Oportunismo filial II

(José Gameiro, in Expresso, 05/03/2021)

José Gameiro

“Não sei se se lembra? Estive cá a falar consigo há uns meses. O meu filho estava a controlar-me a vida, durante o primeiro confinamento. E agora repete a graça.” Claro que me lembrava, o homem, por um lado, ficava sensibilizado pela preocupação do filho, mas por outro tinha perdido a liberdade e fazia coisas na clandestinidade. Chamava-lhe, e bem, o oportunismo filial.

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“Durante o verão correu tudo muito bem. Um ou outro telefonema do Algarve para saber o que estávamos a fazer, onde tencionávamos ir, nada demais. Estava entretido com os amigos, voltou à condição de filho… Mas agora com este confinamento voltou tudo, ainda pior. Preciso mesmo que me ajude, isto não pode continuar. Já no Natal, apesar de termos sido aconselhados a ter cuidado, mas nada nos impedia de estar com a família, começou a chatear. Vocês são uns inconscientes, dão ouvidos a esses epidemiologistas que acham muito bem que se façam testes rápidos para se sentirem seguros. Eu só vou ao Natal de família se comermos fora da mesa, está fora de questão ficarmos todos sentadinhos e depois já sei como é… A partir daqui foi sempre a piorar. Se no primeiro só se preocupava comigo, agora tomou o comando da casa. Faz as compras, nada de produtos calóricos, que engordámos muito, todas as refeições com saladas, parecemos uns grilos. Em abono da verdade nunca comi tão bem, inventa e sai sempre ótimo. Com o agravar dos contágios dissemos à empregada para não vir. Olhe, acordo de manhã com o aspirador e com o frio a entrar pelas janelas. Abre tudo, diz que é preciso arejar, para expulsar os miasmas. Quer-nos obrigar a fazer testes regularmente. Muito antes desta nova diretiva de fazermos testes sem prescrição, já ele e os amigos os faziam. Ó pai é muito simples, telefona para a linha SNS 24, diz que teve um contacto suspeito, tosse, espirra, parece que tem menos olfato e passado pouco tempo recebe um código para ir fazer um teste de borla. Claro que nunca o fiz, mas não deixo de reconhecer que foram precursores da testagem maciça…”

Balbuciei, mas isso é bom, não é? Estava tão exaltado que não me respondeu.

“Calma que ainda não ouviu tudo. Um dia destes aceitámos um convite para ir jantar a casa de um amigo meu. Vive sozinho, tem uma mesa com quatro metros, o risco é quase nulo. Fez uma cena, que não podíamos ir, amuou, pintou a manta e, depois, como não é parvo, disse-nos que também ia sair. Está a ver, como se fossemos todos iguais. Isto da pandemia mudou muito a hierarquia familiar. Acha que vai voltar ao normal?”

Tentei pôr água na fervura. Claro que sim, é passageiro e traduz a preocupação dos jovens com os mais velhos. Levei logo com a resposta. “O senhor doutor é um ingénuo. Diga-me lá qual é a preocupação dele com o que lhe vou contar. Há uns dias chamou-me à casa de banho, com um ar de caso. Que grande bagunça que isto está. As coisas da mãe e do pai, todas misturadas, decidi arrumar tudo, as suas para um lado e as da mãe para o outro. Ah, pus no lixo toda a tralha que vocês tinham aqui. Não têm vergonha andam a roubar os frasquinhos dos hotéis, parecem uns putos, contentes por usarem gel com cheirinho. Não contente, chegou à dispensa e fez o mesmo. Metade foi fora. Aqui tinha razão, muita coisa já estava fora de prazo.”

Tentei falar, mas não me deixou. “Já estou a acabar, mas não posso deixar de lhe contar mais uma. Quando vou às compras trago-as num daqueles sacos de papel ecológicos que depois ponho lixo. Acusou-me de não me preocupar com o planeta: ‘O pai vai guardar o saco e usa sempre o mesmo, até poder.’ E agora tentou comprar-me: ‘Se o Pai se portar como deve de ser, ensino-lhe um sítio onde pode ir saborear o seu cafezinho. Basta dizer que é meu pai e tem tudo o que quiser… Mas não pede um café, pede um bitoque…’”

Quebrei todas as regras e perguntei ao senhor: “Onde é o cafézinho?”


O jornalismo sobre a covid-19 é corrupto?

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 03/03/2021)

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Um dos anúncios está titulado assim: “Procuro ENTREVISTADOR/REPÓRTER”. A seguir, vem o texto: “Assegurar a elaboração de reportagens, entrevistas, num tema específico relacionado com saúde, desenvolvendo investigação, reportagens e entrevistas.” São pedidas: carteira profissional de jornalista, licenciatura ou mestrado na área, competências vídeo, capacidade de análise e comentário e, ainda, “seleção, revisão e preparo definitivo das matérias jornalísticas a serem divulgadas”.

Um amigo meu (juro que não fui eu) que está a ver se melhora de vida viu isto na rede social LinkedIn, clicou no link para responder e acabou por ver agendada uma entrevista por computador, através da aplicação de videoconferência Zoom.

Mais tarde encontrou mais dois anúncios parecidos e voltou a inscrever-se para as respetivas entrevistas.

Chegado o momento das três entrevistas, e após as três conversas por Zoom, todas semelhantes na essência, o meu amigo ficou a saber várias coisas que não vinham nos anúncios. Passo a listar:

1 – as matérias que se pretendiam elaborar eram relativas à pandemia provocada pela covid-19;

2 – o jornalista deveria focar os seus trabalhos na contabilização de números de mortos, número de infetados e níveis de contágio;

3 – esses trabalhos também poderiam abarcar os números relativos a contágios em lares, procurar “mortes inexplicadas” e evolução das taxas de mortalidade;

4 – também era possível focar os trabalhos no papel dos hospitais privados na covid-19, o número de hospitais envolvidos, os custos do combate à pandemia para os privados;

5 – era importante que esse meu amigo trabalhasse numa redação de um órgão de comunicação social de difusão nacional e tivesse poder para publicar propostas de trabalho suas;

6 – quando tivesse a reportagem específica combinada com o recrutador, o jornalista deveria propor esse trabalho na sua redação como sendo uma ideia sua. Caso conseguisse publicar, nos moldes combinados, seria remunerado por isso;

7 – quantas mais reportagens conseguisse publicar, melhor.

Quando o meu amigo perguntou pelo cliente – os entrevistadores eram de agências de “caça-talentos” -, as respostas foram evasivas, embora um deles deixasse escapar um vago “um grupo privado do norte”…

Quando, finalmente, o meu amigo argumentou que aquilo que eles estavam a propor era capaz de ser ilegal, recebeu em resposta algo como isto: “A sério?! Olhe que há muitos colegas seus que o fazem!…”

Portanto, ao que parece, está montado um sistema de contratação, por entidades estranhas ao jornalismo, de jornalistas que estejam a trabalhar em redações para impingir nos seus jornais, rádios ou televisões matérias que, embora sejam baseadas na realidade (ninguém pediu para mentir), fossem capazes de alterar a linha editorial desses órgãos de informação.

Quem decide os destaques, os alinhamentos e as dimensões dessas peças, os editores e diretores de cada uma dessas marcas, e recebe propostas desses colegas “comprados” pensa que essas ideias para artigos resultam da pura investigação jornalística, não de “encomendas” de interesses estranhos ao jornalismo, e terá tendência a valorizá-las segundo um critério jornalístico.

Nada me espantaria que, dessa forma, muitas destas “encomendas” acabassem por ser manchete ou abertura de noticiário, causassem impacto público relevante, fossem comentadas e analisadas por líderes de opinião e, portanto, acabassem por distorcer na opinião pública a visão dessa realidade.

Desde que esse meu amigo me contou o que se passou com ele, sempre que vejo uma notícia sobre a covid-19 fico desconfiado: “Será mesmo assim ou isto foi uma encomenda?” E quando constato a grande quantidade de peças que estão dentro da área de interesses destes “recrutadores de jornalistas”, quando vejo que essas peças se repetem no foco e na mensagem, exageradamente, nos últimos meses, fico espantado com a minha ingenuidade estúpida: “Como é possível eu ter achado que isto era, apenas, um exercício editorial insensato e incompetente, mas genuíno?” A seguir vem o desgosto: “Como é que a minha profissão chegou a este ponto!?”

Esse meu amigo pede-me anonimato… OK.

Mesmo assim, correndo o risco de ficar a protestar sozinho como os malucos, acho que vale a pena denunciar isto.


Jornalista


Contas de Leão

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 22/02/2021)

Daniel Oliveira

Em 2020, gastou-se menos 2,6 mil milhões do que o previsto. Confinar não é só uma questão de vontade. Se os apoios não chegam, se o dinheiro não entra na economia, as pessoas fazem pela vida. No meio do incêndio, Leão fechou a torneira por causa da conta da água. Somos dos países que menos gastou na resposta à pandemia numa zona Euro que gasta muito menos do que os EUA. Quem não tenta minorar a crise económica alimenta a crise política. A política, ao contrário das contas de Leão, não paira sobre a realidade.


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Perante a tragédia social e económica que vivemos, visível a olho nu quando se caminha pelas ruas de Lisboa ou do Porto e se vêem estabelecimentos comerciais definitivamente encerrados e centenas de placas de casas à venda, o Governo foi anunciando a uma velocidade extraordinária mais e mais apoios. Uns sobre os outros, uns corrigindo os outros. No início ainda se fazia o rastreio público das medidas, agora é um remoinho de palavras, siglas, nomes estimulantes. Confesso que houve uma altura que quase me assustei. Tinha de ser, mas este dinheiro viria de onde? Até que veio o milagre.

O salário médio subiu 3,5% e o emprego cresceu no último trimestre do ano passado. Não é incrível? Num momento em que o PIB cai num ano mais do que toda a última crise, a recessão nunca aterrou na Portela. Não chegou às pessoas. E só isso poderia explicar que, chegados ao fim de 2020, o défice tenha ficado muito abaixo do previsto. 3,7 mil milhões abaixo do estimado pelo Governo em outubro. João Leão explicou: as receitas foram mais do que se esperava. Alguns liberais rejubilam: os impostos são o problema! Sim, a receita total deveria ter sido de 83 mil milhões e foi de 84 mil milhões. A diferença entre a despesa prevista (97 mil milhões) e a que foi executada (94,4 mil milhões) é mais significativa: 2,6 mil milhões. Ela nem sequer chegou ao que foi previsto antes da pandemia. Gastou menos 835 milhões do que tinha previsto. Como é possível?

Tudo o que o governo poupou pode ser medido, como fez a economista Susana Peralta, em dinheiro para trabalhadores em situações dramáticas, apoios às empresas, compra de material para o SNS, de computadores para as escolas. Mário Centeno, o ministro das Finanças com os mais medíocres níveis de investimento público da nossa história recente, dizia que era preciso uma almofada para quando viesse uma tragédia. Acham que a tragédia chegou? Como dizia Passos Coelho, não sejam piegas.

No meio do incêndio, João Leão fechou a torneira por causa da conta da água. Estas poupanças não se medem só num SNS que resistiu enquanto pôde, mas não consegue os milagres da contabilidade criativa das Finanças, empurrando mortos para o ano seguinte. Medem-se na nossa capacidade de resistir à pandemia. Confinar como outros fizeram não é apenas uma questão de vontade, é uma questão de possibilidade. Se os apoios não chegam, se o dinheiro não entra na economia por outra via, as pessoas têm de fazer pela vida. No fim, para além dos péssimos números na pandemia, pagaremos com uma destruição ainda mais profunda da economia. E sem economia, as contas públicas e o equilíbrio orçamental vão à vida. João Leão só tem de perguntar porquê a um antigo líder da oposição, que o disse vezes sem conta: chamava-se António Costa.

À minha volta, vejo precários ou pessoas com pequenos negócios que ficaram sem chão debaixo dos pés. Mandava-lhes notícias de vários apoios que o Governo anunciava. As histórias que me contaram são a de uma gincana burocrática que acaba quase sempre da mesma forma: não é elegível. Ou em nada. E isso explicará porque somos o terceiro país que menos gastou na resposta à pandemia numa zona Euro que, ela própria, gastou muito menos do que os EUA.

Está na altura de dar alguma substância aos apelos de estabilidade, para quando esta pandemia passar.

Todos os dias, importantes figuras do PS dizem, em tom de ameaça, que quem for responsável por uma crise política pagará por isso. A estratégia está a resultar otimamente: o PS mantém-se bem nas sondagens enquanto o Chega absorve descontentamento. Mas antes que cheguemos aos impasses franceses e italianos, onde a alternativa é qualquer coisa para não ser a extrema-direita, seria bom assentarmos nisto: quem não faz tudo para minorar o impacto de uma crise económica e social alimenta uma crise política. E pagará caro por isso. Porque a política, ao contrário das contas felizes de João Leão, não paira sobre a realidade.