Uma Constituição fictícia

(Manuel Loff, in Público, 19/03/2025)


O sistemático incumprimento da democracia social que se inscreveu na Constituição é agora acompanhado da introdução de regras perfeitamente fictícias na gestão do sistema político democrático.


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Cinquenta anos depois do 25 de Abril, a nossa democracia entrou num ciclo muito perigoso. Já era bem percetível há um ano, justamente antes das eleições, quando o procurei descrever nestas páginas. O sistemático incumprimento da democracia social que se inscreveu na Constituição é agora acompanhado da introdução de regras perfeitamente fictícias na gestão do sistema político democrático. Há décadas que uns governos mais do que outros não legislam para garantir os direitos sociais básicos (saúde, educação, Segurança Social, habitação, trabalho). E agora tem-se procurado impor esta espécie de dupla presidencialização do regime, com presidentes que exorbitam os seus poderes e que banalizam a ideia de que a eleição legislativa não passa de uma segunda eleição “presidencial” para primeiro-ministro.

1. Marcelo bateu o recorde de Ramalho Eanes (as mesmas três dissoluções do Parlamento mais várias dissoluções de assembleias regionais), o que diz muito do perfil do Presidente “interventivo” que não era difícil, antes da sua eleição em 2016, perceber que ele queria ser. Porém, Marcelo não tem as competências acrescidas de que Eanes dispunha até à revisão de 1982, mas passou a atuar como se as tivesse, interferindo na composição dos governos, criando automatismos: a rejeição do Orçamento pela Assembleia é igual a dissolução; a demissão do primeiro-ministro, mesmo com maioria parlamentar, obriga sempre a novas eleições. Marcelo foi quem levou mais longe uma regra que não existe na Constituição, que retira toda a legitimidade à Assembleia e elimina a separação de poderes: a de que quem elegemos é o primeiro-ministro, não a Assembleia, pelo que a demissão daquele obriga a nova eleição de deputados, como se estes fossem simples assessores escolhidos por aquele.

Talvez Marcelo até já nem quisesse convocar estas eleições, mas foi ele quem criou estes precedentes.

Que Eanes se comportasse da forma como se comportou, chocando com a Assembleia e a legitimidade própria desta, era expectável no militar conservador a quem não foi difícil puxar para soluções tão insólitas quanto os governos presidenciais e um partido político próprio. (Se o almirante for eleito no próximo ano, veremos se dali não sai o mesmo.)

Desde Cavaco, que não queria dar posse a um governo que, pela primeira vez desde 1976, dependia dos votos da esquerda, os presidentes passaram a ser um obstáculo ao bom funcionamento da democracia.

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2. Os “ciclos curtos”, ou a lógica de votar-até-acertar. Os mesmos que andaram anos a queixar-se da instabilidade tornaram-se os recordistas dela. Em 2021, Costa viu rejeitado um Orçamento e não quis apresentar outro. Marcelo ofereceu-lhe, contente, nova Assembleia para fazer com que o PS não tivesse mais que negociar à esquerda. As consequências sociais do fim desse ciclo estão à vista. Em 2023, depois de ano e meio de maioria absoluta, Marcelo empurrou Costa borda fora, não aceitou que o Parlamento votasse um governo alternativo porque Costa era quem tinha sido “eleito”, e abriu a porta a 50 deputados neofascistas.

Hoje, um ano depois das últimas eleições, o Governo cai, agora, sim, por via parlamentar, mas a regra já está instalada. No passado, era “irresponsável” quem (os comunistas, os sindicatos) pedisse novas eleições para pôr fim a governos que privatizavam e cortavam gastos nos serviços públicos; a “estabilidade” era um valor em si mesma. Hoje vamos de eleição em eleição “até acertarmos”, até esgotar o sistema representativo pela exaustão. E vai-se criando o ambiente para justificar a mudança de sistema eleitoral, construir maiorias parlamentares sem maioria de votos, descolar ainda mais a representação dos representados. O paralelismo já parece inevitável com a instabilidade associada à crise, há cem anos, da I República, da qual se diz (desvalorizando o golpismo) que resultou a ditadura.

Não é coincidência que tudo isto aconteça num momento de ameaça fascizante sobre a democracia. Esta regra de um Estado que se comporta como se não tivesse Constituição, e uma Constituição que não tem um Estado que a cumpra, tem de acabar, ou ele acaba com a democracia.

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

49 anos para montar um espectáculo deprimente e parolo

(Por oxisdaquestão in Blog oxisdaquestao, 25/11/2024, revisão da Estátua)


(O 25 de Novembro já passou, mais as suas polémicas “comemorações”. Mas, devido à qualidade deste texto na descrição que faz do país e de como aqui chegámos, não hesitei em o trazer para aqui. Parabens ao autor, oxisdaquestao.

Estátua de Sal, 28/11/2024)


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Passaram 49 anos para conseguirem montar o espetáculo deprimente de louvor a um acontecimento que fez do país um espaço de submissão aos EUA, à CEE, à CIA e aos alemães que, com o tempo, desapareceram engolidos pela direita transatlântica.

Cantaram o hino que soou a Stars and Stripes, a Good Save de queen ou ao indicativo dos jogos da UEFA saídos pela televisão. É que somos ecléticos e sabemos escolher!

O salazarismo pós-Salazar, sem ele, e marcelista com o Marcelo de hoje, regozijou-se com a data e o que ela representou: Kissinger, Soares, Carlucci e os militares de direita tipo Jaime Neves cruzado com o heroico Eanes da chaimite ao vento, foram os autores do guião com o qual se prestou homenagem, numa reunião de ratas saídas do seu bueiro ao longo de 49 anos. Temos o fascismo connosco, visto e ouvido no nosso Bolsonaro de Xabregas, apoiamos com dinheiro, fardas e tanques de guerra os nazis a soldo da NAT, com capital em Kiev, Londres, Paris e Washington. Temos o nazi-fascismo no nosso meio e prestamos-lhe homenagem.

Deram-nos autoestradas para que comprássemos Mercedes e BMW’s e financiaram o negócio da importação de carros; deixaram os bancos ganhar o que puderam com a venda de casas; levaram-nos a indústria para que comprássemos no estrangeiro; deixaram-nos ser empregadas/os de mesa e camareiras dizendo-nos que o (all)garve é o nosso cú da galinha; deram as pescas aos espanhóis, com melhores barcos; produzimos as hortaliças e a pera rocha das nossas grandes superfícies mas não temos verdadeira soberania alimentar; descobriram-nos o lítio e Sines.

 Impuseram-nos um Primeiro-ministro bacoco e estão à beira de nos presentearem com um Milei fardado de almirante de deus-tomaz, como o outro; demos o escudo em troca de um euro que valia um marco e passámos a fazer contas em cêntimos que valem os nossos olhos da cara; a nossa riqueza passou a crescer 1,5% ao ano – quando calha de aumentar e não é comida pela inflação; não conseguimos criar mini empregos como a Merkel e por isso há quem trabalhe e seja pobre ou se sujeite a uma precariedade sem fim para ter algum dinheiro.

E mandam em nós através da dívida, conferem-nos os orçamentos e estão prontos a destinar os tais 2% ou mais para os negócios de armas que os gringos impõem aos otários com as suas guerras intermináveis por todo o mundo enquanto o SNS se esvai e o investimento público não existe.

Incapazes de terem uma qualquer manifestação de apoio popular, fecharam-se na AR e transmitiram pela televisão o que se não viu, nem podia ver nas ruas. Fradescos e hipócritas cantando a Portuguesa, mais desafinados que o CR7 e seus acompanhantes no início dum jogo da seleção. Não admira: deram-nos a TVI com todos os Gouchas e Big Brothers possíveis, a SIC com as suas intermináveis telenovelas de fancaria, os canais de informação onde é a desinformação e as merdices da NATO que imperam.

Ainda não eliminaram a Constituição de 1976 mas já a desfiguraram com códigos do trabalho escritos por lacaios e tipos da UGT, para os capitalistas e os seus lucros, os seus Teslas, os seus iates e mansões nas Rivieras dos vários continentes. É o que lhes falta e o tributo em dívida a Kissinger, Soares, Carlucci, Neves e Eanes. Sobretudo Soares, o da gaveta e das reuniões na embaixada ianque.

49 anos para aparecerem como ratas. Na AR, sem o menor pudor e com um discurso de mais um Marcelo das conversas em família, agora atualizado…

Fonte aqui

Um regime político marginal e anti-constitucional

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 20/04/2023)

Foi a traição à Constituição assumida deliberadamente, e como sistema, pela «classe política» nascida do novembrismo que marcou o lamentável percurso de Portugal até ao estado degradante em que se encontra.

Durante as últimas décadas, uma «classe política» sem referências humanistas, volúvel e estrangeirada – o adjectivo mais adequado é apátrida –, usurpou a democracia e montou um regime económico, político, social e mediático em Portugal no qual se comporta como uma entidade marginal em relação à Constituição que jurou respeitar.

Ler artigo completo aqui.


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