A nova fase será, provavelmente, a contestação dos resultados; e depois, a utilização do crime organizado e do poder legislativo, para intimidar e criar instabilidade, com ameaça de impeachment.
Neste domingo tornou-se evidente que está em curso um golpe de Estado no Brasil. É um golpe de tipo novo, cujo curso poderá não ser substancialmente afectado pelo resultado das eleições, ainda que a vitória de Lula da Silva certamente afectará o seu ritmo.
Com a eleição de Bolsonaro encerrou-se a primeira fase do golpe e iniciou-se uma segunda. Tal como Adolf Hitler em 1932, Bolsonaro tornou claro desde o primeiro momento que se servira da democracia exclusivamente para chegar ao poder e que, uma vez atingido este objetivo, exerceria o poder com o exclusivo objetivo de a destruir. Nesta segunda fase, o golpe assumiu a forma de esvaziamento lento da institucionalidade e da cultura política democráticas, cujos principais componentes foram os seguintes.
No domínio da institucionalidade: exploração de todas as debilidades do sistema político brasileiro, nomeadamente do poder legislativo, aprofundando a mercantilização da política, a compra e venda de votos dos representantes do povo no período entre eleições e a compra e venda de votos de eleitores durante os períodos eleitorais; a cumplicidade do sistema judiciário conservador incapaz de imaginar a igualdade dos cidadãos perante a lei e habituado a conviver tanto com o primado do direito como com o primado da ilegalidade, dependendo dos interesses em causa; a captura das forças armadas através da distribuição maciça de cargos ministeriais e administrativos.
No domínio da cultura política democrática: a apologia da ditadura e dos seus métodos repressivos, incluindo a tortura; utilização maciça das redes sociais para divulgar notícias falsas e promover a cultura do ódio e uma ideologia de bem-estar esvaziada de outro conteúdo que não o do mal-estar ou sofrimento infligido ao “outro” construído como inimigo; a capilarização no âmago do tecido social do imperialismo religioso conservador dos EUA (evangelismo neopentecostal) em vigor desde 1969 como preferencial política contra-insurgente.
Esta fase concluiu-se no final da primeira volta das eleições presidenciais em 2 de outubro passado. A partir daí, entrou numa fase nova assente no ataque frontal ao núcleo duro da democracia liberal, o processo eleitoral e as instituições encarregadas de garantir o seu decurso normal. Esta fase é qualitativamente nova em razão de dois factores.
Em primeiro lugar, tornou-se mais clara a internacionalização do ataque à democracia brasileira por via de organizações de extrema-direita globais originárias e financiadas pela plutocracia norte-americana. O Brasil transformou-se no laboratório da extrema-direita global; aí se testa a vitalidade do projecto fascista global em que o neoliberalismo joga um novo (último?) fôlego.
O objetivo principal é a eleição de Donald Trump em 2024. Informações fidedignas dão-nos conta de que as empresas de desinformação e de manipulação eleitoral ligadas ao notório fascista Steve Bannon estiveram instaladas em dois andares de uma das ruas principais de São Paulo donde dirigiram as operações.
Nesta fase eleitoral, as duas estratégias principais foram as seguintes. A primeira foi a intimidação para impedir o “voto errado” e os benefícios a troco do “voto certo” oferecido pelo baixo empresariado e por políticos locais. A segunda, há muito utilizada pelas forças conservadoras nos EUA, sob o nome de voter suppression, foi a supressão do voto. Tratou-se de um conjunto de medidas excecionais, sempre sob o verniz da normalidade legal, destinadas a impedir os grupos sociais mais inclinados a votar no candidato oposto aos golpistas de exercer o seu direito de voto: bloqueios de estradas, excesso de zelo na fiscalização de veículos que transportam potenciais votantes, intimidação de modo a provocar a desistência, suspensão de transportes gratuitos decretados pela lei eleitoral para promover o exercício do direito de voto aos mais pobres.
E agora, Brasil? A democracia brasileira sobreviveu a esta nova fase do golpe de Estado continuado. Para isso contribuiu o notável e destemido envolvimento dos democratas brasileiros que viram no seu voto a prova de uma vida minimamente digna, a afirmação da sua auto-estima civilizatória, o princípio activo da energia democrática para os tempos difíceis que se avizinham. Contribuiu também a firmeza das instituições da justiça eleitoral, no meio de pressões, de desautorizações e de intimidações de todo o tipo. Mas seria estultícia irresponsável pensar que o processo golpista terminou. Não terminou e vai entrar numa nova fase porque as condições e as forças nacionais e internacionais que o reclamam desde 2014 continuam vigentes e só se fortaleceram nestes anos mais recentes.
O golpe de Estado continuado vai entrar numa nova fase. De imediato, será provavelmente a contestação dos resultados eleitorais para compensar o fracasso dos golpistas em não terem conseguido os resultados que pretendiam com as múltiplas fraudes que praticaram. Depois, o golpe assumirá outras formas, ora mais subterrâneas com a utilização do crime organizado para intimidar as forças democráticas, ora mais institucionais com a mobilização desviante do poder legislativo para criar uma situação de permanente ingovernabilidade, nomeadamente com a ameaça de impeachment do governo eleito e dos quadros superiores do sistema judicial.
Embora o objetivo de médio prazo dos golpistas seja impedir que o Presidente Lula da Silva termine o seu mandato, o processo do golpe continuará e só será verdadeiramente neutralizado quando os democratas brasileiros se derem conta de que a vulnerabilidade da democracia é em boa medida auto-infligida, pela arrogância em pretender ser a única condição para a legitimidade do poder em vez de assumir que a sua legitimidade estará sempre à beira do colapso numa sociedade socioeconómica, histórica, racial e sexualmente muito injusta.
(Ana Sá Lopes, in newsletter do Público, 21/10/2022)
(O Costa continua a cantar vitórias onde só há derrotas ou vitórias de terceiros. A política nacional, enquanto telenovela, nem sequer chega a ser rasca: é mais para o deprimente e para o ridículo. Piores episódios que este só quando o Cavaco sai da toca dos mortos-vivos, ou quando o Marcelo descobre que o país ainda aguarda que o Passos regresse, qual D. Sebastião numa manhã de nevoeiro.
Estátua de Sal, 22/10/2022)
Cara leitora, caro leitor:
Portugal, Espanha e Alemanha tentam, há séculos, convencer a França a construir um gasoduto para deixar passar gás natural através dos Pirenéus. Chama-se “projecto MidCat” e a França opõe-se – e isto dura há anos – porque Paris quer vender o nuclear que produz.
Mas a guerra da Ucrânia tornou a questão da passagem do gás natural para os países europeus mais dependentes da Rússia uma emergência europeia. Até o Parlamento Europeu aprovou há pouco tempo – com o voto contra dos deputados franceses – a construção da infraestrutura, porque ontem já era tarde. Esqueçam: esta semana o MidCat foi finalmente enterrado com pompa, circunstância e sorrisos (e também a anunciada satisfação de todos os líderes, incluindo o chanceler alemão, Olaf Scholz, grande entusiasta do MidCat) para dar lugar a um BarMar que ninguém ainda sabe ao certo o que é, que vai começar a ser estudado do zero e que só “transitoriamente” deixará passar gás natural, focando-se nas renováveis.
Citemos as palavras do primeiro-ministro português: “Este acordo permitirá complementar a interconexão entre Portugal e Espanha, entre Celorico da Beira e Zamora, e também fazer uma ligação entre Espanha e o resto da Europa, ligando Barcelona a Marselha por via marítima. É um gasoduto vocacionado para o hidrogénio verde e outros gases renováveis e que, transitoriamente, poderá ser utilizado também para o transporte de gás natural até uma certa proporção”. Ou seja: como a França continua a querer vender o seu nuclear, se Portugal quer ser um entreposto de gás natural para poder fornecer os países europeus mais dependentes do gás russo, tem que despachar-se a concluir o transshipment, que o secretário de Estado dos Assuntos Europeus, Tiago Antunes, disse que poderia estar concluído nos próximos meses.
Nunca o MidCat estaria pronto a tempo do duro Inverno que espera o Leste da Europa: a infraestrutura demoraria, no mínimo dos mínimos, “oito ou nove meses”, como em Agosto a ministra espanhola Teresa Ribero dizia e certamente com excesso de optimismo. O que sabemos do novo projecto é que vai ser discutido melhor em Dezembro em Alicante.
Esta semana, no Parlamento, o PSD perguntou a António Costa se era “com os seus lindos olhos” que tencionava convencer Macron a aceitar o MidCat. Costa respondeu: “A minha confiança não é nos meus lindos olhos, mas no princípio da razão. O mercado único [de energia] gera vantagens para todos.”
A verdade é que não haverá gasoduto em Sines a exportar gás natural americano à tripa-forra para a Europa Central, como Olaf Scholz defendeu ainda não há muito tempo e o Governo português desejava. Haverá um “corredor verde” que ainda não sabemos muito bem o que é.
Jorge Moreira da Silva, antigo ministro do Ambiente do Governo Passos Coelho e candidato derrotado à liderança do PSD, escreveu nas redes sociais que o acordo alcançado é “um embaraço para Portugal e Espanha”: “Como não há memória apresenta-se como vitória histórica aquilo que é um embaraço”. E junta o comunicado da cimeira de Madrid de 2015, em que os mesmos países, com outros governantes, se comprometeram a pôr a funcionar as interconexões necessárias com vista ao mercado único de energia, “que constitui uma dimensão fundamental para construir a União Energética Europeia”.
Mas a história das cimeiras europeias é feita disto, de vitórias históricas ou de decisões em que todos ganham e todos perdem ao mesmo tempo, ninguém perde para ninguém ganhar e saem sempre abraçados. É da natureza da coisa.
Um afegão chora o seu irmão, morto num ataque aéreo da NATO, na província de Jalalabad, Afeganistão, a 5 de Outubro de 2013. Pelo menos cinco civis foram mortos durante esse ataque, acusou o porta-voz do governo provincial afegão. A intervenção militar da coligação militar liderada pelos EUA foi acusada de causar um número desproporcionadamente alto de baixas civis Parwiz / Reuters
(Este texto é de grande valia e profundidade. Só me resta refletir sobre as verdades que ele encerra, agir em conformidade, dar os parabéns ao autor e agradecer-lhe. Vinte valores para o José Goulão.
Estátua de Sal, 18/10/2022)
As pessoas são as principais vítimas da guerra na Ucrânia, um conflito que, gostem ou não gostem os comentadores encarregados de ajudar a montar a opinião única, é travado entre a Rússia e a NATO.
A certa passagem das reflexões contidas no precioso livro Outra Vida para Viver, o escritor grego Theodor Kallifatides, radicado há mais de 50 anos na Suécia, lança um grito de alarme saído da sequência lógica de palavras alinhadas até aí: há «uma guerra contra as pessoas».
Escritor bilingue, Kallifatides redescobre nesta obra – uma das poucas escrita originalmente na língua pátria – uma Grécia sofrendo as terríveis consequências das sevícias praticadas pela troika de agentes não-eleitos formada pela Comissão Europeia, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Central Europeu. Um cenário que também conhecemos em Portugal e espalhado como uma peste renitente através da União Europeia sob a designação comum de «austeridade».
Escreve Kallifatides, a propósito da «pobreza repugnante» em que se vive «tanto no pinhalzinho do meu bairro de Atenas como na praça do meu bairro de Estocolmo»: «os pobres deixaram de ser pessoas para se tornar apenas um problema»; fazendo lembrar, completa o escritor greco-sueco, «o que o nazismo tinha feito com os judeus, com os comunistas, com os homossexuais, com os ciganos e com muitos mais».
Cruas pinceladas compondo uma paisagem que muitos não querem ver, outros não conseguem enxergar e de que a esmagadora maioria não ganha consciência – mesmo sentindo-a na pele – porque lhe é escondida e distorcida no interior de uma imensa campânula de mentira. Essa é a paisagem, citando de novo Kallifatides, «da guerra contra as pessoas».
Na Suécia, a propósito, os fascistas dos Democratas da Suécia são o segundo partido e acabam agora por ficar a controlar o governo de direita sem nele participarem formalmente. Como diz a estação oficial SVT, «ficam com as chaves» das decisões governativas.
O epicentro da catástrofe
Guerra? Isso não é antes o que acontece na Ucrânia por causa da invasão dos russos?
Perguntas do momento, resumindo a estreiteza de vistas que é inculcada nos cidadãos segundo métodos que vão do mais grosseiro à mais elaborada manipulação das mentes, como se antes destes dias ameaçadores o planeta vivesse numa santa paz; uma calmaria em que a única e derradeira preocupação era atacar as alterações climáticas, de preferência segundo os métodos recomendados pelos mais ricos e extorsionários deste mundo, prontos a esmagar soberanias, pátrias e fronteiras. Um mito destes tempos tentando desviar as pessoas dos seus mais sérios problemas e ajudando a criar uma realidade paralela.
Daí que seja necessário, fundamental mesmo, recorrer aos meios adequados disponíveis em democracia autêntica para estilhaçar a campânula da intrujice institucionalizada e mergulhar até ao fundo das causas, efeitos, ambições e crueldades que fazem mexer a sociedade cada vez mais globalizada de hoje e a conduzem irresponsavelmente para o abismo.
As pessoas são as principais vítimas da guerra na Ucrânia, um conflito que, gostem ou não gostem os comentadores encarregados de ajudar a montar a opinião única, é travado entre a Rússia e a NATO, usando esta os ucranianos como carne para canhão. A mortandade que grassa entre as forças militares ucranianas e as populações civis da região do Donbass é fruto da crueldade nazi de Kiev, suportada pela União Europeia e a NATO tendo à cabeça o regime “indispensável” dos Estados Unidos da América; e da restauração de uma mentalidade neoczarista e megalómana em Moscovo como resposta nacionalista ao cerco ocidental nas vertentes militar, geopolítica e económica.
As pessoas, como em qualquer guerra, transformaram-se em peças descartáveis de estratégias de poderes nacionais e transnacionais: tanto aquelas a quem não é permitido render-se porque são simples células de um organismo que as despreza e as sacrifica numa fuga para a frente condenada ao fracasso, uma realidade conhecida por todos os que manipulam, armam e financiam a marioneta Zelensky e a sua corte nazi; como as populações do Donbass, os «sub-humanos» alvos da mortífera xenofobia dos herdeiros de carniceiros nazis colaboradores de Hitler e, ao mesmo tempo, instrumentos úteis para a consolidação do poder nacionalista do regime de Putin, que não se distingue dos outros incapazes de respeitar, em primeiro lugar, as suas populações.
Numa catástrofe com estas dimensões não cabem hipóteses de negociação à procura da paz – os resultados entretanto alcançados foram descartados pelos súbditos da NATO. É natural que assim seja: como diz o eminente comentador Pacheco Pereira, a paz é um conceito «abstracto».
Tanto quanto se percebe, até as simples conversações informais são proibidas neste contexto. Bastou a Alemanha e a Rússia estabelecerem contactos exploratórios sobre a eventual utilização do gasoduto Nord Stream 2, de modo a estancar as ameaças de um Inverno gelado e dispendioso para os germânicos e logo várias explosões causaram sérios danos nas condutas. É verdade que Radoslaw Sikorski, um parlamentar europeu e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros da Polónia agradeceu publicamente aos Estados Unidos a «oportunidade» da sabotagem; não menos verdade é a garantia dada pelo presidente Joseph Biden de que o citado gasoduto nunca iria funcionar; também é um facto que o secretário de Estado norte-americano, Anthony Blinken, considerou a explosão do Nord Stream 2 como uma grande «oportunidade estratégica» para Washington. E continua a dizer-se, porém, que se desconhece quem fez explodir o gasoduto. No entanto, a Suécia, a Dinamarca, a Alemanha e, por inerência, os Estados Unidos, não permitem que a Rússia, país do maior accionista da empresa do Nord Stream 2 (a Gazprom), participe nas «investigações» da ocorrência.
Vingança desde os anos oitenta
É o valor das pessoas, o respeito pelos seus direitos intrínsecos – e que nem sequer deveria ser necessário registar por escrito – que está em causa. Nesta guerra na Ucrânia e em todas as guerras de que agora é proibido falar, da Jugoslávia à Palestina passando pelo Afeganistão, o Iraque, a Síria, a Líbia, o Iémen, o Líbano, a Somália, a África Central, o Saara Ocidental.
Ao que parece, as vítimas destas guerras de expansão e rapina são menos pessoas que as da Ucrânia, com as quais não podem ser equiparadas tanto em termos de «civilização», cor da pele e protectores internacionais. Serão todas «sub-humanas» as vítimas das agressões militares provocadas pelos Estados Unidos e respectivos satélites e também os refugiados delas resultantes?
A guerra na Ucrânia não é um caso isolado, um acontecimento que surja do nada. Há muito que, ao ritmo da implantação do neoliberalismo como sistema de globalização, os direitos e as condições de vida dos seres humanos deixaram de ser referências a respeitar. Espezinhá-los em guerras, em gabinetes governamentais e parlamentos tornou-se banal.
Foi nos anos oitenta do século passado, a década da grande vingança do capitalismo selvagem e do casino financeiro contra quaisquer veleidades sociais e tentativas de «humanização» do capitalismo emergentes da Segunda Guerra Mundial, que a instrumentalização das pessoas enquadradas num sistema com vertentes sociais degenerou em guerra aberta contra essas mesmas pessoas.
É sabido que em plena guerra fria o colonialismo e o imperialismo, e também as formas de exploração dos seres humanos nas sociedades industriais, estavam condicionadas pela existência de pólos socialistas e até pela expressão organizada de países não-alinhados, que representavam a esmagadora maioria da população mundial.
O fim do sistema socialista, principalmente da União Soviética, da Jugoslávia e do Tratado de Varsóvia, e a consequente institucionalização generalizada do neoliberalismo, com o chamado Consenso de Washington de 1989, marca o início do combate sistemático contra os direitos humanos, sociais e laborais conquistados através do século passado, com a inevitável derrapagem do Estado social para a escravatura envergonhada e a substituição da economia de produção pela da especulação.
O mundo passou a ser gerido pela ditadura do mercado ao serviço de poderes e interesses para quem as pessoas se transformaram simultaneamente em peças descartáveis mas também em empecilhos, sobretudo porque continuavam a agir como cidadãos senhores dos seus direitos – e não desistiam de lutar por eles.
Hoje até esses resquícios de referências humanas ruíram. O desprezo, a insensibilidade, frequentemente o ódio dos governos, organizações e instâncias internacionais pela condição humana transformou-se em política comum, única. A ofensiva esmagadora do sistema globalizado de informação e propaganda montado ao serviço da ditadura do mercado tende a transformar os seres humanos em ilhas indefesas, cada vez mais impedidos de reflectir por si próprios num ambiente de autoritarismo comportamental e de controlo de opinião sustentado por uma democracia apenas formal e manipulada, subproduto da «democracia» incontestável da nação «excepcional», a única «indispensável» no mundo – os Estados Unidos da América.
A institucionalização do neoliberalismo e da ordem mundial unipolar nos escombros da União Soviética, do sistema socialista e da própria organização dos países não-alinhados redinamizou o colonialismo e deu asas militares e económicas ao imperialismo, devolvendo a arrogância e arbitrariedade plenas ao chamado «mundo ocidental civilizado» para impor os seus poderes e interesses.
Esse processo concretizou-se através de multiplicação de guerras, da extinção gradual de direitos laborais, sociais e humanos no interior e no exterior da própria zona da «civilização».
Além dos conflitos armados, a guerra contra as pessoas assumiu múltiplas outras formas: extinção de garantias adquiridas, ou pelo menos consignadas nas Constituições e nos programas políticos – incluindo a saúde, a habitação e a educação, a liberdade de informação, de expressão e de opinião; fome, pobreza, ínfimos recursos sanitários, agressões contínuas e sem freios contra o meio ambiente, centenas de milhões de refugiados, dos quais poucos milhares merecem as atenções que lhes são devidas, no caso os ucranianos; desertificação e escassez de recursos de água, possuídos os mais ricos por gigantes transnacionais que embolsam lucros escandalosos; instigação terrorista de diferenças religiosas, rapina e extorsão de matérias-primas, riquezas e bens de primeira necessidade, designadamente pescas, vastos terrenos agrícolas e florestais em todo o planeta.
As transformações conduzidas no âmbito da esfera especulativa imperial/colonial a partir da última década do século passado processaram-se no âmbito de uma designada «ordem internacional baseada em regras», imposta por Washington e seus satélites, e que, na prática, invalida a aplicação do direito internacional, reduzindo organizações como a ONU a um papel marginal ou, em muitos casos, a cúmplice do sistema global.
Trata-se de uma guerra generalizada da qual as vítimas principais são sempre as pessoas – e em todo o mundo.
Mudanças em espelho
A unipolaridade imperial tem vindo a ser desafiada, desde a crise económica de 2008 e da segunda metade da década passada, pela afirmação de forças capazes de transformar a ordem internacional num sentido multipolar a partir de potências emergentes como a Rússia, a China e respectivas esferas de influência, sobretudo em termos económicos, de recursos estratégicos e de afirmação de novas rotas comerciais muito dinâmicas; a essa movimentação agregam-se países e novas situações regionais com dimensões e orientações susceptíveis de marcarem posição num novo cenário de relações transcontinentais, como o Brasil, a Índia, a afirmação crescente do continente africano (perturbando a fluidez do sistema colonial), a alteração das relações de forças no Médio Oriente e a vitalidade económica, tecnológica e populacional da Ásia.
A mudança ocorre, porém, segundo um processo em espelho. Interesses e poderes dominantes batem-se contra interesses e poderes emergentes confrontando-se segundo sistemas económicos afins mas com uma diferença de fundo: especulação financeira dominante contra uma reactivação da produção industrial e tecnológica, esta com base numa imensa superioridade em matérias-primas, recursos humanos e naturais estratégicos. A multipolaridade tem um vigor económico potencial que vai faltando à unipolaridade colonial/imperial.
As transformações em curso são colossais, porém nada trazem de novo na frente da contenção da guerra contra as pessoas. Admite-se que nas áreas mundiais mais populosas venham a ser criadas condições que poderiam servir de base à evolução da qualidade de vida de centenas de milhões de pessoas, mas o mais provável é que a administração dos novos recursos disponibilizados não sirva prioritariamente os seres humanos. Interesses e poderes, rivais ou não, continuarão a mandar e neles – porque o quadro dominante se mantém neoliberal – as pessoas não serão sujeitos mas sobretudo instrumentos – ou mesmo empecilhos, sempre que as condições o exijam. A uma ordem em ruptura não parece corresponder qualquer recuo no caminho da desumanização.
De Hitler, a Zelensky e o Nobel
No âmbito deste enfrentamento de âmbito global surge a guerra na Ucrânia como ponto crítico; e a situação limite criada reforça cada vez mais a ideia de que o mundo inteiro – sobretudo o continente europeu – tem razões para estar aterrorizado com a estratégia de tudo ou nada seguida por ambas as partes.
De ambos os lados das barricadas, de Vladivostoque aos cabos atlânticos da Península Ibérica, quem se preocupa com as pessoas que morrem sob mísseis, de fome ou frio, degradação dos cuidados de saúde, miséria galopante, rajadas de sanções e respectivos ricochetes, penúria de colheitas agrícolas e de energia?
Da mesma maneira que de Leste a Oeste poucos pestanejaram quando o louco útil do Ocidente chamado Zelensky pediu «um ataque nuclear preventivo» contra a Rússia. A antecâmara do «juízo final».
É o nível zero da lucidez e da responsabilidade dos nossos governos e o pico praticamente máximo do risco de extermínio colectivo. E no meio deste drama, o subserviente governo português anuncia, por meio da muito orgulhosa ministra da Defesa, que Lisboa vai mandar para o governo nazi da Ucrânia os seis helicópteros Kamov russos que em tempos Moscovo ofereceu a Portugal para combater os incêndios. A ministra alega que as sanções e a falta de «certificados» impedem a sua utilização. Se morrerem alguns portugueses em fogos florestais por causa da falta de meios aéreos, paciência! Há que cumprir as sanções, violá-las é impensável mesmo que seja para salvar vidas de compatriotas. Tudo para respeitar as ordens de Washington e garantir a sobrevivência de Zelensky e seu regime nazi. Admirável independência nacional!
Há «uma verdadeira guerra contra as pessoas, coisa que eu ainda não tinha compreendido», escreve Theodor Kallifatides dando voz às suas reflexões, conclusões e opiniões – exercendo os mais elementares direitos como ser humano.
«É o nível zero da lucidez e da responsabilidade dos nossos governos e o pico praticamente máximo do risco de extermínio colectivo. E no meio deste drama, o subserviente governo português anuncia, por meio da muito orgulhosa ministra da Defesa, que Lisboa vai mandar para o governo nazi da Ucrânia os seis helicópteros Kamov russos que em tempos Moscovo ofereceu a Portugal para combater os incêndios.»
Se não acordarmos para o mundo que nos cerca por mais quanto tempo poderemos fazê-lo?
A História recorda-nos que, em Janeiro de 1939, o primeiro-ministro da Suécia, Eric Brandt, escreveu uma carta ao Comité Nobel da Noruega sugerindo o nome de Adolf Hitler para receber o Prémio Nobel da Paz.
Hitler, «o homem que mais do que ninguém no mundo merece este prémio altamente respeitado»; Adolfo Hitler, o «autêntico combatente pela paz enviado por Deus – e milhões de pessoas de todo o mundo depositam nele as suas esperanças como Príncipe da Paz na Terra» – proclamou o chefe do governo da Suécia.Era Eric Brandt um nazi? Não, era um social-democrata. Ora sociais-democratas e aparentados da ideologia única integram grupos que recomendam agora Volodymyr Zelensky para o mesmo prémio.