonaria, e, indo a outras culturas, dos irmãos muçulmanos, aos Assassinos de Al Sabath, da Al Qaeda ao Isis. Todos se tratam por irmãos.

Irmãos, apesar deste passado, parece continuar a ser um slogan eficaz. Os irmãos italianos ganharam as eleições.

Irmãos remete para a ideia de igualdade que é cara a todos. E faz esquecer o aviso de George Orwell em O Triunfo dos Porcos — que há sempre entre iguais uns mais iguais do que outros.

Os irmãos de Itália não são uma novidade nem política nem social. Em tempos de crise surgem regularmente movimentos messiânicos, que prometem a igualdade, a felicidade, a justiça, a perseguição de hereges e corruptos a troco de um voto, de um dízimo, de uma aceitação.

Os italianos têm uma longa história de embustes deste tipo, o último o de Berlusconi e o anterior o de Mussolini, sempre com resultados tão desastrosos como os que esperam desta nova irmandade e desta nova Senhora aparecida, de sua graça Giorgia Meloni. Porque votam os cidadãos comuns nestes pregadores de feira e em seitas deste tipo?

Porque a esperança é a última coisa a morrer. A Torre de Pisa é o símbolo nacional de Itália. Racionalmente todos sabem que aquilo vai cair, mas ninguém acredita que caia no seu tempo e, principalmente, que lhe caia em cima.

Estes movimentos de demagogia messiânica, populistas e milenaristas que estão hoje na moda na Europa, são vazios de tudo, exceto de promessas de chuva no nabal e sol na eira. São em geral assessorados por especialistas em comunicação que trabalham para os grandes bancos e conseguem convencer as pessoas comuns que o seu dinheiro corresponde a um valor sólido. Isto logo a seguir a uma jogada de desvalorização deliberadamente provocada como foi a da falência do banco Lehmann Brothers e da crise do sub-prime de 2008. É na base da teoria que Bill Gates designou como a do “último idiota”, da Dona Branca portuguesa, que estas irmandades aliciam a clientela.

A estas seitas — do Chega, do Vox, da FN, dos Irmãos italianos — nunca se lhe ouve uma palavra sobre o valor do dinheiro, nem sobre inflação, nem sobre a destruição da riqueza material (terras, florestas, águas), nem, no caso presente, sobre a guerra da Ucrânia, que decidiu o futuro da Europa e o comprometeu por décadas.

Sobre temas decisivos, os Chega e os Irmãos, guardam de Conrado o prudente silêncio. A vitória dos Irmãos em Itália não altera o núcleo de poder, que continuará a ser detido pelos industriais aristocratizados do Norte (Milão e Turim) e pela Mafia e a Camorra, as irmandades do Sul.

Giorgia Meloni, a madre da irmandade, vai ser o que Zelenski é na Ucrânia, o que Liz Truss é em Inglaterra, o que Guiadó foi na Venezuela, o que a senhora Van der Leyen é em Bruxelas… uma figura que os italianos não consideram diferente das outras que estiveram no governo anteriormente.

As pizzas continuarão a ser redondas. Dirão os italianos. O pequeno problema é que serão mais pequenas. Muito mais pequenas.

Quanto ao resto a União Europeia continuará o seu processo de salve-se quem puder. A Itália da irmandade da senhora Meloni deverá seguir a mesma política da Polónia do partido de extrema direita Lei e Justiça de Jaroslaw Kaczynski, reforçando o bloco belicista e neoliberal da U E, sob a orientação dos Estados Unidos.


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A inutilidade da voz — Avanti popolo!

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 24/09/2022)

(Texto brilhante do Coronel Matos Gomes. Um grande bem-haja a uma das poucas vozes lúcidas que se consegue ir ouvindo na desmontagem da narrativa a que o “Império” nos vai sujeitando.

Estátua de Sal, 25/09/2022)


A Itália é reconhecida pelos seus cantores, clássicos e ligeiros, tenores, sopranos, meio sopranos, baixos.

A voz dos italianos e italianas brilha no canto, nas artes mas não brilha na política. A voz dos italianos não conta para a definição da política de Itália, da definição do papel da Itália na Europa e no Mundo.

No caso da política, a bela voz dos italianos vale tanto como a péssima voz (para mim) dos checos, ou eslovenos, ou neerlandeses, ou bascos. Não vale nada.

As eleições de amanhã em Itália são a prova de que a voz dos italianos, como a dos restantes europeus não tem qualquer valor. O governo italiano anterior caiu, como caíram dezenas desde o final da Segunda Guerra, e nada se alterou. Os italianos falaram, cantaram, votaram, mas quem determinou o que a Itália ia ser, quem determinou os negócios que gerariam fortunas, foram os banqueiros de Wall Street, os mafiosos da Sicília, os camorros de Nápoles, os industriais de Milão. Os italianos cantam, mas apenas lhes batem palmas, quanto ao resto seguem-se os negócios do costume. E foi assim que, cantando e comendo massa, os italianos viram nascer um inútil e caríssimo aeroporto intercontinental em Malpensa/Milão, construído por interesse da aliança das mafias da Liga do Norte e da Sicília e viram um comediante antecessor de Zelenski, um velho canastrão como Berllusconi ser primeiro ministro para tratar de negócios, como Trump nos Estados Unidos e Bolsonaro no Brasile agora Zelenski na Ucrânia.

A Itália dos surdos que não ouvem os seus cantores é o paradigma da orgia , dos bacanais em que se transformaram as ditas democracias europeias. Os povos cantam, bem ou mal, e os empresários das óperas mais ou menos bufas, dos coliseus e senados, mandam-lhes os filhos para guerras de que nem se dignam apresentar uma causa séria, que ultrapasse a que explica a vinda dos meninos no bico de uma cegonha. Vão, sem explicação, os adultos para o desemprego, as mães para as filas de supermercados e os velhos para asilos. Os jovens conduzem tuk-tuks ou motoretas com uma mochila de pizas e arroz chau-chau às costas, pagos a um euro por ração entregue ao domicilio. Gentes das cidades vêm-se expulsas das casas, gentes dos campos restam entre ruínas.

Parece que as sondagens dão a vantagem a uma senhora que aproveitou as receitas de Mussolini e os italianos continuam a cantar e a dar à manivela dos gramofones. O que fizeram os governantes anteriores perante o canto dos italianos? Enriqueceram, foram a Bruxelas, a Washington, mandaram um professor de economia formado nos Estados Unidos administrar o Banco Central Europeu, que em princípio tinha por missão desenvolver uma moeda que competisse com o dólar! Bela graça! E depois este foi nomeado chefe de governo, sem eleições, como já tinha acontecido com uma senhora inglesa — Theresa May, substituída por outro paraquedista sem coro nem decoro, Boris Johnson, e agora sucedido por uma antiga republicana convertida ao radicalismo bélico.

Os anteriores governos de Itália, como os da França, da Espanha, de Portugal, da antiga Holanda e da nova Chéquia não ouvem os povos cantar. E, sendo deliberadamente surdos, ou entendendo que os povos estão alegres e divertidos quando enfrentam os preços nas prateleiras, quando vêm os salários oferecidos a diplomados ao nível de um sem-abrigo, ou, pior, tomando os povos por estúpidos quando lhes metem verdades pela goela abaixo, como aos gansos.

Os “democráticos” políticos italianos, não escutando as vozes “avanti popolo” que há anos os avisa , surgem gora preocupados com a possibilidade de uma ragazza sem peias dizer o que o povo quer ouvir — prometendo aos pobres serem ricos, aos ricos serem mais ricos, afogar os emigrantes, marimbar-se para a senhora literalmente aparecida numa azinheira em Bruxelas, e que anda desde Fevereiro passado a garantir aos pobres de espirito — nós — que isto de os europeus terem desenvolvido um sistema industrial sem energia nem matérias-primas é um milagre alemão, que ela promete repetir aos pastorinhos, após o corte do gás russo e das suas matérias-primas.

De facto, o milagre alemão (os milagres) foram o resultado das ideias friamente racionais de um senhor a alemão chamado Bismark, que convocou uma Conferencia em Berlim (1884/5) para os europeus irem a África sacar a energia e matérias-primas para sustentar o desenvolvimento e a boa vida dos europeus.

A senhora de jaqueta amarela e saiote azul nunca ouviu falar de colonialismo, mas promete sempre mais armas e mais sanções para castigar a Rússia às labaredas do Inferno. Bismark, muito mais sábio que a senhora Úrsula van der Leyen, não acreditou que seria possível industrializar a Europa sem energia nem matérias-primas. Mas a inevitabilidade de ser necessário energia barata e matérias-primas em quantidade para os europeus viverem na abundância em que vivem custou duas guerras mundiais e uma guerra quase eterna em África e na Asia. Não há milagres. Os povos têm de saber de onde lhes vem o que lhes assegura a existência e o seu modo de vida. São os povos que têm de decidir os sacrifícios que estão dispostos a suportar.

As eleições em Itália têm pois a única importância de revelar a irrelevância da vontade popular nos regimes que saíram da Segunda Guerra. Se nenhum político entendeu ser importante explicar aos cidadãos que o dinheiro que utiliza para comprar uma pizza ou uma bifana não tem qualquer valor real, que é fruto da imposição de um monopólio da reserva federal americana (FED) e que o sistema se baseia no truque inventado por Sófocles, um filósofo grego, há mais de dois mil anos, de substituir a prata dos dracmas por cobre, continuando os dracmas a valer como se fossem de prata.

Já agora, façam a experiência e perguntem ao ministério (mais mistério) das finanças o que é o fractional reserve lending, ou “empréstimo sem cobertura de um valor material”, o que significa emprestar mais dinheiro do que se tem em caixa e que é a a maior fraude de todos os tempos.

As eleições na Itália revelam que a voz dos europeus é tão escutada pelos seus dirigentes como a dos coreanos do norte e menos que os tenores do Scala de Milão. Mas dizem-nos que vivemos em democracia. Talvez. Pelo menos podemos escutar as árias de ópera que queremos, por enquanto e se não forem em russo. Claro.


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